• Ivan Milazzotti
    O Zen e a Arte da Escrita
    18-09-2025 16:15:44
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Bêbado e no comando de uma bicicleta (1980)

Em 1953, escrevi um artigo para o jornal The Nation defendendo o meu trabalho como escritor de ficção científica, ainda que o rótulo apenas se aplicasse a um terço da minha produção anual.

Poucas semanas depois, no final de maio, uma carta chegou da Itália. Nas costas do envelope, numa letra araneiforme, li estas palavras:

B. Berenson

I Tatti, Settignano

Firenze, Italia

Virei para minha mulher e disse:

– Meu Deus, não pode ser do Berenson, pode? O grande historiador de arte?

– Abra – minha mulher disse.

Abri e li:

Querido Sr. Bradbury,

Em 89 anos de vida, esta é a primeira carta de fã que eu escrevo. É para dizer que acabo de ler o seu artigo no The Nation – “Day after tomorrow”. É a primeira vez que encontro a declaração de um artista de qualquer área de que, para trabalhar criativamente, ele deve pôr carne e gostar disso como de uma brincadeira ou de uma aventura fascinante.

Que diferença dos trabalhadores da indústria pesada em que os profissionais da escrita se transformaram!

Se você vier para Florença, venha me ver.

Sinceramente,

B. Berenson.

Então, aos trinta e três anos de idade, tive o meu modo de ver, escrever e viver aprovado por um homem que se tornaria um segundo pai para mim.

Eu precisava dessa aprovação. Todos nós precisamos de alguém melhor, mais sábio e mais velho para nos dizer que não estamos loucos; enfim, que o que estamos fazendo está correto. Correto, inferno, bom!

Mas é fácil duvidar de si mesmo, porque você olha e vê ao redor um conjunto de noções defendidas por outros escritores, outros intelectuais que fazem você corar de culpa. Escrever é considerado um exercício difícil, agonizante, desagradável, uma ocupação terrível.

Mas, veja você, meus contos me guiaram pela vida. Eles gritam, eu sigo. Eles correm e mordem a minha perna – reajo escrevendo tudo o que aconteceu durante a mordida. Quando termino, a ideia se liberta e escapa.

Essa é a vida que tenho vivido. Bêbado e no comando de uma bicicleta, como dizia um relato da polícia irlandesa. Bêbado de vida; é isso, sem saber aonde ir depois. Mas você encontra o caminho antes de amanhecer. E a viagem? Exatamente metade terror, exatamente metade alegria.

Quando tinha três anos, minha mãe me levava ao cinema duas ou três vezes por semana. Meu primeiro filme foi O corcunda de Notre Dame, com Lon Chaney. Passei a sofrer de corcundice e de minha imaginação desde aquele dia longínquo de 1923. Daquele momento em diante eu reconhecia um compatriota maravilhosamente grotesco e sombrio quando via um. Eu corria para assistir a todos os filmes de Chaney de novo e novamente para ficar deliciosamente aterrorizado. O fantasma da ópera ficou em minha vida com a sua capa vermelha. E, quando não era o Fantasma, era uma mão terrível que gesticulava por detrás da estante de livros em O gato e o canário, convidando-me para encontrar mais escuridão escondida nos livros.

Estava apaixonado, então, por monstros e esqueletos e circos e carnavais e dinossauros e, por fim, pelo Planeta Vermelho, Marte.

Desses tijolos primitivos, construí uma vida e uma carreira. Por me manter apaixonado por todas essas coisas incríveis, todas as coisas boas da minha existência aconteceram.

Em outras palavras, eu não fiquei com vergonha dos circos. Algumas pessoas ficam. Circos são barulhentos, vulgares e fedem ao sol. Com o tempo, muita gente completou catorze ou quinze anos e desistiu de seus amores, de seus gostos antigos e intuitivos, um por um, até alcançarem a maturidade, onde não há nenhuma diversão, nenhum entusiasmo, nenhum prazer, nenhum sabor. Outras pessoas criticaram o circo e criticaram a si mesmos até ficarem constrangidos. Quando o circo se ergue às cinco horas de uma escura e fresca manhã de verão, eles se viram em seu sono, e a vida passa.

