A alegria da escrita (1973)
Entusiasmo. Prazer. Raramente ouvimos essas palavras! Raramente vemos pessoas vivendo e, no nosso caso, criando com base nelas! Ainda assim, se me perguntarem sobre os itens mais importantes no figurino de um escritor, as coisas que moldam o seu material e o impelem em direção ao caminho que ele deseja percorrer, eu apenas o aconselharia a olhar para o seu entusiasmo, para o seu prazer.
Você deve listar seus escritores favoritos; eu tenho os meus: Dickens, Twain, Wolfe, Peacok, Shaw, Molière, Jonson, Wycherly, Sam Johnson. Os poetas: Gerard Manley Hopkins, Dylan Thomas, Pope. Os pintores: El Greco, Tintoretto. Os músicos: Mozart, Haydn, Ravel, Johann Strauss (!). Pense em todos esses nomes e você pensará em pequenos ou grandes, mas sempre importantes entusiasmos, apetites, fomes. Pense em Shakespeare e Melville e pensará em trovão, raio, vento. Todos eles conheciam a alegria de criar em formas grandes ou pequenas, em telas ilimitadas ou restritas. Esses são os filhos dos deuses. Eles se divertiam com seu trabalho. Não importa se a criação vinha difícil aqui ou ali ao longo do caminho, ou que doenças e tragédias tocassem a sua vida pessoal. As coisas importantes eram aquelas passadas para nós por suas mãos e mentes e são plenas para explodir com vigor animal e vitalidade intelectual. Seus ódios e desesperos eram narrados com uma espécie de amor.
Observe a grandiosidade de El Greco e me diga, se puder, que ele não sentia nenhum prazer com o seu trabalho. Você pode mesmo imaginar que Deus criando os animais do universo, de Tintoretto, é uma obra baseada em algo menos do que “prazer”, em seu sentido mais amplo e mais completamente implicado? O melhor jazz diz: “Vamos viver para sempre; não acredite na morte”.
A melhor escultura, como a cabeça de Nefertiti, insiste em dizer: “A Bela estava aqui, está aqui e estará aqui, para sempre”. Todos os homens que mencionei acima capturaram um pouco do azougue da vida, congelaram-no para sempre e voltaram, no esplendor de sua criatividade, para apontá-la e dizer: “Isso não é bom?”. E era bom.
Mas o que isso tudo tem a ver com escrever a história dos nossos tempos?
Apenas isto: se você está escrevendo sem entusiasmo, sem prazer, sem amor, sem alegria, você é apenas meio autor. Significa que está tão preocupado em manter um olho no mercado, ou um ouvido no círculo de escritores de vanguarda, que não está sendo você mesmo. Talvez nem ao menos se conheça. A primeira coisa que um escritor deve ser é animado. Deve ser uma coisa de febres e entusiasmos. Sem esse vigor, seria melhor ele colher pêssegos ou cavar buracos; Deus sabe que isso seria melhor para a sua saúde.
Quanto tempo faz que você escreveu uma história em que seu verdadeiro amor ou verdadeiro desafeto foi parar no papel? Quando foi a última vez que ousou assumir um querido preconceito, que então pôde atingir a página como um raio? Quais são as melhores e as piores coisas da sua vida e quando você vai sussurrar ou gritar com elas?
Não seria maravilhoso, por exemplo, jogar longe um exemplar da Harper’s Bazaar que você folheava no dentista e se lançar sobre a sua máquina de escrever com uma fúria hilária para atacar a esnobação tonta e às vezes chocante dessa revista? Há alguns anos, fiz exatamente isso. Deparei com um artigo em que os fotógrafos da Bazaar, com seu pervertido senso de igualdade, mais uma vez utilizaram nativos de um bairro de Porto Rico ao lado de modelos esquálidas que posavam em benefício de mulheres ainda mais esquálidas dos melhores salões do país. As fotografias me irritaram tanto que corri, não andei, para a minha máquina de escrever e escrevi Sol e sombra, a história de um velho porto-riquenho que acaba com a tarde de trabalho de um fotógrafo da Bazaar ao se intrometer em cada foto dele de calças arriadas.
Acredito que alguns de vocês gostariam de ter feito esse trabalho. Eu me diverti muito fazendo; era o efeito redentor da vaia, do berro e da intensa gargalhada. Provavelmente, os editores da Bazaar nem ouviram falar, mas vários leitores leram e gritaram: “Dá-lhe, Bazaar; dá-lhe, Bradbury!”. Não proclamo vitória, mas havia sangue em minhas luvas quando liguei para eles.
Quando foi a última vez que você fez uma história assim, tirada da mais pura indignação?
Quando foi a última vez que você foi parado pela polícia em seu bairro, simplesmente porque gosta de andar e, talvez, de pensar, de madrugada? Isso acontecia tanto comigo que, irritado, escrevi “O pedestre”, uma história de um tempo, há uns cinquenta anos, quando um homem foi preso e levado para estudo clínico por insistir em observar a realidade não televisionada e respirar um ar não condicionado.
Irritações e ódios à parte, o que dizer dos amores? O que você mais ama no mundo? Quero dizer, as coisas grandes e pequenas. Bondes, um par de tênis? Os primeiros, no tempo em que éramos crianças, eram dotados de magia para nós. No ano passado, publiquei uma história sobre a última viagem de um menino num bonde que cheirava a todas as trovoadas, cheio de bancos verdes bacanas como o musgo aveludado, mas que estava condenado a ser substituído pelo mais prosaico, e de cheiro mais prático, ônibus. Outra história envolvia um menino que queria um par de tênis novos por causa do poder que eles lhe davam de pular rios e casas e ruas e até arbustos e calçadas e cachorros. Esses tênis eram, para ele, o arroubo do antílope e da gazela no verão da savana africana. A energia dos rios desembestados e das tempestades de verão estava naqueles tênis; ele tinha que tê-los, mais do que qualquer outra coisa no mundo.
