• Ivan Milazzotti
    O Zen e a Arte da Escrita
    18-09-2025 16:15:44
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    21

Apenas este lado de Bizâncio: O vinho da alegria (1974)

O vinho da alegria,4 como a maioria dos meus livros e contos, foi uma surpresa. Graças a Deus, comecei a aprender a natureza desse tipo de surpresa quando era relativamente novo como escritor. Antes disso, como todo iniciante, eu achava que era possível bater numa ideia, espancá-la e surrá-la para trazê-la à existência. Com tal tratamento, é claro, qualquer ideia decente dobra as patas, vira de costas, fixa seus olhos na eternidade e morre.

Foi com grande alívio, então, que, no início dos meus vinte anos, tropecei em um processo de associação de palavras por meio do qual simplesmente pulava da cama todas as manhãs, caminhava até a minha escrivaninha e anotava qualquer palavra ou série de palavras que me vinham à mente.

Eu, então, pegava em armas contra a palavra, ou a favor dela, e gerava um lote de personagens para analisar a palavra e me mostrar o seu significado em minha vida. Uma ou duas horas depois, para meu espanto, um novo conto estava terminado. A surpresa era total e encantadora. Logo descobri que teria de trabalhar dessa forma pelo resto da vida.

Primeiro, remexia na minha mente buscando palavras que pudessem descrever os meus pesadelos pessoais, os medos noturnos e da minha infância, e moldava histórias com base neles.

Então olhava longamente para os pés de maçã verde e para a velha casa em que nasci e para a casa ao lado, em que meus avós moravam, e para todos os gramados dos verões em que cresci, e começava a experimentar palavras para tudo isso.

O que há em O vinho da alegria, então, é uma reunião de dentes-de-leão de todos esses anos. A metáfora do vinho, que se repete nessas páginas, é maravilhosamente adequada. Eu estava reunindo imagens de toda a vida, armazenando-as e esquecendo-as. De alguma forma, precisava enviar a mim mesmo ao passado, com as palavras servindo de catalisadores para abrir as lembranças e ver o que tinham para oferecer.

Assim, dos vinte e quatro aos trinta e seis anos, raramente havia um dia em que eu não passeasse por uma recordação da grama do norte de Illinois dos meus avós, na esperança de encontrar alguma velha bombinha estourada pela metade, um brinquedo enferrujado ou um fragmento de carta escrita para mim mesmo em um ano em que eu era mais novo, desejoso de contatar a pessoa mais velha em que me tornei para lembrá-la de seu passado, de sua vida, de seu povo, de suas alegrias e de suas tristezas encharcadas.

Tornou-se um jogo que eu jogava com imenso prazer: ver quanto conseguia lembrar dos dentes-de-leão em si, de colher uvas silvestres com meu pai e meu irmão, de redescobrir o barril de água parada, foco de mosquitos perto da janela lateral, ou de procurar o cheiro das abelhas de penugem dourada que pendiam em torno do nosso caramanchão de parreira na varanda dos fundos. As abelhas têm de fato um cheiro, todos sabem, e, se não têm, deveriam ter, já que seus pés são pulverizados com condimentos de um milhão de flores.

E então eu queria relembrar como era o despenhadeiro, especialmente naquelas noites em que, ao voltar tarde para casa atravessando a cidade, depois de ver o susto delicioso de Lon Chaney em O fantasma da ópera, meu irmão Skip corria na frente e, como o Solitário, se escondia sob a ponte entre o riacho e o despenhadeiro e pulava para fora e me agarrava, gritando; então eu corria, caía e corria de novo, tagarelando por todo o caminho para casa. Isso era demais.

Ao longo do caminho deparei e colidi, por meio da associação de palavras, com amizades antigas e verdadeiras. Peguei emprestado John Huff, meu amigo de infância no Arizona, e o enviei na direção leste para Green Town, para poder dizer-lhe adeus corretamente.

Ao longo do caminho, sentei-me para desfrutar cafés da manhã, almoços e jantares com os que tinham morrido havia muito tempo e eram muito amados − pois eu era um menino que realmente tinha amado os seus pais, os seus avós e o seu irmão, mesmo quando esse irmão o havia “dispensado”.

Ao longo do caminho, vi-me no porão, ocupado em prensar o vinho para o meu pai, ou na varanda da frente na noite da Independência, ajudando o meu tio Bion a carregar e disparar o seu canhão de bronze feito em casa.

