• Ivan Milazzotti
    Como escrever bem
    17-07-2025 19:15:01
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Prazer, medo e confiança

Quando garoto não almejava me tornar, ao crescer, um escritor, muito menos — meu Deus! — um autor. Eu queria ser jornalista, e o jornal em que desejava trabalhar era o New York Herald Tribune. Lia-o todas as manhãs e adorava a sensação de prazer que ele me proporcionava. Todas as pessoas que trabalhavam no jornal — editores, escritores, fotógrafos, diagramadores — viviam momentos maravilhosos. Os textos costumavam ter um toque a mais de graça, de humanidade, de humor — algum mimo que os escritores e editores gostavam de oferecer a seus leitores. Eu achava que eles produziam o jornal apenas para mim. A ideia que correspondia ao supremo sonho americano, no meu caso, era me tornar um desses editores ou escritores.

Esse sonho se tornou realidade quando voltei para casa depois da Segunda Guerra Mundial e consegui um emprego no Herald Tribune. Trazia comigo a crença de que o prazer é um atributo de valor imensurável para um escritor ou uma publicação e estava agora na mesma sala daqueles homens e mulheres que haviam incutido inicialmente em minha cabeça essa ideia. Os grandes repórteres escreviam com gosto e entusiasmo, e os grandes críticos e colunistas, como Virgil Thomson e Red Smith, escreviam com elegância e uma confiança jovial em suas opiniões. Na split page — que era como se chamava a primeira página do segundo caderno do jornal na época em que eles tinham apenas dois cadernos —, a coluna política de Walter Lippmann, o mais venerado dos grandes mestres americanos, saía acima da charge de H. T. Webster, criador de “The Timid Soul” [A alma tímida], que também era uma verdadeira instituição americana. Eu gostava da tranquilidade com que se publicavam dois materiais de gravidades tão distintas em uma mesma página. E não passava pela cabeça de ninguém a ideia de jogar Webster para a seção de quadrinhos. Eram dois gigantes, partes de uma mesma equação.

No meio dessas almas alegres, havia um repórter de assuntos cotidianos da cidade chamado John O’Reilly, que era admirado pela sua cobertura impassível de casos curiosos ocorridos com homens e animais, trabalhados de forma a tornar sério o mais esdrúxulo dos temas. Lembro-me do artigo que ele fazia todos os anos sobre uma taturana cujas listras marrons e pretas supostamente indicariam, conforme a largura de cada uma delas, se o inverno que se aproximava seria rigoroso ou suave. Todo outono, O’Reilly se dirigia ao Bear Mountain Park com o fotógrafo Nat Fein — mais conhecido pela cobertura que fez da despedida de Babe Ruth no Yankee Stadium e que lhe valeu um prêmio Pulitzer — para observar amostras de taturanas que cruzavam a estrada, e o seu artigo era escrito de forma sarcástica com um ar de seriedade pseudocientífica, trazendo as devidas previsões. O jornal sempre publicava esse texto no pé da primeira página, em três colunas, com a imagem de uma taturana, com suas listras não muito bem definidas. Na primavera, O’Reilly retomava o assunto para informar aos leitores se as taturanas tinham acertado nas previsões, e, caso isso não tivesse acontecido, ninguém culpava nem a ele nem a elas. O que importava era divertir um pouco as pessoas.

Desde então, transformei esse senso de prazer em meu lema como escritor e como editor. O ato de escrever é um trabalho tão solitário que sempre procuro formas de me manter animado. Se alguma coisa engraçada me ocorre durante a escrita, eu a introduzo no texto apenas para me divertir. Se a acho engraçada, imagino que outras pessoas também a acharão engraçada e, quando isso ocorre, sinto que foi um bom dia de trabalho. Não me incomoda que um certo número de leitores não ache aquilo divertido; sei que uma boa parcela da população é desprovida de senso de humor e não faz a menor ideia de que há pessoas no mundo trabalhando para entretê-la.

Quando dava aulas em Yale, convidei certa vez o humorista S. J. Perelman para falar aos meus alunos, e um deles lhe fez a seguinte pergunta: “O que é preciso para ser um escritor engraçado?”. Ele disse: “É preciso audácia, exuberância e alegria, sendo que o mais importante é a audácia”. E acrescentou: “O leitor tem que sentir que o escritor se sente bem o bastante”. A frase explodiu dentro da minha cabeça como fogo de artifício, esclarecendo toda a questão do prazer. E ele disse, ainda: “Mesmo que isso não seja verdade”. E essa afirmação teve em mim quase o mesmo impacto, pois eu sabia que a vida de Perelman continha uma dose de depressão e trabalho duro bem maior do que a média. E, no entanto, ele se sentava todos os dias diante de sua máquina de escrever e fazia a língua inglesa dançar. Como não poderia estar bem? Ele sempre dava a volta por cima.

