• Ivan Milazzotti
    Anatomia da História
    03-07-2025 15:36:59
    MOD_ARTICLEDETAILS-DETAILS_HITS
    50

REDE DE SÍMBOLOS

Muitos escritores pensam em símbolos como coisinhas irritantes que só importavam nas aulas de literatura. Um grande erro. Se, em vez disso, você pensar em símbolos como joias costuradas na tapeçaria da história que exercem um grande efeito emocional, terá uma ideia do poder desse conjunto de técnicas narrativas.

O símbolo é a técnica do pequeno. É a palavra ou o objeto que representa outro elemento – pessoa, lugar, ação ou coisa – e é repetida muitas vezes ao longo da história. Assim como personagem, tema e trama são grandes quebra-cabeças para "enganar" e agradar ao público, os símbolos são um pequeno quebra-cabeça que opera sua magia muito abaixo da superfície. São cruciais ao seu sucesso como contador de histórias porque representam uma linguagem oculta que impacta as pessoas emocionalmente.

COMO SÍMBOLOS FUNCIONAM

Um símbolo é uma imagem com um poder especial que tem valor para o público. Assim como a matéria é energia altamente concentrada, um símbolo é um significado altamente concentrado. Na verdade, é o condensador-expansor mais focado de todas as técnicas narrativas. Um guia simples para usar símbolos pode ser remeter e repetir. Funciona assim: você começa com um sentimento e cria um símbolo que evocará esse sentimento no público. Então repete o símbolo, mudando-o de forma sutil.

Sentimento ➝ símbolo ➝ sentimento no público

Símbolo alterado ➝ sentimento mais forte no público

Os símbolos atuam no público de um jeito sorrateiro, mas muito potente. Um símbolo cria uma ressonância, como ondas em um lago, toda vez que aparece. À medida que repeti-lo, as ondas vão se expandir e reverberar na mente das pessoas, muitas vezes sem que elas percebam.

REDE DE SÍMBOLOS

Talvez você se lembre de que o maior erro ao criar um personagem é vê-lo como um indivíduo único e isolado. Esse é o jeito mais rápido de garantir que nenhum de seus personagens seja, de fato, um indivíduo único. Da mesma forma, o maior erro ao criar um símbolo é vê-lo como um objeto isolado.

*

PONTO-CHAVE: Sempre crie uma rede de símbolos na qual cada um ajude a definir os outros.

*

Vamos recuar por um momento e examinar novamente como os vários subsistemas do corpo de uma história se encaixam. A rede de personagens revela uma verdade mais profunda sobre o funcionamento do mundo ao comparar e contrastar pessoas. A trama revela uma verdade mais profunda sobre o funcionamento do mundo por meio de uma sequência de ações com uma lógica surpreendente, mas poderosa. A rede de símbolos revela uma verdade mais profunda sobre o funcionamento do mundo ao remeter objetos, pessoas e ações a outros objetos, pessoas e ações. Quando o público faz essa comparação, mesmo que de modo parcial ou fugaz, vê a natureza mais profunda das duas coisas sendo comparadas.

Por exemplo, comparar Tracy Lord a uma deusa em Núpcias de escândalo enfatiza a sua beleza e elegência, mas também sua frieza e uma forte noção de superioridade em relação aos outros. Comparar o mundo de floresta sereno de Lothlórien ao mundo de montanha aterrorizante de Mordor em O senhor dos anéis destaca o contraste entre uma comunidade doce e fértil de iguais e um mundo de tirania, fogo e morte. Comparar aviões a cavalos em Por quem os sinos dobram sintetiza como uma cultura inteira que valoriza uma força mecanizada e impessoal está substituindo uma cultura voltada a cavalos, que valorizava o cavalheirismo pessoal, a lealdade e a honra.

Você cria a rede de símbolos conectando-os a um ou mais dos seguintes elementos: a história inteira, a estrutura, os personagens, o tema, o mundo ficcional, ações, objetos e diálogos.

SÍMBOLOS DA HISTÓRIA

No nível da ideia ou premissa, um símbolo expressa as reviravoltas fundamentais, o tema central ou a estrutura geral da história, unificando-os sob uma única imagem. Vamos examinar alguns exemplos de símbolos de história.

  • Odisseia

O símbolo central está no próprio título: é uma longa jornada que deve ser suportada.

  • As aventuras de Huckleberry Finn

Ao contrário, o símbolo central aqui não é a jornada de Huckleberry pelo rio Mississippi, mas a jangada. Nessa ilha frágil e flutuante, um garoto branco e um negro escravizado podem viver como amigos e iguais.

  • Coração das trevas

O coração das trevas simbólico do título é a parte mais profunda da selva e representa o ponto sem volta físico, psicológico e moral da viagem rio acima de Marlow.

  • Homem-Aranha, Batman, Superman

Esses títulos descrevem homens híbridos com poderes especiais, mas também implicam personagens divididos internamente e separados da comunidade humana.

  • O jardim das cerejeiras

O jardim das cerejeiras sugere um lugar de beleza atemporal, mas também inútil e, portanto, dispensável em um mundo em desenvolvimento.

  • A letra escarlate

A letra escarlate começa literalmente como o símbolo pelo qual uma mulher é obrigada a anunciar seu ato imoral de amor, mas se torna o símbolo de uma moralidade diferente baseada no amor verdadeiro.

  • Um retrato do artista quando jovem

O retrato desse artista começa com seu nome simbólico, Dedalus – uma referência ao arquiteto e inventor que construiu o labirinto na mitologia grega. Conectado a esse nome está o símbolo das asas, que Dédalo construiu para que ele e o filho, Ícaro, pudessem escapar do labirinto. Muitos críticos apontaram que Joyce criou a estrutura narrativa da obra como uma série de ensaios de voo para que o herói artístico escapasse de seu passado e país.

  • Como era verde o meu vale

Essa história de um homem que conta sobre sua infância em um vilarejo de mineração no País de Gales tem dois símbolos principais: o vale verde e a mina preta. O vale verde é a casa literal do herói e o começo do processo geral da história e da jornada emocional durante a qual ele passará da natureza verde, juventude, inocência, família e lar para um mundo escurecido e mecanizado de fábricas, com uma família estilhaçada e exílio.

  • Um estranho no ninho

Os dois símbolos do título em inglês (One Flew Over the Cuckoo's Nest, "um sobrevoo sobre o ninho do cuco", em tradução literal) sugerem, novamente, o processo geral da história, em que um prisioneiro que gosta de se divertir incita uma rebelião entre os pacientes de um hospital psiquiátrico.

  • Rede de intrigas

A rede é literalmente uma empresa de telecomunicações e simbolicamente uma rede que prende todos aqueles que são enredados nela.

  • Alien: o oitavo passageiro

O alienígena é um forasteiro simbólico e, como estrutura narrativa, é o outro aterrorizante que vem de dentro.

  • Em busca do tempo perdido

O símbolo-chave é o biscoito Madeleine, que, ao ser comido, faz o narrador lembrar-se de todo o romance.

  • Adeus às armas

O adeus às armas para o herói é a deserção, a ação central da história.

  • O apanhador no campo de centeio

O apanhador no campo de centeio é um personagem de fantasia simbólico que o herói deseja ser, emblemático tanto por sua compaixão quanto por seu desejo idealista de impedir mudanças.

Linha simbólica

Ao pensar em uma rede de símbolos para entrelaçar em sua história, você deve primeiro pensar em uma única frase que conecte os símbolos principais da rede. Essa linha simbólica deve emergir do trabalho que você já fez com o princípio narrativo, junto com a linha temática e o mundo ficcional da história.

Para praticar, vamos voltar outra vez aos princípios narrativos que discutimos no Capítulo 2, dessa vez para encontrar a linha simbólica.

  • Moisés, no livro do Êxodo

princípio narrativo: um homem que não sabe quem é luta para libertar seu povo e recebe as novas leis morais que definirão a ele e a seu povo.

tema: um homem que assume responsabilidade por seu povo é recompensado por uma visão de como viver com base na palavra de Deus.

mundo ficcional: uma jornada que parte de uma cidade escravizadora, passa por um deserto e acaba no cimo de uma montanha.

símbolo: a palavra de Deus manifestada – por meio de símbolos como a sarça ardente, a praga e a tábua dos Dez Mandamentos.

  • Ulysses

princípio narrativo: em uma odisseia moderna através da cidade, no decorrer de um único dia, um homem encontra um pai e outro homem encontra um filho.

tema: o verdadeiro herói é o homem que suporta as vicissitudes da vida cotidiana e mostra compaixão a alguém que está passando necessidade.

mundo ficcional: uma cidade ao longo de vinte e quatro horas, em que cada uma das partes é uma versão moderna de um obstáculo mítico.

símbolo: Ulisses, Telêmaco e Penélope modernos.

  • Quatro casamentos e um funeral

princípio narrativo: um grupo de amigos experimenta quatro utopias (casamentos) e um momento no inferno (funeral) enquanto cada um deles procura pelo parceiro ideal no casamento.

tema: quando você encontra o verdadeiro amor, deve se comprometer com essa pessoa com todo o coração.

mundo ficcional: o mundo e os rituais utópicos de casamentos.

símbolo: casamento versus funeral.

  • Série Harry Potter

princípio narrativo: um príncipe mago aprende a ser um homem e um rei ao estudar em um internato para feiticeiros ao longo de sete anos.

tema: quando você é abençoado com grande talento e poder, deve se tornar um líder e se sacrificar pelo bem dos outros.

mundo ficcional: uma escola para bruxos em um grande castelo mágico medieval.

símbolo: um reino mágico na forma de uma escola.

