Frankenstein, de Mary Shelley
Premissa
"Um homem busca ultrapassar os limites da criação humana, mas, ao dar vida ao que não compreende, gera um ser que desafia seu criador e revela o horror da responsabilidade abandonada."
Shelley inverte a narrativa criacionista: o criador é falho, covarde, vaidoso. E a criatura, abandonada, vira o espelho do erro. A tragédia não está no monstro, mas em quem o gerou sem amor. A premissa é a denúncia da arrogância científica e da paternidade negada.
Tema
O tema central é: a responsabilidade da criação e o horror da exclusão.
Victor Frankenstein não é um herói, é um transgressor. Ultrapassa o limite da vida e da morte, não por necessidade, mas por vaidade intelectual. Quer ser um “deus”, mas não assume as consequências. Sua criatura nasce, sofre, aprende, mas é rejeitada. E então se volta contra o mundo.
O romance trata do orgulho iluminista, da crença de que o homem pode tudo. Mas também é uma reflexão sobre paternidade, abandono, e o desejo de pertencimento. O monstro não quer matar, quer ser amado. Sua violência nasce da solidão, da dor, da recusa.
Jornada do Vilão (a Criatura)
- Mundo Comum: a criatura nasce sem mundo, rejeitada, sozinha, escondida.
- Chamado à Aventura: observa uma família, aprende linguagem, deseja afeto.
- Recusa do Chamado: ao se revelar, é espancada, apedrejada, expulsa.
- Mentor: os livros que lê (Milton, Plutarco, Goethe), aprende humanidade por texto, não por relação.
- Travessia do Limiar: confronta seu criador. Exige explicação. Não a recebe.
- Provas: tenta agir com bondade, é rejeitada. Salva uma criança, e leva um tiro.
- Aproximação da Caverna: pede uma companheira. Victor nega. É a segunda rejeição fatal.
- Provação Suprema: jura vingança. Mata o irmão de Victor, sua esposa, destrói sua vida.
- Recompensa: poder sobre seu criador. Agora é ele quem caça.
- Caminho de Volta: arrasta Victor ao extremo norte, isolamento total.
- Ressurreição: Victor morre. A criatura percebe que está só para sempre.
- Retorno com o Elixir: não há elixir. Apenas a certeza da tragédia. A criatura promete morrer, e desaparece.
Conflito
O conflito não é entre homem e monstro, mas entre criador e criação, razão e responsabilidade, desejo e abandono. Victor quer poder, mas não quer consequência. A criatura quer amor, mas só recebe ódio. O resultado: horror, tragédia, isolamento.
Frankenstein é o Prometeu moderno, rouba o fogo, mas não ilumina ninguém. Apenas queima.
Personagens
A força de Frankenstein está nos seus dois polos dramáticos: o criador e a criatura. Todo o resto orbita em torno deles, não há multiplicidade, mas tensão binária. E essa dualidade é simbólica, filosófica e existencial.
- Victor Frankenstein: jovem cientista, brilhante, ambicioso. Quer penetrar os segredos da vida. Sua motivação não é salvar, mas vencer a morte. Ao criar a criatura, não a nomeia, não a acolhe, não a guia. É o pai que rejeita o filho. Seu arco é o da arrogância que recusa consequência. Sofre, mas não aprende. Sua tragédia é o orgulho que nunca se transforma em responsabilidade. Representa o cientificismo sem ética.
- A Criatura: é o verdadeiro protagonista trágico. Nasce inocente, mas deformada. Aprende sozinha, deseja conexão, é repelida. Seu desejo é simples: ser aceita. Mas o mundo a vê como abominação. É empurrada para o mal. Sua violência é reação. Ela representa a alma excluída, o marginal. Seu arco vai da pureza à vingança, e termina no lamento. Não quer dominar, quer ser vista.
- Robert Walton: o explorador que ouve a história. Representa o ouvinte moderno, o alter ego de Victor. Busca também o impossível (o Polo Norte), e é advertido a tempo. É o espelho que pode aprender.
- Elizabeth, Henry, William: são vítimas, não agentes. O romance não dá a eles agência. Servem como estopim emocional. Mostram que os inocentes sempre pagam o preço da hybris (desmesura) dos outros.
Frankenstein é uma narrativa de dois personagens, mas um deles tem alma. E não é o cientista.
Simbolismo
O romance é um campo minado de símbolos, não como alegorias fechadas, mas como camadas abertas de sentido. Shelley cria uma obra que permite múltiplas leituras porque seus elementos são arquétipos vivos.
- A Criatura: símbolo do “outro”, do rejeitado, do que nasce fora da norma e busca sentido. É o marginalizado por aparência, origem e diferença. É o subalterno, o excluído, o órfão da modernidade. Sua deformidade física encarna a deformação ética de seu criador.
