Sobre a escrita e o estilo
1.
Antes de tudo, há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever. Os primeiros tiveram pensamentos, ou fizeram experiências, que lhes parecem dignos de ser comunicados; os outros precisam de dinheiro e por isso escrevem, só por dinheiro. Pensam para exercer sua atividade de escritores. É possível reconhecê-los tanto por sua tendência de dar a maior extensão possível a seus pensamentos e de apresentar meias-verdades, pensamentos enviesados, forçados e vacilantes, como por sua preferência pelo claro-escuro, a fim de parecerem ser o que não são. É por isso que sua escrita não tem precisão nem clareza. Desse modo, pode-se notar logo que eles escrevem para encher o papel, e mesmo entre os nossos melhores escritores é possível encontrar exemplos, como é o caso de algumas passagens da Dramaturgia de Lessing e mesmo de alguns romances de Jean Paul[37]. Assim que alguém percebe isso, deve jogar fora o livro, pois o tempo é precioso. No fundo, o autor engana o leitor sempre que escreve para encher o papel, uma vez que seu pretexto para escrever é ter algo a comunicar.
Os honorários e a proibição da impressão são, na verdade, a perdição da literatura. Só produz o que é digno de ser escrito quem escreve unicamente em função do assunto tratado. Seria uma vantagem inestimável se, em todas as áreas da literatura, existissem apenas alguns poucos livros, mas obras excelentes. Só que nunca se chegará a tal ponto enquanto houver honorários a serem recebidos. Pois é como se uma maldição pesasse sobre o dinheiro: todo autor se torna um escritor ruim assim que escreve qualquer coisa em função do lucro. As melhores obras dos grandes homens são todas provenientes da época em que eles tinham de escrever ou sem ganhar nada, ou por honorários muito reduzidos. Nesse caso, confirma-se o provérbio espanhol: honra y provecho no caben en un saco [honra e proveito não cabem no mesmo saco].
A condição deplorável da literatura atual, dentro e fora da Alemanha, tem sua raiz no fato de os livros serem escritos para se ganhar dinheiro. Qualquer um que precise de dinheiro senta-se à escrivaninha e escreve um livro, e o público é tolo o bastante para comprá-lo. A conseqüência secundária disso é a deterioração da língua.
Uma grande quantidade de escritores ruins vive exclusivamente da obsessão do público de não ler nada além do que foi impresso hoje e escrito por jornalistas. Um nome muito preciso! Traduzindo o termo original, eles se chamariam “diaristas”.[38]
2.
Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros.
Aquele escritor do segundo tipo, que adia o pensamento até a hora de escrever, é comparável ao caçador que busca ao acaso sua presa: dificilmente ele trará muita coisa para casa. Em compensação, a escrita dos autores do terceiro tipo, o mais raro, é como uma batida de caça em que a presa foi previamente cercada e encurralada, para depois ser conduzida a um outro lugar igualmente cercado, onde não pode escapar ao caçador, de modo que agora se trata apenas de apontar e atirar (expor). Esse é o tipo de caça que dá resultado.
No entanto, mesmo entre os escritores pouco numerosos que realmente pensam a sério antes de escrever, é extremamente reduzida a quantidade daqueles que pensam sobre as próprias coisas, enquanto os demais pensam apenas sobre livros, sobre o que outros disseram. Ou seja, para pensar, eles precisam de um forte estímulo de pensamentos alheios já disponíveis. Esses pensamentos se tornam seu próximo tema, de modo que os autores permanecem sempre sob a influência dos outros, sem nunca alcançarem realmente a originalidade. Em contrapartida, aqueles que são estimulados pelas próprias coisas têm seu pensamento voltado para elas de modo direto. Apenas entre eles encontram-se os que permanecerão e serão imortalizados. – Evidentemente, trata-se aqui de assuntos elevados, não de escritores que falam sobre a destilação de aguardentes.