  • Golpe de mestre

princípio narrativo: contar a história de um golpe na forma de um golpe, enganando tanto o oponente como o público.

tema: não é errado mentir e enganar um pouco para derrubar um homem mau.

mundo ficcional: um falso lugar de negócios em uma cidade decrépita durante a Grande Depressão.

símbolo: os ardis que fazem alguém ser pego.1

  • Longa jornada noite adentro

princípio narrativo: à medida que o dia se torna noite, uma família é confrontada com os pecados e fantasmas do passado.

tema: você deve encarar a verdade sobre si e sobre os outros e perdoar.

mundo ficcional: a casa escura, com todos os seus nichos nos quais os segredos sombrios da família podem ser escondidos.

símbolo: a passagem da escuridão crescente a uma luz na noite.

  • Agora seremos felizes

princípio narrativo: o crescimento de uma família ao longo de um ano, mostrado por eventos em cada uma das quatro estações.

tema: sacrificar-se pela família é mais importante do que almejar a glória pessoal.

mundo ficcional: a grande casa que muda de natureza a cada estação e a cada mudança da família que mora em seu interior.

símbolo: a casa que muda com as estações.

  • Copenhagen

princípio narrativo: usar o Princípio da Incerteza de Heisenberg, da Física, para explorar a moralidade ambígua do homem que descobriu esse princípio.

tema: entender os motivos de nossas ações e saber se são corretas é sempre incerto.

mundo ficcional: a casa na forma de um tribunal.

símbolo: o Princípio da Incerteza.

  • Um conto de Natal

princípio narrativo: traçar o renascimento de um homem forçando-o a ver seu passado, presente e futuro ao longo de uma véspera de Natal.

tema: as pessoas têm uma vida muito mais feliz quando são generosas.

mundo ficcional: um escritório de contabilidade londrino no século 19 e três casas diferentes – rica, de classe média e pobre – vislumbradas no passado, presente e futuro.

símbolo: fantasmas do passado, presente e futuro resultam no renascimento de um homem no Natal.

  • A felicidade não se compra

princípio narrativo: expressar o poder do indivíduo mostrando como seria uma cidade, e depois uma nação, se um homem nunca tivesse vivido.

tema: as riquezas de um homem vêm não do dinheiro que ele ganha, mas dos amigos e familiares que serve.

mundo ficcional: duas versões diferentes da mesma cidade nos Estados Unidos.

símbolo: as pequenas cidades estadunidenses ao longo do tempo.

  • Cidadão Kane

princípio narrativo: usar diversos narradores para mostrar como a vida de um homem jamais pode ser conhecida.

tema: um homem que tenta obrigar todos a amá-lo termina sozinho.

mundo ficcional: a mansão e o "reino" separado de um titã nos Estados Unidos.

símbolo: a vida de um homem representada – por meio de símbolos como o peso de papel, Xanadu, o documentário e o trenó.

PERSONAGENS SIMBÓLICOS

Depois de definir a linha simbólica da história, o próximo passo para detalhar a rede de símbolos é focar os personagens. Personagens e símbolos são dois subsistemas do corpo da história, mas não estão separados. Símbolos são excelentes ferramentas para definir os personagens e aprofundar o propósito geral da história.

Ao conectar um símbolo a um personagem, escolha algo que represente um princípio definidor dele ou seu inverso (por exemplo, Steerforth, em David Copperfield, é tudo menos um cara honrado). Ao relacionar um símbolo específico e discreto a uma característica essencial do personagem, você leva o público a compreender imediatamente, em um único golpe, um aspecto do personagem.

Também experimentam uma emoção que associam dali em diante a esse personagem. À medida que esse símbolo é repetido com leves variações, o personagem é definido com mais sutileza, mas seu aspecto fundamental e a emoção se solidificam na mente do público. Essa técnica deve ser usada com moderação, uma vez que, quanto mais símbolos você ligar a um personagem, menos marcante cada um se torna.

Você pode estar se perguntando: como escolho o símbolo certo para aplicar a um personagem? Retorne à rede de personagens. Nenhum deles é uma ilha, cada um é definido em relação aos outros. Ao considerar um símbolo para um personagem, considere símbolos para muitos, começando com o herói e o oponente principal. Esses símbolos, como os personagens que representam, estão em oposição uns aos outros.

Também cogite associar dois símbolos ao mesmo personagem. Em outras palavras, crie uma oposição de símbolos dentro dele. Isso lhe dá um personagem mais complexo e, ao mesmo tempo, mantém a vantagem do símbolo.

Para resumir o processo de atribuir um símbolo ao personagem:

  1. Observe toda a rede de personagens antes de criar um símbolo para um único personagem.
  2. Comece pela oposição entre herói e oponente principal.
  3. Pense em um único aspecto do personagem ou em uma única emoção que o personagem deve evocar para o público.
  4. Considere criar uma oposição de símbolos dentro do personagem.
  5. Repita o símbolo associado ao personagem muitas vezes ao longo da história.
  6. Toda vez que repetir o símbolo, varie os detalhes de alguma forma.

Uma estenografia ótima para conectar símbolo e personagem é usar certas categorias de personagens, especialmente deuses, animais e máquinas. Cada uma delas representa um modo de ser fundamental, assim como um nível de ser. Dessa forma, quando você conecta seu personagem individual a um desses tipos, dá ao personagem uma característica básica e um nível também básico que o público reconhece de imediato. É possível usar essa técnica a qualquer momento, mas ela é encontrada com mais frequência em certos gêneros – ou formas ficcionais – altamente metafóricos, como mito, terror, fantasia e ficção científica.

Vamos examinar algumas histórias que usam a técnica dos personagens simbólicos.

Simbolismo de deus

  • Um retrato do artista quando jovem

(James Joyce, 1916)

Joyce conecta o herói Stephen Dedalus ao inventor Dédalo, que construiu asas para escapar da escravidão no labirinto. Isso dá a Stephen uma qualidade etérea e sugere sua natureza essencial como um homem artístico tentando se libertar. Mas então Joyce acrescenta textura a essa qualidade primária usando a técnica da oposição simbólica dentro do personagem ao associar a Stephen símbolos opostos: o filho de Dédalo, Ícaro, que voa perto demais do sol e morre (excesso de ambição), e o labirinto, que Dédalo também construiu, no qual Stephen se vê perdido.

  • O poderoso chefão

(romance de Mario Puzo, roteiro de Mario Puzo e Francis Ford Coppola, 1972)

Mario Puzo também conecta seu personagem a um deus, mas enfatiza um aspecto "divino" muito diferente do usado por Joyce. O deus de Puzo é o deus-pai que controla o mundo e concede justiça, mas é vingativo. Esse é um homem-deus com um poder ditatorial que nenhum mortal deveria ter. Puzo também acrescenta uma oposição simbólica ao interior do personagem quando conecta esse deus ao diabo. A equiparação entre os opostos normais de sagrado e profano é fundamental para esse personagem e para a história inteira.

  • Núpcias de escândalo

(peça de Philip Barry, roteiro de Donald Ogden Stewart, 1940)

O escritor Philip Barry conecta a heroína Tracy Lord não só à aristocracia, mas também ao conceito de deusa. Além do caráter "aristocrático" de seu sobrenome, tanto o pai como o ex-marido referem-se a ela como uma deusa de bronze. Ela é tanto reduzida como elevada por essa conexão simbólica. A dúvida na história é se ela vai sucumbir aos piores aspectos da deusa – fria, arrogante, inumana, inclemente – ou aos melhores – uma grandeza de alma que lhe permitirá, ironicamente, encontrar e ser a versão mais humana e complacente de si mesma.

Outros usos do herói como deus incluem Matrix (Neo = Jesus), Rebeldia indomável (Luke = Jesus) e Um conto de duas cidades (Sydney Carton = Jesus).

Simbolismo de animal

  • Um bonde chamado desejo

(Tennessee Williams, 1947)

Em Um bonde chamado desejo, Tennessee Williams equipara personagens a animais de um jeito que os rebaixa, mas também os submete a comportamentos motivados pela biologia. Stanley é considerado um porco, um touro, um macaco, um cão de caça e um lobo para acentuar sua natureza essencialmente gananciosa, brutal e masculina. Blanche, frágil e assustada, é conectada a uma mariposa e a um pássaro. Williams repete esses símbolos de várias formas à medida que a história se desenrola. Por fim, o lobo devora o pássaro.

  • Batman, Homem-Aranha, Tarzan, Crocodilo Dundee

Histórias em quadrinhos são formas míticas modernas. Assim, não surpreende que equiparem literalmente seus personagens a animais desde o início. Essa é a conexão simbólica mais metafórica e exagerada possível. Batman (o homem-morcego), o Homem-Aranha, até Tarzan, o homem-macaco, todos chamam atenção para a conexão dos personagens a animais pelo nome, físico e vestimentas. Esses personagens não apenas têm certas características animalescas, como Stanley Kowalski, que os afetam de jeitos sutis, mas potentes, como também são homens-animais. São personagens fundamentalmente divididos, metade humanos, metade feras. A vida humana cruel no estado da natureza os força a se tornarem animais e a se aproveitarem de poderes únicos para lutar pela justiça, mas o custo é que sofrem de uma divisão interna incontrolável e de uma alienação insuperável do resto do mundo.

Equiparar um personagem a um animal pode ser muito popular com o público porque é uma forma de torná-los maiores (mas não tanto a ponto de a história ficar entediante). Ser capaz de balançar entre árvores (Tarzan) ou pela cidade (Homem-Aranha) ou ter poder sobre o reino animal (Crocodilo Dundee) são sonhos enraizados profundamente na mente humana.

Outras histórias que usam símbolos animais para personagens são Dança com lobos, Drácula, O lobisomem e O silêncio dos inocentes.