Eu me levantei e corri. Aos nove anos de idade, aprendi que estava certo e que todo mundo estava errado. Buck Rogers surgiu nesse ano e foi paixão à primeira vista. Colecionava as tirinhas diárias e fiquei loucamente enlouquecido com elas. Os amigos me criticaram. Os amigos tiraram sarro de mim. Rasguei as tirinhas do Buck Rogers. Por um mês, perambulei aturdido e vazio pelas aulas da quarta série. Certo dia, entrei em colapso em lágrimas, tentando entender a devastação que tinha acontecido comigo. A resposta era Buck Rogers. Ele tinha ido embora e a vida simplesmente não valia a pena. O pensamento seguinte foi: aqueles não são meus amigos, aqueles que me fazem rasgar as tirinhas e assim rasgar a minha própria vida ao meio; eles são meus inimigos.

Voltei a colecionar Buck Rogers. Desde então, minha vida tem sido feliz. Porque era o início da minha escrita de ficção científica. Desde então, nunca mais dei ouvidos a qualquer um que criticasse o meu gosto por viagem espacial, shows populares ou gorilas. Quando isso acontecia, embrulhava meus dinossauros e deixava o ambiente.

Pois, como você sabe, tudo é adubo. Eu não entupi simplesmente meus olhos e minha cabeça com tudo isso na vida. Quando precisei fazer associações de palavras comigo mesmo para conceber ideias de contos, tinha uma tonelada de cifras e meia tonelada de zeros.

A savana é um bom exemplo do que acontece em uma cabeça cheia de imagens, mitos e brinquedos. Há uns trinta anos, sentei à minha máquina de escrever um dia e escrevi estas palavras: sala de jogos. Sala de jogos onde? No passado? Não. No presente? Dificilmente. No futuro? Sim! Bem, então, como seria uma sala de jogos em algum ano no futuro? Comecei a datilografar, a fazer associações de palavras sobre a sala. A tal sala de jogos deveria ter monitores de televisão cobrindo todas as paredes e o teto. Andando por um ambiente assim, uma criança poderia gritar: “Rio Nilo! Esfinge! Pirâmides!”, e eles apareceriam envolvendo-a em cores vivas, sons e, por que não?, cheiros e odores gloriosos e cálidos; pegue um para o seu nariz! Tudo isso veio para mim em poucos segundos de digitação instantânea. Agora que eu conhecia a sala, precisava colocar personagens nela. Digitei um personagem chamado George, trouxe-o para uma cozinha do futuro, onde a sua mulher se virou e disse:

– George, queria que você desse uma olhada na sala de jogos. Acho que está quebrada.

George e sua mulher foram à sala. Eu os segui, digitando feito louco, sem saber o que aconteceria depois. Eles abriram a porta da sala de jogos e entraram. África. Sol quente. Urubus. Carniça. Leões. Duas horas depois, os leões pularam pelas paredes da sala de jogos e devoraram George e sua mulher enquanto seus filhos, dominados pela tevê, estavam sentados e bebericando chá. Fim da associação de palavras. Fim da história. A coisa toda completa e quase pronta para ser publicada, uma explosão de ideias em cerca de cento e vinte minutos.

Os leões na sala, de onde vieram?

Dos leões que descobri nos livros da biblioteca municipal aos dez anos de idade. Dos leões que vi nos circos de verdade aos cinco anos. Do leão que perambulava no filme Lágrimas de palhaço, de Lon Chaney, em 1924!

Em 1924? Você pergunta, duvidando. Sim, 1924. Não tinha revisto nenhum filme de Chaney até um ano atrás. Assim que começou a brilhar na tela, soube de onde meus leões de A savana tinham vindo. Eles estavam escondidos, esperando, abrigados por meu self intuitivo em todos esses anos.

