• Ivan Milazzotti
    Como escrever bem
    17-07-2025 19:15:01
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Usos

Essa conversa toda sobre palavras boas e palavras ruins nos remete a uma zona cinzenta, mas muito importante, que podemos chamar de “usos”. O que é um bom uso da língua? Quais palavras recém-inventadas são ok, e quem avalia isso? É ok usar “ok”?

Referi-me, há pouco, a um episódio em que universitários azucrinavam a direção de uma faculdade e, no capítulo precedente, revelei ser um maníaco por palavras. Pois aí se encontram, justamente, duas recém-chegadas. O verbo “azucrinar”6 significa perturbar uma pessoa, e quem quer que já tenha sido azucrinado por um funcionário por não conseguir preencher um formulário corretamente haverá de concordar que essa palavra cai como uma luva.

“Maníaco”, no caso, significa um entusiasta das palavras, e isso não tira a aura de obsessão que se subentende ao chamarmos alguém de maníaco por jazz, ou maníaco por xadrez, ou maníaco por sol, embora provavelmente eu corresse o risco de me dar mal se tentasse descrever uma pessoa que frequenta compulsivamente hospitais psiquiátricos como um maníaco por maníacos.

Seja como for, admito com alegria esses usos dessas palavras. Não as vejo como gíria nem as colocaria entre aspas para mostrar que estou me enturmando um pouco com o linguajar dos mais jovens, quando na verdade estou em outra. São palavras boas e precisamos delas. Mas eu não aceitaria “impactar” e “impeachar” e muitas outras novidades do gênero. São palavras inferiores, e não precisamos delas.

Por que uma palavra é boa e outra é inferior? Não consigo dar uma resposta, pois o uso das palavras não tem fronteiras fixas. A linguagem é uma estrutura que muda de uma semana para outra, acrescentando novos elementos e excluindo outros, e até mesmo maníacos por palavras se defrontam com aquilo que é ou não admissível, muitas vezes tomando a decisão a partir de critérios totalmente subjetivos, como o gosto (“impactar” é espalhafatoso demais), o que deixa no ar a pergunta sobre quem é que forma os nossos gostos.

Essa questão foi colocada nos anos 1960 para os editores de um novo dicionário, The American Heritage Dictionary. Eles formaram uma “comissão de usos” para ajudá-los a avaliar as novas palavras e as construções dúbias que surgiam. Quais deveriam ser acatadas e quais deveriam ser descartadas no ato? A comissão era composta de 104 homens e mulheres — em sua maioria escritores, poetas, editores e professores — conhecidos pelo trato cuidadoso da língua e por tentarem fazer bom uso dela. Eu fazia parte desse grupo e, durante alguns anos, respondi a vários questionários. Será que eu admitiria o uso de “inicializar” e “deletar”? O que eu sentia em relação a “para mim fazer”? Eu permitiria o uso de “tipo” — tipo o que tantas pessoas fazem? E quanto a “mega” sendo usado como “megaótimo”?

Fomos informados de que, no dicionário, as nossas opiniões seriam compiladas em um apêndice do tipo “Nota sobre os usos” para que os leitores pudessem conhecer como foram os nossos votos. O questionário também deixava espaço para qualquer comentário que nos sentíssemos impelidos a fazer — oportunidade que os membros da comissão aproveitaram com avidez, como ficamos sabendo quando o dicionário foi publicado e os nossos comentários foram divulgados para a imprensa. Opiniões passionais correram soltas. “Meu Deus, isso não, isso nunca!”, exclamou Barbara W. Tuchman, quando questionada sobre o verbo to author [“autorar”]. O mundo erudito não conhece fúria maior do que a de um purista da língua que se defronta com porcarias como essa, e eu compartilhei da visão de Tuchman de que to author não deveria ser autorizado, assim como concordei com Lewis Mumford em que o uso de good [bom] como advérbio deveria ser “considerado propriedade exclusiva de Ernest Hemingway”.

