• Ivan Milazzotti
    O Zen e a Arte da Escrita
    18-09-2025 16:15:44
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Corra, pare, ou a coisa no topo da escada, ou novos fantasmas de mentes antigas (1986)

Corra, pare. Eis a lição dos lagartos. Observe a maioria das criaturas e você verá o mesmo. Corra, pule, congele. Com a habilidade de se mover como um cílio, estalar como um chicote, desaparecer como o vapor, aqui neste instante, lá no outro, a vida cobre a terra. E, quando a vida não está correndo para escapar, está fingindo de estátua para fazer o mesmo. Veja o beija-flor aqui, não mais aqui. Como o pensamento que surge e desaparece, como o vapor do verão, a limpeza de uma garganta cósmica, a queda de uma folha. E, onde estavam – um suspiro.

O que os escritores podem aprender com lagartos e pássaros? Rapidez, certamente. Quanto mais rápido você se expressar, quanto mais prontamente escrever, mais honesto será. Na hesitação está o pensamento. Na postergação surge o esforço por um estilo, em vez do mergulho na verdade, que é o único estilo que vale uma queda mortal ou uma caçada ao tigre.

Entre fugas e voos, o que há? Seja um camaleão, mimetize a paisagem. Seja uma pedra, deite na poeira, permaneça na água da chuva da calha inundada há muito tempo do lado de fora da janela de seus avós. Seja um vinho de dente-de-leão na garrafa de ketchup tampada e exibindo uma inscrição a tinta: “Manhã de junho, primeiro dia de verão, 1923. Verão de 1926, fogos de artifício. 1927: último dia de verão. Último dos dentes-de-leão. 1o de outubro”. E, disso tudo, extraia o seu primeiro sucesso como escritor, uma história de vinte dólares, no Weird Tales.

Como você começa um tipo de escrita quase novo, para amedrontar e aterrorizar?

Você tropeça nele, na maioria das vezes. Não sabe o que está fazendo e, de repente, está feito. Você não se põe a melhorar um determinado tipo de escrita. Ele se desenvolve da sua própria vida e dos medos noturnos. De repente, você olha ao redor e percebe que fez algo quase novo.

A questão para qualquer escritor em qualquer área é estar limitado pelo que aconteceu antes ou o que está sendo publicado naquele dia em livros e revistas.

Cresci lendo e amando as tradicionais histórias de fantasmas de Dickens, Lovecraft, Poe e, depois, Kuttner, Bloch e Clark Ashton Smith. Tentei escrever histórias profundamente influenciadas por vários desses autores e consegui fazer tortas de lama de quatro camadas, com linguagem e estilo que não boiassem nem afundassem sem deixar pista. Eu era muito jovem para identificar o meu problema; estava muito ocupado imitando.

Quase tropecei em meu self criativo no último ano da faculdade, quando escrevi uma espécie de lembrança longa de um desfiladeiro profundo da minha cidade natal e de meu medo dele à noite. Mas eu não dispunha de nenhuma história que combinasse com o desfiladeiro, então a descoberta da verdadeira fonte da minha futura escrita foi postergada por alguns anos.

Escrevi pelo menos uma centena de palavras por dia desde os doze anos de idade. Durante anos, Poe esteve observando por sobre os meus ombros, enquanto Wells, Burroughs e todos os escritores de Astounding e Weird Tales se entreolhavam.

Eu os adorava e eles me sufocavam. Eu não havia aprendido a desviar os olhos e, no processo, deixar de olhar para mim mesmo para poder encarar o que estava por trás do meu rosto.

Foi apenas quando comecei a descobrir os prazeres e as dores que surgiam com a associação de palavras que comecei a encontrar um caminho seguro através do campo minado da imitação. Finalmente, descobri que, se você vai pisar numa mina, que seja a sua própria mina. Deixe-se explodir, como deve ser, pelos seus próprios prazeres e desesperos.

Comecei a fazer notas curtas e descrições de amores e ódios. Em meus vinte e vinte e um anos, perambulei pelas tardes de verão e meias-noites de outubro, farejando que havia algo nas estações claras e escuras que realmente era eu.