Como os atores, os bailarinos, os pintores e os músicos, os escritores precisam ligar o motor na hora de iniciar a sua performance. Há alguns autores que nos sugam tão fortemente para dentro de sua corrente de energia — Norman Mailer, Tom Wolfe, Toni Morrison, William F. Buckley Jr., Hunter Thompson, David Foster Wallace, Dave Eggers — que achamos que, quando eles se sentam para trabalhar, as palavras simplesmente jorram da mente deles. Ninguém imagina o esforço que fazem todas as manhãs para ligar o interruptor.

Você também precisa ligar o interruptor. Ninguém fará isso por você.

Infelizmente, há sempre outra corrente igualmente forte, porém negativa, em atuação: o medo. O medo de escrever se enraíza em muitos americanos em tenra idade, em geral na escola, e nunca vai embora totalmente. A folha de papel em branco, ou a tela do computador em branco, à espera de ser preenchida com nossas maravilhosas palavras, pode nos deixar paralisados, de modo que não escrevemos nada ou escrevemos palavras que estão bem longe de ser maravilhosas. Com frequência, eu mesmo fico desalentado com o lixo que vejo aparecer na minha própria tela quando começo a escrever apenas para cumprir uma tarefa — o trabalho do dia —, sem nenhum prazer. Meu único consolo é que poderei retomar essas frases desanimadoras no dia seguinte, depois de novo no outro dia, e assim por diante. A cada reescrita, procuro imprimir a marca da minha personalidade no material de que disponho.

É provável que o maior medo do escritor de não ficção seja o de não dar conta da tarefa. Na ficção, a situação é diferente. Porque os ficcionistas escrevem sobre um mundo inventado por eles mesmos, frequentemente em um estilo alusivo que eles também inventaram (Thomas Pynchon, Don DeLillo), não temos o direito de lhes dizer “isso está errado”. Só o que podemos dizer é “comigo isso não funciona”. Os autores de não ficção não dispõem desse respiro. Têm infinitas responsabilidades. Para com os fatos, as pessoas que entrevistaram, o local onde se passa a história e os acontecimentos ocorridos ali. Também têm responsabilidades para com as regras de seu ofício e os riscos inerentes aos exageros e confusões em seu texto: perder o leitor, confundir o leitor, irritar o leitor, não prender a atenção do leitor do começo ao fim do texto. A cada imprecisão na narrativa e a cada escorregão técnico, podemos dizer ”isso está errado”.

Como enfrentar todos esses temores relativos à desaprovação e ao fracasso? Uma forma de gerar confiança é escrever sobre assuntos que sejam do seu interesse e que o preocupam. O poeta Allen Ginsberg, outro escritor que veio falar aos meus alunos em Yale, foi questionado por um deles a respeito do momento em que ele decidiu, conscientemente, se tornar poeta. Ginsberg disse: “Não foi bem uma escolha — foi uma concretização. Eu tinha 28 anos e trabalhava como pesquisador de mercado. Um dia, disse ao meu psiquiatra que o que eu realmente gostaria de fazer era largar o meu emprego e só escrever poemas. O psiquiatra perguntou: ‘E por que não?’. Eu disse: ‘O que a Sociedade Americana de Psicanálise diria?’. Ele respondeu: ‘Não temos uma linha oficial a esse respeito’. Então, eu fiz”.

Nunca saberemos a dimensão da perda que esse fato significou para o setor de pesquisa de mercado. Mas ele foi, certamente, um grande momento para a poesia. Não há linha oficial: eis um bom conselho para escritores. Você pode ser a sua própria linha oficial. Red Smith, ao fazer um discurso em homenagem a um colega de crônica esportiva falecido, disse: “Morrer não é o problema. Viver é que são elas”. Um dos motivos pelos quais sempre admirei Red Smith é que ele escreveu sobre esporte durante 55 anos, com graça e humor, sem ceder à pressão de escrever sobre algo “sério” que levou muitos cronistas esportivos à ruína. Ele encontrou na crônica esportiva aquilo que queria e gostava de fazer e, como isso combinava com ele, acabou por escrever mais coisas importantes sobre os valores americanos do que muitos autores que escreviam sobre coisas sérias e com tanta seriedade que ninguém conseguia lê-los.