Simbolismo de máquina

Conectar um personagem a uma máquina é outro jeito amplo de torná-lo simbólico. Um personagem-máquina, ou homem-robô, costuma ser alguém com uma força mecânica e, portanto, sobre-humana, mas também um ser humano sem sentimentos ou compaixão. Essa técnica é mais usada no terror e na ficção científica, gêneros em que símbolos exagerados são parte da forma e, consequentemente, aceitos. Quando bons escritores repetem esse símbolo ao longo da história, não acrescentam detalhes a ele, como com a maioria dos personagens simbólicos, mas o invertem. Ao final da história, o homem-máquina provou ser o mais humano de todos os personagens, enquanto o humano agiu como um animal ou máquina.

  • Frankenstein, ou o Prometeu moderno

(romance de Mary Shelley, peça de Peggy Webling, roteiro de John L. Balderston, Garrett Fort e Francis Edward Faragoh, 1931)

Conectar um personagem a uma máquina foi uma abordagem desenvolvida pela primeira vez por Mary Shelley em Frankenstein, ou o Prometeu moderno. O personagem humano no começo da história é o dr. Frankenstein, mas ele é logo elevado ao status de deus por ser capaz de criar vida. Ele cria o homem-máquina, o monstro que, em virtude de ser fabricado a partir de retalhos, não possui os movimentos fluidos de um ser humano. Um terceiro personagem, o corcunda, tem uma representação simbólica intermediária, a do homem sub-humano que é rejeitado como abominação pela comunidade humana, mas que trabalha para o dr. Frankenstein. Note como esses personagens simbólicos são definidos e contrastados com tipos simples, mas claros. Ao longo da história, é precisamente porque é tratado como um ser inferior, uma máquina que deve ser acorrentada, queimada e depois descartada, que o monstro se rebela e busca vingança contra o seu pai frio, inumado e divino.

Outras histórias que usam a técnica do personagem-como-máquina são Blade Runner: o caçador de androides (os replicantes), O exterminador do futuro (o Exterminador), 2001: uma odisseia no espaço (HAL-9000) e O mágico de Oz (Homem de Lata).

Outro simbolismo

  • O sol também se levanta

(Ernest Hemingway, 1926)

Esse é um exemplo perfeito de como criar um personagem simbólico sem usar tipos metafóricos como deus, animal ou máquina. Hemingway estabelece uma oposição simbólica dentro do herói Jake Barnes ao mostrar um homem forte, confiante e íntegro que também é impotente devido a um ferimento de guerra. A combinação de força e impotência cria um personagem cuja característica essencial é estar perdido. Como resultado, ele é profundamente irônico, passando de um momento sensual ao seguinte sem ter a capacidade de ser funcional em um nível básico. Como um homem que não é um homem, ele é um personagem muito realista que também representa toda uma geração de homens que estão apenas vagando sem rumo.

Técnica de símbolos: o nome simbólico

Outra técnica que você pode usar para conectar símbolo a personagem é traduzir o princípio essencial do personagem em um nome. Um gênio nessa técnica, Charles Dickens criou nomes cujas imagens e sons logo identificam a natureza fundamental de seus personagens. Por exemplo, Ebenezer Scrooge é claramente um homem que ama dinheiro e fará qualquer coisa, a quem quer que seja, para obtê-lo. Uriah Heep pode tentar se esconder atrás da fachada solene do prenome bíblico, mas sua natureza essencialmente asquerosa escapa no "Heep". Sabemos que Tiny Tim é o epítome de um bom garoto muito antes de ele pronunciar a frase "Deus abençoe a todos nós".

Vladimir Nabokov apontou que essa técnica é bem menos comum na literatura após o século 19 porque provavelmente chama a atenção a si mesma e é obviamente temática.

Se usada da forma correta, porém, pode ser uma ferramenta maravilhosa – mas costuma funcionar melhor quando se está escrevendo uma comédia, já que a comédia tende a privilegiar personagens típicos.

Por exemplo, veja a seguir alguns convidados de uma das festas de Gatsby, em O grande Gatsby. Note como Fitzgerald muitas vezes lista nomes que sugerem uma tentativa malsucedida de se apresentar como parte da aristocracia estadunidense: os O. R. P. Schraeders e os Stonewall Jackson Abrams da Georgia; a sra. Ulysses Swett. Na sequência, ele apresenta a realidade nua e crua de quem essas pessoas são ou o que se tornaram:

De East Egg, portanto, vinham os Chester Becker e os Leeche, além de um homem chamado Bunsen, que conheci em Yale, e o dr. Webster Civet, que morreu afogado no verão passado no Maine. Também havia os Hornbeam, os Willie Voltaire [...]. De pontos mais afastados da ilha vinham os Cheadle e os O. R. P. Schraeder, e os Stonewall Jackson Abram da Georgia, e os Fishguard e os Ripley Snell. O velho Snell frequentou a casa de Gatsby três dias antes de ir preso, cambaleando tão bêbado pela estrada de cascalho que o automóvel da sra. Ulysses Swett passou por cima de sua mão direita.2

Outra técnica que usa nomes simbólicos é misturar personagens "reais" com fictícios, como em Na época do Ragtime, O vento e o leão, Paixão e sangue, Carter e o diabo e Complô contra a América. Esses personagens históricos não são nem um pouco "reais". O legado famoso que têm lhes dá uma qualidade emblemática e, em alguns casos, quase divina na mente do leitor. Eles se tornaram os deuses e heróis míticos de uma nação. Os nomes deles têm um poder pré-fabricado, como uma bandeira, que o escritor pode apoiar ou combater.

Técnica de símbolos: o símbolo conectado à mudança de caráter

Uma das técnicas mais sofisticadas relacionadas a personagens é o uso de um símbolo para acompanhar a mudança de caráter. Nessa técnica, você escolhe um símbolo para representar o que deseja que o personagem se torne quando passar por sua mudança.

Para usar essa técnica, foque as cenas que emolduram o começo e o final da história. Atribua o símbolo ao personagem quando estiver criando sua fraqueza/necessidade e retome-o no momento da mudança de caráter, mas variando-o um pouco em relação à primeira aparição.

  • O poderoso chefão

(romance de Mario Puzo, roteiro de Mario Puzo e Francis Ford Coppola, 1972)

O filme executa essa técnica com perfeição. A cena de abertura é uma experiência prototípica do chefão: um homem vai até Vito Corleone clamar por justiça. A cena é essencialmente uma negociação e, no final, o homem e o chefão chegam a um acordo. Na última fala da cena, o chefão diz: "Um dia, e esse dia pode nunca chegar, gostaria de pedir a você que faça um serviço para mim em troca". Essa frase, que resume a negociação, sugere de forma sutil que um acordo faustiano acabou de ser selado e que o chefão é o diabo.

Os escritores usam o símbolo do diabo de novo mais para o final da história, quando Michael, o novo chefão, comparece ao batizado do sobrinho enquanto seus empregados matam os chefes das cinco famílias criminosas de Nova York. Como parte do batizado, o padre pergunta a Michael: "Você renuncia a Satã?". Michael responde: "Eu renuncio a ele", ao mesmo tempo que está se tornando Satã devido a suas ações. Michael então promete proteger a criança de quem está literalmente tornando-se o padrinho do título da obra em inglês (The godfather, "o padrinho", em tradução literal), embora, na posição de chefão, mande matar o pai da criança assim que acaba o batizado.

A cena da batalha é seguida pelo que normalmente seria uma autorrevelação, mas Michael se tornou o diabo, então os escritores o privam de uma autorrevelação e a dão para sua esposa, Kay. Ela observa de outra sala quando os homens de Michael se reúnem ao seu redor para parabenizá-lo por sua nova posição "exaltada" e a porta do novo Rei do Submundo é fechada na cara dela.

Note a sutileza com a qual o símbolo é aplicado na cena de abertura. Ninguém usa a palavra "diabo" aqui – os escritores associam o símbolo ao personagem pela construção engenhosa da cena, em cujo final é dita a palavra "padrinho" (chefão), logo antes da última fala do diálogo, que sugere um acordo faustiano. É graças à sutileza com que o símbolo é aplicado, não apesar dela, que essa técnica tem um impacto tão dramático.

TEMAS SIMBÓLICOS

Depois de usar esse recurso na história e nos personagens, o próximo passo para criar uma rede de símbolos é sintetizar argumentos morais inteiros em um símbolo. Isso produz a concentração mais intensa de significado de todas as técnicas simbólicas. Por esse motivo, o tema simbólico é uma técnica altamente arriscada. Se usado de um modo óbvio e desastrado, faz a história soar moralizante.

Para fazer um tema simbólico, pense em uma imagem ou objeto que expresse uma série de ações que ferem os outros de alguma forma. Será até mais potente caso seja uma imagem ou objeto que expresse duas séries de ações – sequências morais – em conflito mútuo.

  • A letra escarlate

(Nathaniel Hawthorne, 1850)

Hawthorne é um mestre do tema simbólico. A letra escarlate "A" parece, à primeira vista, representar o simples argumento moral contra o adultério. É só ao longo da história que esse símbolo óbvio passa a representar dois argumentos morais opostos: o argumento absoluto, inflexível e hipócrita que censura Hester em público versus a moralidade muito mais fluida e verdadeira que Hester e seu amante viveram em privado.

  • Beau geste

(romance de Percival Cristopher Wren, roteiro de Robert Carson, 1939)

A história de três irmãos que se uniram à Legião Estrangeira Francesa mostra uma característica crucial da técnica de tema simbólico: ela funciona melhor quando feita ao longo da trama. No começo da história, os três irmãos são crianças brincando de "rei Artur". Enquanto o mais velho está escondido numa armadura, escuta uma conversa sobre uma safira da família conhecida como "água azul". Anos mais tarde, já adulto, rouba a joia e se junta à Legião Estrangeira Francesa para defender o nome da tia e a reputação da família. Aquela armadura de cavaleiro passa a simbolizar um ato de bravura e autossacrifício, o "belo gesto", que é o tema central da história. Ao embutir esse símbolo na trama, o escritor permite que a conexão entre símbolo e tema evolua e cresça ao longo da história.