Finalmente encontrei esse algo numa tarde, aos vinte e dois anos. Escrevi o título “O lago” na primeira página de uma história que terminou sozinha duas horas depois. Duas horas depois de eu estar sentado diante de minha máquina de escrever na varanda ao sol, com lágrimas pingando da ponta do nariz e os pelos do pescoço arrepiados.

Por que os pelos arrepiados e o nariz escorrendo?

Percebi que, enfim, tinha escrito uma história realmente boa. A primeira, em dez anos de escrita. E não apenas era uma boa história, como também algo híbrido, algo beirando o novo. Não era apenas uma história de fantasmas tradicional, mas uma história sobre amor, tempo, lembrança e afogamento.

Mandei-a para Julie Schwartz, minha agente literária, que gostou dela mas disse que não era um conto tradicional e que seria difícil de vender. A Weird Tales sondou, tocou-a com uma vara de três metros e finalmente decidiu − ei! − publicar, mesmo que não combinasse com a revista. Mas tive de prometer que, da próxima vez, escreveria uma boa história de fantasmas tradicional. Prometi. Eles me deram vinte dólares e todo mundo ficou feliz.

Bem, alguns de vocês sabem do resto. “O lago” foi reimpresso dezenas de vezes nos últimos quarenta anos e foi a história que fez com que vários editores de outras revistas, pela primeira vez, se sentassem e notassem o rapaz de pelos arrepiados e nariz escorrendo.

Aprendi uma lição difícil, rápida ou mesmo fácil com “O lago”? Não. Voltei atrás para escrever uma história de fantasmas tradicional. Como era jovem demais para compreender muito sobre a escrita, minhas descobertas permaneceram imperceptíveis para mim durante anos. Vagava por aqui e por ali e escrevia mal a maior parte do tempo.

Nos meus vinte anos, se a minha ficção de terror era imitativa, com a eventual surpresa de um conceito e uma surpresa adicional na execução, minha escrita de ficção científica era abismal e minhas histórias de detetive beiravam o ridículo. Estava profundamente influenciado por uma amiga querida, Leigh Brackett, com quem eu costumava me encontrar todos os domingos na Muscle Beach em Santa Mônica, na Califórnia, para ler os seus contos superiores de Stark on Mars ou para invejá-la e tentar imitar as histórias de seu Flynn’s Detective.

Mas, ao longo desses anos, comecei a fazer listas de títulos, a escrever linhas de substantivos. Essas listas eram provocações que finalmente fizeram com que o melhor de mim irrompesse. Pressentia o meu caminho na direção de alguma coisa mais honesta, escondida no alçapão no topo do meu cérebro.

A lista era mais ou menos assim: “O lago. A noite. Os grilos. O desfiladeiro. O sótão. O porão. O alçapão. O bebê. A multidão. O trem noturno. O farol. A ceifadeira. O carnaval. O carrossel. O anão. O labirinto do espelho. O esqueleto”.

Eu estava começando a perceber um padrão na lista, nessas palavras que simplesmente derramava no papel, acreditando que o meu subconsciente lhes daria pão, assim como aos pássaros.

Observando a lista, descobri o meu amor e o medo antigos relacionados com o circo e o carnaval. Lembrei-me e esqueci, então me lembrei de novo de como tinha ficado aterrorizado quando minha mãe me levou para a primeira volta num carrossel. Aos gritos de Calíope e ao mundo girando e aos cavalos apavorantes saltando, acrescentei meus gritos e estampidos. Durante anos, não ousei me aproximar de um carrossel. Quando fiz isso, décadas atrás, a experiência me levou ao centro de Algo sinistro vem por aí.

Continuei fazendo listas. O prado. O tórax de brinquedo. O monstro. Tiranossauro rex. O relógio da cidade. A velha. O telefone. As calçadas. O caixão. A cadeira elétrica. O mágico.

