• Ivan Milazzotti
    Como escrever bem
    17-07-2025 19:15:01
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Escrever sobre si mesmo: memórias

De todos os assuntos que estão à sua disposição como escritor, aquele que você conhece melhor é você mesmo: seu passado e seu presente, suas ideias e emoções. E, no entanto, é justamente esse o assunto que você mais tenta evitar.

Sempre que sou convidado para uma aula sobre escrita em alguma escola ou faculdade, a primeira coisa que pergunto aos estudantes é: “Quais são os seus problemas? Quais são as suas preocupações?”. A resposta que eles dão, do Maine à Califórnia, é a mesma: “Somos obrigados a escrever aquilo que o professor quer”. Um enunciado realmente deprimente.

“É a última coisa que qualquer bom professor deseja”, eu lhes digo. “Nenhum professor almeja ter 25 cópias de uma mesma pessoa, escrevendo sobre as mesmas coisas. O que todos nós buscamos — o que queremos ver saltar de seus textos — é a individualidade. Procuramos encontrar algo, qualquer coisa que seja, que faça de cada um de vocês uma pessoa única. Escrevam sobre o que conhecem e o que pensam.”

Eles não conseguem. Acham que não estão autorizados a fazer isso. Pois eu acredito que eles estão autorizados desde o momento em que nasceram.

A meia-idade não alivia a situação. Em seminários com escritores, cruzo com mulheres cujos filhos já estão crescidos e que agora querem reorganizar sua vida por meio da escrita. Insto-as a escreverem sobre aquilo que lhes parece mais próximo. Elas reclamam. “Precisamos escrever aquilo que os editores querem”, dizem. Em outras palavras, “temos de escrever aquilo que o professor quer”. Por que elas acham que precisam de autorização para escrever sobre as experiências e os sentimentos que conhecem melhor, ou seja, seus próprios sentimentos e experiências?

Saltemos outra geração. Tenho um amigo jornalista que passou a vida escrevendo de modo honrado, porém sempre a partir de fontes de segunda mão, contando sobre acontecimentos vividos por terceiros. Ao longo dos anos, eu o ouvia mencionar frequentemente o pai, um pastor protestante que assumiu sozinho muitas posições liberais em uma cidade conservadora do Kansas e de quem meu amigo herdou, obviamente, a sua forte consciência social. Poucos anos atrás, perguntei-lhe quando é que ele finalmente se sentaria para começar a escrever sobre as coisas de sua vida que haviam sido realmente importantes, inclusive seu pai. Um dia desses eu faço isso, ele respondeu. Mas esse dia era sempre postergado.

Quando ele completou 65 anos, comecei a pressioná-lo. Mandei-lhe algumas memórias que haviam me comovido, e ele, finalmente, concordou em ocupar suas manhãs explorando a escrita nesse veio voltado para o passado. Hoje em dia, mal consegue acreditar no processo de libertação em que acabou por embarcar: a infinidade de coisas que vai descobrindo sobre seu pai e que nunca havia entendido, e também sobre a sua própria vida. Mas, ao comentar esse processo, ele sempre diz: ”Eu nunca tinha tido coragem”, ou “sempre tive medo de tentar”. Em outras palavras, “eu achava que não tinha autorização para fazer isso”.

Por que não? Afinal de contas, os Estados Unidos não eram a terra dos “mais ferrenhos individualistas”? Pois, então, resgatemos essa terra perdida e esses individualistas perdidos também. Se você é professor de redação, faça seus alunos acreditarem no valor de sua própria vida. Se é um escritor, permita-se contar-nos quem você é.

Quando falo em “se permitir”, não quero dizer ser “permissivo”. Não tenho nenhuma paciência com trabalhos desleixados — aquele ponha-tudo-para-fora verborrágico dos anos 1960. Para ter uma carreira decente, é importante ser capaz de escrever decentemente. Porém, quanto à pessoa para quem você escreve, não se preocupe em lhe agradar. Se você escreve intencionalmente para um professor ou para um editor, acabará não escrevendo para ninguém. Se escrever para você mesmo, aí, sim, atingirá as pessoas para as quais pretende escrever.

