O som da sua voz
Escrevi um livro sobre beisebol e um sobre jazz. Mas nunca me ocorreu escrever o primeiro em um inglês esportivo nem o segundo em um inglês jazzístico. Procurei escrever os dois no melhor inglês que eu consegui, com o meu estilo de sempre. Embora os livros fossem bem diferentes no tema abordado, eu queria que os leitores soubessem que estavam tendo contato com uma mesma pessoa. Eram o meu livro sobre beisebol e o meu livro sobre jazz. Outros autores escreveriam os livros deles. O produto que vendo como escritor, seja qual for o tema sobre o qual escrevo, sou eu. E o seu produto é você. Não altere a sua voz para que ela se ajuste ao assunto. Desenvolva uma voz que os leitores reconheçam ao ouvi-la na página, uma voz que seja agradável não apenas no aspecto musical, mas também ao evitar sons que empobreceriam o seu espírito: a facilidade, a soberba e os clichês.
Comecemos com a facilidade.
Há um tipo de escrita que soa de modo tão suave que parece que o autor está falando com você. E. B. White foi provavelmente o melhor nesse terreno, embora muitos outros mestres do estilo — James Thurber, V. S. Pritchett, Lewis Thomas — me venham à mente. Não sou imparcial nesse caso, pois se trata de um estilo em que eu sempre procurei escrever. Há uma ideia muito comum de que seria um estilo que não exige muito esforço. No entanto, é exatamente o contrário: esse estilo sem grande esforço só é alcançado com muito trabalho e um refinamento constante. Os parafusos da gramática e da sintaxe estão bem ajustados, e o idioma é tão bom quanto possível.
Leia a seguir a abertura de um texto típico de E. B. White:
Em meados de setembro passei vários dias e noites na companhia de um porco doente e me senti impelido a contar sobre esse período, sobretudo depois que o porco finalmente morreu e eu continuei vivo; se as coisas tivessem acontecido ao contrário, não haveria ninguém que pudesse contá-las.
É um fraseado tão prazeroso que é fácil nos imaginarmos sentados na varanda da casa de White no Maine. Ele está numa cadeira de balanço, fumando um cachimbo, e as palavras simplesmente fluem com sua voz de contador de histórias. Mas, dê outra olhada no texto. Nada nele é acidental. Trata-se de um ato disciplinado de escrita. A gramática é formal, as palavras são claras e precisas e o ritmo é de poesia. Eis o chamado estilo sem esforço no seu auge: um gesto metódico de composição que nos desarma com seu ardor proposital. O autor soa confiante; não está tentando se congraçar com o leitor.
Escritores inexperientes tropeçam aí. Eles acham que, para criar um efeito de informalidade, basta simplesmente “ser gente como a gente” — como os velhos e bons Bob e Betty batendo papo na cerca do quintal. Querem ser “chapas” do leitor. Têm tanta avidez em não parecer formais que nem sequer se esforçam para escrever corretamente. O que produzem, ao final, é um estilo fácil.
Como um escritor fácil narraria a vigília de E. B. White ao lado do porco? Soaria mais ou menos assim:
Você já teve de ser babá de um leitão doente? É um troço esquisito que pode te dar uma tremenda insônia. Fiz isso durante três noites em setembro passado, e minha cara-metade achou que eu estava ficando louco (É brincadeira, Pamela!). Cara, não dava para segurar uma coisa dessas. Porque, veja só, o porco morreu do meu lado. Para ser franco, eu também não me sentia lá muito bem e, por pouco, não foi este que vos escreve que bateu as botas no lugar do porco. Se isso tivesse acontecido, pode apostar todas as fichas que Mr. Leitão nunca escreveria um livro a respeito.