Na margem desses substantivos, tropecei numa história de ficção científica que não era uma ficção científica. Meu título era “F de foguete”. O título publicado foi “King of the Grey Spaces”, a história de dois meninos, grandes amigos, um escolhido para ir para a Academia Espacial, enquanto o outro ficaria em casa. O conto foi rejeitado por todas as revistas de ficção científica porque, na verdade, era apenas uma história sobre a amizade que era testada pela circunstância, ainda que a circunstância fosse uma viagem espacial. Mary Gnaedinger, da Famous Fantastic Mysteries, deu uma olhada na minha história e decidiu publicar. Mas, novamente, eu era jovem demais para ver que “F de foguete” seria o tipo de história que me faria um escritor de ficção científica, admirado por alguns e criticado por muitos que perceberam que eu não era um escritor de ficção científica; eu era um escritor de “pessoas”, e que se dane!

Continuei fazendo listas não apenas sobre noite, pesadelos, escuridão e objetos no sótão, mas também sobre os brinquedos com que os homens brincam no espaço e sobre as ideias que encontrei em revistas de detetive. A maior parte do meu material sobre histórias de detetive, que foram publicadas quando eu tinha vinte e quatro anos na Detective Tales e Dime Detective, não vale a pena ler. Aqui e acolá tropecei em meus próprios cadarços e quase fiz um bom trabalho ao me lembrar do México, que me impressionou, ou do centro de Los Angeles, durante os manifestos pachucho.

Mas voltemos às minhas listas. E por que voltar para elas? Para onde estou levando você? Bem, se você é escritor ou deseja ser um, listas semelhantes, extraídas do lado reprimido do seu cérebro, podem muito bem ajudá-lo a descobrir a si mesmo, ainda que você se perca por aí para finalmente se encontrar.

Comecei a percorrer essas listas, a escolher um substantivo e então sentar para escrever um longo ensaio-prosa-poema sobre ele.

Em algum lugar, mais ou menos no meio da primeira página, ou talvez na segunda, o poema em prosa se tornava uma história. Isso significa dizer que um personagem de repente surgia e dizia “Sou eu”, ou “Essa é uma ideia de que eu gosto!”. E o personagem então terminava o conto para mim.

Começou a ficar óbvio que eu estava aprendendo com a minha lista de substantivos e que também estava aprendendo que os meus personagens fariam o trabalho por mim, se eu os deixasse sozinhos, se os deixasse seguir por sua cabeça, isto é, por suas fantasias, seus medos.

Olhei para a minha lista, vi a palavra “esqueleto” e me lembrei dos primeiros trabalhos de arte da minha infância. Eu desenhava esqueletos para assustar as minhas primas. Era fascinado por aqueles displays médicos de crânios, costelas e estruturas pélvicas. O meu estribilho preferido era: “T’ain’t no sin to take off your skin and dance around in your bones”.3

Lembrando-me dos meus primeiros trabalhos de arte e da minha música favorita, um dia rastejei até o consultório do meu médico com dor de garganta. Toquei o meu pomo-de-adão e os tendões de cada lado do pescoço e perguntei a sua opinião médica.

– Sabe o que você tem? – perguntou o médico.

– O quê?

Descoberta da laringe! – ele arrematou. – Tome umas aspirinas. Dois dólares, por favor!

Descoberta da laringe! Meu Deus, que lindo! Trotei de volta para casa, sentindo a minha garganta e as costelas e a medula oblongata e as rótulas.

Santo Moisés! Como não escrever uma história sobre um homem que está aterrorizado por descobrir que, sob a sua pele, dentro da sua carne, escondido, está um símbolo de todos os horrores góticos da história – um esqueleto!

A história se escreveu por si mesma em poucas horas.

Um conceito perfeitamente óbvio, ainda que ninguém mais na história da escrita de contos de terror o tivesse posto no papel. Despenquei sobre a máquina de escrever e acabei com um novo conto absolutamente original, que tinha estado espreitando sob a minha pele desde que tinha desenhado meus primeiros crânios e esqueletos aos seis anos de idade.