Eu sou esse esquisito especial, um homem com uma criança dentro de si, que se lembra de tudo. Eu me lembro do dia e da hora em que nasci. Eu me lembro de ter sido circuncidado no quarto dia depois do meu nascimento. Eu me lembro de mamar no peito de minha mãe. Anos depois, perguntei para ela sobre a minha circuncisão. Soube que não poderiam ter contado isso a uma criança, especialmente naqueles tempos ainda vitorianos. Fui circuncidado em algum lugar fora do hospital? Fui. Meu pai me levou a um consultório médico. Lembro-me do médico. Lembro-me do bisturi.

Escrevi o conto “O pequeno assassino” vinte e seis anos depois. Fala de um bebê nascido com todos os seus sentidos funcionando, cheio de terror e que era empurrado para um mundo frio, vingando-se dos pais ao engatinhar secretamente pela noite e, por fim, destruindo-os.

Quando isso realmente começou? A escrita disso tudo? Tudo se juntou no verão e no outono e no início do inverno de 1932. Naquela época, eu estava entupido de Buck Rogers, das novelas de Edgar Rice Burroughs e da série de rádio noturna Chandu the Magician. Chandu proferia mágicas e mensagens psíquicas, e o faroeste e os lugares estranhos que me faziam sentar todas as noites e, de cabeça, fazer os scripts de cada programa.

Mas toda a constelação de mágicos e mitos e escadas desabando com brontossauros apenas emergiu com La, a princesa de Opar, encenada por um homem, Mr. Elétrico. Ele chegou com seu carnaval puído, vagabundo, The Dill Brothers Combined Shows, no final de semana do Dia do Trabalho de 1932, quando eu tinha 12 anos. Toda noite, por três noites, Mr. Elétrico sentou em sua cadeira elétrica e foi queimado pela chiadeira de dez bilhões de volts de pura força azul. Dirigindo-se ao público, seus olhos queimando, os cabelos brancos em pé, faíscas pulando entre os seus dentes sorridentes, ele esfregou a espada de Excalibur na cabeça das crianças, golpeando-as com fogo. Quando chegou em mim, bateu com ela nos meus ombros e depois na ponta do meu nariz. A luz pulou em mim. Mr. Elétrico gritou:

– Viva para sempre!

Decidi que isso era a melhor coisa que já tinha ouvido na vida. Fui ver Mr. Elétrico no dia seguinte, com a desculpa de que uma coisa mágica de níquel que eu tinha comprado dele não estava funcionando. Ele a arrumou e toureou-me pelas tendas, gritando em cada uma delas − “Cuidado com a língua!” − antes de entrarmos e encontrarmos anões, acrobatas, mulheres gordas e Homens Ilustrados esperando ali.

Descemos para sentar no lago Michigan, onde Mr. Elétrico me contou as suas filosofias pequenas e eu falei das minhas grandes filosofias. Por que ele me acolheu, nunca vou saber, mas ele ouviu ou parecia ouvir, talvez porque estivesse longe de casa, talvez porque tivesse um filho em algum lugar do mundo ou porque não tinha filho nenhum e queria ter um. De qualquer modo, ele era um ministro presbiteriano excomungado, disse ele, que vivia no Cairo, Illinois, e que eu poderia lhe escrever sempre que quisesse.

Por fim, ele me deu uma notícia especial.

– Nós nos conhecemos antes – ele disse. – Você era meu melhor amigo na França em 1918 e morreu nos meus braços na batalha da floresta de Ardennes naquele ano. E aqui está você, nascido novamente, num novo corpo, com novo nome. Bem-vindo de volta!

Saí do encontro com Mr. Elétrico maravilhosamente exaltado com as duas dádivas: a de ter vivido antes (e ter sido avisado disso) e a de tentar de algum modo viver para sempre.

Poucas semanas depois, comecei a escrever os meus primeiros contos sobre o planeta Marte. Desde então, nunca mais parei. Deus abençoe Mr. Elétrico, o catalisador, onde quer que ele esteja.