  • O grande Gatsby

(romance de F. Scott Fitzgerald, 1925)

O grande Gatsby mostra um escritor com uma enorme habilidade em associar símbolo a tema. Fitzgerald usa uma rede de três grandes símbolos para cristalizar uma sequência temática. Esses símbolos são a luz verde, o outdoor do oculista em frente ao vale de cinzas e o grande seio verde do novo mundo. A sequência temática funciona da seguinte maneira:

  1. A luz verde representa os Estados Unidos atuais, onde o Sonho Americano original foi deturpado na busca por riqueza material e a garota perfeita é desejável apenas porque está envolta em uma bela embalagem.
  2. O outdoor do oculista em frente ao vale de cinzas representa os Estados Unidos por baixo da superfície material, que está totalmente desgastado, e os refugos mecânicos criados por esse país material. A máquina devorou o jardim.
  3. O grande seio verde do novo mundo simboliza os Estados Unidos como mundo natural, recém-descoberto e cheio de potencial para um novo estilo de vida, uma segunda chance de viver no Jardim do Éden.

Note que a sequência simbólica está fora de ordem, mas é a ordem estrutural correta. Fitzgerald introduz o grande seio verde do mundo na última página. Esta é uma escolha genial porque a natureza exuberante e o enorme potencial do novo mundo tornam-se chocantemente reais em virtude do contraste nítido com o que foi feito de fato àquele novo mundo – e esse contraste chega bem no finalzinho da história, depois da autorrevelação de Nick. Então, do ponto de vista estrutural, esse símbolo e o que ele representa explodem na mente do público como uma revelação temática deslumbrante. É um uso magistral da técnica e faz parte da criação de uma obra de arte.

SÍMBOLO PARA O MUNDO FICCIONAL

No Capítulo 6, abordei muitas técnicas usadas para criar o mundo da história. Algumas delas, como a miniatura, também são técnicas simbólicas. Na verdade, uma das funções mais importantes do símbolo é sintetizar um mundo todo, ou conjunto de forças, em uma única imagem compreensível.

Mundos naturais como ilha, montanha, floresta e oceano têm um poder simbólico inerente, mas você pode associar símbolos adicionais a eles para aumentar ou mudar o significado que o público atribui a eles. Um jeito de fazer isso é impregnar esses lugares de poderes mágicos. Essa técnica é encontrada na ilha de Prospero (A tempestade), na ilha de Circe (Odisseia), na floresta em Sonho de uma noite de verão, na floresta de Arden em Do jeito que você gosta, na Floresta Proibida nas histórias de Harry Potter e na floresta de Lothlórien em O senhor dos anéis. Estritamente falando, a magia não é um símbolo específico, mas um conjunto de forças diferente por meio do qual o mundo opera. Mas tornar um lugar mágico tem o mesmo efeito que aplicar um símbolo: concentra significado e carrega o mundo com um campo de força que conquista a imaginação do público.

Você pode criar símbolos que transmitam esse conjunto sobrenatural de forças. Um exemplo excelente é Feitiço da lua.

  • Feitiço da lua

(John Patrick Shanley, 1987)

John Patrick Shanley usa a lua para dar uma manifestação física à ideia de destino. Isso é especialmente útil em uma história de amor, pois o que está realmente em jogo não são tanto os personagens individuais quanto o amor entre eles. O público deve sentir que este é um grande amor e que seria uma tragédia se não crescesse e perdurasse. Um jeito de transmitir isso é mostrar que o amor é necessário, tendo sido predestinado por poderes muito maiores que esses dois reles humanos. Shanley conecta os dois personagens principais – Loretta e Ronny – à lua ao estabelecer desde o começo que Loretta é infeliz no amor. Isso cria uma impressão de que forças maiores estão agindo. A avó de Loretta conta a um grupo de velhos que a lua leva a mulher até o homem. Em um jantar, o tio de Loretta, Raymond, conta a história de como o pai dela, Cosmo, cortejou a mãe, Rose: uma noite, Raymond acordou e viu uma enorme lua e, quando olhou pela janela, viu Cosmo na rua abaixo olhando para o quarto de Rose.

Shanley, então, usa a técnica de cenas alternadas para colocar a família inteira sob o poder da lua e conectar esse símbolo com o amor. Em rápida sucessão, Rose olha para a enorme lua cheia; Loretta e Ronny, depois de fazerem amor pela primeira vez, ficam em pé diante da janela e a observam; e Raymond acorda e conta à esposa que a lua de Cosmo está de volta. Esses dois idosos, casados há muito tempo, se inspiram a fazer amor. A sequência termina com o avô e sua matilha de cães uivando para a grande lua sobre a cidade. A lua se torna a grande geradora de amor, banhando a cidade inteira em luz e pó mágico.

Talvez você queira criar um símbolo quando escreve uma história na qual um mundo evolui de um estágio social a outro, como de vilarejo à cidade. Forças sociais são altamente complexas, então um único símbolo pode ser valioso para torná-las reais, coesas e compreensíveis.

  • Legião invencível

(histórias de James Warner Bellah, roteiro de Frank S. Nugent e Laurence Stallings, 1949)

Essa história acompanha os últimos dias antes da aposentadoria de um capitão da cavalaria dos Estados Unidos em um posto avançado do Oeste em 1876. Como um paralelo ao fim da vida profissional do capitão, temos o fim da fronteira (o mundo de vilarejos) e dos valores guerreiros que ela representa. Para destacar e enfatizar essa mudança para o público, os escritores Frank S. Nugent e Laurence Stallings usam o búfalo como símbolo. Um sargento grande e fanfarrão, aposentado apenas dias antes, comemora com uma bebida no bar do posto. Ele diz ao bartender: "Os velhos dias se foram para sempre... Ouviu que os búfalos estão voltando? Manadas inteiras". Mas o público sabe que eles não vão sobreviver por muito tempo e que homens como o capitão e o sargento também não.

  • Era uma vez no Oeste

(história de Dario Argento, Bernardo Bertolucci e Sergio Leone, roteiro de Sergio Leone e Sergio Donati, 1968)

Esse faroeste enorme e operístico começa com o assassinato de um homem e de seus filhos na casa distante em que moravam. A noiva por correspondência do homem chega à casa e descobre que já é viúva e dona de uma propriedade aparentemente sem valor no meio do deserto estadunidense. Enquanto vasculha as posses do falecido marido, descobre uma cidade de brinquedo. Essa cidade é tanto uma miniatura como um símbolo do futuro, um modelo da cidade que o morto imaginara que surgiria quando a nova ferrovia enfim chegasse à sua porta.

  • Cinema Paradiso

(história de Giuseppe Tornatore, roteiro de Giuseppe Tornatore e Vanna Paoli, 1988)

O cinema do título é tanto o símbolo da história como o símbolo do mundo. É um casulo onde as pessoas se reúnem para experimentar a mágica dos filmes e, no processo, criar a própria comunidade. Mas, à medida que a cidade pequena cresce, o cinema declina, entrando em decadência até ser substituído por um estacionamento. A utopia morre e a comunidade se fragmenta e também morre. Esse cinema mostra a capacidade de um símbolo em concentrar significado e levar os espectadores às lágrimas.

  • Matrix
    (Lilly Wachowski e Lana Wachowski, 1999)
  • Rede de intrigas
    (Paddy Chayevsky, 1976)

Quando você situa sua história em algo tão grande e complexo quanto uma sociedade ou instituição, um símbolo é quase necessário se quiser atingir o público. Tanto Matrix como Rede de intrigas devem muito de seu sucesso ao símbolo que representa a história e ao mundo social no qual ocorrem. Os termos "matriz" e "rede" sugerem uma unidade que é também uma teia de fios escravizantes. Esses símbolos informam, logo de cara, que os espectadores estão entrando em um mundo complexo de muitas forças, algumas delas ocultas. Isso não só atua como um alerta para que não tentem entender tudo imediatamente, mas também promete que revelações divertidas estão por vir.

AÇÕES SIMBÓLICAS

Uma única ação costuma ser parte de uma sequência maior de ações que constituem a trama. Cada ação é um tipo de vagão no longo trem composto por herói e oponente competindo pela meta. Quando você torna uma ação simbólica, conecta-a a outra ação ou objeto, carregando-a de significado. Note que tornar a ação simbólica a faz se destacar da sequência da trama; ela chama a atenção para si como se dissesse: "Esta ação é especialmente importante e expressa o tema ou personagem da história em miniatura". Então tome cuidado ao usá-la.

  • O morro dos ventos uivantes

(romance de Emily Brontë, roteiro de Charles MacArthur e Ben Hecht, 1939)

Quando Heathcliff finge lutar contra o cavaleiro preto por Cathy no "castelo" deles nos morros, está expressando o mundo de romance e faz de conta deles e a determinação de Cathy em viver num mundo de riquezas e nobreza. Heathcliff também está encenando, em miniatura, a história geral de como combaterá o aristocrático Linton por Cathy.

  • A testemunha

(Earl. W. Wallace e William Kelley, história de William Kelley, 1985)

Ao ajudar a construir um celeiro com outros homens enquanto troca olhares com Rachel, John está sinalizando sua disposição de deixar o mundo violento da polícia e construir uma relação amorosa em uma comunidade de paz.

  • Um conto de duas cidades

(Charles Dickens, 1859)

Como Cristo na cruz, Sydney Carton sacrifica voluntariamente a vida na guilhotina para que outros possam viver: "Faço algo muito, muito melhor do que jamais fiz; vou a um descanso muito, muito melhor do que já conheci".

