• Ivan Milazzotti
    O Manifesto Comunista
    26-12-2025 04:01:42
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A primeira edição russa do Manifesto do Partido Comunista, traduzida por Bakunin, foi publicada no início dos anos 1860 pela gráfica do Kolokol. Nela (na edição russa do Manifesto), o Ocidente só foi capaz de ver outrora uma curiosidade literária. Tal concepção seria hoje impossível.

A área restrita que o movimento proletário ocupava à época (dezembro de 1847) é o que mostra com toda a nitidez o segmento final do Manifesto: o posicionamento dos comunistas em relação aos diversos partidos oposicionistas nos vários países. Faltam ali justamente a Rússia e os Estados Unidos. Tratava-se, então, da época em que a Rússia constituía a última grande reserva da reação em toda a Europa, e os Estados Unidos absorviam, pela via da imigração, as forças excedentes do proletariado europeu. Os dois países proviam a Europa de matérias-primas e eram, ao mesmo tempo, mercados de consumo para os produtos industrializados europeus. De uma maneira ou de outra, constituíam, ambos, pilares da ordem europeia então existente.

Como hoje tudo é diferente! Justamente a imigração europeia possibilitou aos Estados Unidos uma agricultura gigantesca, cuja concorrência abala a própria estrutura de grandes e pequenas propriedades agrícolas europeias. Além disso, essa imigração permitiu aos Estados Unidos explorar seus incomensuráveis recursos industriais com uma energia e numa escala tal que há de fazer ruir em breve o presente monopólio industrial da Europa Ocidental, e mais especificamente o da Inglaterra. Essas duas circunstâncias vão retroagir revolucionariamente sobre os próprios Estados Unidos. As pequenas e médias propriedades agrícolas dos farmers, base de toda a constituição política, sucumbem pouco a pouco ante a concorrência das fazendas enormes, ao mesmo tempo que, nos distritos industriais, se desenvolve pela primeira vez uma grande massa proletária e uma fabulosa concentração de capitais.

E agora a Rússia! Durante a revolução de 1848-49, tanto os príncipes como a burguesia europeia encontraram na intromissão russa a única salvação diante do proletariado recém-desperto. O czar foi proclamado chefe da reação europeia. Hoje, é prisioneiro de guerra da revolução, em Gatchina, e a Rússia constitui a vanguarda da ação revolucionária na Europa.

A tarefa do Manifesto Comunista era a de proclamar a inevitável e iminente dissolução da moderna propriedade burguesa. Na Rússia, porém — em contrapartida ao embuste capitalista, que ora floresce com rapidez, e à propriedade burguesa da terra, que começa a se desenvolver —, mais da metade da terra é propriedade conjunta dos camponeses. A questão agora é: poderá a obchtchina russa, uma antiquíssima forma de propriedade conjunta da terra, ainda que fortemente solapada, transformar-se diretamente na forma superior, comunista, de propriedade conjunta da terra? Ou, ao contrário, precisará ela, antes, passar pelo mesmo processo de dissolução que caracteriza o desenvolvimento histórico do Ocidente?

A única resposta que se pode dar a essa pergunta hoje em dia é: se a revolução russa constituir o sinal para uma revolução proletária no Ocidente, de forma que ambas essas revoluções se complementem, aí então a atual propriedade conjunta da terra na Rússia pode servir de ponto de partida para um desenvolvimento comunista.

karl marx

f. engels

Londres, 21 de janeiro de 1882