Mas os guardiães do uso de palavras fariam o seu trabalho apenas em parte se só preservassem a pureza da língua. Qualquer tolo poderia definir que o sufixo “ice”, quando utilizado em “diversionice”, é uma tolice ou que ser “quase único” é tão impossível como estar “quase grávida”. A outra metade do trabalho é contribuir para o avanço da língua ao acolher a palavra nova que lhe acrescente força ou vivacidade. Nesse sentido, gostei de saber que 97% de nós havíamos votado a favor da incorporação de dropout [deixar de comparecer, desligar-se], que é uma palavra clara e viva, e de que só 47% admitiriam senior citizen [cidadão sênior], que é típico desses novos intrusos rechonchudos vindos da sociologia, os mesmos para quem um estrangeiro ilegal é, agora, um residente sem documentos. Gostei que escalate [ganhar escala] foi aprovada; é um tipo de artifício verbal que eu normalmente não aprecio, mas que a Guerra do Vietnã dotou de um sentido preciso, completado com muitas sugestões de equívocos cometidos.

Fico feliz de que tenhamos incorporado plenamente várias palavras saudáveis que os dicionários anteriores classificavam de modo pejorativo como coloquiais: adjetivos como rambunctious [indisciplinado, turbulento], verbos como trigger [ser esperto, ter raciocínio rápido] e rile [irritar, exasperar], substantivos como shambles [matadouro, açougue, carnificina], tycoon [magnata] e trek [viagem, migração em carros], esta última aprovada por 78% como significando qualquer viagem difícil, como em “the commuter’s daily trek to Manhattan” [“a difícil viagem cotidiana dos passageiros até Manhattan”]. Originalmente, tratava-se de uma palavra no idioma africâner para designar as árduas jornadas dos bôeres em carroças puxadas por bois. Mas nossa comissão evidentemente considerou que a viagem diária até Manhattan não é menos árdua.

Ainda assim, 22% estavam contra a admissão do uso generalizado para trek. Essa era a virtude da revelação de como fora a votação em nosso grupo — expunha-se a nossa opinião, e os autores que se sentissem em dúvida poderiam agir conforme achassem mais apropriado. Da mesma forma, os 95% de votos registrados contra o uso de myself [eu mesmo] tal como em “He invited Mary and myself to dinner” [ele convidou Mary e a mim mesmo para jantar], uma palavra interditada como “presunçosa”, “horrível” e “afetada”, deveria servir de alerta para todos aqueles que não quisessem ser presunçosos, horríveis ou afetados. Como escreveu Red Smith, “myself é o refúgio dos idiotas que aprenderam desde cedo que me [eu] é uma palavra indecente”.

Por outro lado, apenas 66% da comissão rejeitou o verbo to contact [contatar], visto antes como deselegante, e apenas metade se opôs ao uso do infinitivo com um advérbio a separá-lo da partícula to e aos verbos to fault [censurar, criticar] e to bus [transferir, mudar, transportar]. Portanto, somente 50% dos seus leitores irão criticá-lo [to fault] se você decidir voluntariamente telefonar para a direção da escola e transferir [to bus] seus filhos para outra cidade. Se você contatar [to contact] a direção da escola, porá a sua reputação em risco para outros 16%. Nosso modo aparente de proceder foi definido por Theodore M. Bernstein, autor do excelente The Careful Writer [O escritor cuidadoso]: “Deveríamos fazer o teste da utilidade. A palavra preenche uma necessidade real? Se sim, devemos dar passagem a ela”.

Tudo isso confirma aquilo que os lexicógrafos sempre souberam: que as leis do uso são relativas, alterando-se sempre segundo o gosto do legislador. Um dos membros da nossa comissão, Katherine Anne Porter, chamou “ok” de “vulgaridade detestável” e garantiu nunca ter dito essa palavra em toda a sua vida, enquanto eu admiti abertamente ter dito a palavra “ok”. Most [a maioria, maior quantidade], usado sob a forma de most everyone [quase todo mundo], foi execrado como uma “fala engraçadinha de fazendeiro” por Isaac Asimov e acatado como um “bom estilo em inglês” por Virgil Thomson. Regime, no sentido de designar um governo ou forma de governo, como no caso de “the Truman regime” [gestão de Truman], conquistou a aprovação de quase todo mundo da comissão, como aconteceu também com dynasty [dinastia]. Mas elas atraíram a cólera de Jacques Barzun, que disse: “São termos técnicos, seus malditos ignorantes da história!”. Eu provavelmente dei um ok para regime. Agora, depois de repreendido por Barzun por falta de precisão, considero que essa palavra parece mais jornalês do que qualquer outra coisa. Uma das palavras que eu rechacei foi personality [personalidade] tal como se usa para dizer TV personality [celebridade de tv]. Mas hoje eu me pergunto se essa não seria mesmo a única palavra cabível para esse vasto lamaçal de pessoas famosas por serem famosas — e possivelmente por nada mais do que isso. O que as irmãs Gabor7 realmente faziam?