Comecei a ganhar fluência. As ideias surgiam mais rápido agora e todas das minhas listas. Investiguei o sótão e o porão dos meus avôs. Ouvi o lamento das locomotivas no meio da noite através da paisagem do norte de Illinois, e aquilo era morte, um trem funerário, levando meus amados embora para um cemitério distante. Lembrei, às cinco horas da manhã, das chegadas madrugadoras da companhia de circo Ringling Brothers, Barnum and Bailey, e todo o desfile de animais antes do amanhecer, dirigindo-se para prados vazios em que grandes tendas surgiriam como cogumelos inacreditáveis. Lembrei-me de Mr. Elétrico e sua cadeira de viagem elétrica. Lembrei-me de Blackstone, o Mágico, dançando com seus lenços mágicos e fazendo desaparecer elefantes na minha cidade natal. Lembro-me de meu avô, minha irmã e vários tios e primos nos caixões e para sempre desaparecidos em covas nas quais borboletas pousavam como flores em túmulos e as flores voavam como borboletas sobre as pedras. Lembro-me do meu cachorro, perdido por dias, voltando tarde para casa numa noite de inverno com neve e lama e folhas no pelo. E as histórias começaram a queimar, explodir dessas memórias, escondidas em substantivos, perdidas em listas.

A lembrança de meu cachorro e sua pelugem de inverno tornou-se “The emissary”, a história de um menino, doente na cama, que envia o seu cachorro para reunir as estações do ano em sua pelugem e voltar. E, então, certa noite, o cachorro volta de uma jornada ao cemitério e traz uma “companhia”.

Meu título listado A velha senhora virou duas histórias, “Havia uma velha senhora”, sobre uma senhora que se recusa a morrer e pede de volta o seu corpo na funerária, desafiando a Morte; e um segundo conto, “Season of disbelief”, sobre crianças que se recusaram a acreditar que uma velha senhora já tinha sido jovem, uma menina, uma criança. A primeira história apareceu na minha primeira coletânea, King of the Grey Spaces. A segunda fez parte de um teste de associação de palavras que apliquei em mim mesmo, chamado O vinho da alegria.

Podemos ver claramente agora − não podemos? − que é a observação pessoal, a fantasia bizarra, o conceito estranho que dá certo. Eu era fascinado por pessoas idosas. Tentava resolver seus mistérios com meus olhos e cabeça jovens, mas ficava sempre impressionado ao perceber que um dia eles tinham sido eu e que um dia eu seria eles. Absolutamente impossível! Ainda que houvesse meninos e meninas trancados em corpos velhos, uma situação espantosa, uma terrível proeza, bem diante dos meus olhos.

Da minha lista, de novo, roubei o título O jarro, resultante de minha estupefação ao me deparar com uma série de embriões expostos num carnaval quando tinha doze anos e, novamente, aos catorze. Nesses dias fugidios de 1932 e 1934, as crianças não sabiam nada, claro, absolutamente nada de sexo e procriação. Então você pode imaginar quão surpreso eu fiquei quando perambulei por um carnaval de rua e vi todos aqueles fetos de humanos e gatos e cachorros exibidos em jarros rotulados. Fiquei chocado com a aparência do que ainda não tinha nascido e já estava morto e com os novos mistérios da vida que eles fizeram surgir em minha cabeça mais tarde naquela noite e durante anos. Nunca contei para meus pais sobre os jarros com fetos em aldeído fórmico. Eu sabia que tinha tropeçado em algumas verdades que nunca haviam sido reveladas.

Tudo isso sobreveio, naturalmente, quando escrevi “O jarro”, e o carnaval e a exibição de fetos e todos os antigos horrores escorreram das pontas dos meus dedos para a máquina de escrever. O antigo mistério tinha finalmente encontrado, numa história, um lugar de descanso.

Encontrei outro título em minha lista, A multidão. E, digitando furiosamente, lembrei-me de uma terrível colisão quando eu tinha quinze anos e corri da casa de um amigo na direção do estrondo, para deparar com um carro que tinha batido num obstáculo na rua e voado para a cabine de telefone. O carro estava partido em dois. Duas pessoas estavam mortas na calçada; outra mulher morreu na hora em que cheguei a ela, seu rosto arruinado. Outro homem morreu um minuto depois. Outro ainda morreu no dia seguinte.

Eu nunca tinha visto nada como aquilo. Voltei para casa trombando nas árvores, em choque. Levou meses para que me recuperasse do horror daquela cena.

