• Ivan Milazzotti
    Jorge Luis Borges
    09-10-2025 01:07:25
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A outra morte

Há uns dois anos (perdi a carta), Gannon me escreveu de Gualeguaychú, anunciando o envio de uma versão, talvez a primeira espanhola, do poema The Past de Ralph Waldo Emerson e acrescentando num pós-escrito que Dom Pedro Damián, de quem eu guardaria alguma lembrança, tinha morrido, noites atrás, de uma congestão pulmonar. O homem, arrasado pela febre, revivera em seu delírio a sangrenta jornada de Masoller; a notícia pareceu-me previsível e até convencional, porque Dom Pedro, aos dezenove ou vinte anos, seguira as bandeiras de Aparicio Saravia. A revolução de 19O4 encontrou-o em uma estância de Rio Negro ou de Paysandú, onde trabalhava como peão; Pedro Damián era entrerriano, de Gualeguay, mas foi para onde foram os amigos, tão corajoso e tão ignorante como eles. Combateu em algum entrevem e na batalha final; repatriado em 1905, retomou com humilde tenacidade as tarefas do campo. Que eu saiba, não tornou a deixar sua província. Os últimos trinta anos passou-os em um posto muito isolado, a uma ou duas léguas do Nancay; naquele abandono, conversei com ele uma tarde (procurei conversar com ele uma tarde), por volta de 1942. Era homem taciturno, de poucas luzes. O som e a fúria de Masoller esgotavam sua história; não me surpreendeu que os revivesse, na hora da morte... Soube que não veria mais Damián e quis recordá-lo; tão pobre é minha memória visual que só recordei uma fotografia que Gannon lhe tirou. O fato nada tem de singular, se considerarmos que vi o homem em princípios de 1942, uma vez, e o retrato, muitíssimas. Gannon mandou-me essa fotografia; eu a perdi e já não a procuro. Encontrá-la me daria medo.

O segundo episódio ocorreu em Montevidéu, meses depois. A febre e a agonia do entrerriano sugeriram-me um conto fantástico sobre a derrota de Masoller; Emir Rodríguez Monegal, a quem contei o argumento, deu-me uma carta para o coronel Dioniso Tabares, que havia feito essa campanha. O coronel recebeu-me depois do jantar. De uma cadeira de balanço, num pátio, lembrou-se com desordem e amor dos tempos passados. Falou de munições que não chegaram e de cavalhadas rendidas, de homens sonolentos e terrosos tecendo labirintos de marchas, de Saravia, que podia ter entrado em Montevidéu e se desviou, "porque o gaúcho teme a cidade", de homens degolados até a base da nuca, de uma guerra civil que me pareceu menos o choque de dois exércitos do que o sonho de um foragido. Falou de Illescas, de Tupambaé, de Masoller. Fê-lo com períodos tão cabais e de modo tão vívido que compreendi ter ele muitas vezes já contado essas mesmas coisas, e temi que, por trás de suas palavras, quase não restassem lembranças. Numa pausa, consegui intercalar o nome de Damián.

— Damián? Pedro Damián? — disse o coronel. — Esse serviu comigo. Um tapezinho que os rapazes chamavam Daymán. — Iniciou uma ruidosa gargalhada e cortou-a de repente, com fingida ou verdadeira incomodidade.

Com outra voz, disse que a guerra servia, como a mulher, para que se provassem os homens, e que, antes de entrar em batalha, ninguém sabia quem era. Alguém podia supor-se covarde e ser um valente, e também o contrário, como ocorreu com esse pobre Damián, que andou se exibindo nas tabernas com sua divisa branca e depois fraquejou em Masoller. Num tiroteio com os zumacos, comportou-se como homem, mas outra coisa foi quando os exércitos se enfrentaram e começou o canhoneio, e cada homem sentindo que cinco mil outros se reuniram para matá-lo. Pobre rapaz, passou a vida banhando ovelhas e, assim de repente, arrastou-o essa patriotada...

Absurdamente, a versão de Tabares me envergonhou. Teria preferido que os fatos não ocorressem assim. Com o velho Damián, entrevisto numa tarde, há muitos anos, eu criara, sem me propor isso, uma espécie de ídolo; a versão de Tabares o destruía. Subitamente, compreendi a reserva e a obstinada solidão de Damián; não as ditara a modéstia, mas a vergonha. Em vão, tentei me convencer de que um homem acossado por um ato de covardia é mais complexo e mais interessante que um homem meramente corajoso. O gaúcho Martín Fierro, pensei, é menos memorável que Lord Jim ou que Razumov. Sim, mas Damián, como gaúcho, tinha obrigação de ser Martín Fierro — sobretudo diante de gaúchos orientais. No que Tabares disse e não disse percebi o agreste sabor do que se chamava artiguismo: a consciência (talvez irrefutável) de que o Uruguai seja mais elementar que nosso país e, portanto, mais bravo... Lembro-me de que, nessa noite, nos despedimos com exagerada efusão.