No final, caiu-se na questão do que é o uso “correto” da língua. Não temos um rei para determinar qual é o inglês régio; temos apenas o inglês do presidente, que não desejamos. O Webster, defensor de longa data da tradição, turvou as águas em 1961 com a sua permissiva terceira edição, na qual se argumentava que quase tudo é válido desde que alguém o utilize, observando que o ain’t (am not e are not: não ser, não ter) é “usado oralmente na maior parte dos eua por muitos falantes cultos da língua”.

Onde é que o Webster encontrou esses falantes, eu não tenho ideia.8 De todo modo, é verdade que a língua falada é mais livre do que a língua escrita, e o American Heritage Dictionary, corretamente, colocava-nos as perguntas considerando as duas formas. Muitas vezes autorizávamos uma expressão oral que vetávamos, porém, por escrito, por ser informal demais, totalmente conscientes, no entanto, de que “a pena deve, ao final, encaminhar-se conforme a língua”, como disse Samuel Johnson, e que o lixo oral de hoje pode amanhã ser o ouro da escrita. A crescente aceitação do split infinitive,9 ou da preposição ao final de uma frase, prova que a sintaxe formal não consegue erguer uma barreira eterna contra uma forma oral mais confortável para dizer a mesma coisa — e nem deveria fazê-lo. Eu acredito que o final da frase em inglês é um ótimo lugar onde colocar uma preposição.10

Nossa comissão admitiu que a correção de um determinado uso pode até mesmo variar conforme a utilização que se faça de uma mesma palavra. Votamos maciçamente contra cohort [bando, grupo, comparsa] como sinônimo de colleague [colega], a não ser quando usado em tom jocoso. Assim, um professor não pode estar entre os seus cohorts em uma reunião formal na faculdade, mas eles seriam muitos em uma reunião de faculdade, informal, com todos usando chapéus engraçados. Rejeitamos too [também, demais, muito] como sinônimo de very [muito], como em “His health is not too good” [A saúde dele não é muito boa]. Da saúde de quem estamos falando? Mas o aprovamos se o uso for de sarcasmo ou em tom bem-humorado, como em “He was not too happy when she ignored him” [Ele não ficava muito contente quando ela o ignorava].

Essas diferenciações podem parecer ninharias. Mas não são. São sinais para o leitor de que você é sensível às nuanças do uso da língua. Too, quando substituído por very, cria algo rebarbativo: “He didn’t feel too much like going shopping” [Ele não se viu muito como alguém que estivesse fazendo compras]. Mas o ácido exemplo do parágrafo anterior é digno do [escritor satírico] Ring Lardner. Ele adiciona um toque de sarcasmo que de outra maneira não existiria ali.

Por sorte, a partir das deliberações da comissão, acabou se estabelecendo um padrão, que oferece uma pauta útil até hoje. Acabamos sendo liberais ao aceitar novas palavras e expressões, mas conservadores na gramática.

Seria loucura rejeitar uma palavra tão perfeita como dropout [desligar-se, desistir] ou fingir que todos os dias um sem-número de palavras e expressões não atravessa o portal do bom uso, palavras provenientes da ciência e tecnologia, negócios, esportes e mudanças sociais: outsource [terceirização], blog, laptop, mouse-pad, geek, boomer [celebridade], Google, iPod, hedge fund [certo tipo de fundo de investimento], 24/7, multi-tasking [multitarefas], slam dunk [algo com sucesso garantido] e centenas de outras palavras. Também não devemos esquecer todas as palavras curtas inventadas pela contracultura nos anos 1960 como um meio de atacar a verborragia cheia de soberba do establishment: trip [viagem], rap [pancada], crash [choque], trash [lixo, refugo], funky [vibrante], split [fenda, ruptura], rip-off [imitação barata], vibes [vibrações], downer [depressivo], bummer [vagabundo]. Se a brevidade valesse prêmios, todos esses seriam vencedores. O único problema de aceitar palavras que entram no linguajar das pessoas da noite para o dia é que frequentemente elas desaparecem com a mesma velocidade. Os happenings do final dos anos 1960 não acontecem mais, a expressão out of sight [longe dos olhos] se perdeu no horizonte e até mesmo awesome [incrível, impressionante] começou a sair de moda. O escritor que dá importância ao uso das palavras tem que saber distinguir o vivo do morto.