Apenas aqueles que, ao escrever, tiram a matéria diretamente de suas cabeças são dignos de serem lidos. Mas os fazedores de livros, os escritores de compêndios, os historiadores triviais, entre outros, tiram sua matéria diretamente dos livros. É dos livros que ela é transferida para os dedos, sem ter passado por qualquer inspeção na cabeça, sem ter pagado imposto alfandegário, nem muito menos ter sofrido algum tipo de elaboração. (Como seriam eruditos alguns autores se soubessem tudo o que está em seus próprios livros!) Por isso, seu texto costuma ter um sentido tão indeterminado que os leitores quebram em vão a cabeça na tentativa de descobrir o que eles pensam afinal. Eles simplesmente não pensam. O livro a partir do qual escrevem muitas vezes foi resultado do mesmo processo. Portanto, esse tipo de literatura é como a reprodução feita a partir de moldes de gesso, feitos a partir de cópias, e assim por diante, de modo que no final do processo o Antínoo se torna o contorno quase irreconhecível de um rosto[39]. É por isso que se deve ler só raramente algum dos compiladores, já que evitá-los por completo é muito difícil. Mesmo os compêndios que encerram num pequeno espaço o saber acumulado no decorrer de vários séculos fazem parte das compilações.
Não há nenhum erro maior do que o de acreditar que a última palavra dita é sempre a mais correta, que algo escrito mais recentemente constitui um aprimoramento do que foi escrito antes, que toda mudança é um progresso. As cabeças pensantes, os homens que avaliam corretamente as coisas são apenas exceções, assim como as pessoas que levam os assuntos a sério. A regra, em toda parte do mundo, é a corja de pessoas infames que estão sempre dispostas, com todo empenho, a piorar o que foi dito por alguém após o amadurecimento de uma reflexão, dando a essa piora um aspecto de melhora. Por isso, quem quer se instruir a respeito de um tema deve se resguardar de pegar logo os livros mais novos a respeito, na pressuposição de que as ciências estão em progresso contínuo e de que, na elaboração desse livro, foram usadas as obras anteriores. De fato elas foram, mas como? Com freqüência, o escritor não entende a fundo os livros anteriores, além do mais não quer usar exatamente as mesmas palavras, de modo que desfigura e adultera o que estava dito neles de modo muito mais claro e apropriado, uma vez que foram escritos a partir de um conhecimento próprio e vívido do assunto. Muitas vezes, esse escritor deixa de lado o melhor do que tais obras revelaram, seus mais precisos esclarecimentos a respeito do assunto, suas mais felizes observações, porque não reconhece o valor dessas coisas, não sente sua relevância. Só tem afinidade com o que é superficial e insípido.
Já ocorreu muitas vezes de um livro anterior excelente ser substituído por novos, piores, escritos apenas para ganhar dinheiro, mas que surgem com aspirações pretensiosas e são louvados pelos camaradas dos autores. Nas ciências, cada um quer trazer algo novo para o mercado, com o intuito de demonstrar seu valor; com freqüência, o que é trazido se resume a um ataque contra o que valia até então como certo, para pôr no lugar afirmações vazias. Às vezes, essa substituição tem êxito por um breve período, em seguida todos voltam às teorias anteriores. Os inovadores não levam nada a sério no mundo, a não ser sua preciosa pessoa, cujo valor querem provar. Só que isso deve acontecer depressa e de uma maneira paradoxal: a esterilidade de suas cabeças lhes aconselha o caminho da negação, e então verdades reconhecidas há muito tempo são negadas, como por exemplo a força vital, o sistema nervoso simpático, a generatio aequivoca, a distinção de Bichat entre o efeito das paixões e os da inteligência[40]. Propõe-se a volta a um crasso atomismo e coisas do gênero. Assim, o curso da ciência muitas vezes é um retrocesso.
O mesmo vale para os tradutores que pretendem, ao mesmo tempo, corrigir e reelaborar seus autores, o que sempre me parece uma impertinência. Escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe outras obras como elas são.