  • Gunga Din

(poema de Rudyard Kipling, história de Ben Hecht e Charles MacArthur, roteiro de Joel Sayre e Fred Guiol, 1939)

O trabalhador indiano Gunga Din quer, mais do que tudo, ser um soldado no regimento como os três soldados britânicos que reverencia. Na batalha final, com os colegas gravemente feridos e capturados, Din soa o alarme com seu clarim, expondo-se à morte certa e evitando que o regimento caia numa armadilha.

OBJETOS SIMBÓLICOS

objetos simbólicos quase nunca existem sozinhos em uma história porque isolados têm pouquíssima capacidade de remeter a outra coisa. Já uma rede de objetos, ligados por algum tipo de princípio orientador, pode formar um padrão profundo e complexo de significado, geralmente apoiando o tema.

Para criar uma rede de objetos simbólicos, comece voltando ao princípio narrativo da história. Ele é a cola que transforma uma coleção de objetos isolados em um aglomerado, de modo que cada objeto então não se refira apenas a outro objeto, mas também se conecte a outros objetos simbólicos na história.

Você pode criar uma rede de objetos simbólicos em qualquer história, mas eles são mais fáceis de ver em algumas formas, em especial mito, terror e faroeste. Esses gêneros foram escritos tantas vezes que a forma se aperfeiçoou. Assim, certos objetos foram usados com tanta frequência que se tornaram metáforas reconhecíveis: são símbolos pré-fabricados cujo significado o público entende de imediato em algum nível consciente.

Vamos examinar a rede de objetos simbólicos e algumas histórias que melhor representam esses gêneros altamente metafóricos.

Rede de símbolos em mitos

O mito é a mais antiga e, até hoje, a mais popular de todas as formas ficcionais. Os mitos gregos antigos, um dos pilares do pensamento ocidental, são alegóricos e metafóricos, e você deve entender como funcionam se deseja usá-los como base para sua história.

Essas histórias sempre apresentam pelo menos dois níveis de seres: deuses e humanos. Não cometa o erro comum de pensar que essa era necessariamente a visão dos gregos antigos sobre como o mundo funcionava de verdade. Os dois níveis nessas histórias não expressam a crença de que os deuses governam os seres humanos. Em vez disso, são aquele aspecto do ser pelo qual o humano pode atingir a excelência ou a iluminação. Os "deuses" são um modelo psicológico engenhoso no qual uma rede de personagens representa características e modos de agir que você deseja obter ou evitar.

Além desse conjunto muito simbólico de personagens, os mitos usam um conjunto claramente prescrito de objetos simbólicos. Quando essas histórias eram contadas originalmente, o público sabia que esses símbolos sempre representavam outra coisa e sabia exatamente o quê. Os contadores de histórias atingiam o efeito desejado justapondo esses símbolos-chave ao longo da história.

O aspecto mais importante a ser entendido sobre esses símbolos metafóricos é que também representam algo dentro do herói. A seguir, vamos ver alguns símbolos-chave nos mitos e o que eles provavelmente significavam para o público da antiguidade. É claro que até mesmo com esses símbolos bastante metafóricos, não há um significado fixo; são sempre ambíguos em certo grau.

  • Jornada: o caminho da vida.
  • Labirinto: confusão ou encontrar o caminho para a iluminação.
  • Jardim: união com a lei natural, harmonia dentro de si e com os outros.
  • Árvore: árvore da vida.
  • Animais (cavalo, pássaro, cobra): modelos no caminho para a iluminação ou para o inferno.
  • Escada: estágios para a iluminação.
  • Subterrâneo: a região inexplorada do eu e do reino dos mortos.
  • Talismãs (espada, arco, escudo, capa): ação correta.
  • Odisseia

(Homero)

Acredito que Odisseia seja o mito grego mais artístico e influente na trajetória da contação de histórias. Seu uso de objetos simbólicos é um dos motivos para isso. Para ver as técnicas simbólicas, devemos começar, como sempre, pelos personagens.

A primeira coisa que você nota sobre eles é que Homero passou do guerreiro poderoso que luta até a morte (em Ilíada) para o guerreiro astucioso que deseja voltar para casa e vive. Odisseu é um ótimo guerreiro, mas é muito mais um investigador, um pensador (maquinador) e um amante.

Essa mudança nos personagens também dita uma mudança no tema simbólico, que passa do matriarcado para o patriarcado. Em vez de uma história em que o rei deve morrer e a mãe permanece, Odisseu volta para retomar seu trono. Como na maioria das grandes histórias, ele passa por uma mudança de caráter. Volta para casa como o mesmo homem, mas uma pessoa mais elevada. Vemos isso devido a sua principal decisão moral: ao voltar para casa, escolhe a mortalidade ao invés da imortalidade.

Nas histórias, uma das oposições centrais do personagem simbólico é homem versus mulher. Ao contrário de Odisseu, que aprende ao iniciar uma jornada, Penélope fica no mesmo lugar e aprende por meio de sonhos, tomando decisões baseada neles.

Homero constrói a rede de objetos simbólicos na Odisseia com base nos personagens e no tema, e por isso ela é fundamentada em objetos masculinos: machado, mastro, cajado, remos e arco. Para os personagens, todos esses objetos representam alguma versão de direcionalidade e ação correta. Em contraste com esses símbolos está a árvore que sustenta a cama de casal de Odisseu e Penélope. Essa é a árvore da vida e representa a ideia de que o casamento é orgânico – e, portanto, cresce ou apodrece. Quando o homem vaga longe demais ou por tempo demais em sua busca por glória (o valor guerreiro por excelência), o casamento e a própria vida morrem.

Rede de símbolos no terror

O gênero do terror aborda o medo do inumano entrando na comunidade humana. Trata-se de ultrapassar os limites da vida civilizada – entre vivos e mortos, racional e irracional, moral e imoral – com a destruição como resultado inevitável. Como o terror faz a pergunta mais fundamental – o que é humano e o que é inumano? –, a forma assumiu uma mentalidade religiosa. Nas histórias americanas e europeias, essa mentalidade religiosa é a cristã. Como resultado, a rede de personagens e a rede de símbolos nessas histórias são quase inteiramente determinadas pela cosmologia cristã.

Na maioria das histórias de terror, o herói é reativo e o principal oponente, que impulsiona a ação, é o diabo ou algum de seus servos. O diabo é a encarnação do mal, o pai maligno que conduzirá os humanos para a danação eterna se não for impedido. O argumento moral nessas histórias está sempre expresso em simples termos binários: a batalha do bem contra o mal.

A rede de símbolos também começa com uma oposição binária, e a expressão simbólica e visual de bem versus mal é luz versus escuridão. O símbolo primário do lado da luz é, claro, a cruz, que tem o poder de rechaçar até o próprio Satã. Os símbolos da escuridão são muitas vezes animais. Em mitos pré-cristãos, animais como cavalo, veado, touro, carneiro e serpente eram símbolos de ideais que levavam a pessoa para a ação correta e para uma versão elevada de si. No simbolismo cristão, esses animais representam uma ação maligna – é por isso que o diabo tem chifres. Animais como lobo, macaco, morcego e serpente representam a suspensão de sanções, o sucesso da paixão e do corpo e o caminho para o inferno, e esses símbolos exercem seu maior poder na escuridão.

  • Drácula

(romance de Bram Stoker, peça de Hamilton Deane e John L. Balderston, roteiro de Garrett Fort, 1931)

O vampiro Drácula, um dos "mortos-vivos", é a criatura da noite por excelência. Ele sobrevive com o sangue dos humanos que mata ou infecta para escravizar, dorme em um caixão e morrerá queimado se for exposto à luz do sol.

Vampiros são extremamente sensuais. Eles olham com luxúria para o pescoço nu da vítima e são dominados pelo desejo de morder a pessoa e chupar seu sangue. Em histórias de vampiro como Drácula, sexo equivale a morte e o limite tênue entre vida e morte leva a uma sina muito pior que morrer, que é viver em um purgatório eterno vagando pelo mundo na calada da noite.

Drácula tem o poder de se transformar em um morcego ou em um lobo e costuma viver em ruínas infestadas de ratos. Ele é um personagem especificamente europeu, dado que é um conde. O conde Drácula é membro de uma aristocracia envelhecida e corrupta que se alimenta das pessoas comuns como um parasita.

Drácula é extremamente poderoso à noite, mas pode ser detido por quem souber seu segredo: ele recua à visão do crucifixo e queima quando borrifado com água benta.

Outras clássicas histórias de terror que brincam com esse conjunto de símbolos são O exorcista e A profecia. Carrie: a estranha usa o mesmo conjunto, mas inverte seu significado. Aqui os símbolos cristãos são associados com preconceito e intolerância, e Carrie mata a mãe evangélica teletransportando um crucifixo para o coração dela.

Rede de símbolos no faroeste

O faroeste é o último grande mito de criação, porque o Oeste estadunidense era a última fronteira habitável na Terra. Essa forma de história é o mito nacional dos Estados Unidos e foi escrita e reescrita milhares de vezes. Assim, tem uma rede de símbolos altamente metafórica. O faroeste é a história de milhares de indivíduos viajando para o Oeste, domesticando áreas selvagens e construindo um lar, liderados por um herói guerreiro solitário capaz de derrotar bárbaros e tornar a região segura para que os pioneiros construam um vilarejo. Como Moisés, esse guerreiro é capaz de liderar seu povo para a terra prometida, mas não de entrar nela. Ele está fadado a permanecer solteiro e solitário, viajando para sempre pelo deserto até que ele e o cenário desapareçam.

O auge do gênero faroeste ocorreu mais ou menos entre 1880 e 1960. Assim, essa forma ficcional sempre tratou de uma época e um lugar que já tinham acabado, mesmo quando se tornou popular. No entanto, é importante lembrar que, como um mito de criação, o faroeste sempre foi uma visão do futuro, de um estágio nacional de desenvolvimento que os estadunidenses decidiram coletivamente que queriam atingir, embora se passasse no passado e não pudesse existir de verdade.