Com relação ao campo em que a nossa comissão de uso foi conservadora, preservamos a maior parte das distinções clássicas definidas pela gramática — can [poder, mais no sentido de habilidade ou condições para fazer algo] e may [poder, mais no sentido de ter permissão para fazer algo], fewer [menos, em sentido quantitativo] e less [menos, em sentido mais subjetivo], eldest [o mais velho, usado mais para se referir a parentes ou familiares] e oldest [o mais velho, sendo utilizado para qualquer pessoa] etc. — e execramos os velhos erros, insistindo que flout [ignorar, escarnecer, zombar] ainda não tem o mesmo significado de flaunt [ostentar], mesmo que muitos escritores ostentem a sua ignorância insultando as regras, e que fortuitous [casual, fortuito] ainda quer dizer o mesmo que accidental [acidental], disinterested [desinteressado] ainda significa impartial [imparcial] e infer [deduzir, inferir] não quer dizer imply [implicar, subentender]. Neste caso, fomos motivados por nosso amor pela bela precisão da língua. Um uso incorreto fará você perder os leitores que mais gostaria de ganhar. Saiba a diferença entre reference [referência] e allusion [alusão], entre connive [ser conivente] e conspire [conspirar], entre compare with [comparar com, cotejar] e compare to [comparar a, equiparar a]. Se você precisa usar comprise [conter, incluir], use corretamente. Significa include [incluir]: dinner comprises meat, potatoes, salad and dessert [o jantar inclui carne, batata, salada e sobremesa].

“Opto sempre pela forma gramaticalmente correta, a não ser que isso soe afetado demais”, afirmou Marianne Moore, e esse foi, no fim das contas, o critério adotado pela comissão. Não éramos um grupo de pedantes, fissurados na correção a ponto de não admitir que a língua possa se renovar com expressões como “fissurados”. Mas isso não significava que tínhamos de aceitar a entrada de qualquer atrocidade que batesse à porta com estrondo.

Enquanto isso, a batalha continua. Ainda hoje recebo cédulas de consulta do American Heritage Dictionary pedindo minha opinião sobre novas expressões: verbos como definitize [definir, delimitar], como na frase “Congress definitized a proposal” [o Congresso definiu uma proposta], substantivos como affordables [coisas que podem ser proporcionadas, fornecidas, permitidas], coloquialismos como the bottom line [linha final de um balanço de empresa, que mostra o resultado obtido] ou coisas esparsas como o uso de into [em, no, na, para dentro de] em “he’s into the backgammom and she’s into jogging” [ele está no gamão e ela está na corrida].

Não é mais necessária a existência de uma comissão de especialistas para observar que o jargão está inundando o dia a dia e a língua. O presidente Jimmy Carter baixou uma ordem segundo a qual as normas do país deviam ser redigidas de forma “simples e clara”. A secretária de Justiça do presidente Bill Clinton, Janet Reno, instou os advogados do país a substituir “o juridiquês” por “palavras curtas e conhecidas que todas as pessoas entendam” — palavras como “certo”, “errado” e “justiça”. Empresas contrataram consultores para tornarem os seus textos menos obscuros, e até mesmo a indústria de seguros procura reescrever os seus contratos para nos informar em termos menos desastrosos qual a indenização que teremos quando ocorrer algum desastre. Eu não gostaria de apostar se tais esforços serão frutíferos ou não. No entanto, é reconfortante observar tantos cães de guarda parados na praia, tentando, como o rei Canuto, fazer a maré recuar. É onde todos os escritores cuidadosos deveriam estar — de olho em cada destroço de naufrágio trazido pela água, para então perguntar: “Precisamos mesmo disso?”.