Dessa forma, mergulhei na surpresa. Ninguém me disse para me surpreender, devo acrescentar. Por meio da ignorância e da experiência, fui para as velhas e melhores formas de escrita e fiquei perplexo quando as verdades saltaram dos arbustos como codornas antes do tiro. Tropecei na criatividade tão cegamente como qualquer criança que está aprendendo a andar e a ver. Aprendi a deixar os meus sentidos e o meu Passado me contarem tudo o que era, de algum modo, verdadeiro.

Então, voltei-me para um menino correndo para pegar uma colher de água da chuva clarinha naquele barril ao lado da casa. E claro que, quanto mais água você tira, mais água chove no barril. O fluxo nunca cessou. Quando aprendi a cada vez mais ir e voltar para aqueles tempos, obtive muitas lembranças e impressões sensoriais para brincar; não para trabalhar, para brincar. O vinho da alegria nada mais é do que o menino-escondido-no-homem brincando nos campos do Senhor sobre a grama verde de outros agostos, a meio caminho entre começar a crescer e se tornar grande e o sentimento da escuridão que espreita sob as árvores para semear o sangue.

Fiquei surpreso e, de certa forma, espantado com um crítico que há alguns anos escreveu um artigo sobre O vinho da alegria e as obras mais realistas de Sinclair Lewis, aí perguntando como eu poderia ter nascido e sido criado em Waukegan, que renomeei Green Town no romance, e não ter percebido quão feio era o porto e quão deprimentes eram as docas de carvão e estações de trem da cidade.

Mas é claro que eu havia notado e, com meu natural talento de encantador, era fascinado por sua beleza. Trens e vagões fechados e o cheiro de carvão e de fogo não são coisas feias para as crianças. Feiura é um conceito que só mais tarde costuma nos ocorrer e do qual só mais tarde nos tornamos conscientes. Contar vagões é uma atividade superior dos meninos. Seus familiares mais velhos se irritam, se enfurecem e praguejam contra o trem que faz com que eles tenham de esperar para poder passar, mas os meninos, felizes, leem o nome dos vagões e gritam os nomes quando eles passam vindos de lugares distantes.

E, novamente, aquela estação de trens supostamente feia era onde desfiles e circos chegavam com elefantes que lavavam as calçadas de tijolos com poderosas águas ácidas e vaporosas na manhã escura.

Tal como no carvão das docas, desci no meu porão todos os outonos para esperar a chegada do caminhão e a sua rampa de metal, que retinia e liberava uma tonelada de belos meteoros que caíam do espaço distante no porão e ameaçavam me soterrar sob tesouros sombrios.

Em outras palavras, se o menino é um poeta, esterco de cavalo só pode soar como flores para ele; o que é, naturalmente, o que esterco de cavalo sempre foi.

Talvez um novo poema meu possa explicar mais do que esta introdução sobre a germinação de todos os verões da minha vida em um livro. Eis o início dele:

Bizâncio, eu não venho de lá,

Mas de outro tempo e lugar

Cuja raça era simples e consagrada.

Como menino,

Surgi em Illinois.

Um nome sem amor nem graça

Era Waukegan, de lá eu vim

E não, meus bons amigos, de Bizâncio.

O poema continua, descrevendo a minha relação de vida inteira com o local do meu nascimento:

E ainda olhando para trás vejo,

Da parte superior da árvore mais distante,

Uma terra tão brilhante, amada e

Azul,

Que qualquer Yeats acharia verdadeira.

Waukegan, visitada por mim muitas vezes desde então, não é mais sem graça nem mais bonita do que qualquer outra pequena cidade do Meio-oeste. Boa parte é verde. As árvores tocam o meio da rua. A rua na frente da minha antiga casa ainda é pavimentada com tijolos vermelhos. O que havia então de especial na cidade? Ora, eu nasci lá. Era a minha vida. Tive de escrever sobre ela como a via.

Então crescemos com mortos míticos

Para pegar um pedaço do pão do Meio-oeste

E espalhar a marmelada brilhante dos velhos deuses

Para se saciar na sombra da manteiga de amendoim,

Fingindo lá debaixo do nosso céu

Que era a coxa de Afrodite...

Enquanto na calma e negra varanda com cerca

Suas palavras, pura sabedoria, olhavam ouro puro,

Meu avô, um mito na verdade,

Será o que tudo de Platão supera,

Enquanto a vovó na cadeira de balanço

Costurava a manga emaranhada de cuidados,

Crochetava frescos flocos de neve, raros e brilhantes

Para nos esfriar numa noite de verão.