Viver é que são elas. Escritores que escrevem de forma interessante tendem a ser homens ou mulheres que se mantêm sempre interessados. Essa é a grande questão para quem quer se tornar escritor. Escrevo para me dar uma vida interessante e uma formação contínua. Se você escreve sobre assuntos a respeito dos quais terá prazer em se aprofundar, esse prazer estará presente naquilo que escrever. O aprendizado é um estimulante.

Isso não quer dizer que não ficará nervoso quando tiver de adentrar território desconhecido. Como autor de não ficção, você será tragado inúmeras vezes por universos muito específicos e ficará preocupado, achando que não é qualificado para contar esta ou aquela história. Eu mesmo sinto essa ansiedade sempre que embarco em um novo projeto. Não foi diferente quando fui a Bradenton para escrever meu livro sobre beisebol, Spring Training. Embora tenha sido fã de beisebol a vida inteira, nunca tinha feito nenhuma reportagem esportiva, jamais havia entrevistado um atleta profissional. A rigor, eu não tinha credenciais para fazer aquilo. Qualquer uma das pessoas de quem me aproximei com o meu bloco de anotações — gerentes, treinadores, jogadores, árbitros, olheiros — poderia ter perguntado: “O que você já escreveu sobre beisebol?”. Mas ninguém perguntou, porque eu tinha um outro tipo de credencial: a sinceridade. Estava claro para aqueles homens que eu realmente queria saber como eles faziam o seu trabalho. Lembre-se disso quando tiver de entrar em um território novo e precisar de uma dose de confiança. A sua melhor credencial é você mesmo.

Lembre-se também de que a tarefa pode não ter limites tão restritos quanto você imagina. Muitas vezes você vai deparar com algum aspecto da sua experiência ou da sua formação que lhe permitirá ampliar a matéria com reforços próprios. Toda redução do estranhamento ajudará a diminuir o seu medo.

Aprendi essa lição em casa, certa vez, quando, em 1992, recebi o telefonema de um editor da Audubon perguntando se eu toparia escrever algum texto para a revista. Respondi que não poderia. Sou da quarta geração de nova-iorquinos, minhas raízes são totalmente urbanas. “Não seria correto, nem para mim, nem para você, nem para a Audubon”, disse ao editor. Nunca aceitei uma encomenda que não me achasse capaz de assumir e sempre procuro dizer imediatamente aos editores que eles deveriam procurar outra pessoa. O editor da Audubon respondeu — como todo bom editor deveria fazer — que tinha certeza de que poderíamos encontrar alguma coisa e, algumas semanas mais tarde, me telefonou de novo para dizer que a revista tinha decidido que já era hora de fazer um novo texto sobre Roger Tory Peterson, o homem que fez dos Estados Unidos um país de observadores de pássaros, sendo o seu Field Guide to the Birds [Guia prático de pássaros] um best-seller desde 1934. Estaria eu interessado? Eu disse que não conhecia muita coisa sobre pássaros. Os únicos que eu sabia identificar com certeza eram os pombos, que costumavam frequentar o beiral da minha janela em Manhattan.

Preciso sentir algum tipo de proximidade com a pessoa sobre a qual vou escrever. A empreitada sobre Peterson não surgira de uma ideia minha; ela apareceu para mim. Quase todos os perfis que eu havia escrito eram sobre uma pessoa cujo trabalho conhecia e admirava: figuras criativas como o cartunista Chic Young (Blondie), o compositor Harold Arlen, o ator britânico Peter Sellers, o pianista Dick Hyman e o escritor de livros de viagens Norman Lewis. A gratidão pelo prazer que a companhia deles me proporcionara durante anos e anos era uma fonte de energia quando me sentava para escrever. Se você quer que a sua escrita lhe traga prazer, escreva sobre pessoas que você respeita. Escrever com a finalidade de destruir alguém ou para criar algum escândalo pode ser tão destrutivo para o escritor quanto para o objeto do texto.