Lembro-me da primeira vez que alguém me perguntou “como isso impacta você?”. Eu sempre tinha achado que “impacto” fosse um substantivo. A partir daí, comecei a deparar com “desimpactar”, normalmente relacionado a programas feitos para reduzir o impacto dos efeitos de alguma adversidade. Hoje, na língua inglesa, substantivos se transformam em verbos da noite para o dia. Focamos metas e acessamos os fatos. Condutores de trens anunciam que o trem não irá platform [algo como “plataformar”]. Um aviso em um portão de aeroporto me informa que este está alarmed [com alarme, “alarmado”]. Empresas estão downsizing [“ficando de menor tamanho”]. É parte de um esforço ongoing [contínuo, permanente, em andamento] para expandir o negócio. Ongoing é um jargão cuja utilidade principal é elevar o moral. Encaramos o nosso emprego no dia a dia com mais entusiasmo se o chefe nos diz que há um projeto ongoing; contribuímos com mais disposição para instituições que focaram os nossos fundos para atender necessidades ongoing. Caso contrário, acabaríamos como vítimas de “desincentivo”.

Eu poderia continuar. Tenho exemplos suficientes para um livro inteiro, mas não seria um livro que eu gostaria que todo mundo lesse. Uma pergunta fica no ar: o que é um bom uso? Uma abordagem útil é tentar distinguir aquilo que é uso daquilo que é jargão.

Eu diria, por exemplo, que “prioritize” [colocar em ordem de importância] é jargão — um verbo novo e pomposo que parece soar mais imponente do que “rank” [ranquear] — e que “bottom line” [linha final de um balanço de empresa que mostra o resultado obtido; conclusão] é uso, como uma metáfora emprestada do mundo da contabilidade que transmite uma imagem fácil de visualizar. Como todo homem de negócios sabe, a bottom line é aquilo que realmente interessa. Se alguém diz “the bottom line is that we just can’t work together” (“A conclusão é que não podemos trabalhar juntos”), sabemos o que está sendo dito. Não gosto muito da expressão, mas o balanço final é que bottom line veio para ficar.

Novos usos também são trazidos por novos acontecimentos políticos. Assim como a Guerra do Vietnã nos trouxe escalate [ganhar escala], o caso Watergate nos presenteou com todo um léxico de palavras que conotavam obstrução e fraude, incluindo deep-six [descartar, jogar fora], launder [lavar], ennemies list [lista negra] e outros escândalos nomeados com o sufixo -gate, como o Irangate.11 Não deixa de ser uma ironia bem apropriada o fato de que sob o governo de Richard Nixon “lavar” tenha se tornado uma palavra suja. Hoje em dia, quando ouvimos que alguém lavou dinheiro para ocultar a origem de sua fortuna, a palavra tem um sentido preciso. É curta, forte, e precisamos dela. Eu acato launder e stonewall [obstruir]; não acato prioritize nem disincentive [desincentivar].

Eu sugeriria um método semelhante para separar o inglês correto do inglês técnico. É a diferença, digamos, entre printout [“printar”] e input [entrada, colocação de informações ou dados]. Printout é algo específico, que é emitido por um computador. Antes da chegada dos computadores, essa palavra não era necessária; agora é. Mas ela se limita ao universo a que pertence. Isso não ocorre com input, que foi cunhada para descrever a informação que alimenta o computador. Nossos inputs, agora, versam sobre todo e qualquer assunto, das dietas ao discurso filosófico (“eu gostaria de saber qual é o seu input a respeito da existência ou não de Deus”).

Eu não quero dar a uma pessoa o meu input nem receber dela um feedback [avaliação], embora ficasse feliz em poder lhe expor as minhas ideias e ouvir o que ela acha delas. O bom uso, para mim, consiste em usar as palavras corretas quando elas já existem — como quase sempre acontece — para me expressar com clareza e simplicidade para alguém. Você poderia dizer que é como eu verbalizo o interpessoal.


6. No original em inglês o autor usa hassle, que tem sentido de disputa, controvérsia. (n.t.)

7. As atrizes e socialites Magda (1915-1997), Eva (1919-1995) e a mais famosa, Zsa Zsa (1917-2016). (n.t.)

8. I ain’t sure, usado ironicamente pelo autor. (n.t.)

9. Ocorre o “split infinitive” [infinitivo dividido] quando um advérbio, ou outra palavra, é colocado entre o to e o verbo. Embora informal, seu uso é cada vez mais frequente, como neste exemplo: “You have to really read it” — o correto seria “You really have to read it” [você realmente deve lê-lo]. (n.t.)

10. Propositadamente, o autor conclui a frase com uma preposição: “a sentence is a fine thing to put a preposition at the end of ”. (n.t.)

11. Mais conhecido em português como o caso Irã-Contras. (n.t.)