Então, simples assim, eis a minha fórmula.
O que você mais quer no mundo? O que você ama ou o que odeia?
Encontre um personagem, como você, que vai querer ou não querer algo com todo o coração. Mande-o correr. Atire-o para fora. Depois o siga o mais rápido que puder. O personagem, em seu grande amor ou ódio, vai empurrá-lo até o final da história. O entusiasmo e o prazer da necessidade dele, e existe entusiasmo e prazer tanto no ódio como no amor, vai incendiar a paisagem e elevar a temperatura da sua máquina de escrever aos quarenta graus.
Tudo isso diz respeito primeiramente ao escritor que já aprendeu o seu ofício, ou seja, que já dispõe de recursos gramaticais e conhecimento literário suficientes para não tropeçar quando quiser correr. Mas o conselho também é útil para o escritor novato, ainda que seus passos sejam vacilantes puramente por razões técnicas. Ainda aí, a paixão sempre salva o dia.
A história de cada história deve, então, se parecer com o noticiário da previsão do tempo: quente hoje, fresco amanhã. Hoje à tarde, incendeie a casa. Amanhã, espalhe a água fria da crítica sobre as brasas incandescentes. Mas hoje exploda, esmigalhe, desintegre! Os outros seis ou sete rascunhos serão pura tortura. Então, por que não curtir esse primeiro, na esperança de que a sua alegria procure e encontre outras pessoas no mundo que, ao lerem a sua história, vão pegar fogo também?
Não precisa ser um grande incêndio. Uma pequena chama, a luz de uma vela, talvez; um desejo por uma maravilha mecânica como um bonde ou uma maravilha animal como um par de tênis caçando no gramado da madrugada. Procure os pequenos amores, encontre e modele as pequenas angústias. Saboreie-as na boca, experimente-as na sua máquina de escrever. Quando foi a última vez que você leu um livro de poesia ou encontrou tempo numa tarde para ler um ensaio ou dois? Você já leu algum artigo da Geriatrics, a revista oficial da Sociedade Americana de Geriatria, uma publicação devotada ao “estudo acadêmico e clínico das doenças e processos do idoso e do envelhecimento”? Ou leu ou viu uma edição de What’s New, uma revista publicada pelos Laboratórios Abbott em Chicago, contendo artigos como “Tubocurarina para o corte cesário” ou “Fenitoína em epilepsia”, mas que também apresentava poemas de William Carlos Williams e Archibald MacLeish, histórias de Clifton Fadiman e Leo Rosten, ilustrações de capa e miolo de John Groth, Aaron Bohrod, William Sharp e Russell Cowles? Absurdo? Talvez. Mas as ideias estão por toda a parte, como maçãs caídas apodrecendo sobre a grama na falta de estranhos transeuntes com intuição para a beleza, ainda que isso seja absurdo, horrível ou sofisticado.
Gerard Manley Hopkins expressou isso assim:
Glory be to God for dappled things –
For skies of couple-color as a brinded cow;
For rose-moles all in stipple upon trout that swim;
Fresh-firecoal chestnut-falls; finches’ wings;
Landscape plotted and pieced – fold, fallow, and plow;
And all trades, their gear and tackle and trim.
All things counter, original, spare, strange;
Whatever is fickle, freckled (who knows how?)
With swift, slow; sweet, sour; adazzle, dim;
He fathers-forth whose beauty is past change:
Praise Him.1
Thomas Wolfe comeu o mundo e vomitou lava. Dickens jantou em uma mesa diferente em todos os momentos da sua vida. Molière, degustando a sociedade, virou-se para pegar um bisturi, assim como fizeram Pope e Shaw. Para onde quer que você olhe no cosmo literário, os grandes estão ocupados amando ou odiando. Você descartou de sua escrita essa estratégia básica, considerando-a obsoleta? Que prazer você está desperdiçando então! O prazer da raiva e da desilusão, o prazer de amar e de ser amado, de mover e de ser movido nesse baile de máscaras que nos faz dançar do berço à sepultura. A vida é curta; o infortúnio, indubitável; a morte, certa. Mas, na travessia, em seu trabalho, por que não carregar aqueles dois balões de gás nomeados Entusiasmo e Prazer? Com eles, viajando para a sepultura, eu espero despistar alguns idiotas, afagar os cabelos de uma garota bonita, trepar num caquizeiro.
Quem quiser me acompanhar, tem bastante vaga no Exército de Coxie.2
1. Poems and Prose. Penguin Classics, 1985. “Deus seja louvado pelas coisas de várias cores / Pelos céus de cor dupla como uma vaca malhada; / Pelas manchas rosas da truta que nada; / O carvão fresco castanho; asas de pintassilgo; / Paisagem tramada e dividida – dobra, pouso e arado; / E todos os ofícios, seus aparelhos e apetrechos e acessórios. / Todas as coisas contam, originais, escassas, estranhas; / Tudo o que é inconstante, malhado (quem sabe como?) / Com rapidez, vagar; doçura, amargura; brilho, opacidade; / Ele concebe a beleza da mudança passada: / Louvado seja Ele.” (N. da T.)
2. Coxey’s Army foi uma marcha de protesto realizada por trabalhadores norte-americanos desempregados e liderada por Jacob Coxey, em 1894, em Washington. (N. da T.)