Algo, porém, me fez mudar de ideia em relação ao convite da Audubon. Aconteceu de eu assistir a um documentário no canal pbs intitulado A Celebration of Birds [Celebração dos pássaros], um resumo da vida e da obra de Roger Tory Peterson. O filme era tão bonito que me deu vontade de saber mais sobre o personagem. O que me chamou a atenção foi que Peterson ainda esbanjava vitalidade aos 84 anos de idade — pintando quatro horas por dia e fotografando pássaros em seu habitat no mundo inteiro. Isso me interessou. Pássaros não são um assunto que me interesse especialmente, mas sobreviventes sim: como pessoas idosas vão seguindo em frente. Lembrei que Peterson vivia em uma cidade de Connecticut não muito distante de onde nossa família costuma passar os verões. Eu poderia simplesmente pegar o carro e encontrá-lo; se as vibrações fossem ruins, eu só perderia alguns litros de gasolina. Eu disse, então, ao editor da Audubon que iria tentar fazer algo mais informal, na linha “uma visita a Roger Tory Peterson”, em vez de um longo perfil.

Obviamente, a coisa acabou se transformando em um longo perfil, com 4 mil palavras, pois, assim que vi o estúdio de Peterson, entendi que encará-lo apenas como um ornitólogo, como eu sempre fizera, seria deixar escapar o essencial da sua vida. Ele era, acima de tudo, um artista. Sua técnica como pintor é que tornara o seu conhecimento sobre pássaros acessível a milhões de pessoas e lhe propiciara a autoridade que tinha como escritor, editor e conservacionista. Perguntei-lhe sobre seus mentores e mestres — artistas americanos de primeira grandeza como John Sloan e Edwin Dickinson — e sobre a influência dos grandes pintores de pássaros como James Audubon e Louis Agassiz Fuertes, e, assim, minha reportagem se tornou uma reportagem sobre arte, sobre ensinar e sobre pássaros, envolvendo vários interesses pessoais meus. Era, também, uma reportagem acerca de sobreviventes; no alto dos seus oitenta e tantos anos, Peterson tinha uma agenda que representaria um fardo para qualquer homem de cinquenta anos.

Moral da história, para os autores de não ficção: ao receber uma encomenda, pense nela de forma ampla. Não parta do princípio de que um texto para a Audubon tenha de ser exclusivamente sobre natureza ou que um texto para a Car & Driver tenha de ser apenas sobre carros. Amplie os limites do seu tema e veja até onde ele pode levá-lo. Acrescente nele uma parte da sua própria vida; o texto não será o seu texto até que você o escreva.

Pouco tempo depois que a minha versão sobre a história de Peterson saiu na Audubon, minha mulher ouviu na nossa secretária eletrônica uma mensagem que dizia o seguinte: “É da casa do William Zinsser, que escreve sobre natureza?”. Ela achou engraçado, e era mesmo. Mas, de fato, meu texto foi recebido pela comunidade dos observadores de pássaros como o perfil definitivo de Peterson. Se menciono isso, é para transmitir confiança a todos os autores de não ficção: uma questão de princípio para o ofício. Se tiver o controle das suas ferramentas — os fundamentos da arte de entrevistar e da construção ordenada do texto — e empregar na execução de uma encomenda toda a sua inteligência e sensibilidade, você poderá escrever sobre qualquer assunto. Eis o seu passaporte para uma vida interessante.

É claro que é difícil não se sentir intimidado diante dos conhecimentos de um especialista. Você pensa: “Esse sujeito conhece tanto a sua área de atuação que sou meio tolo de querer entrevistá-lo. Ele vai me achar estúpido”. O motivo pelo qual sabe tanta coisa sobre aquilo que faz é justamente por aquilo ser o que ele faz. Você é um generalista que procura tornar acessível ao público aquilo que ele faz. Isso significa levá-lo a esclarecer pontos tão óbvios para ele que ele imagina serem óbvios também para qualquer pessoa. Confie no seu bom senso para definir o que você precisa saber e não tenha medo de fazer uma pergunta tola. Se o especialista achar que você é tolo, é problema dele.

O seu teste deveria ser: a primeira resposta do especialista é suficiente? Normalmente, não é. Aprendi isso quando fui contratado para fazer uma segunda incursão no território de Peterson. Um editor da Rizzoli, a editora de livros de arte, ligou para dizer que a empresa estava preparando um livro do tipo coffee-table sobre “A arte e a fotografia de Roger Tory Peterson”, com centenas de imagens coloridas. Precisavam de um texto com 8 mil palavras, e eu, como a nova autoridade em Peterson, era convidado a escrevê-lo. Falando em coisas engraçadas...