Escrever sobre a própria vida está naturalmente relacionado a quanto tempo já se viveu. Quando os estudantes afirmam que têm de escrever sobre o que o professor deseja, o que normalmente querem expressar é que eles próprios não têm muita coisa a dizer — de tão pobre que é a sua vida fora dos muros da escola, limitada geralmente pela televisão e pelo shopping, duas versões artificiais da realidade. Ainda assim, qualquer que seja a idade, o simples ato físico de escrever constitui um poderoso mecanismo de busca. Fico muitas vezes surpreso quando, ao mergulhar no meu passado, deparo com algum acontecimento esquecido que ressurge justamente no momento necessário. Quando outras fontes secam, a memória aparece quase sempre como uma boa fornecedora de material.

Permitir-se escrever, porém, é uma faca de dois gumes, e ninguém deveria usá-la sem publicar uma advertência: escrever excessivamente sobre si próprio pode ser arriscado para a saúde do escritor e do leitor. É muito tênue a linha que separa o ego do egocentrismo. O ego é saudável; nenhum escritor consegue ir muito longe sem ele. Já o egocentrismo é um estorvo, e o presente capítulo não pretende ser uma espécie de licença para a conversa fiada com finalidade meramente terapêutica. Mais uma vez, a regra que eu sugiro é a seguinte: esteja convencido de que cada elemento em seu texto de memórias tenha uma utilidade. Escreva sobre você mesmo, de qualquer jeito, com segurança e prazer. Mas atente para que cada detalhe — pessoas, lugares, acontecimentos, casos, ideias, emoções — seja útil para fazer a sua história avançar.

Isso me leva à questão das memórias como gênero. Leio as memórias de quase todo mundo. Para mim, não há outro gênero de não ficção que vá tão fundo em direção às raízes de uma experiência pessoal — todo o drama, o sofrimento, o humor e o inesperado da vida. Os livros de que guardo as mais vívidas lembranças de quando os li pela primeira vez tendem a ser memórias: obras como Out of Egypt [Fora do Egito], de André Aciman, Exiles [Exílios], de Michael J. Arlen, Growing Up [Crescendo], de Russell Baker, Fierce Attachments [Fortes vínculos], de Vivian Gornick, A Drinking Life [Uma vida na bebida], de Pete Hamill, Act One [Primeiro ato], de Moss Hart, Run-Through [Ensaio geral], de John Houseman, The Liar’s Club [O clube dos mentirosos], de Mary Karr, As cinzas de Angela [Angela’s Ashes], de Frank McCourt, Fala, memória [Speak, Memory], de Vladimir Nabokov, A Cab at the Door [Um táxi na porta], de V. S. Pritchett, One Writer’s Beginnings [Os primeiros passos de um escritor], de Eudora Welty, e Growing [Crescendo], de Leonard Woolf.

O que lhes confere força é a delimitação do foco. Ao contrário da autobiografia, que se estende por uma vida inteira, as memórias tomam como pressuposto a vida e ignoram a maior parte dela. O escritor de memórias nos leva de volta a algum recanto de seu passado que tenha sido extraordinariamente intenso — a infância, por exemplo — ou que tenha sido moldado pela guerra ou por algum outro tipo de convulsão social. Growing Up, de Baker, é uma caixa dentro de uma caixa; a história da formação de um menino dentro da história de uma família atingida pela Depressão; ela extrai a sua força desse contexto histórico preciso. Fala, memória, de Nabokov, as mais elegantes memórias que conheço, evoca uma infância dourada sob o regime czarista em São Petersburgo, um mundo povoado por tutores particulares e casas de veraneio que a Revolução Russa acabaria por destruir para sempre. É um ato de escrita que se limita a um único lugar e a um único momento. A Cab at the Door, de Pritchett, recorda uma infância do tipo dickensiana; seu penoso período de aprendizado no comércio londrino de couro parece pertencer ao século 19. E, no entanto, Pritchett o descreve sem autocompaixão e até mesmo em tom divertido. Constatamos que essa infância foi inseparavelmente ligada ao momento, ao país e à classe social em que ele nasceu, além de ser, organicamente, parte integrante do grande escritor que ele se tornou.