Anos depois, com a lista diante de mim, lembrei-me de várias coisas peculiares naquela noite. O acidente tinha acontecido num cruzamento em que, de um lado, havia fábricas vazias e um pátio de escola deserto e, do outro, um cemitério. Eu tinha corrido de uma casa mais próxima, a poucos metros. Mesmo assim, num segundo, parecia, uma multidão se reunira. De onde teriam vindo todos? Mais tarde, pude apenas imaginar que alguns vieram, de um estranho modo, de fábricas vazias, ou, mais estranho ainda, do cemitério. Depois de escrever por apenas alguns minutos me ocorreu que, sim, essa multidão era sempre a mesma multidão que se reunia em todos os acidentes. Eram vítimas de acidentes do passado condenadas a voltar e a assombrar a cena dos novos acidentes à medida que ocorriam.

Quando encontrei essa ideia, a história se contou por si mesma em apenas uma tarde.

Enquanto isso, os artefatos carnavalescos se aproximavam, seus ossões começando a rasgar a minha pele. Eu estava fazendo experiências com poemas em prosa cada vez mais longos sobre circos que chegavam bem depois da meia-noite. Nessa época, nos meus 20 anos, espreitando um “Labirinto de espelhos” no velho Venice Pier com meus amigos Leigh Brackett e Edmond Hamilton, Ed de repente gritou:

– Vamos sair daqui antes que Ray escreva uma história sobre um anão que perambula todas as noites por aqui para se tornar alto no grande espelho de aumento!

– É isso mesmo! – gritei, e corri para casa e escrevi “O anão”.

– Isso é pra eu aprender a ficar de boca fechada! – disse Ed quando leu a história na semana seguinte.

O bebê na lista, claro, era eu mesmo.

Lembrei de um antigo pesadelo. Sobre nascer. Lembro de estar deitado no meu berço, com três dias de idade, gemendo por saber ter sido empurrado para o mundo; a pressão, o frio, o grito da vida. Lembrei do peito de minha mãe. Lembrei do médico, no quarto dia da minha vida, curvando-se sobre mim com um bisturi para fazer a circuncisão. Eu me lembrei, eu me lembrei.

Mudei o título de “O bebê” para “O pequeno assassino”. A história foi publicada em antologias dezenas de vezes. E eu, que tinha vivido a história, ou parte dela, desde a minha primeira hora de vida, apenas me lembrei e a coloquei no papel nos meus vinte anos.

Escrevi histórias baseadas em cada simples palavra das minhas páginas e páginas de listas? Claro que não.

Mas quase. O alçapão, listado em 1942 ou 1943, não veio à superfície senão há três anos, em uma história na revista Omni.

Outra história, sobre mim e meu cachorro, levou mais de cinquenta anos para emergir. Em “Abençoe-me, padre, porque pequei”, voltei no tempo para reviver uma surra que dei no meu cachorro quando eu tinha doze anos e pela qual nunca consegui me perdoar. Escrevi a história para pelo menos examinar aquele menino cruel, triste, e botar o seu fantasma e o do amado cachorro para descansar para sempre. Foi o mesmo cachorro, acidentalmente, que trouxe “companhia” do cemitério em “O emissário”.

Nesses anos, Henry Kuttner, ao lado de Leigh, foi meu professor. Ele sugeriu autores – Katherine Anne Porter, John Collier, Eudora Welty – e livros – The lost weekend, One man’s meat, Rain in the doorway – para ser lidos e aprendidos. Nesse período, deu-me uma cópia de Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson. Ao terminar o livro, eu disse a mim mesmo: “Um dia, gostaria de escrever uma história ambientada no planeta Marte, com pessoas semelhantes”. Imediatamente rabisquei uma lista dos tipos de pessoa que gostaria que morassem em Marte para ver o que acontecia.

Esqueci Winesburg, Ohio e minha lista. Durante anos escrevi uma série de histórias sobre o Planeta Vermelho. Um dia olhei e o livro estava pronto; a lista completa, As crônicas marcianas, prestes a ser publicada.

Então é isso. Em resumo, uma série de substantivos, com alguns raros adjetivos, que descreviam um território desconhecido, um país não descoberto; parte da lista, Morte, o resto, Vida. Se eu não tivesse feito essas prescrições para Descoberta, não teria nunca me tornado o arqueólogo e antropólogo corvo que sou. Aquele corvo em busca de objetos brilhantes, carapaças estranhas e fêmures deformados numa pilha de lixo dentro da minha cabeça, onde se espalham os remanescentes de colisões com vida e também Buck Rogers, Tarzan, John Carter, Quasímodo e todas as criaturas que me fizeram viver para sempre.