Se você analisar cada aspecto do que eu disse antes, meus inícios quase inevitavelmente foram no sótão. Desde os meus doze até os vinte e dois ou vinte e três anos, escrevi contos muito depois da meia-noite – contos não convencionais de fantasmas e assombrações e coisas em jarros que eu tinha visto em carnavais de sovaco azedo, de amigos afogados pelas ondas em lagos e de companheiros de três da manhã, aquelas almas que tinham que voar no escuro para ser atingidas pelo sol.

Levei muitos anos para escrever a mim mesmo de lá do sótão, onde tive que lidar com a minha eventual mortalidade (uma preocupação de adolescente), levá-la para a sala e então para o gramado e a luz do sol, do qual surgiram dentes-de-leão prontos para o vinho.

Sair para o gramado frontal da casa com os meus parentes no Quatro de Julho deu-me não apenas meus contos sobre Green Town, Illinois, como também me lançou para Marte, seguindo o conselho de Edgar Rice Burroughs e John Carter, levando a minha bagagem de infância, os meus tios, as minhas tias, minha mãe, meu pai e meu irmão comigo. Quando cheguei a Marte, encontrei-os, de fato, esperando por mim, ou marcianos que pareciam com eles, empurrando-me para um túmulo. Os contos de Green Town que encontraram o seu caminho no romance acidental intitulado O vinho da alegria e os contos do Planeta Vermelho que se tornaram outro romance acidental chamado As crônicas marcianas, foram escritos nos mesmos anos em que eu corri para o barril de chuva do lado de fora da casa de meus avós para desafogar todas as lembranças, os mitos, as associações de palavras dos anos passados.

Ao longo do caminho, eu também recriei meus parentes como vampiros que habitavam uma cidade semelhante àquela do O vinho da alegria; pus um primo numa cidade em Marte onde a Terceira Expedição se extinguiu. Assim, vivia minha vida de três modos, como explorador, viajante espacial e peregrino ao lado dos primos americanos do Conde Drácula.

Percebi que ainda não tinha falado nem a metade sobre um tipo de criatura que você encontrará espreitando toda esta coletânea, acordando aqui em pesadelos para tropeçar ali em solidão e desespero: dinossauros. Desde os dezessete até os trinta e dois anos, escrevi uma meia dúzia de contos sobre eles.

Certa noite, quando minha mulher e eu estávamos andando pela praia em Venice, na Califórnia, onde morávamos, num apartamento de recém-casados de trinta dólares por mês, deparamos com os ossos, ou trilhos dormentes e escombros de uma antiga montanha-russa encalhada na areia, que ia sendo devorada pelo mar.

– O que aquele dinossauro está fazendo aqui na praia? – eu disse.

Minha mulher, sabiamente, não soube responder.

A resposta veio na noite seguinte quando, despertado do sono por uma voz me chamando, levantei, ouvi e escutei a voz solitária do farol da baía de Santa Mônica assoviando, assoviando e assoviando.

“Evidente!”, pensei. O dinossauro ouviu o assovio do farol, pensou que fosse outro dinossauro emergido do passado profundo, veio nadando para um encontro amoroso, descobriu que era apenas um farol e morreu de desilusão bem aqui na praia.

Pulei da cama, escrevi o conto e o mandei para o Saturday Evening Post naquela semana, em que logo foi publicado sob o título de “O monstro do mar”. Essa história, com o nome de “The fog horn”, virou filme dois anos depois.

O conto foi lido por John Huston em 1953, que prontamente me ligou para perguntar se eu gostaria de escrever o roteiro para o seu filme Moby Dick. Aceitei e fui de uma besta para outra.

Por causa de Moby Dick, reexaminei a vida de Herman Melville e de Júlio Verne e comparei os dois capitães loucos em um ensaio escrito para apresentar uma nova tradução de Vinte mil léguas submarinas que, lida pelos organizadores da Exposição Mundial de Nova York de 1964, me levou à função de criar todo o piso superior do Pavilhão dos Estados Unidos.

Por causa do Pavilhão, a Disney me contratou para planejar os sonhos a ser vivenciados no Spaceship Earth, parte do Epcot Center, uma exibição mundial permanente que está em construção e será inaugurada em 1982. Nesse prédio, espremi a história da humanidade, indo e voltando no tempo, para mergulhar em nosso futuro selvagem no espaço.