A meta no faroeste é conquistar a terra, matar ou transformar as raças "mais baixas" e "bárbaras", espalhar o cristianismo e a civilização, transformar a natureza em riqueza e construir a nação estadunidense. O princípio narrativo dessa forma ficcional é que o processo inteiro da história humana está se repetindo do zero nas regiões ermas dos Estados Unidos, de modo que o país é a última chance de o mundo recuperar o paraíso.

Qualquer história nacional torna-se uma história religiosa, dependendo de sua definição de certos rituais e valores e da intensidade com que as pessoas acreditam nela. Não surpreende, portanto, que uma história tão nacional e religiosa produza uma rede de símbolos altamente metafórica.

A rede de símbolos do faroeste começa com o cavaleiro. Ele é tanto caçador como superguerreiro, e é a expressão máxima da cultura guerreira. Também assume algumas características do mito nacional do rei Artur: ele é o cavaleiro natural, um homem comum com um caráter puro e nobre que vive de acordo com um código moral de cavalaria e ação correta (conhecido como o Código do Oeste).

O herói do faroeste não veste armadura, mas porta o segundo grande símbolo dessa rede: o revólver de seis tiros. O revólver representa a força mecanizada, a "espada" da justiça cuja potência é muito ampliada. Graças a esse código e aos valores da cultura guerreira, o caubói nunca saca primeiro e deve sempre impor a justiça em um confronto na rua, onde todos podem ver.

Assim como o terror, o faroeste sempre expressa valores binários de bem e mal, que são sinalizados pelo terceiro grande símbolo da rede: o chapéu. O herói do faroeste usa um chapéu branco; o homem mau usa um preto.

O quarto símbolo dessa forma é o distintivo, que tem a forma de outro símbolo, a estrela. O herói do faroeste sempre faz cumprir o que é certo, muitas vezes à própria custa, já que sua violência o torna um pária. Ele pode temporariamente unir-se à comunidade de um jeito oficial ao tornar-se xerife, impondo a lei não só sobre as regiões ermas, mas também sobre tudo o que há de selvagem e acalorado em cada pessoa.

O último grande símbolo da rede do faroeste é a cerca. Sempre de madeira, é fina e frágil e representa o controle superficial que a nova civilização tem sobre a selvageria da natureza e da natureza humana.

A rede de símbolos do faroeste é usada de modo muito efetivo em histórias como O homem de Virgínia, No tempo das diligências, Paixão dos fortes e no faroeste mais esquemático e metafórico de todos, Os brutos também amam.

  • Os brutos também amam

(romance de Jack Schaefer, roteiro de A. B. Guthrie Jr. e Jack Sher, 1953)

A qualidade esquemática do filme torna fácil reconhecer os símbolos do faroeste, mas chama tanta atenção para esses símbolos que o público sempre tem a sensação de que está vendo um faroeste clássico. Esse é o grande risco de usar símbolos altamente metafóricos.

Dito isso, Os brutos também amam leva a forma mítica do faroeste a seu extremo lógico. A história acompanha um estranho misterioso que, quando visto pela primeira vez, já está em uma jornada. Ele desce a montanha, faz uma parada e então retorna à montanha. O filme é um subgênero que chamo de "história de anjo viajante", encontrado não só no faroeste, mas também em histórias policiais (os romances de Hercule Poirot), comédias (Crocodilo Dundee, O fabuloso destino de Amélie Poulain, Chocolate e Bom dia, Vietnã) e musicais (Mary Poppins e Vendedor de ilusões). Na história de anjo viajante, o herói entra numa comunidade que está passando por problemas, ajuda os habitantes a consertar as coisas e depois parte para ajudar a comunidade seguinte. Aqui, em sua versão faroeste, Shane é o anjo guerreiro viajante que combate outros guerreiros (criadores de gado) para tornar a região segura para os fazendeiros se assentarem num vilarejo.

O filme também traz uma rede de personagens altamente simbólica: há o herói-anjo versus o pistoleiro satânico; o fazendeiro, um homem de família chamado José versus o criador de gado grisalho, implacável e solteiro; a mulher e mãe ideal (chamada Marian) e a criança, um garoto que idolatra o homem bom com uma arma. Esses personagens abstratos são apresentados quase sem detalhes individuais. Por exemplo, Shane tem algum fantasma no passado envolvendo o uso de armas, mas isso nunca é explicado. Como resultado, os personagens são apenas metáforas apelativas.

Todos os símbolos padrão do faroeste estão presentes em sua forma mais pura. A arma é crucial a qualquer faroeste, mas, em Os brutos também amam, é colocada no centro do tema. O filme faz uma pergunta pela qual todo homem nessa história é julgado: você tem coragem de usar uma arma? Os criadores de gado odeiam os fazendeiros porque eles constroem cercas. Os fazendeiros enfrentam os criadores de gado para poder construir uma cidade real, com leis e uma igreja. Shane usa uma camurça leve; o pistoleiro do mal se veste de preto. Os fazendeiros compram, em um empório, suprimentos com os quais podem construir seus lares, mas a loja tem uma porta que abre para o bar, onde os criadores de gado bebem e lutam e matam. Quando está no empório, Shane tenta construir uma vida nova voltada para o lar e para a família, mas não consegue evitar ser atraído para o bar, de volta à antiga vida de guerreiro solitário e habilidoso com uma arma.

Com isso, não quero dizer que Os brutos também amam é uma história mal contada. O filme tem certo poder justamente porque sua rede de símbolos é tão nítida e bem definida. Não há enrolação aqui. Mas, por esse motivo, também parece uma história esquemática, com um argumento moral que é praticamente uma filosofia moral, como quase todas as histórias religiosas.

Técnica narrativa: invertendo a rede de símbolos

A grande desvantagem de usar uma rede de símbolos pré-fabricada e metafórica é que ela é tão autoconsciente e previsível que a história se torna um esquema, não um corpo vivente. Porém, nessa desvantagem há uma enorme oportunidade: pode-se usar o conhecimento que o público possui a respeito da forma e da rede de símbolos para invertê-los. Nessa técnica, você usa todos os símbolos na rede, mas muda alguma coisa para que seu significado seja diferente do que aquilo que o público espera. Isso força as pessoas a repensarem todas as expectativas que tinham. Pode-se fazer isso em qualquer história, com símbolos bem conhecidos. Quando estiver trabalhando em um gênero específico como mito, terror ou faroeste, essa técnica é conhecida como "minar o gênero".

  • Onde os homens são homens

(romance de Edmund Naughton, roteiro de Robert Altman e Brian McKay, 1971)

Esse é um ótimo filme, com um roteiro genial. Boa parte da genialidade dele se deve à estratégia de inverter os símbolos clássicos do faroeste. Essa inversão de símbolos é uma extrapolação do tema tradicional de faroestes: em vez de os personagens levarem a civilização para o deserto, Onde os homens são homens mostra um empreendedor que constrói uma cidade no deserto e é destruído por grandes empresas.

O simbolismo inverso começa com o protagonista. McCabe é um jogador e dândi e faz sua fortuna abrindo um bordel. Ele cria uma comunidade na fronteira selvagem do Oeste, por meio do capitalismo do sexo. O segundo personagem principal, o amor da vida de McCabe, é uma madame que fuma ópio.

Os submundos visuais também invertem os símbolos clássicos. A cidade não é a grade racional de prédios com fachada de ripas na planície seca do sudoeste, mas um conjunto improvisado de madeira e tendas na floresta exuberante e chuvosa do noroeste. Em vez de uma comunidade agitada sob o olhar benevolente do delegado, essa cidade é fragmentada e inacabada, com indivíduos apáticos e isolados que veem com desconfiança qualquer forasteiro.

A ação simbólica chave do faroeste é o confronto, que também é invertido aqui. O confronto clássico acontece no meio da rua principal, onde toda a cidade pode ver. O herói-caubói espera o vilão sacar primeiro, vence mesmo assim e reafirma a ação correta e a lei e a ordem para a comunidade em construção. Em Onde os homens são homens, o herói, que é tudo menos um homem da lei, é perseguido pela cidade por três assassinos durante uma nevasca ofuscante. Ninguém vê e nem se importa com a ação correta de McCabe, ou se o líder da cidade vive ou morre – as pessoas estão ocupadas apagando as chamas de uma igreja que ninguém frequenta.

O filme também inverte os objetos simbólicos dos faroestes clássicos. A lei não existe. A igreja está sempre vazia. No confronto, um dos matadores se esconde atrás de um prédio e atira em Mc-Cabe com uma espingarda. McCabe, aparentemente morto, atira no meio dos olhos do matador usando uma pistola de cano curto escondida (em faroestes clássicos, a arma das mulheres!). Em vez das perneiras e do chapéu branco de aba larga do caubói, McCabe usa um terno oriental e um chapéu-coco.

Onde os homens são homens, com sua estratégia de minar um gênero, nos apresenta algumas das melhores técnicas para renovar antigos símbolos metafóricos. É uma aula sobre como contar grandes histórias e um marco no cinema estadunidense.

Exemplos de rede de símbolos

O melhor jeito de aprender as técnicas da rede de símbolos é vê-las em uso. À medida que examinarmos diferentes histórias, você vai notar que essas técnicas se aplicam igualmente em uma vasta gama de formas.

  • Excalibur: a espada do poder

(romance A morte de Arthur, de Thomas Malory, roteiro de Rospo Pallenberg e John Boorman, 1981)

Se o faroeste é o mito nacional dos Estados Unidos, podemos dizer que a história do rei Artur é o mito nacional da Inglaterra. Seu poder e apelo são tão vastos que essa única lenda inspirou milhares de histórias no Ocidente. Por esse motivo, os escritores modernos devem entender como seus símbolos cruciais funcionam. Como sempre, começaremos com os símbolos ligados aos personagens.

O rei Artur não é só um homem e não é só um rei. Ele é o centauro moderno, o cavaleiro de metal. Como tal, é o primeiro super-homem, o Homem de Aço, o macho levado ao extremo e a personificação máxima da cultura guerreira. Ele representa coragem, força, ação correta, imposição da justiça por combate na frente dos outros. Ironicamente, ao representar a masculinidade levada ao extremo, ele vive segundo um código de cavalaria que coloca as mulheres em um pedestal de pureza absoluta. Isso transforma o gênero feminino inteiro em um símbolo segundo os opostos binários cristãos da Madona e da puta.

O rei Artur também simboliza o líder moderno em conflito. Ele cria uma comunidade perfeita em Camelot baseada na pureza de caráter e depois a perde quando sua esposa se apaixona por seu melhor e mais puro cavaleiro. O conflito entre dever e amor é uma das grandes oposições morais em histórias, e o rei Artur é um dos personagens que mais o personificam.

O aliado de Artur é Merlin, o mentor-mago por excelência. Ele é um personagem que remete à visão de mundo pré-cristã de magia, então representa o conhecimento das forças naturais mais ocultas. É o supremo artesão-artista da natureza e da natureza humana, e de como a segunda é consequência da primeira. Seus feitiços e conselhos sempre começam com um entendimento profundo das necessidades e desejos da pessoa única à sua frente.

Os oponentes de Artur possuem uma qualidade simbólica que centenas de escritores tomaram emprestada ao longo dos anos. Seu filho é Mordred, a criança maligna cujo próprio nome representa a morte. A aliada de Mordred é sua mãe, Morgana (também conhecida como Morgan Le Fay), uma feiticeira do mal.

Os cavaleiros são super-homens como Artur. Eles são superiores aos homens comuns não só por suas habilidades como guerreiros, mas também por sua pureza e grandeza de caráter. Devem seguir o código da cavalaria e buscam o Cálice Sagrado, com o qual poderão entrar no Reino dos Céus. Em suas jornadas, os cavaleiros agem como o bom samaritano, ajudando todos os necessitados e, por meio de suas ações corretas, confirmam a pureza do próprio coração.

Excalibur: a espada do poder e outras versões da história do rei Artur estão cheias de mundos e objetos simbólicos. O principal lugar simbólico é Camelot, a comunidade utópica cujos membros suprimem seu desejo humano por glória individual em prol da tranquilidade e da felicidade de todos. Esse lugar é simbolizado ainda mais pela távola redonda. Essa mesa é a república dos grandes, onde todos os cavaleiros ficam em pé de igualdade com seu rei.

O filme recebe o nome de outro importante objeto simbólico da história do rei Artur: a espada. Excalibur é o símbolo masculino da ação correta, e só o rei de direito, cujo coração é puro, pode removê-la da pedra e empunhá-la para formar a comunidade ideal.

Os símbolos do rei Artur estão impregnados em nossa cultura e são encontrados em histórias como Star Wars, O senhor dos anéis, Esperança e glória, Um ianque na corte do rei Artur, O pescador de ilusões e milhares de faroestes. Se quiser usar os símbolos arturianos, certifique-se de mudar o significado deles de alguma forma para que sejam originais à sua história.

  • Os suspeitos

(Christopher McQuarrie, 1995)

Os suspeitos conta uma história única na qual o protagonista cria seu próprio personagem simbólico usando as técnicas que estamos discutindo enquanto a história está acontecendo. Apropriadamente chamado de Verbal, ele aparenta ser um golpista amador e aliado, mas na verdade é, ao mesmo tempo, o herói, um mestre do crime (o principal oponente) e um contador de histórias. Ao dizer ao interrogador da alfândega o que aconteceu, constrói um personagem aterrorizante e implacável chamado Keyser Soze e associa esse personagem ao símbolo do diabo, de modo que Keyser Soze ganha tal poder mítico que apenas a menção de seu nome já incute terror. No final da história, o público descobre que Verbal é Keyser Soze e é mestre do crime em parte por ser um mestre na contação de histórias. Os suspeitos é uma ótima narrativa e um exemplo de criação de símbolos do mais alto nível.

  • Star Wars

(George Lucas, 1977)

Um dos principais motivos para Star Wars ser tão popular é ser fundado na técnica do tema simbólico. Essa história de aventura aparentemente simples tem um forte tema concentrado no símbolo do sabre de luz. Nesse mundo de tecnologia avançada e no qual as pessoas viajam na velocidade da luz, tanto heróis como oponentes lutam com sabres. É claro que isso não é realista. Mas é realista o bastante nesse mundo para ser um objeto que pode incorporar poder temático. O sabre de luz simboliza o código samurai de treinamento e conduta, que pode ser usado para o bem ou para o mal. É impossível superestimar a importância desse objeto simbólico e do tema que representa no sucesso mundial de Star Wars.

  • Forrest Gump: o contador de histórias

(romance de Winston Groom, roteiro de Eric Roth, 1994)

Forrest Gump: o contador de histórias usa dois objetos para representar temas: a pena e a caixa de chocolates. É possível criticar a técnica dos escritores de associar símbolo a tema por ser um tanto forçada. Nesse mundo cotidiano, uma pena simplesmente desce flutuando do céu e pousa aos pés de Forrest. É óbvio que a pena representa o espírito livre e honesto de Forrest, seu modo de vida despreocupado. A caixa de chocolates é ainda mais óbvia. Forrest afirma: "Minha mãe sempre dizia: a vida é uma caixa de chocolates. Você nunca sabe o que vai encontrar". Essa é uma afirmação temática direta sobre o jeito correto de viver, conectada a uma metáfora.

Mas esses símbolos associados a temas funcionam muito melhor do que seria de imaginar e os motivos para isso são instrutivos. Primeiro, Forrest Gump: o contador de histórias é uma forma mítica conectada a um drama, e a história abrange cerca de quarenta anos. Então, como a pena, ela também serpenteia pelo espaço-tempo sem direção aparente exceto pela linha geral da história. Em segundo lugar, o herói é um homem simplório que pensa em chavões fáceis de recordar. Um personagem "normal" declarando abertamente que a vida é uma caixa de chocolates é moralizante, mas o simples Forrest fica satisfeito com esse bordão encantador, aprendido com sua amada mãe, assim como a maior parte do público.

  • Ulysses

(James Joyce, 1922)

Joyce leva a ideia do contador de histórias como mago criador de símbolos e de quebra-cabeças mais longe do que qualquer outro escritor. Isso tem suas vantagens, mas também custos, em especial ao evocar no público uma resposta intelectual em vez de emocional. Quando você apresenta literalmente milhares de símbolos sutis e até obscuros de milhares de jeitos engenhosos, força o leitor a se tornar um cientista narrativo ou detetive literário, determinado a recuar o máximo possível para ver como foi construído esse quebra-cabeça. Como Cidadão Kane (embora por motivos diferentes), Ulysses é uma história que pode ser muito admirada pelas técnicas, mas que é muito difícil de ser amada. Então vamos analisar suas técnicas simbólicas.

Símbolo da história e personagens simbólicos

Joyce estabelece uma rede de personagens simbólicos sobrepondo primariamente, em sua história, os personagens da Odisseia, da história de Cristo e de Hamlet. Ele suplementa suas referências a essas grandes redes de personagens com referências a pessoas reais e personagens emblemáticos do passado da Irlanda. Essa estratégia traz uma série de vantagens. Primeiro, conecta personagens ao tema: Joyce está tentando criar uma religião natural, ou humanística, a partir das ações de seus personagens. Personagens cotidianos, como Bloom, Stephen e Molly, assumem qualidades heroicas, e até divinas, não pelo que fazem, mas por suas referências constantes a outros personagens, como Odisseu, Jesus e Hamlet.

Essa técnica também situa os personagens de Ulysses em uma grande tradição cultural ao mesmo tempo que os mostra se rebelando contra essa tradição e emergindo como indivíduos únicos. Essa é exatamente a trajetória de desenvolvimento pela qual passa Stephen ao longo da história. Oprimido por sua criação católica e pela dominação inglesa da Irlanda, mas não querendo se livrar de toda espiritualidade, Stephen busca um jeito de ser ele mesmo e um artista real.

Outra vantagem de associar seus personagens aos de outras histórias é que Joyce pode criar uma rede de sinalizações que se estende ao longo do livro, o que é extremamente útil quando se está escrevendo uma história tão longa e complexa quanto Ulysses. Além de ser um princípio narrativo, essas sinalizações permitem a Joyce avaliar como seus protagonistas mudam ao longo da história, referindo-se de jeitos diferentes àqueles mesmos personagens simbólicos – Odisseu, Jesus, Hamlet.

Ações e objetos simbólicos

Joyce aplica essas mesmas técnicas de personagens simbólicos às ações e aos objetos da história: constantemente compara as ações de Bloom, Stephen e Molly às de Odisseu, Telêmaco e Penélope, e o efeito que isso tem no leitor é tanto heroico como irônico. Bloom derrota seu Ciclope e escapa da caverna escura de um bar. Stephen é assombrado pela mãe morta, assim como Odisseu encontra sua mãe no Hades e Hamlet é visitado pelo fantasma do pai assassinado. Molly fica em casa como Penélope, mas, ao contrário da fiel Penélope, torna-se famosa por sua infidelidade.

Os objetos simbólicos de Ulysses formam uma rede vasta de coisas "sagradas" na "religião" naturalista e cotidiana de Joyce. Tanto Stephen como Bloom saem de casa sem as chaves. Stephen quebrou os óculos no dia anterior e, embora sua visão literal seja limitada, ele tem a chance de se tornar um visionário, ganhando uma visão artística ao longo da jornada de um dia. Um anúncio para a "carne enlatada Plumtree" – "um lar não é um lar sem ela" – refere-se à falta do ato sagrado do sexo entre Bloom e sua esposa e ao dano que isso causou ao lar. Stephen empunha sua bengala como uma espada contra o lustre no bordel e se liberta do passado que o constringe como uma prisão. Bloom acredita que a comunhão católica é um pirulito para crentes, mas ele e Stephen experimentam uma comunhão real quando compartilham um café e então um chocolate na casa de Bloom.

CRIANDO SÍMBOLOS

Exercício de escrita 6

  • símbolo da história: há um único símbolo que expresse a premissa, as reviravoltas-chave, o tema central ou a estrutura geral de sua história? Examine de novo a premissa, o tema e a descrição do mundo ficcional, então escreva uma frase que resuma os principais símbolos em sua história.
  • personagens simbólicos: determine os símbolos para seu herói e para outros personagens. Use os passos a seguir:
    1. Examine toda a rede de personagens antes de criar um símbolo para um deles.
    2. Comece com a oposição entre herói e oponente principal.
    3. Pense em um único aspecto do personagem ou em uma única emoção que deseja que ele evoque no público.
    4. Considere aplicar uma oposição simbólica no personagem.
    5. Repita o símbolo, associado ao personagem, muitas vezes ao longo da história.
    6. Toda vez que repetir o símbolo, varie os detalhes de alguma forma.
  • tipo de personagem: Considere conectar um ou mais de seus personagens a algum tipo de personagem, especialmente deuses, animais e máquinas.
  • mudança de caráter simbólica: há um símbolo que você possa conectar à mudança de caráter do herói? Se sim, examine as cenas em que expressa a fraqueza/necessidade do herói no começo da história e a autorrevelação no final.
  • tema simbólico: procure um símbolo que possa sintetizar o tema principal de sua história. Para que um símbolo expresse o tema, deve representar uma série de ações e efeitos morais. Um símbolo temático mais avançado representa duas séries de ações morais em conflito.
  • mundo simbólico: determine quais símbolos você deseja associar aos vários elementos do mundo ficcional, incluindo cenários naturais, espaços fabricados, tecnologia e tempo.
  • ações simbólicas: há uma ou mais ações específicas que merecem um tratamento simbólico? Pense num símbolo que você pode associar a cada uma dessas ações para dar destaque a elas.
  • objetos simbólicos: crie uma rede de objetos simbólicos. Comece revisando o princípio narrativo de sua história e certifique-se de que cada objeto simbólico se adeque a esse princípio narrativo. Depois, escolha os objetos aos quais deseja dar significado extra.
  • desenvolvimento simbólico: acompanhe como cada símbolo muda ao longo da história.

Para ver algumas dessas técnicas na prática, vamos analisar O senhor dos anéis.

  • O senhor dos anéis

(J. R. R. Tolkien, 1954-1955)

O senhor dos anéis não é nada menos do que uma cosmologia e mitologia modernas da Inglaterra. Ele une as formas do mito, da lenda e do "alto romance", junto com referências simbólicas à mitologia grega e nórdica, ao cristianismo, a contos de fadas, à história do rei Artur e a outros contos de cavaleiro errante. O senhor dos anéis é alegórico no sentido, como disse Tolkien, de que é muito "aplicável" ao mundo e à época modernos. Alegórico significa, entre muitas outras coisas, que os personagens, mundos, ações e objetos são, por necessidade, altamente metafóricos. Não significa que não sejam únicos ou criados pelo escritor, apenas que os símbolos têm referências que ecoam outros símbolos anteriores, muitas vezes profundamente enraizados na imaginação do público.

símbolo da história

O símbolo da história, é claro, está bem no título. O anel é o objeto de poder ilimitado que todos desejam. Quem o possuir se tornará um senhor com poderes divinos, mas será inevitavelmente destrutivo. O anel é a grande tentação que afasta alguém de uma vida moral e feliz, e sua atração nunca se esgota.

personagens simbólicos

A força dessa história altamente texturizada é a rica rede de personagens simbólicos que não se resume a pessoa versus pessoa, pessoa versus animal ou pessoa versus máquina. Esses personagens são definidos e distinguidos por bem versus mal, por níveis de poder - deus, mago, homem, hobbit – e por espécie – ser humano, elfo, anão, Orc (goblin), Ent e fantasma. O mito funciona com base nos tipos de personagem, um dos motivos para ter um escopo épico, mas pouca sutileza em seu retrato de seres humanos. Ao estabelecer uma rede de tipos de personagens tão complexa e texturizada, Tolkien e seu público têm o melhor dos dois mundos. Essa é uma lição importante para qualquer escritor que use personagens simbólicos, especialmente se estiver escrevendo uma história baseada em mitos.

Nas oposições de personagem de Tolkien, o bem é simbolizado pelos que se sacrificam, Gandalf e Sam, pelo rei-guerreiro Aragorn, que pode curar assim como matar, e por aqueles que estão em comunhão com a natureza e atingiram o domínio de si em vez do domínio sobre outros, como Galadriel e Tom Bombadil. O herói de Tolkien não é o grande guerreiro, mas o "homem" pequeno, o hobbit Frodo Baggins, cuja grandeza de coração lhe permite ser o mais heroico de todos. Como Leopold Bloom em Ulysses, Frodo é um novo tipo de herói mítico, definido não pela força física, mas por sua profunda humanidade.

Os oponentes também possuem enorme poder simbólico. Morgoth é o personagem maligno original anterior à trilogia e que faz parte do passado que Tolkien criou para O senhor dos anéis. Como Mordred do rei Artur, Maugrim de As crônicas de Nárnia e Voldemort das histórias de Harry Potter (escritores ingleses adoram dar ao vilão um nome com "mor", talvez porque "mor" soe como a palavra francesa para "morte"), Morgoth evoca na mente do público o primeiro antideus, Satã, sendo associado, em nome e ação, com a morte. Sauron é o principal oponente em O senhor dos anéis; é maligno tanto porque busca o poder absoluto como porque o usará para causar a destruição total da Terra Média. Saruman é um tipo de personagem que se torna mau, começando como um mago enviado para combater Sauron, mas sendo envenenado pelo gosto do poder absoluto. Outros oponentes – Gollum, os Nazgûl, os Orcs, a aranha Laracna e o Balrog – são expressões simbólicas de inveja, ódio, brutalidade e destruição.

tema simbólico

Como sempre em uma boa história (e em especial na alegoria), todos os elementos nascem do tema e das oposições. Para Tolkien, isso significa uma estrutura temática cristã que enfatiza o bem versus o mal. O mal é definido aqui como o amor pelo poder e seu uso. O bem vem de cuidar de coisas vivas, e o bem mais elevado é o sacrifício, especialmente da própria vida, em prol de outra pessoa.

mundos simbólicos

Os submundos visuais de O senhor dos anéis são tão ricos em nuances e tão simbólicos quanto a rede de personagens. Esses mundos também são altamente naturais e sobrenaturais. Mesmo os espaços fabricados estendem-se do ambiente natural, fundindo-se com ele. Como os personagens, esses submundos simbólicos são colocados em oposição. No mundo da floresta, há a bela e harmônica Lothlórien e a floresta dos Ents, seres como árvores, versus a maligna Floresta das Trevas. Os mundos de floresta bons também são colocados em oposição ao mundo montanhoso, que é onde vivem as forças do mal. Sauron governa de seu lar montanhoso de Mordor, por trás do enorme portão Morannon ("mor" novamente). As Montanhas de Névoa são o local das minas subterrâneas de Moria, onde os heróis visitam o "submundo". Frodo passa pelos Pântanos Mortos, um cemitério para aqueles que morreram em batalha. As comunidades "humanas" expressam esse mesmo simbolismo natural. Como Lothlórien, que é uma utopia construída com base nas árvores, Valfenda é uma utopia construída com base em água e plantas. O Condado, lar dos Hobbits, é um vilarejo enraizado em um mundo domesticado e agricultor. Essas comunidades contrastam com fortalezas de montanha como Mordor, Isengard e o Abismo de Helm, fundadas sobre o poder físico.

objetos simbólicos

O senhor dos anéis fundamenta-se na busca e posse de objetos simbólicos, a maioria dos quais foi desenterrada ou forjada no fogo. O mais importante, é claro, é o Um Anel que Sauron forjou no vulcão no Monte da Perdição. Ele simboliza o desejo de falsos valores e poder absoluto, e quem quer que o possua inevitavelmente se tornará mau e corrupto. Outro símbolo circular do mal é o Olho de Sauron, que vê tudo do topo da Torre Negra e ajuda Sauron em sua busca pelo anel.

Como a Excalibur do rei Artur, Andúril, que significa Chama do Ocidente, é a espada da ação correta e pode ser empunhada apenas pelo herdeiro de direito do trono. Se Excalibur estava presa na rocha, Andúril foi quebrada e precisa ser reforjada para que Aragorn possa derrotar as forças do mal e recuperar seu trono. Ele é um rei-guerreiro único em seu uso da planta athelas, que tem o poder de cura. Como Aquiles, é um lutador de grande habilidade, mas também está em comunhão com a natureza e é um agente da vida.

É claro, esses são apenas alguns dos símbolos que Tolkien usa no épico. Estude-o com atenção para dominar muitas técnicas da criação de símbolos.

  1. O título original desse filme, The Sting, significa literalmente picada ou ferroada e é uma gíria para uma tramoia ou esquema. [N. T.] ↩︎

  2. FITZGERALD, F. Scott. O grande Gatsby. Tradução Vanessa Barbara. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. [N. E.] ↩︎