No inverno, a falta de um ou dois pormenores para meu conto fantástico (que se obstinava, sem jeito, em não encontrar sua forma) fez com que eu voltasse à casa do coronel Tabares. Encontrei-o com outro senhor de idade: o doutor Juan Francisco Amaro, de Paysandú, que também tinha militado na revolução de Saravia. Falou-se, como se podia prever, de Masoller. Amaro contou alguns fatos curiosos e depois acrescentou, com lentidão, como quem está pensando em voz alta:

— Acampamos à noite em Santa Irene, lembro-me, e juntaram-se a nós algumas pessoas. Entre elas, um veterinário francês que morreu na véspera da ação, e um moço tosquiador, de Entre Ríos, um tal Pedro Damián.

Interrompi-o com aspereza.

— Já sei — disse-lhe. — O argentino que fraquejou diante das balas.

Detive-me; os dois me olhavam perplexos.

— O senhor está enganado — disse, por fim, Amaro. — Pedro Damián morreu como qualquer homem desejaria morrer. Deviam ser quatro da tarde. No alto da coxilha se fortalecera a infantaria colorada; os nossos a atacaram, à lança; Damián ia na ponta, gritando, e uma bala o acertou em cheio no peito. Firmou-se nos estribos, completou o grito e caiu por terra e ficou entre as patas dos cavalos. Estava morto e a última carga de Masoller lhe passou por cima. Tão valente e nem tinha completado vinte anos.

Sem dúvida, falava de outro Damián, mas algo me fez perguntar o que gritava o rapaz.

— Palavrões — disse o coronel —, que é o que se grita nos combates.

— Pode ser — disse Amaro —, mas também gritou "Viva Urquiza!"

Ficamos calados. Por fim, o coronel murmurou:

— Como se não lutasse em Masoller, mas em Cagancha ou India Muerta, há um século...

Acrescentou com sincera perplexidade:

— Eu comandei essas tropas, e juraria que é a primeira vez que ouço falar de um Damián.

Não conseguimos que se lembrasse dele.

Em Buenos Aires, o espanto que me causou seu esquecimento se repetiu. Diante dos onze deleitáveis volumes das obras de Emerson, no porão da livraria inglesa de Mitchell, encontrei, numa tarde, Patrício Gannon. Perguntei-lhe por sua tradução de The Past. Disse que não pensava em traduzi-lo e que a literatura espanhola era tão tediosa que tornava Emerson desnecessário. Lembrei-lhe que me havia prometido essa versão na mesma carta em que me escreveu sobre a morte de Damián. Perguntou quem era Damián. Disse-o, inutilmente. Com um princípio de terror, observei que me escutava com estranheza, e procurei amparo numa discussão literária sobre os detratores de Emerson, poeta mais complexo, mais hábil e sem dúvida mais singular que o desditoso Poe.

Alguns fatos mais devo registrar. Em abril, recebi carta do coronel Dionísio Tabares; já não estava tão esquecido e agora se lembrava muito bem do pequeno entrerriano que esteve na ponta do ataque de Masoller e que seus homens enterraram naquela noite, ao pé da coxilha. Em julho, passei por Gualeguaychú; não encontrei o rancho de Damián, de quem já ninguém se lembrava. Quis interrogar o posteiro, Diego Abaroa, que o viu morrer; mas este tinha falecido antes do inverno. Quis trazer à memória os traços de Damián, meses depois, folheando alguns álbuns, comprovei que o rosto sombrio que eu conseguira evocar era o do célebre tenor Tamberlick, no papel de Otelo.