Sempre que possível, é melhor ler os verdadeiros autores, os fundadores e descobridores das coisas, ou pelo menos os grandes e reconhecidos mestres da área. E é melhor comprar livros de segunda mão do que ler conteúdos de segunda mão. Mas, como inventis aliquid addere facile est [é fácil acrescentar algo ao que já foi inventado], é preciso conhecer também os novos acréscimos, depois que as bases estão bem estabelecidas. Assim, em geral vale aqui, como em toda parte, a regra: o novo raramente é bom, porque o que é bom só é novo por pouco tempo.[41]
O que o endereço do destinatário é para uma carta, o título deve ser para um livro, ou seja, o principal objetivo é encaminhá-lo à parcela do público para a qual seu conteúdo possa ser interessante. Por isso, o título deve ser significativo e, como é constitutivamente curto, deve ser conciso, lacônico, expressivo, se possível um monograma do conteúdo. São ruins, por conseguinte, os títulos prolixos, os que não dizem nada, os que erram o alvo, os ambíguos, ou então os falsos e enganosos, que acabam dando a seu livro o mesmo destino das cartas com o endereço de destinatário errado. Entretanto, os piores são os títulos roubados, isto é, aqueles que já pertencem a um outro livro, pois se trata não só de um plágio, como também da comprovação ostensiva da mais completa falta de originalidade. Quem não é suficientemente original para dar a seu livro um título novo será ainda menos capaz de provê-lo de um novo conteúdo. Um caso semelhante é o dos títulos imitados, ou seja, em parte roubados, como por exemplo quando, bem depois de eu ter escrito “Sobre a vontade na natureza”, Oersted escreve “Sobre o espírito na natureza”[42].
O fato de haver pouca honradez entre os escritores é evidenciado pela falta de escrúpulos com que eles falsificam suas referências a outros escritos. Encontro passagens de meus escritos geralmente citadas de modo falso, e apenas meus discípulos declarados constituem uma exceção. Com freqüência, a falsificação ocorre por negligência, uma vez que as expressões banais e os modos de dizer triviais ficam já impregnados nas penas dos maus escritores, e eles os escrevem por hábito. Às vezes, a falsificação ocorre também por presunção, porque querem melhorar o que escrevi. Mas é muito comum que ocorra por má-fé, e nesse caso trata-se de uma baixeza vergonhosa e de uma perfídia como a falsificação de dinheiro, algo que elimina para sempre do caráter de seu realizador a honestidade.
3.
Um livro nunca pode ser mais do que a impressão dos pensamentos do autor. O valor desses pensamentos se encontra ou na matéria, portanto naquilo sobre o que ele pensou, ou na forma, isto é, na elaboração da matéria, portanto naquilo que ele pensou sobre aquela matéria.
O tema sobre o qual se pensa é bastante diversificado, assim como o mérito que ele concede aos livros. Toda a matéria empírica, portanto tudo o que é histórico, ou físico, todos os fatos, tomados por si mesmos ou num sentido mais amplo, estão incluídos nesse caso. A particularidade de tais livros diz respeito ao objeto, por isso um livro pode ser importante seja quem for o autor.
Quanto ao que é pensado, em contrapartida, a particularidade diz respeito ao sujeito. Os objetos podem ser conhecidos e acessíveis a todos os homens, mas a forma de concebê-los, o que é pensado confere aqui o valor e diz respeito ao sujeito. Por isso, se um livro desse tipo é excelente e sem igual, o mesmo vale para seu autor. A conseqüência é que o mérito de um escritor digno de ser lido cresce quando ele deve menos à matéria e, com isso, quanto mais conhecido e usual for o seu assunto. Assim, por exemplo, os três grandes tragediógrafos gregos desenvolveram os mesmos temas[43].
Portanto, quando um livro é célebre, é preciso distinguir se isso se deve à matéria ou à forma.