Eu disse ao editor que tinha como princípio jamais escrever a mesma história duas vezes. Já havia escrito o meu texto para a Audubon com o maior capricho possível e não saberia como retrabalhá-lo. Se ele quisesse, poderia comprar e republicar o texto no livro. Ele concordou com isso, mas desde que eu pudesse acrescentar outras 4 mil palavras — numa costura invisível — que tratariam principalmente dos métodos adotados por Peterson como pintor e fotógrafo.

Isso me pareceu interessante, e então retornei a Peterson com um novo lote de perguntas, mais técnicas do que as que eu havia feito para o texto da Audubon. O público da revista queria ler algo sobre a sua vida. Agora, eu escreveria para leitores que queriam saber como o artista criava a sua arte, e minhas perguntas eram voltadas diretamente para os seus processos e técnicas. Começamos pela pintura.

“Chamo o meu trabalho de ‘mídia mista’”, disse Peterson, “porque meu objetivo principal é informar. Posso começar com uma aquarela transparente, depois uso guache, então aplico uma camada protetora de acrílico, em seguida trabalho em cima disso outra vez com acrílico ou com um toque de lápis-pastel ou lápis de cor ou mesmo com lápis preto, ou tinta de caneta — tudo o que for preciso para chegar aonde quero.”

Eu sabia pelas entrevistas anteriores que a primeira resposta de Peterson raramente era suficiente. Era um homem taciturno, filho de imigrantes suecos, pouco expansivo. Perguntei-lhe qual era a diferença entre essa técnica de agora e os métodos que ele usava antes.

“Hoje em dia, ataco pelos dois lados”, disse ele. “Tento acrescentar mais detalhes, sem perder o efeito de simplicidade.” E silenciou de novo.

Mas por que, àquela altura da vida, ele sentia necessidade de pintar mais detalhes?

“Com o passar dos anos, as pessoas ficaram tão familiarizadas com o perfil reto dos meus pássaros”, disse ele, “que começaram a querer algo mais: a visão das plumagens ou uma imagem que transmitisse uma sensação de terceira dimensão”.

Depois da pintura, passamos para a fotografia. Peterson rememorou todas as máquinas fotográficas que ele tivera, a começar por uma Primo #9, que ele usara aos treze anos de idade, com lâminas de vidro e um fole, e terminou com fartos elogios às modernas tecnologias, como o autofoco e o flash de preenchimento. Como não sou fotógrafo, nunca havia ouvido falar em autofoco ou flash de preenchimento, mas bastou expor a minha ignorância para, então, aprender por que eles são tão úteis. Autofoco: “Se você conseguir captar o pássaro dentro do seu visor, a câmera cuida do resto”. Flash de preenchimento: “O filme nunca consegue enxergar tanto quanto você. O olho humano vê detalhes nas sombras, mas o flash de preenchimento permite que a câmera capte esses detalhes”.

A tecnologia, porém, é apenas tecnologia, lembrou Peterson. “Muitas pessoas acham que um bom equipamento torna as coisas fáceis”, disse. “Iludem-se achando que a câmera faz tudo.” Ele sabia muito bem o que estava querendo dizer com isso, mas eu precisava saber por que a câmera não fazia tudo. Quando o pressionei com o meu “por que não?” e o meu “o que mais é preciso?”, recebi, não uma, mas três respostas:

“Como fotógrafo, você transmite o seu olhar e o seu senso de composição ao processo, assim como o seu entusiasmo — você não tira fotos ao meio-dia em ponto, por exemplo, ou no começo ou no fim do dia. Você também se preocupa com a qualidade da luz; um céu parcialmente nublado também pode produzir belas coisas. Conhecer o animal também ajuda tremendamente: antecipar o que o pássaro vai fazer. Você pode antecipar ações como o frenesi alimentar, quando os pássaros, viajando em pequenos grupos, pegam peixes. Esses momentos de frenesi em torno do alimento são muito importantes para um fotógrafo, porque uma das coisas elementares que os pássaros fazem é comer, e eles ficarão à disposição do seu olhar por bastante tempo enquanto comem. Na verdade, muitas vezes eles vão simplesmente ignorar você.”