Passo agora às conjeturas. A mais fácil, mas também a menos satisfatória, requer dois Damianes: o covarde que morreu em Entre Ríos por volta de 1946, o valente que morreu em Masoller em 1904. Seu defeito reside em não explicar o realmente enigmático: os curiosos vaivéns da memória do coronel Tabares, o esquecimento que anula em tão pouco tempo a imagem e até o nome do que voltou. (Não aceito, não quero aceitar, uma conjetura mais simples: a de eu ter sonhado o primeiro.) Mais curiosa é a conjetura sobrenatural que Ulrike von Kühlmann imaginou. Pedro Damián, dizia Ulrike, pereceu na batalha, e na hora da morte suplicou a Deus que o fizesse voltar a Entre Ríos. Deus vacilou um segundo antes de outorgar essa graça, e quem a pedira já estava morto e alguns homens viram-no cair. Deus, que não pode mudar o passado, mas sim as imagens do passado, trocou a imagem da morte pela de um desfalecimento, e a sombra do entrerriano voltou a sua terra. Voltou, mas devemos recordar sua condição de sombra. Viveu na solidão, sem uma mulher, sem amigos; amou e possuiu tudo, mas de longe, como do outro lado de um vidro; "morreu", e sua tênue imagem se perdeu, como a água na água. Essa conjetura é errônea, mas me haveria de sugerir a verdadeira (a que hoje creio verdadeira), que, ao mesmo tempo, é mais simples e mais inaudita. De modo quase mágico, descobri-a no tratado De Omnipotentia, de Pier Damiani, a cujo estudo me levaram dois versos do canto XXI do Paradiso, que propõem justamente um problema de identidade. No quinto capítulo daquele tratado, Pier Damiani sustenta, contra Aristóteles e contra Fredegário de Tours, que Deus pode fazer com que não tenha sido o que alguma vez foi. Li essas velhas discussões teológicas e comecei a compreender a trágica história de Dom Pedro Damián.

Adivinho-a assim: Damián portou-se como covarde no campo de Masoller, e dedicou a vida a corrigir essa vergonhosa fraqueza. Voltou a Entre Ríos; não levantou a mão contra nenhum homem, não marcou ninguém, não procurou fama de valente, mas nos campos de Nancay fez-se duro, lidando com o monte e o gado xucro. Seguramente sem o saber, foi preparando o milagre. Pensou no fundo de si mesmo: se o destino me traz outra batalha, saberei merecê-la. Durante quarenta anos, esperou-a com obscura esperança, e o destino por fim a trouxe, na hora da morte. Trouxe-a em forma de delírio, e já os gregos sabiam que somos as sombras de um sonho. Na agonia, reviveu sua batalha, e conduziu-se como homem e encabeçou o ataque final e uma bala acertou-o em pleno peito. Assim, em 1946, por obra de uma longa paixão, Pedro Damián morreu na derrota de Masoller, que ocorreu entre o inverno e a primavera de 1904.

Na Suma Teológica nega-se que Deus possa fazer com que o passado não tenha sido, mas nada se diz da intrincada concatenação de causas e efeitos, tão vasta e tão íntima que talvez não fosse possível anular um único fato remoto, por insignificante que fosse, sem invalidar o presente. Modificar o passado não é modificar um único fato; é anular suas consequências, que tendem a ser infinitas. Por outras palavras: é criar duas histórias universais. Na primeira (digamos), Pedro Damián morreu em Entre Rios, em 1946; na segunda, em Masoller, em 1904. Esta é a que vivemos agora, mas a supressão daquela não foi imediata e motivou as incoerências que narrei. No coronel Dionísio Tabares cumpriram-se as diversas etapas: a princípio, lembrou-se de que Damián agiu como covarde; depois, esqueceu-o por completo; em seguida, recordou sua impetuosa morte. Não menos corroborativo é o caso do posteiro, Abaroa; este morreu, assim penso, porque tinha demasiadas lembranças de Dom Pedro Damián.

Quanto a mim, entendo não correr perigo análogo. Adivinhei e registrei um processo não acessível aos homens, uma espécie de escândalo da razão; mas algumas circunstâncias mitigam esse privilégio temível. Por ora, não estou seguro de ter escrito sempre a verdade. Suspeito que em meu relato existam falsas lembranças. Suspeito que Pedro Damián (se existiu) não se chamou Pedro Damián, e que eu me lembre dele com esse nome para crer algum dia que sua história me foi sugerida pelos argumentos de Pier Damiani. Algo parecido acontece com o poema que mencionei no primeiro parágrafo e que versa sobre a irrevogabilidade do passado. Por volta de 1951, acreditarei ter composto um conto fantástico e terei historiado um fato real; também o inocente Virgílio, há dois mil anos, acreditou anunciar o nascimento de um homem e vaticinava o de Deus.

Pobre Damián! A morte o levou aos vinte anos numa triste guerra ignorada e numa batalha caseira, mas conseguiu o que seu coração desejava, e tardou muito a consegui-lo, e talvez não exista felicidade maior.