Incluindo dinossauros.

Todas as minhas atividades, todo o meu desenvolvimento, todos os meus novos trabalhos e novos amores foram causados e criados por esse amor primitivo e original pelas bestas que vi aos cinco anos e que continuei amando aos vinte, vinte e nove e trinta anos.

Passeie pelas minhas histórias e provavelmente você encontrará apenas uma ou duas que realmente aconteceram comigo. Resisti, na maior parte da minha vida, à tarefa de ir a um lugar e “absorver” a cor local, os nativos, a aparência e o sentimento da terra. Faz tempo que aprendi que eu não vejo diretamente, que meu subconsciente faz o grosso da “absorção” e que anos passaram antes que alguma impressão útil viesse à tona.

Quando jovem, morei num cortiço na parte chicana de Los Angeles. A maioria de meus contos latinos foi escrita anos depois de eu ter me mudado de lá, com uma terrível exceção. No final de 1945, com a Segunda Guerra Mundial recém-terminada, um amigo me pediu para acompanhá-lo à Cidade do México num velho e surrado Ford V-8. Tratei de lembrá-lo do voto de pobreza a que as circunstâncias me forçaram. Ele retorquiu me chamando de covarde, questionando por que eu não revia a minha coragem e publicava três ou quatro contos daqueles a que eu tinha dado sumiço. A razão para ocultá-los: os contos tinham sido rejeitados uma ou duas vezes por várias revistas. Nocauteado por meu amigo, tirei o pó dos contos e os enviei sob o pseudônimo de William Elliott. Por que o pseudônimo? Porque temia que alguns editores de Manhattan tivessem visto o nome Bradbury nas capas da Weird Tales e tivessem preconceito contra esse escritor de literatura “barata”.

Enviei três contos para três revistas diferentes na segunda semana de agosto de 1945. Em 20 de agosto, vendi um conto para Charm; em 21 de agosto, vendi um conto para Mademoiselle; e em 22 de agosto, dia em que fiz vinte e cinco anos, vendi um conto para Collier’s. O ganho total foi de mil dólares, que senti como se fossem dez mil dólares chegando pelo correio.

Eu estava rico. Ou tão perto disso que fiquei mudo. Esse foi o ponto de virada na minha vida, claro, e me apressei a escrever para os editores das três revistas confessando meu verdadeiro nome.

As três histórias foram listadas no The Best American Short Stories of 1946 por Martha Foley e uma delas foi publicada por Herschel Brickell no O. Henry Memorial Award Prize Stories no ano seguinte.

Aquele dinheiro me levou ao México, a Guanajuato e suas múmias e catacumbas. A experiência, então, me tocou e aterrorizou; eu mal podia esperar para fugir do México. Tive pesadelos sobre morrer e ter de ficar na sala dos mortos com aqueles corpos pregados e amarrados. Para purgar o meu terror, instantaneamente escrevi “O próximo da fila”. Foi uma das poucas vezes em que uma experiência deu resultados praticamente no local do acontecimento.

Chega do México. Que tal a Irlanda?

Há todo tipo de conto irlandês no meu trabalho porque, depois de ter morado em Dublin por seis meses, vi que a maioria dos irlandeses que conhecera tinha modos variados de encarar a terrível besta da Realidade. Pode-se correr diretamente para ela, o que é terrível, ou se pode rodeá-la e dar-lhe uma cotovelada, ou dançar para ela, compor uma canção, escrever um conto, prolongar um papo, encher o copo. Todos esses modos fazem parte do clichê irlandês e cada um, combinado àquele clima terrível e à política arruinada, é verdadeiro.