Não é preciso expor todos os motivos pelos quais essa coisa é tão terrível. Ela é grosseira. Banal. É verborrágica. Desdenha do idioma. É condescendente. (Interrompo a leitura de qualquer autor que escreva “veja só”.) O mais lamentável no estilo fácil, porém, é que ele é mais difícil de ser lido do que um texto bem escrito. Na tentativa do autor de facilitar a vida do leitor, ele acaba por encher o caminho de obstáculos: gírias banais, frases mal construídas, filosofia barata. O estilo de E. B. White é muito mais fácil de ler. Ele sabe que, se as ferramentas da gramática sobreviveram a tantos séculos, não foi por acaso; elas atendem àquilo de que o leitor precisa e inconscientemente deseja. Ninguém nunca parou de ler E. B. White ou V. S. Pritchett por eles escreverem muito bem. Mas o leitor deixará de ler seus textos se sentir que você está tentando se rebaixar ao nível dele, leitor. Ninguém quer ser tratado com condescendência.
Escreva respeitando o idioma ao máximo — e os leitores também. Se for tomado por um impulso de escrever em estilo fácil, leia depois em voz alta o que escreveu e veja se gosta do som da sua voz.
Encontrar uma voz que agradará aos seus leitores é, em grande parte, uma questão de gosto. Dizer isso não ajuda muito — o bom gosto é uma qualidade tão intangível que não se consegue nem mesmo defini-lo. Mas nós sabemos quando estamos diante dele. Uma mulher com bom gosto para se vestir nos encanta por sua habilidade em combinar roupas de uma maneira não apenas surpreendente e cheia de estilo mas também perfeita. Ela sabe o que funciona e o que não funciona.
Para escritores e outros artistas, um componente essencial do gosto é saber o que não fazer. Dois pianistas de jazz podem ter o mesmo virtuosismo. O que tem bom gosto fará com que cada nota cumpra uma função útil para contar a sua própria história; o que não tem bom gosto vai nos enfiar goela abaixo ondulações e outros ornamentos desnecessários. Pintores de bom gosto confiarão em seus olhos para lhes dizer aquilo que precisa e aquilo que não precisa estar na tela; um pintor que não tenha bom gosto nos oferecerá uma paisagem graciosa demais, entulhada demais ou vistosa demais — enfim, com algum tipo de excesso. Um designer gráfico de bom gosto sabe que menos é mais: que o design deve estar a serviço da palavra escrita. Um designer que não tenha bom gosto vai sufocar o texto com cores de fundo, espirais e pirotecnias decorativas.
Tenho consciência de que tento estabelecer definições sobre uma questão que é subjetiva; um objeto belo para uma pessoa pode ser cafona para outra. O gosto pode também se modificar de uma década para outra — o que era charmoso ontem é ridicularizado hoje como refugo, mas voltará a estar na moda amanhã, sendo declarado, de novo, charmoso. Então, por que, mesmo assim, levanto a questão? É apenas para lembrar a você que ela existe. O gosto é uma corrente invisível que atravessa a escrita, e você precisa estar ciente disso.
Algumas vezes, cabe dizer, ela é visível. Toda forma de arte tem um núcleo de verdades que sobrevive aos caprichos do tempo. Deve haver algo inerentemente agradável nas dimensões do Partenon; o homem ocidental continua a permitir que os gregos de 2 mil anos atrás desenhem os seus edifícios públicos, como logo percebe qualquer pessoa que dê uma volta por Washington. As fugas de Bach possuem uma elegância atemporal enraizada nas leis atemporais da matemática.
Teria a escrita algumas referências permanentes como essas? Não muitas; o texto é a expressão da individualidade da pessoa, e nós sabemos o que apreciamos só quando ele se materializa diante de nós. Mais uma vez, porém, pode-se ganhar muito sabendo o que não usar. Os clichês, por exemplo. Se um escritor ignora alegremente que os clichês equivalem ao beijo da morte, se ele, em última análise, não faz o menor esforço para evitá-los, podemos inferir que não entendeu o que dá vida a um texto. Diante da escolha entre a novidade e o banal, ele opta sempre pelo banal. Tem a voz de um escrevinhador.
Não é que seja fácil acabar com os clichês. Eles estão por toda parte, como amigos próximos querendo ajudar, sempre prontos para expressar ideias complexas pelo caminho fácil da metáfora. É assim que se transformam em clichês, e até mesmo autores zelosos utilizam alguns em seu primeiro rascunho. Mas, depois disso, sempre temos a oportunidade de eliminá-los. Clichês são uma das coisas em que você tem de prestar atenção ao reescrever e ler os seus sucessivos rascunhos em voz alta. Observe como eles soam acusatórios, condenando-o por ter se contentado com o uso de velhos chavões em vez de se esforçar para substituí-los por frases vivas criadas por você mesmo. Os clichês são inimigos do bom gosto.