Pessoas comuns e superficiais podem nos oferecer, graças à matéria, livros muito importantes, uma vez que o tema só era acessível a elas. É o caso, por exemplo, das descrições de países distantes, de fenômenos naturais raros, de experimentos realizados por elas, de histórias das quais foram testemunhas ou cujas fontes tiveram tempo e dedicação para investigar e estudar.
Em contrapartida, quando o importante é a forma, já que a matéria é acessível a todos, ou já conhecida, portanto quando apenas o que é pensado pode dar valor ao esforço de pensar sobre esse tema, só uma mente de destaque é capaz de nos oferecer algo digno de ser lido. Pois os demais escritores pensam apenas o que qualquer outra pessoa pode pensar. Eles nos oferecem a impressão de seu espírito, mas qualquer um já possui o original dessa impressão.
No entanto, o público dirige sua atenção muito mais para a matéria do que para a forma, e justamente por isso permanece atrasado em sua formação mais elevada. Essa tendência se revela da maneira mais ridícula nas obras poéticas, quando a atenção se volta com todo cuidado para os acontecimentos reais ou para as circunstâncias pessoais que deram ensejo à criação poética. De fato, tais aspectos acabam se tornando mais interessantes para o público do que as próprias obras, de modo que as pessoas lêem mais obras sobre Goethe do que obras de Goethe, preferem estudar a lenda do Fausto em vez de estudar o Fausto. Bürger já disse: “Eles realizarão investigações eruditas para descobrir quem Lenore realmente foi”[44], e essa previsão se cumpriu literalmente no caso de Goethe, já que temos várias investigações eruditas sobre o Fausto e a lenda do Fausto. Trata-se de investigações que dizem respeito à matéria. Essa preferência pela matéria, contraposta à forma, corresponde à atitude de um observador que negligencia a forma e a pintura de um belo vaso etrusco para investigar quimicamente o material e as cores.
A busca de repercussão por meio da matéria, cedendo a essa tendência desfavorável, torna-se absolutamente censurável nas áreas em que o mérito deve se basear expressamente na forma, como é o caso das obras poéticas. Entretanto, é comum ver maus escritores dramáticos tentarem encher o teatro em virtude do tema tratado. Por exemplo, eles trazem para o palco qualquer personagem famoso, mesmo que sua vida seja destituída de eventos dramáticos, e muitas vezes sem esperar sequer que as pessoas representadas tenham morrido.
A diferença em questão, entre a matéria e a forma, mantém sua validade mesmo no que diz respeito à conversação. O que torna um homem capaz de conversar bem é a compreensão, o critério, o humor e a vivacidade que dão à conversação sua forma. Mas, logo em seguida, entra em consideração a matéria da conversa, portanto aquilo sobre o que se pode falar com determinada pessoa, seus conhecimentos. Caso eles sejam restritos, apenas um grau extraordinariamente alto das qualidades formais mencionadas pode dar valor à sua conversa, já que a conversação se dirige, no que diz respeito ao tema, às circunstâncias naturais e humanas conhecidas por todos. Acontece o contrário quando uma pessoa não tem essas qualidades formais, porém seus conhecimentos sobre um determinado tema dão à sua conversação um valor que se baseia exclusivamente na matéria, o que está em consonância com o ditado espanhol: mas sabe el necio en su casa, que el sabio en la agena [mais sábio o ignorante em sua casa do que o sábio na casa alheia].
4.
A vida autêntica de um pensamento dura até que ele chegue ao ponto em que faz fronteira com as palavras: ali se petrifica, e a partir de então está morto, entretanto é indestrutível, da mesma maneira que os animais e plantas petrificados da pré-história. Também se pode comparar sua autêntica vida momentânea à do cristal no instante de sua cristalização.