- Victor Frankenstein: representa o homem moderno dominado pela razão descolada da ética. É o símbolo da ciência sem limites, da busca por controle absoluto. Ele não quer entender, quer superar. Sua criação é símbolo da hybris científica: a vontade de ser Deus sem ser pai.
- O Fogo: remete ao mito de Prometeu, que rouba o fogo dos deuses. Mas aqui, o fogo não ilumina, queima. É o conhecimento que consome quem o detém. Tanto Victor quanto sua criatura são marcados por esse saber perigoso.
- O Gelo: símbolo poderoso. A narrativa começa e termina no Ártico, um espaço de extremo, de fronteira, de solidão. O gelo simboliza a frieza moral de Victor e o isolamento que ele impõe à criatura e a si mesmo.
- Os Livros: que a criatura lê (Milton, Goethe, Plutarco) são símbolos da própria humanidade. Ele aprende ética, dor, beleza, mas só pela mediação da linguagem. Sua educação é simbólica, mas sua experiência é brutal.
Shelley não explica seus símbolos, ela os encena. O romance todo é um duelo entre o poder de criar e o dever de amar. E esse duelo é também simbólico: ciência vs. afeto, razão vs. compaixão, criação vs. cuidado.
Enredo
A narrativa de Frankenstein é montada como uma tragédia espiralada. O início já é o fim: Victor, moribundo, é encontrado no Ártico por Walton. Toda a história é narrada retrospectivamente, como um aviso, mas o que se conta não é redenção, e sim ruína.
O enredo progride pela tensão entre criação e abandono. Victor dá vida à criatura e imediatamente a rejeita. A criatura foge, aprende, busca aceitação, e é expulsa. Cada tentativa de conexão termina em violência. A criatura se torna vingativa, e Victor passa a persegui-la. Mas a caçada é circular: um foge, o outro segue, e ambos se consomem. Não há clímax redentor. Apenas colapso.
As mortes que ocorrem (William, Justine, Clerval, Elizabeth) não são acidentes, são respostas. O enredo é simétrico: cada ato de omissão do criador gera uma tragédia imposta pela criatura. Não é uma história de terror, é uma coreografia de culpa.
O final não oferece reconciliação. Victor morre sem entender sua falha. A criatura desaparece, prometendo pôr fim à própria existência. O enredo termina onde começou: no Ártico, no extremo, no vazio. O que restou foi silêncio.
Save the Cat! (Invertido)
Apesar de ser anterior ao modelo de Blake Snyder, Frankenstein pode ser lido sob essa estrutura, mas invertida, pois a protagonista real é a criatura, e sua trajetória é de frustração e dor.
- Opening Image: O Ártico. Solidão, obsessão, limite. Victor é encontrado por Walton, já devastado.
- Theme Stated: Victor alerta: "Aprendi a duras penas a não ultrapassar limites que o homem não deve tocar."
- Set-Up: Conhecemos Victor, sua paixão pela ciência, sua busca pela vida eterna.
- Catalyst: Ele anima a criatura. Mas o que deveria ser triunfo é pavor.
- Debate: Victor abandona sua criação. A criatura some. Victor adoece. Começa o rastro de culpa.
- Break into Two: A criatura narra sua própria história. Surge o outro ponto de vista. O verdadeiro drama se instala.
- B Story: O desejo da criatura: pertencer, ser amado, ter uma companheira.
- Fun and Games: A criatura aprende, observa, lê, salva uma criança. Tenta ser humana.
- Midpoint: A rejeição da família De Lacey. O mundo o vê como monstro. Ele muda.
- Bad Guys Close In: Mata William. Victor cria e destrói a companheira. A criatura enlouquece.
- All is Lost: Elizabeth é assassinada. Victor perde tudo.
- Dark Night of the Soul: Victor parte em perseguição. A criatura conduz ao gelo. Os dois se perdem.
- Break into Three: Victor morre. A criatura retorna, não triunfante, mas em ruína.
- Finale: A criatura fala com Walton. Assume a culpa. Decide desaparecer.
- Final Image: O Ártico engole tudo. Fim da criação, fim da obsessão, fim do homem.
Estrutura e Forma Narrativa
Frankenstein é uma narrativa estruturada como história dentro da história. Começa com as cartas de Robert Walton à sua irmã, e dentro dessas cartas, temos o relato de Victor Frankenstein, que, por sua vez, relata a história da criatura. É uma estrutura análoga ao mito grego, onde as vozes são mediadas, e a verdade é sempre recontada. O efeito é de distanciamento e ambiguidade: não sabemos se a criatura é exatamente como Victor a descreve, ou como ela mesma se apresenta.
Essa estrutura de múltiplos narradores permite que Shelley explore pontos de vista conflitantes: Victor se vê como mártir da ciência, mas o leitor o vê como pai ausente e egoísta. A criatura se vê como vítima, mas também age como algoz. O leitor precisa constantemente julgar quem está certo, e essa tensão formal reforça a tensão ética do romance.