Quis conhecer cada mendigo das ruas de Dublin, aqueles que ficam perto da ponte O’Connell com suas pianolas maníacas moendo mais café do que melodias e os que alugam um bebê para uma tribo inteira de colegas encharcados de chuva; então, uma hora, via-se o mesmo bebê no topo da Grafton Street e na outra ponta, perto do Royal Hibernian Hotel, e, à meia-noite, perto do rio. Mesmo assim, nunca pensei que escreveria sobre isso. Até que a necessidade de uivar e de fazer um lamento angustiado me fez levantar uma noite e escrever “McGillahee’s Brat”, sobre as terríveis suspeitas e mendicâncias de um fantasma que andava na chuva. Visitei algumas das propriedades arruinadas de grandes fazendeiros irlandeses e ouvi histórias sobre um “incêndio” quase inevitável, então escrevi “O terrível incêndio na mansão”.

“Os corredores de hino”, outro encontro irlandês, escreveu-se sozinho anos depois, quando, numa noite chuvosa, relembrei as incontáveis vezes em que minha mulher e eu fugimos dos cinemas de Dublin, correndo para a saída, trombando com crianças e velhos, para sair antes que o hino nacional irlandês começasse a tocar.

Mas como eu comecei? A partir do ano do Mr. Elétrico, escrevi uma centena de palavras por dia. Por dez anos escrevi no mínimo um conto por semana, de algum modo adivinhando que finalmente chegaria o dia em que de fato conseguiria sair do caminho e deixar a história acontecer.

Esse dia veio em 1942, quando escrevi “O lago”. Dez anos fazendo tudo errado e, de repente, vieram a ideia certa, a cena certa, os personagens certos, o dia certo, o tempo criativo certo. Escrevi o conto sentado fora da casa, com a máquina de escrever no gramado. No final de uma hora, o conto estava pronto, os pelos do meu pescoço eriçados e eu em lágrimas. Sabia que tinha escrito o primeiro conto realmente bom na minha vida.

Nos primeiros anos dos meus vinte anos eu tinha a seguinte agenda: na manhã de segunda-feira escrevia o primeiro esboço de um novo conto; na terça fazia o segundo esboço; na quarta, o terceiro; na quinta, o quarto; na sexta, o quinto, e no sábado, ao meio-dia, enviava o sexto e último esboço para Nova York. Domingo? Pensava em todas as ideias selvagens que disputavam a minha atenção, esperando sob a porta do sótão, confiante afinal em que, por causa do “O lago”, logo as deixaria sair.

Tudo isso parece mecânico, mas não era. Minhas ideias me levaram a isso, você sabe. Quanto mais eu fazia, mais queria fazer. Você se torna um faminto. Fica febril. Conhece alegrias. Não consegue dormir de noite porque umas ideias de bestas-criaturas querem sair e viram você na cama. É um ótimo modo de viver.

Havia outra razão para escrever tanto: eu estava recebendo entre vinte e quarenta dólares por história das revistas de literatura barata. O luxo certamente não caracterizava o meu estilo de vida. Eu precisava vender pelo menos uma história, ou melhor, duas por mês para garantir a minha vida de cachorro-quente, hambúrguer e bilhetes de bonde.

Em 1944, vendi cerca de quarenta contos, mas meu rendimento anual total foi de apenas oitocentos dólares.

De repente me ocorre que há muito que comentar em meus contos reunidos. “The Black Ferris” é interessante aqui porque, no início de um outono, há vinte e três anos, ele deixou de ser um conto curtíssimo para virar um roteiro e depois um romance, Algo sinistro vem por aí.

“O dia em que choveu para sempre” foi outra associação de palavras que me dei como tarefa numa tarde, pensando em sóis quentes, desertos e harpas que poderiam mudar o clima.

“The leave-taking” é uma história verdadeira da minha avó que, quando eu tinha três anos, ainda consertava as telhas do telhado muito bem aos setenta anos, depois ia para a cama dizendo “Passar bem” para todo mundo.

“Calling Mexico” veio à existência porque fui visitar um amigo numa tarde do verão de 1946 e, assim que entrei na sala, ele me passou o telefone e disse: “Escute”. Escutei e ouvi os sons da Cidade do México vindos de duas milhas de distância. Voltei para casa e escrevi sobre essa experiência telefônica a um amigo em Paris. No meio da carta, ela virou um conto, que seguiu pelo correio naquele dia.