Assim, logo que nosso pensamento encontrou palavras, ele já deixa de ser algo íntimo, algo sério no nível mais profundo. Quando ele começa a existir para os outros, pára de viver em nós, da mesma maneira que o filho se separa da mãe quando passa a ter sua existência própria. Como diz o poeta:
Não me venham confundir com contradições!
Logo que falamos, começamos a errar[45].
5.
A pena está para o pensamento como a bengala está para o andar. Da mesma maneira que se caminha com mais leveza sem bengala, o pensamento mais pleno se dá sem a pena. Apenas quando uma pessoa começa a ficar velha ela gosta de usar bengala e pena.
6
Uma hipótese leva, na cabeça em que se estabeleceu ou mesmo na cabeça em que nasceu, uma vida comparável à de um organismo, já que assimila do mundo exterior apenas o que lhe é proveitoso e homogêneo. Quanto ao que é heterogêneo e prejudicial, ou ela não deixa que chegue perto, ou então, quando se trata de algo que é inevitável assimilar, expele-o novamente, intacto.
7.
A sátira deve, assim como a álgebra, operar apenas com valores abstratos e indeterminados, não com valores concretos ou grandezas definidas. No caso de homens vivos ela deve ser evitada, tanto quanto os exercícios de anatomia; sob pena de arriscar a pele e a vida deles.
8.
Para ser imortal, uma obra precisa ter tantas qualidades, que não é fácil encontrar alguém capaz de compreender e valorizar todas; entretanto, uma qualidade é reconhecida e valorizada por determinada pessoa, outra qualidade, por outra pessoa. Assim, no decorrer do longo curso dos séculos, em meio a interesses que variam continuamente, obtém-se afinal a cotação da obra, à medida que ela é apreciada ora num sentido, ora em outro, sem nunca se esgotar por completo.
O criador de uma dessas obras imortais, ou seja, aquele que pretende continuar vivendo na posteridade, não pode ser uma pessoa que procura seus iguais apenas entre os contemporâneos, na vastidão da Terra, e que se destaca de todas as outras pessoas de modo notável. Tem de ser alguém que, mesmo se atravessasse várias gerações, como o judeu eterno, encontrar-se-ia na mesma situação; em resumo, alguém a quem se pudesse aplicar realmente o dito de Ariosto: lo fece natura, e poi ruppe lo stampo [a natureza o fez, depois perdeu o molde][46]. De outro modo não se compreenderia por que seus pensamentos não devem perecer como a grande maioria dos outros.
9.
Em quase todos os tempos, tanto na arte quanto na literatura, entra em voga e é admirada alguma noção fundamental falsa, ou um modo falso de se expressar, ou um maneirismo qualquer. As cabeças triviais se esforçam ardentemente para se apropriar de tal noção e exercitar tal modo. O homem inteligente reconhece e despreza essas coisas, permanecendo fora de moda. Contudo, após alguns anos, o público o segue e reconhece a farsa como o que ela era, ridicularizando a moda, e dessa maneira cai por terra a maquiagem, antes admirada, de todas aquelas obras amaneiradas, como um reboco malfeito cai de uma parede com ele revestida. As obras passam a ficar expostas da mesma maneira que esse muro. Assim, as pessoas não devem se irritar, mas se alegrar quando uma noção fundamental falsa, que durante muito tempo operou em silêncio, é exposta de modo claro, em voz alta. Pois só então sua falsidade será logo sentida, reconhecida e, finalmente, proclamada. É como um abscesso que se rompe.
10.