A linguagem de Shelley é neoclássica, rica em retórica e emoção contida. Há uma solenidade no estilo que eleva a tragédia pessoal a um plano quase mítico. O horror não é construído por sangue, mas por desespero existencial. A criatura não dá medo por sua aparência, mas por sua dor.
A forma do romance, portanto, reforça a dúvida moral: não há onisciência, não há verdade única. Há vozes. E todas elas estão marcadas pelo sofrimento. A estrutura é, em si, um tribunal narrativo, e o leitor é o juiz.
Subtexto e Ironia
O subtexto de Frankenstein está em todos os níveis, ético, político, filosófico. É uma obra escrita no auge do Iluminismo, mas que questiona o projeto iluminista: e se a razão, ao invés de nos libertar, criar nossos próprios monstros?
Victor Frankenstein é um cientista que rompe barreiras sem pensar nas consequências. A criatura é o subproduto da arrogância humana. O subtexto é claro: a ciência sem ética é monstruosa, e o progresso sem responsabilidade gera tragédia.
Há também um subtexto de paternidade falha. Victor foge de sua criação, e a criatura torna-se violenta. Shelley escreve em um momento de instabilidade familiar, perda de filhos, abandono. O romance é, simbolicamente, um grito contra a negligência emocional masculina.
No plano social, a criatura representa o outro: o deformado, o marginal, o estrangeiro. É a metáfora viva do excluído que, ao ser rejeitado, se torna ameaça. Não porque nasceu má, mas porque foi sistematicamente negada.
A ironia maior é a de Victor: cria a vida e a odeia. Quer ser deus, mas age como covarde. E no fim, culpa o monstro, sem nunca olhar para si. A criatura, por outro lado, busca redenção, mas nunca a recebe. A tragédia não é que um monstro foi criado. É que ninguém quis amá-lo.
Mundo e Ambientação
A ambientação de Frankenstein é deliberadamente contrastante: das geleiras do Ártico às montanhas suíças, passando por universidades, florestas e cabanas isoladas. Cada espaço carrega peso simbólico, não são apenas lugares, mas estados morais.
- O Ártico: onde a narrativa começa e termina, representa o extremo da solidão, o limite do mundo humano, o vazio da ambição. Victor é encontrado no gelo: metáfora do espírito congelado pela obsessão. Não há calor, não há laço, só isolamento e ruína.
- Paisagens alpinas e o interior europeu funcionam como contrapontos de beleza e terror. Shelley descreve a natureza com reverência romântica: sublime, grandiosa, indiferente ao sofrimento humano. A criatura é sempre ligada ao ambiente, ela surge como força da natureza incompreendida.
- Universidade de Ingolstadt: representa a razão moderna, o saber sem ética. É o laboratório da hybris. Lá ele ultrapassa os limites e se desconecta da vida real. O conhecimento, ali, é produção sem compaixão.
- Casa dos De Lacey: que a criatura observa secretamente, é o núcleo simbólico do afeto humano. Ela aprende linguagem, emoção, cultura, tudo à distância. Quando tenta se aproximar, é rejeitada. A casa se torna símbolo do paraíso perdido: nunca será parte.
A ambientação reforça o tema central: a criatura é expulsa de todos os espaços, do lar, da sociedade, da ciência, da natureza. É um exilado total. E isso faz do mundo inteiro uma prisão simbólica.
Clichê, Epifania, Alegoria
Frankenstein é um livro fundador de clichês, não porque os copia, mas porque os cria. O cientista louco, o monstro que busca amor, a criação que se volta contra o criador, tudo nasce aqui. São arquétipos que o tempo transformou em fórmulas, mas que em Shelley surgem como descobertas narrativas genuínas.
As epifanias não são momentos de iluminação triunfante, mas de dor lúcida. A criatura, ao ler Paraíso Perdido, entende que é como Satanás, criado, abandonado, odiado. Victor, quando perde todos os que ama, vislumbra tardiamente que seu erro não foi criar, foi fugir. Mas já é tarde. Em Shelley, a epifania não salva, apenas mostra o abismo com clareza.
Quanto à alegoria, o romance pode ser lido como:
- Uma alegoria da ciência moderna sem alma;
- Uma alegoria da paternidade irresponsável;
- Uma alegoria da exclusão social;
- Uma alegoria da criação artística (o artista rejeita a própria obra).
Shelley não força nenhuma dessas leituras, mas permite todas. O texto opera em múltiplas camadas, sem se fechar em nenhuma. A criatura é literal, simbólica, ética, existencial. É o medo do progresso. É o eco do abandono. É a dor de ser feito, e negado.
No fim, Frankenstein é uma alegoria do próprio ato de escrever: criar algo que ganha vida própria, que foge do controle, que te persegue. Shelley, com apenas 18 anos, já entendia que toda criação exige responsabilidade. Inclusive, e talvez principalmente, a criação literária.