“The Picasso summer” resultou da minha caminhada na beira da praia com amigos e minha mulher num final de tarde. Peguei um palito de picolé, fiz desenhos na areia e disse: “Não seria horrível se durante a vida inteira você tivesse querido ser dono de um Picasso e, de repente, trombasse com ele aqui, desenhando animais mitológicos na areia... e a sua ‘gravura’ de Picasso bem diante de você?”.

Terminei o conto sobre Picasso na praia às duas horas da manhã.

Hemingway. “O papagaio que conheceu o Papa.” Numa noite de 1952, eu dirigia por Los Angeles com amigos para invadir a gráfica em que a Life imprimia a sua edição com O velho e o mar, de Hemingway. Agarramos as cópias ainda quentes da impressão, sentamos no bar mais próximo e falamos do “Papa” Hemingway, Finca Vigía, Cuba, e, de algum modo, de um papagaio que tinha morado naquele bar e conversado com Hemingway todas as noites. Voltei para casa, tomei notas sobre o papagaio e as deixei de lado por dezesseis anos. Vasculhando os meus arquivos em 1968, deparei apenas com uma anotação para o título: “O papagaio que conheceu o Papa”.

“Meu Deus!”, pensei, “o Papa morreu há oito anos. Se o papagaio ainda está por aí, lembra-se de Hemingway, pode falar com a voz dele, então vale milhões. E se alguém raptasse o papagaio e pedisse resgate?”.

“The haunting of the new” aconteceu porque John Godley, Lorde Kilbracken, escreveu para mim da Irlanda descrevendo a sua visita a uma propriedade que havia sido incendiada e reconstruída, pedra por pedra, tijolo por tijolo, imitando a original. Depois de meio dia de leitura do cartão-postal de Kilbracken, eu tinha o primeiro esboço do conto.

Agora chega. Você já entendeu. Existem cem histórias de quase quarenta anos da minha vida na minha coletânea de contos. Elas reúnem metade das verdades condenatórias de que suspeitei à meia-noite e metade das verdades salvadoras que reencontrei na madrugada seguinte. Se algo é ensinado aqui, é simplesmente o relato de vida de alguém que começou em algum lugar – e seguiu em frente. Nunca planejei muito meu caminho pela vida e, sim, fiz coisas e descobri o que elas eram e o que eu era depois de tê-las feito. Cada conto foi um modo de encontrar eus. Cada eu encontrado a cada dia era um pouco diferente daquele encontrado 24 horas antes.

Tudo começou num dia de outono em 1932, quando Mr. Elétrico me deu os dois presentes. Não sei se acredito em vidas passadas, não sei se posso viver para sempre. Mas aquele menino acreditou nessas duas coisas e eu o deixei seguir por sua cabeça. Ele tem escrito contos e livros para mim. Ele manuseia o Tabuleiro Ouija e diz Sim ou Não para as verdades ou meias verdades que emergem. Ele é a pele através da qual, por osmose, todas as coisas passam e se colocam no papel. Eu tenho acreditado em suas paixões, medos e alegrias. Ele, por sua vez, raramente tem me decepcionado. Quando se faz um longo e úmido novembro em minha alma e penso demais e percebo de menos, sei que é a hora certa de me voltar para o menino de tênis, com febres altas, inumeráveis alegrias e pesadelos terríveis. Não sei ao certo onde ele termina e eu começo, mas estou orgulhoso de sermos uma dupla. O que mais eu poderia fazer senão querer-lhe bem e, ao mesmo tempo, conhecer e querer bem a outras duas pessoas? No mesmo mês em que me casei com Marguerite, associei-me com meu agente literário e amigo Don Congdon. Maggie datilografava e criticava minhas histórias, Don criticava e vendia o resultado. Tendo os dois por parceiros nos últimos trinta e três anos, como eu poderia ter fracassado? Estamos no Connemara Lightfoots, Os Próprios Sonegadores da Rainha. E ainda estamos correndo para aquela saída.