Amplie esse ponto referente aos clichês para o uso mais amplo que você faz da língua. Aqui também o frescor é essencial. O bom gosto escolhe palavras que contenham surpresa, força e precisão. A falta de gosto recai no vernáculo desleixado das notas que se leem em publicações de ex-alunos — um universo em que as pessoas que ocupam funções ou cargos elevados são chamadas de figurões ou poderosos. Mas o que há de errado com “figurões”? Nada — e, ao mesmo tempo, tudo. O bom gosto sabe que é melhor chamar as pessoas que têm cargos ou funções elevadas pelo que elas são: executivos, diretores, presidentes, gerentes. Já o não gosto procura o sinônimo repisado, que tem a desvantagem adicional de ser impreciso; quais diretores de empresa são, exatamente, os figurões? O não gosto usa “enésimo”. E “zilhões”. O não gosto utiliza “e ponto final”: “Ela disse que não queria ouvir mais nada sobre isso. E ponto final”.
O bom gosto, enfim, é uma mistura de qualidades que vão além da análise racional: um ouvido capaz de ouvir a diferença entre uma frase claudicante e uma frase graciosa, uma intuição que sabe quando uma expressão informal ou vernacular introduzida em uma frase formal não só está soando corretamente como também parece ser a opção inevitável. (E. B. White era um mestre nesse tipo de balanceamento.) Isso significa que o gosto pode ser aprendido? Sim e não. Ter um gosto perfeito, assim como fazer um arremesso perfeito, é uma dádiva de Deus. Mas um pouco pode ser adquirido. Um truque, para isso, é estudar autores que têm bom gosto.
Nunca hesite em imitar outro autor. A imitação é parte do processo criativo para qualquer pessoa que está se iniciando em uma arte ou ofício. Bach e Picasso não nasceram Bach e Picasso; eles precisaram de modelos. Isso é especialmente verdadeiro na escrita. Localize os melhores escritores no campo que mais lhe interessa e leia os textos deles em voz alta. Guarde a sua voz e o seu gosto, a atitude deles para com a língua, dentro de seus ouvidos. Não tema que, ao imitar a voz deles, perderá a voz e a identidade próprias. Logo você acabará por se despir dessas camadas, tornando-se quem você deve se tornar.
Ao ler outros autores, você também se conectará com uma longa tradição que irá enriquecê-lo. Às vezes, você poderá encontrar um modo de expressão ou de transmissão de experiências que dará à sua escrita uma profundidade que ela não conseguiria atingir por conta própria. Deixe-me ilustrar o que quero dizer fazendo um pequeno desvio.
Não costumo ler discursos feitos por autoridades para indicar dias importantes do ano como importantes dias do ano. Mas, em 1976, quando eu dava aulas em Yale, a governadora de Connecticut, Ella Grasso, teve a interessante ideia de reeditar o discurso do Dia de Ação de Graças escrito quarenta anos antes pelo governador Wilbur Cross e que ela chamou de “uma obra-prima da eloquência”. Frequentemente me pergunto se a eloquência desapareceu da vida americana ou se ainda a consideramos um objetivo pelo qual vale a pena se esforçar. Então, estudei o texto do governador Cross para ver de que forma ele teria sobrevivido à passagem do tempo, esse juiz cruel da retórica das gerações passadas. Fiquei encantado ao descobrir que eu concordava com a governadora Grasso. Era um texto escrito por um mestre:
Em uma época tão imprevisível como esta, de mudança de estação, quando as folhas vigorosas dos carvalhos farfalham com o vento e o frio espalha pela atmosfera um aroma penetrante, quando o sol se põe mais cedo e as noites agradáveis se estendem até a cauda de Órion, nossa gente se reúne de bom grado para louvar o Criador e Salvador, que nos conduziu por um caminho que não conhecíamos rumo ao final de mais um ano. Conforme os nossos costumes, registro esta quinta-feira, 26 de novembro, como um dia público de Ação de Graças pelas bênçãos que têm sido o nosso dote comum e que fizeram do nosso amado estado uma das regiões mais favorecidas do mundo — por todos os seus bens materiais: a produção do solo que nos alimentou e a rica produção de todos os tipos de trabalho que sustentou as nossas vidas — e por todas as coisas, tão caras para nós quanto é a respiração para o corpo, que inspiram a fé dos homens na humanidade, que alimentam e fortalecem as suas palavras e os seus gestos; pela honra acima de qualquer valor; pela inabalável coragem e dedicação na longa, longa busca pela verdade; pela liberdade e pela justiça garantidas livremente por todos e para todos e, portanto, tão livremente vividas; e pela glória e misericórdia supremas da paz em nossa terra — guardemos humildemente no coração todas essas bênçãos, como guardamos, mais uma vez, com ritos festivos e solenes, a nossa festa da colheita.