E assim fomos avançando, o sr. Especialista e o sr. Estúpido, até que eu consegui extrair uma série de ideias que achei interessantes. “Costumo voltar bastante a Audubon”, contou Peterson — e isso era interessante —, “por isso consigo sentir as mudanças que acontecem ali por causa do movimento ambiental”. Na infância, lembrou ele, todo menino que tivesse um estilingue atirava em pássaros; muitas espécies foram exterminadas ou ficaram próximas da extinção por causa de caçadores que as matavam para extrair a plumagem, para vender para restaurantes ou por mero esporte. A boa notícia, que ele vivera o bastante para testemunhar, era que muitas espécies estavam retornando de seus esconderijos, auxiliadas por cidadãos que agora exerciam um papel ativo na proteção dos pássaros e de seu habitat. Então, ele disse: “A atitude das pessoas em relação aos pássaros mudou a atitude dos pássaros em relação às pessoas”.

Isso era interessante. Como escritor, fico impressionado com a quantidade de vezes que eu disse a mim mesmo “isso é interessante”. Se você se pegar dizendo isso, preste atenção e siga o seu faro. Confie em que a sua curiosidade vai se conectar com a curiosidade dos seus leitores.

O que Peterson falou sobre a mudança de atitude das aves?

“Os corvos estão ficando mais dóceis”, disse ele. “As gaivotas aumentaram — elas são as responsáveis pela limpeza dos depósitos de lixo. Os trinta-réis-pequenos começaram a construir ninhos no alto dos centros comerciais; alguns anos atrás, havia mil casais no telhado do Singing River Mall, em Gautier, Mississippi. Os tordos são bastante fáceis de encontrar nesses centros comerciais — eles gostam das plantas, especialmente da rosa multiflora, cujos frutinhos minúsculos eles podem engolir. Eles também gostam da agitação dos centros comerciais — ficam sentados ali dirigindo o tráfego.”

Passamos várias horas conversando no estúdio de Peterson, um pequeno posto avançado das artes e das ciências — com cavaletes, tintas, pincéis, pinturas, impressos, mapas, câmeras, equipamentos fotográficos, máscaras tribais e estantes cheias de livros de referência e jornais —, e, ao final da visita, enquanto ele me acompanhava até a saída, eu perguntei: “Eu vi tudo que tinha de ver?”. Muitas vezes, você obtém o melhor do seu material justamente na hora em que já guardou o lápis, naquele bate-papo sem compromisso. A pessoa entrevistada, já mais solta depois do árduo trabalho de tornar a sua vida apresentável para um estranho, faz algumas considerações adicionais importantes.

Quando lhe perguntei se já tinha visto tudo, Peterson disse: “Quer ver a minha coleção de pássaros?”. Respondi que obviamente sim. Ele me levou então, fora da casa, por uma escada que descia em direção à porta de um porão, que ele destrancou, introduzindo-me em um subsolo cheio de armários e gavetas — o mobiliário típico para arquivos científicos remanescente do museu de alguma faculdade que nunca foi modernizada. Darwin poderia ter usado aquelas mesmas gavetas.

“Acumulei aqui umas 2 mil espécies que eu uso para pesquisa”, disse ele. “A maior parte delas já têm cerca de cem anos e ainda são úteis.” Ele abriu uma gaveta, tirou dali um pássaro e me mostrou a etiqueta, que registrava acorn woodpecker, april 10, 1882 [Pica-pau-das-bolotas, 10 de abril de 1882]. “Imagine isso! Este pássaro tem 112 anos”, disse ele. Abriu depois outras gavetas e ergueu gentilmente outros velhos seres de finais da era vitoriana, levando-me a pensar também na presidência de Glover Cleveland.20

O livro da Rizzoli, com suas impressionantes pinturas e fotografias, foi publicado em 1995, e Peterson morreu um ano depois, encerrando finalmente a sua busca, depois de registrar “pouco mais de 4,5 mil” das 9 mil espécies de aves existentes no mundo. Foram prazerosas, para mim, as horas que passei com ele para os dois textos que escrevi? Não posso dizer que sim; Peterson era um ser demasiadamente melancólico, não muito divertido. Mas foi prazeroso dar conta de uma reportagem complicada que me obrigara a ir além das minhas experiências mais comuns. Eu também tinha capturado a minha ave rara e, quando guardei Peterson em uma gaveta junto com outras espécies da minha coleção, pensei: isso era interessante.


20. Duas vezes presidente dos Estados Unidos, em 1885-9 e 1893-7. (n.t.)