E tios, reunidos com suas fumaças,

Emitiam sabedorias mascaradas de brincadeiras,

E as tias tão sábias como criadas délficas

Distribuíam proféticas limonadas

Para os meninos ajoelhados ali como acólitos

Para a varanda grega nas noites de verão;

Então fui para a cama, lá me arrepender

dos males do inocente;

Os pecados feito mosquitos zumbindo no ouvido,

Disse, através das noites e dos anos,

Não sobre Illinois nem sobre Waukegan, mas sobre céus

e sóis desprovidos de preocupação

Embora medíocres todos os nossos Destinos

E Mayor não tão brilhante como Yeats,

Ainda assim sabíamos nós mesmos. O resumo?

Bizâncio.

Bizâncio.

(Waukegan/Green Town/Bizâncio)

Green Town existiu, então? Sim e, de novo, sim.

Houve um menino de verdade chamado John Huff? Houve, e esse era verdadeiramente o seu nome, mas ele não foi embora de mim; eu fui para longe dele. Mas, final feliz, ele ainda está vivo, quarenta e dois anos depois, e lembra o nosso amor.

Houve um Solitário? Houve, e esse era o seu nome. Moveu-se de noite em torno da minha cidade natal quando eu tinha seis anos, ele com medo de todo mundo, e nunca foi capturado.

Mais importante ainda, a grande casa em si, com o Vovô e a Vovó e os inquilinos, tios e tias, existiu? Já respondi isso.

O despenhadeiro era real e profundo e escuro à noite? Era, é. Levei minhas filhas lá há alguns anos, temendo que ele tivesse ficado raso com o tempo. Estou aliviado e feliz de informar que está mais profundo, mais escuro e mais misterioso do que nunca. Mesmo agora, eu não iria para casa por lá depois de ter visto O fantasma da ópera.

Então, é isso. Waukegan foi Green Town e foi Bizâncio, com toda a felicidade que isso significa, com toda a tristeza que esses nomes significam. As pessoas lá foram deuses e anões e sabiam-se mortais, e por isso os anões se empertigavam para não embaraçar os deuses e os deuses se agachavam para fazer com que os pequenos se sentissem em casa. E, afinal, não é disso que se constitui a vida, a capacidade de andar por aí em volta e ir até dentro da cabeça das pessoas para procurar o maldito milagre idiota e dizer: ah, então é assim que você vê isso?! Bem, agora, devo me lembrar disso.

Aqui está a minha celebração, então, de morte e de vida, tão escura quanto luminosa, tão velha quanto jovem, com inteligentes e burros combinados, alegria pura assim como terror completo escritos por um menino que uma vez ficou pendurado de cabeça para baixo em árvores, vestido com seu traje de morcego com presas que vinham no doce na boca, que finalmente caiu das árvores quando tinha doze anos e encontrou uma máquina de escrever de disco de brinquedo e criou seu primeiro “romance”.

Uma lembrança final: balões.

Você raramente os vê hoje em dia, embora em alguns países, ouvi dizer, eles ainda sejam feitos e enchidos com ar quente de uma fogueirinha de palha pendurada embaixo.

Mas em Illinois, em 1925, nós ainda os tínhamos e uma das últimas lembranças que guardo de meu avô é a hora final de uma noite de 4 de julho há quarenta e oito anos, quando ele e eu andamos no gramado, acendemos uma fogueirinha e enchemos com ar quente o balão em forma de pera feito de tiras de papel azuis, vermelhas e brancas, e seguramos nas mãos a presença cintilante com brilho de anjo por um último momento na frente de uma varanda repleta de tios e tias e primos e mães e pais; e então, muito suavemente, deixamos aquela coisa que era vida e luz e mistério desprender-se de nossos dedos, elevando-se e distanciando-se acima das casas que começavam a adormecer, entre as estrelas, tão frágil, tão maravilhoso, tão vulnerável, tão adorável como a própria vida.

Vejo o meu avô lá olhando para aquela estranha luz à deriva, a pensar pensamentos que ainda eram os dele. Vejo-me; meus olhos a se encherem de lágrimas, porque tudo tinha acabado, a noite terminara, eu sabia que não haveria outra noite como aquela.

Ninguém disse nada. Nós todos apenas olhamos para o céu e suspiramos, e todos pensaram as mesmas coisas, mas ninguém falou. No entanto, alguém finalmente tinha de falar, não?

E esse alguém sou eu.

O vinho ainda espera na adega, lá embaixo. Minha amada família ainda se senta na varanda no escuro. O balão ainda vagueia e queima no céu noturno de um verão ainda insepulto.

Por que e como? Porque eu digo que é assim.

4. Dandelion wine, cuja tradução literal seria vinho de dente-de-leão, mas na tradução brasileira tornou-se O vinho da alegria. (N. da T.)