A governadora Grasso acrescentou um postscriptum instando os cidadãos de Connecticut a “renovarem sua dedicação ao espírito de sacrifício e de comprometimento evocado pelos Peregrinos durante o seu primeiro inverno árduo no Novo Mundo”, e fiz uma nota mental para não esquecer de olhar para a constelação de Órion naquela noite. Senti-me feliz por ter sido lembrado de que vivia em uma das regiões mais favorecidas do planeta. Também fiquei feliz por ter sido lembrado de que a paz não é a única glória suprema pela qual se deve agradecer. Também o é a língua quando utilizada para o bem comum de forma tão elegante. Vieram-me à mente as cadências de Jefferson, Lincoln, Churchill, Roosevelt e Adlai Stevenson (não as de Eisenhower, Nixon ou dos dois Bush).
Coloquei esse discurso de Ação de Graças em um mural para que meus alunos pudessem apreciá-lo. A partir de seus comentários, percebi que vários deles acharam que eu estava brincando. Cientes da minha obsessão pela simplicidade, consideravam que eu via a mensagem do governador Cross como um exemplo de texto excessivamente floreado.
Esse incidente gerou muitas dúvidas em minha cabeça. Teria eu exibido o texto de Wilbur Cross a uma geração que nunca havia sido exposta à nobreza da linguagem como um meio de se dirigir às massas? Eu não conseguia recordar nenhuma outra tentativa como essa desde o discurso de posse de John F. Kennedy em 1961. (Mario Cuomo e Jesse Jackson viriam a restaurar parcialmente a minha fé.) Essa era uma geração formada pela televisão, em que a imagem tem mais valor do que a palavra — em que a palavra, na verdade, é desvalorizada, usada apenas para jogar conversa fora, frequentemente mal utilizada e mal pronunciada. Era também uma geração educada pela música — canções e ritmos concebidos prioritariamente para serem ouvidos e sentidos. Com tanto barulho no ar, estaria alguma criança americana sendo treinada para escutar? Haveria alguém chamando a atenção para a grandiosidade de uma frase bem construída?
Minha outra pergunta dizia respeito a um mistério mais sutil: qual é a linha que separa a expressividade da altissonância? Por que nos sentimos exaltados diante das palavras de Wilbur Cross e ao mesmo tempo anestesiados pelos discursos da maioria dos políticos e autoridades públicas que nos acostumaram a sua oratória cheia de floreios e de rufar de tambores?
Uma parte da resposta nos remete de volta à questão do gosto. Um escritor com ouvido para a linguagem buscará um imaginário vivo e evitará frases banais. O escrevinhador, ao contrário, buscará os velhos clichês, achando que enriquecerá o seu pensamento com o uso de moeda corrente, que é algo, como ele diria, testado e aprovado. A outra parte da resposta reside na simplicidade. A escrita que desperta o leitor tende a ser constituída por palavras claras e fortes. Observe quantas palavras do governador são tudo menos vagas: folhas, vento, frio, ar, noite, caminho, bens materiais, solo, trabalho, respiração, corpo, coragem, justiça, paz, terra, ritos, colheita. São palavras familiares no melhor sentido do termo — elas captam o ritmo das estações e a rotina da vida. Observe também que todas elas são substantivos. Depois dos verbos, as suas melhores ferramentas são os substantivos concretos; eles ressoam com emoção.