As revistas literárias deveriam ser o dique contra a crescente enxurrada de livros ruins e inúteis e contra o inescrupuloso desperdício de tinta de nosso tempo. Com juízo incorruptível, justo e rigoroso, elas deveriam fustigar sem pudor toda a obra malfeita de um intruso, toda a subliteratura por meio da qual uma cabeça vazia quer socorrer o bolso vazio, ou seja, aproximadamente nove décimos de todos os livros. Assim, cumprindo sua obrigação, tais revistas trabalhariam contra a comichão de escrever e contra o ardil dos maus escritores, em vez de fomentar essas coisas por meio de sua infame tolerância em conluio com autores e editores, a fim de roubar o tempo e o dinheiro do público. Em regra, os escritores são professores ou literatos que, em função de seus baixos vencimentos e péssimos honorários, escrevem por necessidade financeira. Como seu objetivo é o mesmo, possuem um interesse comum, mantêm-se unidos, apóiam-se mutuamente, e cada um dá muita atenção ao outro; é assim que surgem todas as resenhas elogiosas sobre livros ruins das quais são compostas as revistas literárias, cujo lema deveria ser: “Viva e deixe viver!”. (E o público é tão simplório que prefere ler o novo a ler o que é bom.) Há ou houve entre aqueles escritores, por exemplo, sequer um que possa se vangloriar por nunca ter elogiado um escrito indigno? Um que nunca tenha criticado e diminuído obras excelentes, ou as tratado astuciosamente como se fossem insignificantes para desviar a atenção delas? Um que tenha feito a seleção das obras a serem indicadas levando em conta sempre a importância dos livros e não as recomendações de compadres, os coleguismos ou mesmo as propinas de editores? Por acaso qualquer um, com exceção de um novato no ramo, não procura quase mecanicamente, ao ver que um livro foi muito elogiado ou criticado, o nome da editora? Normalmente as resenhas são feitas no interesse dos editores e não no interesse do público. Se houvesse uma revista literária em conformidade com as exigências expostas anteriormente, cada escritor ruim, cada compilador sem idéias, cada plagiador de livros alheios, cada filosofastro vazio, incapaz, ávido por posições, cada poetastro vaidoso, cheio de si, tendo em vista a vergonha pública a que sua obra estaria infalivelmente exposta, teria seus dedos paralisados, o que seria a verdadeira salvação da literatura, já que nela o ruim não é apenas inútil, mas positivamente prejudicial. Só que a grande maioria dos livros é ruim e não deveria ter sido escrita; conseqüentemente, o elogio deveria ser tão raro quanto é atualmente a crítica, sob a influência de considerações pessoais e da máxima: accedas socius, laudes lauderis ut absens [Entra, companheiro, e elogia para ser elogiado quando ausente][47].
É sempre um erro querer transferir para a literatura a tolerância que, na sociedade, é preciso ter com as pessoas estúpidas e descerebradas que se encontram por todo lado. Pois, na literatura, eles não passam de invasores desavergonhados, e desmerecer o que é ruim constitui uma obrigação em face do que é bom. Se nada parece ruim a alguém, também nada lhe parece bom. Em geral, a cordialidade proveniente da sociedade é um elemento estranho na literatura, com freqüência um elemento danoso, porque exige que se chame o ruim de bom, contrariando diretamente tanto os objetivos da ciência quanto os da arte. É claro que uma revista literária do tipo que defendo só poderia ser escrita por pessoas em que uma probidade incorruptível estivesse unida, por um lado, a um nível raro de conhecimento e, por outro, a uma capacidade de julgar ainda mais rara. Assim, a Alemanha toda mal poderia produzir, no máximo, uma revista literária desse tipo, que todavia passaria a constituir um tribunal justo. Seria necessário que cada membro fosse escolhido pelo conjunto dos outros, ao contrário do que acontece nas revistas literárias de corporações universitárias ou congregações de literatos, associações que, em segredo, talvez sejam compostas também por comerciantes de livros com a intenção de tirar proveito para seus negócios. Em geral, trata-se de uma coalizão de péssimas cabeças reunidas com a intenção de não dar espaço ao que é bom. Em nenhuma outra área há tanta improbidade como na literatura: isso já dizia Goethe, como relatei com mais detalhes em “Vontade na natureza”, pág. 22 [2ª edição, pág. 17].
Acima de tudo, deveria ser eliminado este escudo de toda patifaria literária, o anonimato. