• Ivan Milazzotti
    Como escrever bem
    17-07-2025 19:15:01
    MOD_ARTICLEDETAILS-DETAILS_HITS
    30

A negociação

Uma escola de Connecticut promoveu, certa vez, um “dia dedicado às artes”, e fui convidado a participar para falar sobre a escrita como profissão. Quando ali cheguei, soube que havia mais um palestrante convidado — o dr. Brock (vou chamá-lo assim), um cirurgião que começara a escrever havia pouco tempo e que tinha vendido alguns textos para algumas revistas. Ele falaria sobre a escrita como passatempo. Instalou-se, então, um debate, diante de uma plateia de alunos, professores e pais ávidos por aprender os segredos do nosso glamoroso ofício.

O dr. Brock vestia um vistoso paletó vermelho, que lhe dava um aspecto levemente boêmio, como se imagina que deveriam ser os escritores, e a primeira pergunta foi dirigida a ele. Como é ser um escritor?

Ele disse que era algo extremamente divertido. Ao chegar em casa depois de um árduo dia de trabalho no hospital, ele pegava imediatamente o seu bloco amarelo para despejar no papel as tensões acumuladas no cotidiano. As palavras simplesmente fluíam. Era fácil. Quando chegou minha vez de falar, eu disse que escrever não era divertido nem fácil. Era algo difícil e solitário, e as palavras raramente fluíam com facilidade.

Depois disso, perguntaram ao dr. Brock se reescrever um texto era algo importante. De modo algum, respondeu. “Exprima tudo que você sente”, afirmou, acrescentando que a forma como as frases saem, quaisquer que sejam elas, reflete de modo natural a situação em que o autor se encontra. Eu disse, então, que reescrever é a essência da escrita. Ressaltei que escritores profissionais reescrevem suas frases inúmeras vezes e depois ainda reescrevem tudo o que já haviam reescrito.

“O que você faz nos dias em que as coisas não estão saindo bem?”, indagaram ao dr. Brock. Ele disse que tão somente parava de escrever e deixava o trabalho de lado, à espera de outro dia, quando as coisas sairiam melhor. Eu disse, então, que um escritor profissional deve estabelecer uma rotina diária e se ater firmemente a ela. Disse que escrever é um ofício, não uma arte, e que um sujeito que abandona seu ofício por lhe faltar inspiração não se leva a sério. E pode acabar economicamente quebrado.

“E o que acontece se você estiver se sentindo deprimido ou infeliz?”, perguntou um estudante. “Isso afeta a sua escrita?”

“Provavelmente sim”, respondeu o dr. Brock. “Melhor sair para pescar. Fazer um passeio.” “Provavelmente não”, eu disse. “Se o seu trabalho é escrever diariamente, você aprende a fazê-lo todos os dias, como qualquer outro trabalho.”

Um estudante perguntou se achávamos útil frequentar o mundo literário. O dr. Brock disse que estava curtindo muito a sua nova vida de homem de letras e contou várias histórias sobre almoços com seu publisher e seu agente em restaurantes de Manhattan onde escritores e editores se encontram. Eu disse que escritores profissionais são trabalhadores solitários que raramente veem outros escritores.

“Você utiliza muitos simbolismos em sua escrita?”, perguntou-me um aluno.

“Não se eu puder evitar”, respondi. Já bati recordes insuperáveis em matéria de não captar o significado profundo existente em histórias, peças de teatro ou filmes e, quanto à dança e à pantomima, nunca consegui fazer a menor ideia do que está sendo transmitido.

“Eu amo os símbolos!”, exclamou o dr. Brock, antes de descrever com entusiasmo a alegria de poder distribuí-los ao longo dos seus textos.

A manhã transcorreu inteira assim e foi uma revelação para todos nós. Ao final, o dr. Brock me disse ter achado muito interessantes as minhas respostas — nunca lhe havia ocorrido que escrever pudesse ser difícil. Eu lhe disse que também achara as respostas dele muito interessantes — nunca me havia ocorrido que escrever pudesse ser fácil. Talvez eu devesse me dedicar, paralelamente, a fazer cirurgias.

Quanto aos estudantes, alguém poderia pensar que os deixamos totalmente confusos. Mas, na verdade, acabamos por transmitir a eles um olhar mais amplo sobre o processo da escrita do que se somente um de nós tivesse falado. Pois não existe nenhum caminho “certo” para fazer um trabalho tão pessoal. Há todo tipo de escritor e todo tipo de método, e qualquer método que ajude você a dizer aquilo que quer dizer será o método certo para você. Alguns escrevem de manhã; outros, de noite. Alguns precisam de silêncio, outros deixam o rádio ligado. Alguns escrevem à mão, outros no computador, e outros falam para um gravador. Algumas pessoas escrevem o primeiro esboço de um fôlego só e depois o revisam; outras não conseguem passar para o parágrafo seguinte antes de retocar interminavelmente o anterior.

Mas todos são vulneráveis e tensos. São levados por uma compulsão de colocar uma parte de si próprios no papel e, no entanto, não escrevem simplesmente aquilo que lhes surge de modo natural. Eles se sentam para realizar um ato literário, e o eu de cada um que surge no papel é, de longe, mais denso do que a pessoa que se sentou para escrever aquilo. O problema é encontrar o verdadeiro homem ou a verdadeira mulher que existe por trás dessa tensão.

Em última análise, o produto que todo escritor tem para vender não é o assunto sobre o qual escreve, mas sim quem ele, ou ela, é. Muitas vezes me pego lendo com bastante curiosidade sobre um tema que nunca achei que fosse atrair meu interesse — alguma pesquisa científica, por exemplo. O que me prende é o entusiasmo do autor pelo seu campo de atuação. Como ele foi absorvido por aquilo? Que bagagem emocional ele carrega junto com essa atividade? Como isso mudou a sua vida? Não é preciso passar um ano sozinho no lago Walden1 para se deixar tocar pelo texto de um escritor que tenha feito isso.

Essa é a negociação pessoal que está no coração de um bom texto de não ficção. Além disso, há duas qualidades muito importantes que este livro procurará abordar: a sensibilidade para o humano e o entusiasmo. A boa escrita possui uma vivacidade capaz de prender o leitor entre um parágrafo e o outro, e não se trata de usar truques para “personificar” o autor. Trata-se, sim, de usar a língua de modo a atingir a maior clareza e intensidade.

Podem-se ensinar esses princípios? Talvez não. Mas a maior parte deles pode ser aprendida.


1. Nome de um lago e de uma reserva natural em Massachusetts, sudeste dos Estados Unidos, onde o escritor e pensador Henry David Thoreau (1817-1862) viveu durante dois anos, afastado da civilização. A experiência foi narrada por ele no livro Walden, ou a vida nos bosques (1854). (n.t.)