Mas, essencialmente, a eloquência trafega em uma corrente mais profunda. Comove a partir daquilo que não é dito, deflagrando dentro de nós ecos de coisas que já sabemos a partir de nossas leituras, nossa religião ou nossa herança. A eloquência nos convida a investir uma parte de nós mesmos na transação. Não é por acaso que os discursos de Lincoln soavam como emanações da Bíblia do rei James; ele a conhecia quase de cor desde a infância e estava tão embebido de sua sonoridade que o seu inglês formal era mais elisabetano do que americano. O discurso de sua segunda posse reverberava frases e paráfrases bíblicas: “Pode parecer estranho que alguns homens se atrevam a pedir ajuda a um Deus justo para extrair seu pão do suor do rosto de outros homens, mas não devemos julgar para não sermos julgados”. A primeira metade da frase toma emprestada uma metáfora do Gênesis, a segunda metade reformula um célebre mandamento de Mateus, e “Deus justo” vem de Isaías.
Se esse discurso me toca mais do que qualquer outro documento americano, não é somente porque sei que Lincoln foi assassinado cinco semanas depois de pronunciá-lo ou por me comover com a imensa dor que culminou nesse seu apelo a uma reconciliação que não guardava rancor de ninguém e que exprimia afeição por todos. É também porque Lincoln traz de volta alguns dos mais antigos ensinamentos do homem ocidental sobre escravidão, clemência e julgamento. Suas palavras continham duras conotações para os homens e mulheres que o ouviam em 1865, formados, como ele, pela Bíblia. Mas, mesmo no século 21, é difícil não sentir uma ira quase arcaica para ser compreendida na ideia de Lincoln de que Deus poderia desejar que a Guerra Civil continuasse “até que se consuma toda a riqueza pilhada em 250 anos de labuta não recompensada dos escravizados e até que cada gota de sangue derramada com o chicote seja paga com outra vertida com a espada, como se disse 3 mil anos atrás, e ainda precisa ser dito, ‘as decisões do Senhor são verdadeiras e justas ao mesmo tempo’”.
O discurso do Dia de Ação de Graças de Wilbur Cross também faz eco com verdades que estão dentro de nós. Emocionamo-nos fortemente com mistérios como o da mudança das estações e a generosidade da terra. Quem nunca olhou com uma admiração reverente para Órion? Nesses processos democráticos de “longa busca pela verdade” e “pela liberdade e pela justiça garantidas livremente”, empenhamos partes das nossas próprias buscas pela verdade, aquilo que damos e aquilo que recebemos, em uma nação onde tantos direitos humanos foram conquistados e tantos outros ainda nos escapam. O governador Cross não roubou o nosso tempo explicando esses processos, e sou grato a ele por isso. Odeio imaginar de quantos clichês um orador rasteiro lançaria mão para nos falar muito mais — e nos nutrir muito menos.
Por isso, lembre-se dos costumes do passado ao contar a sua história. O que nos mobiliza nos textos com raízes regionais ou étnicas — a escrita do Sul, a escrita afro-americana, a escrita judaico-americana — é a sonoridade das vozes bem mais antigas do que a do narrador, falando em cadências extraordinariamente ricas. Toni Morrison, uma das mais eloquentes autoras negras, disse certa vez: “Lembro-me do linguajar das pessoas com as quais cresci. E a linguagem era tão importante para elas. Todo o seu poder estava ali. A sua graça, as suas metáforas. Uma parte dessa linguagem era muito formal e ligada à Bíblia, porque o costume é que, quando você tem alguma coisa importante para dizer, adote parábolas, caso tenha vindo da África, ou então um outro nível de linguagem. Eu queria usar a língua desse jeito, porque tinha a sensação de que um romance não seria negro apenas porque eu o escrevi, ou porque haveria nele personagens negros, ou porque falaria de coisas de negros. Era o estilo que contava. Aquilo tinha um estilo determinado. Era inevitável. Não saberia descrevê-lo, mas posso produzi-lo”.
Decida-se por aquilo que pareça incomparável na sua herança pessoal. Incorpore-o, e isso o ajudará a atingir a sua própria expressividade.