Portanto, quando for redigir memórias, pense de modo delimitado. Memórias não são um resumo de uma vida; são uma janela para uma vida, assim como uma fotografia, em sua composição seletiva. Embora possa parecer uma rememoração casual e até aleatória de eventos passados, não se trata disso, e sim de uma construção deliberada. Thoreau redigiu sete versões diferentes de Walden ao longo de oito anos; nenhum outro livro americano de memórias foi mais cuidadosamente construído do que esse. Para escrever boas memórias, você precisa ser o editor de sua própria vida, trocando um derramamento desleixado de meias recordações por uma narrativa estruturada, com ideias organizadas. Memórias são a arte de inventar a verdade.

Um dos segredos dessa arte é o detalhe. Qualquer tipo de detalhe serve — um som, um aroma ou o título de uma canção —, desde que desempenhe um papel na estruturação da parcela de sua vida que você escolheu para esmiuçar. Um som, por exemplo. Veja como Eudora Welty abre One Writer’s Beginnings, um livro enganosamente curto, recheado de ricas lembranças:

Na casa da rua North Congress, em Jackson, Mississippi, onde nasci, a mais velha de três crianças, em 1909, crescemos ao som dos relógios. Havia na entrada um relógio antigo de parede que se fazia ouvir na sala de estar, na sala de jantar, na cozinha, na despensa e na caixa de ressonância que era o poço da escada. Durante a noite, o som chegava até os nossos ouvidos; às vezes, até mesmo quando dormíamos na varanda, a chegada da meia-noite nos fazia despertar. No quarto de meus pais, havia um relógio menor, que o ecoava. Embora o relógio da cozinha não fizesse sons, apenas marcando a hora, o da sala de jantar era um cuco com pesos ao final de duas longas correntes, em uma das quais meu irmão caçula, depois de trepar numa cadeira e subir na cristaleira, conseguiu pendurar por alguns instantes o gato. Não sei se a família de meu pai, proveniente de Ohio e cujos primeiros Welty, três irmãos, vieram da Suíça para os Estados Unidos no século 18, tinha alguma coisa a ver com isso, mas todos nós fomos muito ligados ao tempo ao longo de toda a nossa vida. Isso foi bom, pelo menos, para a futura autora de ficção aprender tão esmiuçadamente, e quase antes de qualquer outra coisa, sobre a cronologia. Foi uma das várias boas coisas que aprendi sem querer; estaria sempre à minha disposição quando eu precisasse.

Meu pai gostava de todos os tipos de equipamentos úteis para ensinar e para gerar fascinação nas pessoas. O lugar onde ele guardava coisas era uma gaveta na “mesa da biblioteca”, sobre a qual, em cima de seus mapas dobrados, repousava um telescópio com tubo de bronze, usado para ver a Lua e a Ursa Maior depois do jantar em nosso jardim da frente da casa e para acompanhar eclipses. Havia uma Kodak portátil que usávamos no Natal, nos aniversários e nas viagens. No fundo da gaveta, havia uma lente de aumento, um caleidoscópio e um giroscópio guardado em uma caixa de tarlatana preta, que ele fazia dançar para nós em um barbante bem esticado. Ele também se suprira de um conjunto de anéis metálicos, aros entrelaçados e chaves que formavam um emaranhado que nenhum de nós, mesmo depois de ele mostrar pacientemente como se fazia, conseguia desmontar; ele tinha uma paixão quase infantil por engenhocas.

A certa altura, acrescentou-se à parede da sala de jantar um barômetro, do qual, na verdade, não tínhamos nenhuma necessidade. Meu pai tinha o olho do menino do interior para ler o tempo e o céu. De manhã, a primeira coisa que ele fazia era sair e, parado nos degraus da frente da casa, dar uma olhadinha e aspirar o ar. Era um notável profeta do tempo.

“Bem, eu não sou”, diria minha mãe, com uma grande autossatisfação.

Desenvolvi, então, uma forte sensibilidade meteorológica. Muitos anos depois, ao escrever histórias, as condições atmosféricas ocuparam desde o início um papel decisivo. Perturbações climáticas e os sentimentos íntimos gerados por essas agitações incertas se conectavam de uma forma dramática.

Observe quanta coisa ficamos sabendo logo de cara a respeito dos primeiros anos de Eudora Welty — o tipo de casa onde ela nasceu, o tipo de homem que seu pai era. Ela nos convida a entrar na sua vida de menina no Mississippi com o som dos relógios que se espalhava por toda a casa e até mesmo do lado de fora, na varanda.

Para Alfred Kazin, os cheiros são o fio condutor que ele segue para retornar à sua infância em Brownsville, no Brooklyn. De meu primeiro contato com A Walker in the City [Um caminhante na cidade], de Kazin, muito tempo atrás, tenho uma memória sensorial. O trecho a seguir não é apenas um bom exemplo de como escrever com o nariz; ele mostra como a memória é alimentada pela habilidade do autor em dar um sentido a um local — o que faz do seu bairro e de sua herança algo peculiar e diferenciado:

O que eu mais gostava nas sextas-feiras à noite era da escuridão e do silêncio das ruas, como se em preparação para um dia de descanso e de culto que os judeus acolhiam “como uma noiva” — aquele dia em que até tocar em dinheiro era proibido, assim como fazer qualquer trabalho, viagem, tarefas domésticas, mesmo acender ou apagar as luzes. Os judeus tinham encontrado um caminho para o tranquilo centro ancestral de seu coração atormentado. Eu esperava as ruas escurecerem nas sextas-feiras como outras crianças esperavam pela chegada das luzes do Natal... Quando voltava para casa depois das três, o aroma suave de um bolo de café assando no forno e a imagem de minha mãe esfregando o piso de linóleo da sala de jantar enchiam-me de uma ternura tamanha que parecia que os meus sentidos se expandiam para acalentar cada um dos objetos da nossa casa [...].

O grande momento, para mim, ocorria às seis horas, quando meu pai retornava do trabalho com suas roupas cheirando levemente a aguarrás e goma-laca, com alguns respingos de tinta brilhando no queixo. No bolso da capa que pendurava na entrada escura que dava para a cozinha, ele sempre deixava um exemplar dobrado e amassado do World, de Nova York; então, tudo aquilo que acenava para mim do outro hemisfério do meu cérebro além do East River se punha em movimento com aquele cheiro de tinta fresca e a imagem daquele globo na primeira página. Era um jornal que eu associava à ponte do Brooklyn. Eles produziam o World sob o domo verde de Park Row, que tinha vista para a ponte; o ar fresco e salgado da baía de Nova York se prolongava no cheiro de tinta e no exemplar pegajoso naquela entrada. Sentia que meu pai, com seu exemplar diário do World, trazia o mundo lá de fora para dentro da nossa casa.

Kazin acabaria finalmente por atravessar a ponte do Brooklyn para se tornar o decano dos críticos literários americanos. Mas o gênero literário que sempre esteve no centro de sua vida não é o que normalmente se chama de literatura: o romance, o conto ou o poema. São as memórias, ou o que ele denomina “história pessoal” — especificamente, aqueles “clássicos americanos pessoais” que ele descobriu ainda menino, como Specimen Days, o diário da Guerra Civil de Walt Whitman, assim como o seu Folhas da relva, o Walden de Thoreau e, em especial, os seus diários, e The Education of Henry Adams. O que mais entusiasmava Kazin era que Whitman, Thoreau e Adams se inscreveram na paisagem da literatura americana ousando utilizar as formas mais íntimas — diários, cartas, memórias — e que, portanto, ele poderia fazer essa mesma “amorosa conexão” com os Estados Unidos escrevendo histórias pessoais e, assim, se colocando, como filho de judeus russos, na mesma paisagem.

Você pode usar sua história pessoal para atravessar a sua ponte do Brooklyn. Memórias são um gênero perfeito para captar o que significa ser um recém-chegado aos Estados Unidos, e cada filho ou filha de imigrantes traz de sua cultura uma voz diferente. O trecho a seguir, de “Back to Bachimba” [De volta a Bachimba], de Enrique Hank Lopez, é característico do poder de atração exercido por um passado que se abandonou, por um país que ficou para trás, o que confere a esse gênero muito de sua emoção:

Sou um pocho de Bachimba, um pequeno vilarejo mexicano do estado de Chihuahua, onde meu pai lutou ao lado do exército de Pancho Villa. Ele foi, na verdade, o único civil no exército de Villa.

Pocho é um termo usado normalmente de modo pejorativo no México (para defini-lo sinteticamente: pocho é um mexicano bobalhão que quer passar por um gringo filhodaputa), mas eu o utilizo em um sentido muito especial. Para mim, essa palavra acabou adquirindo o significado de mexicano “desenraizado”, e é isso o que eu tenho sido em toda a minha vida. Apesar de ter sido criado e educado nos Estados Unidos, nunca me senti inteiramente americano e, quando estou no México, às vezes me sinto como um gringo deslocado, com um nome curiosamente mexicano — Enrique Preciliano Lopez y Martinez de Sepulveda de Sapien. Pode-se concluir, então, que eu sou um mexicano esquizocultural ou um americano esquizoide aculturado.

Seja como for, a “esquizofrenia” começou muito tempo atrás, quando meu pai e muitos outros homens das forças de Pancho Villa cruzaram a fronteira para escapar dos federales, que então se aproximavam e que, ao final, acabariam por derrotar Villa. Viajando pelas planícies do deserto quente em uma carroça sem teto, minha mãe e eu nos juntamos ao meu pai em El Paso, Texas, poucos dias depois da sua fuga apressada. Com o número crescente de villistas que tomavam conta de El Paso todos os dias, ficou claro que o emprego seria escasso e incerto; meus pais, então, empacotaram os nossos poucos pertences e pegamos o primeiro ônibus disponível para Denver. Meu pai teria preferido se mudar para Chicago, pois a cidade tinha um nome que soava bastante mexicano, mas o pouco dinheiro poupado por minha mãe era suficiente para comprar bilhetes apenas para o Colorado.

Ali, passamos a viver em um gueto com uma população de falantes do espanhol que nomeavam a si próprios de hispano-americanos e se sentiam melindrados com a súbita chegada de seus irmãos do México, os quais chamavam, com pouco-caso, de surumatos (gíria usada para designar os sulistas)... Nós, os surumatos, nos amontoamos em uma subzona dentro do grande gueto, e foi ali que fiquei sabendo, de forma dolorida, que meu pai tinha sido o único civil do exército de Pancho Villa. Meus amigos, em sua maioria, eram filhos de capitão, coronel, major e até mesmo general, embora alguns pais fossem, confessadamente, meros sargentos ou cabos... Minha tristeza se acentuava pelo fato de que as façanhas de Pancho Villa eram um assunto constante nas conversas em nossa casa. Toda a minha infância foi assombrada por sua presença. Em nossa mesa de jantar, quase todas as noites, ouvíamos relatos, repetidos à exaustão, dessa ou daquela batalha, dessa ou daquela estratégia, ou sobre alguma grande ação à maneira de Robin Hood executada pelo centauro del norte...

Para aprofundar em nós o sentido de villismo, meus pais também nos ensinavam “Adelita” e “Se llevaron el cañon para Bachimba” [“Levaram o canhão para Bachimba”], as duas canções mais famosas da Revolução Mexicana. Cerca de vinte anos depois (durante minha passagem pela Harvard Law School), eu me peguei cantarolando sem parar “se llevaron el cañón para Bachimba, para Bachimba, para Bachimba”, enquanto passeava às margens do rio Charles. Isso é tudo o que consigo lembrar dessa pungente canção rebelde. Embora tivesse nascido lá, eu sempre havia encarado “Bachimba” como algo fictício, artificial, como um nome inventado por Lewis Carroll. De modo que, oito anos atrás, quando voltei ao México pela primeira vez, fiquei literalmente estupefato ao chegar a um cruzamento no sul de Chihuahua e ver uma velha placa com a indicação “Bachimba 18 km”. Então isso realmente existe — eu pensei, exaltado —, Bachimba é uma cidade de verdade! Chacoalhando ao longo da estrada estreita e mal pavimentada, acelerei o motor do carro e zarpei para a cidade que eu vinha cantando desde a infância.

Para Maxine Hong Kingston, filha de imigrantes chineses que vivem em Stockton, na Califórnia, a timidez e a perplexidade foram fundamentais na experiência de uma criança que se iniciava na escola em uma terra estranha. Neste trecho, apropriadamente intitulado “Encontrando uma voz”, de seu livro The Woman Warrior [A guerreira], observe com que vivacidade Kingston recompõe tanto os fatos quanto os sentimentos daqueles traumáticos anos iniciais nos Estados Unidos:

Quando entrei para o jardim de infância e precisei falar em inglês pela primeira vez, fiquei muda. Uma estupidez — uma vergonha — ainda hoje faz a minha voz falhar, mesmo quando quero dizer simplesmente “olá” ou fazer alguma pergunta na recepção de um hotel ou pedir orientações a um motorista de ônibus. Fico petrificada...

Durante o primeiro ano de absoluta mudez, eu não falava com ninguém na escola, nem mesmo perguntava se podia ir ao banheiro, e fui reprovada no jardim de infância. Minha irmã também ficou três anos sem falar, calada no recreio, calada na hora do almoço. Havia outras meninas chinesas sempre caladas que não eram da nossa família, mas a maior parte delas superou isso bem antes de nós. Eu gostava de ficar quieta. Inicialmente, não me ocorria que eu deveria falar e passar de ano no jardim de infância. Eu falava em casa e com uma ou duas crianças chinesas na minha classe. Fazia pantomimas e até mesmo algumas brincadeiras. Eu bebia em um pires de brinquedo quando a água transbordava para fora do copo, e todo mundo ria, olhando para mim, e eu então repetia aquilo. Eu não sabia que os americanos nunca bebiam diretamente do pires...

Quando descobri que eu precisava falar, a escola se tornou um tormento, o silêncio se tornou um tormento. Eu simplesmente não falava e me sentia mal toda vez que não falava. No primeiro ano, porém, tive de ler em voz alta e ouvi aquela espécie de sussurro, misturado com alguns chiados, que saía da minha garganta. “Mais alto”, dizia o professor, o que fazia minha voz se retrair novamente. As outras meninas chinesas também não falavam, o que me levou a acreditar que o silêncio tinha alguma coisa a ver com ser uma menina chinesa.

Os sussurros da criança se transformaram, hoje, na voz de uma escritora adulta que se dirige a nós com sabedoria e humor, e sou muito grato por ter uma voz como essa entre nós. Somente uma mulher sino-americana poderia me fazer sentir como é ser uma menina chinesa enfiada em um jardim de infância nos Estados Unidos e da qual se espera que seja uma garota americana. Memórias são uma forma de dar sentido às diferenças culturais que podem ser um fato doloroso no cotidiano dos Estados Unidos da atualidade. Observe a busca de identidade descrita por Lewis P. Johnson no ensaio “For My Indian Daughter” [Para minha filha indígena]. Johnson, criado em Michigan, é bisneto do último chefe conhecido dos Potawatomi Ottawas:

Certo dia, quando eu tinha 35 anos ou perto disso, ouvi falar de um encontro indígena. Meu pai costumava frequentar esse tipo de reunião e, assim, com uma grande curiosidade e uma estranha alegria por poder conhecer uma parte de minha ascendência, decidi que o certo a fazer para o grande evento era pedir a um amigo que fizesse com sua forja uma lança. O aço era fino, azulado e irisado. As penas, numa das extremidades, eram brilhantes e exuberantes.

Em um terreno empoeirado de exposições no sul de Indiana, encontramo-nos com pessoas vestidas de indígena. Fiquei sabendo que eram “hobbistas”, ou seja, que se fantasiavam de indígena no fim de semana como uma forma de hobby, de passatempo. Senti-me ridículo com a minha lança e fui embora.

Muitos anos se passaram até que consegui falar com algum humor sobre esse fim de semana embaraçoso. Mas, de certo modo, apesar de todo o marasmo, aqueles dias foram um despertar para mim. Percebi que eu não sabia quem era. Eu não tinha um nome indígena. Não falava a língua indígena. Não conhecia os costumes indígenas. Lembrava-me vagamente da palavra indígena para cão, mas, ainda assim, em sua forma abreviada, kahgee, e não por completo, muhkahagee, que eu aprenderia mais tarde. De forma ainda mais nebulosa, lembrava-me de uma cerimônia de batismo (o meu próprio). Lembrava-me de ver pernas dançando ao meu redor e poeira. Onde tinha sido isso? Quem eu tinha sido? “Suwaukquat”, disse minha mãe quando lhe perguntei, “onde a árvore começa a crescer”.

Estávamos em 1968, e eu não era o único indígena do país que sentia a necessidade de se lembrar de sua origem. Havia outros. Eles organizavam encontros autênticos, e finalmente consegui descobrir um deles. Juntos, buscávamos pelo nosso passado, uma busca que, para mim, culminou com a Longest Walk, uma marcha realizada em Washington em 1978. Talvez por saber agora o que significa ser indígena, fico surpreso ao ver que outros não sabem. É claro que não sobraram muitos de nós. As chances de uma pessoa normal encontrar um indígena normal no decorrer de uma vida normal são muito pequenas.

O ingrediente essencial nas memórias são, evidentemente, as pessoas. Sons, cheiros, canções e varandas só vão levá-lo até certo ponto. No fim das contas, você precisará congregar todas as mulheres, homens e crianças que cruzaram de forma significativa a sua vida. O que as torna memoráveis — que tipo de pensamento, quais hábitos malucos? Uma típica ave rara do amplo aviário das memórias é o pai de John Mortimer, um advogado cego, rememorado pelo filho em Clinging to the Wreckage [Fiel aos escombros], um livro de memórias que realiza a proeza de ser ao mesmo tempo terno e engraçado. Mortimer, ele próprio também advogado, autor prolífico e dramaturgo, mais conhecido pela [série de tv] Rumpole of the Bailey, escreve que, depois de ficar cego, o pai “insistiu em continuar advogando como se nada tivesse acontecido”, e que sua mãe se tornou, então, a pessoa que lia para ele os documentos e fazia anotações sobre seus casos:

Ela se tornou uma figura bastante conhecida nos fóruns, tão conhecida quanto os oficiais de Justiça ou os juízes, conduzindo meu pai de um tribunal para outro, sorrindo pacientemente quando ele batia sua bengala de ratã malhado e insultava aos berros a ela ou ao promotor, ou aos dois ao mesmo tempo. Desde o começo da guerra, quando se estabeleceram definitivamente no país, minha mãe conduzia meu pai todos os dias ao longo de 22 quilômetros até a estação Henley, onde embarcavam no trem. Refestelado em uma poltrona de canto, vestido como Winston Churchill, com paletó preto e calça listrada, gravata-borboleta encaixada em um colarinho de ponta virada, bota e polainas, meu pai pedia que ela lesse para ele, em voz alta e clara, os depoimentos do caso de divórcio de que cuidaria naquele dia. Quando o trem fazia uma parada perto de Maidenhead, o vagão de primeira classe silenciava enquanto minha mãe lia os relatórios dos detetives particulares a respeito de comportamentos adúlteros que eles haviam observado com todos os detalhes. Se ela baixava a voz ao ler descrições sobre roupas de cama manchadas, roupas masculinas e femininas espalhadas pelo chão, ou fornicações dentro de automóveis, meu pai gritava “Fale alto, Kath!”, e os demais passageiros se deleitavam com mais um capítulo eletrizante.

Espera-se, no entanto, que o personagem mais interessante, em um texto de memórias, seja justamente a pessoa que as escreve. O que esse homem ou essa mulher aprendeu dos altos e baixos da vida? Virginia Woolf recorreu avidamente a gêneros muito pessoais — memórias, diários, cartas —, com a finalidade de aclarar seus pensamentos e emoções. (Quantas vezes não começamos a escrever uma carta de forma descomprometida e só no terceiro parágrafo descobrimos ter algo que realmente queremos dizer para o nosso destinatário?) O que Virginia Woolf escreveu na intimidade ao longo de sua vida se tornou imensamente útil para outras mulheres às voltas com anjos e demônios similares aos dela. Em uma resenha de um livro de Woolf sobre sua infância, quando ela foi vítima de abuso sexual, Kennedy Fraser reconhece essa dívida e começa com o relato de uma lembrança de sua própria infância que captura a nossa atenção por sua honestidade e vulnerabilidade:

Houve um momento em minha vida em que tudo parecia tão doloroso para mim que ler sobre a vida de outras mulheres escritoras era uma das poucas coisas que podiam ajudar. Eu estava infeliz e me envergonhava disso; minha vida era só frustração. Durante vários anos, depois de passar dos trinta, eu me sentava na poltrona lendo livros sobre aquelas outras vidas. Às vezes, ao chegar ao final, eu voltava a me sentar e relia o livro todo, desde o começo. Recordo a incrível intensidade daqueles momentos, mas também uma espécie de dissimulação que aquilo implicava — como se eu temesse que alguém pudesse olhar através da janela e me flagrar naquele ato. Até hoje, sinto que devia fingir estar lendo apenas a ficção ou a poesia daquelas mulheres — sua vida da maneira como elas haviam escolhido apresentá-las, por meio da alquimia da arte. Mas isso seria uma mentira. Eu gostava mesmo era dos textos pessoais — diários e cartas, autobiografias e biografias, sempre que me parecessem dizer a verdade. Eu me sentia muito só, voltada para dentro de mim, excluída. Eu precisava de todo esse coro murmurante, dessa sequência de histórias sobre a vida real, para me estimular. Essas mulheres escritoras, muitas delas já falecidas, eram como mães e irmãs para mim; elas, mais do que a minha própria família, pareciam me estender a mão. Eu tinha me mudado para Nova York quando era jovem, como muitos fazem, para me inventar. E, como muitas pessoas modernas — em especial, mulheres modernas —, eu havia sido catapultada para fora do meu contexto [...]. O êxito [das escritoras] me dava esperança, é claro, embora o que mais me agradasse fossem as passagens mais desesperadoras. Eu estava em busca de orientação, caçando pistas. Encantava-me, especialmente, com as coisas secretas, escandalosas, dessas mulheres — as dores: os abortos e os casamentos desiguais, os comprimidos que tomavam, quanto bebiam. O que as levava a viverem como lésbicas ou se apaixonarem por homens homossexuais, ou por homens casados?

O melhor presente que você tem para oferecer ao escrever uma história pessoal é você mesmo. Permita-se escrever sobre você e divirta-se ao fazê-lo.


23. Em francês, “quarenta homens ou oito cavalos”. (n.t.)