Nas palavras de uma velha canção de imperador japonês, eu tinha uma listinha, que aumentou e me levou ao país de O vinho da alegria, e me ajudou a ir do O vinho da alegria a Marte, e ricocheteou-me de volta para um território de vinho sombrio como o Mr. Trem da Noite Escura chegou bem antes do amanhecer. Mas a primeira e mais importante pilha de substantivos foi aquela preenchida com as folhas sussurrantes pelas calçadas às três da madrugada e os carros funerários seguindo em trilhos vazios, quando os grilos de repente, sem motivo, se calam, e então você consegue ouvir o próprio coração, e deseja não ter conseguido.

Isso nos leva a uma revelação final: um dos nomes da minha lista da faculdade era “A coisa”, ou, melhor ainda, “A coisa no topo da escada”.

Na casa em Waukegan, Illinois, onde cresci, havia apenas um banheiro, no andar de cima. Era preciso escalar a metade de um corredor escuro antes de encontrar a luz e acendê-la. Tentei convencer meu pai a deixar a luz acesa a noite toda, mas era muito caro. Então, a luz ficava apagada.

Por volta das duas ou três da madrugada, eu teria que ir ao banheiro. Ficava na cama por meia hora ou mais, moído entre a necessidade de alívio e aquilo que eu sabia estar me esperando no corredor escuro que dava para o sótão. Por fim, impelido pelo aperto, me dirigia para a nossa sala de jantar até aquele corredor, pensando: “Corra, pule, acenda a luz, mas, o que quer que aconteça, não olhe. Se você olhar antes de acender a luz, a Coisa estará lá. A terrível Coisa esperando no topo da escada. Então corra, cego; não olhe”.

Eu corria, pulava. Mas nunca pude evitar: no último instante, piscava e olhava para a terrível escuridão. E a Coisa sempre estava lá. E eu gritava e caía degraus abaixo, acordando meus pais. Meu pai resmungava e se virava para o outro lado na cama, pensando de onde o filho dele teria vindo. Minha mãe se levantava, me encontrava feito um monte revirado no corredor, subia e acendia a luz. Ela me esperava subir até o banheiro, voltar para beijar-me o rosto molhado de lágrimas e guardar meu corpo apavorado na cama.

Na noite seguinte e na seguinte a essa e na seguinte depois, o mesmo aconteceu. Enlouquecido com a minha histeria, papai resgatou um velho penico e empurrou-o para baixo da minha cama.

Mas nunca me curei. A Coisa permaneceu lá para sempre. Apenas mudando dali, aos treze anos, me livrei daquele horror.

O que fiz, recentemente, com esse pesadelo? Bem...

Agora, muito tempo depois, a Coisa está lá no topo da escada, esperando ainda. De 1926 ao verão de 1986 é uma longa espera. Mas, por fim, pescando na minha lista sempre útil, escrevi um substantivo na página. Acrescentei A escada e finalmente encarei a escadaria escura e o frio do sótão que ficaram lá por sessenta anos, esperando para ser convidados a descer pela minha corrente sanguínea até a ponta dos dedos. A história, com a ajuda da memória, ficou pronta na mesma ocasião em que escrevi este ensaio.

Vou deixá-lo agora no topo da sua própria escada, leitor, meia hora depois da meia-noite, com um bloco de papel, uma caneta e uma lista a ser feita. Conjure os substantivos, desperte o self secreto, saboreie a escuridão. A sua própria Coisa está esperando no caminho das sombras do sótão. Se você falar com delicadeza e escrever toda palavra antiga que quiser fazer pular de seus nervos para a página...

A Coisa no topo da escada em sua noite solitária... pode muito bem descer.

3. T’ain’t no sin to take off your skin and dance around in your bones [Não há pecado em sair de sua pele e dançar por aí em seus ossos] fez sucesso na voz de Tom Waits. (N. da T.)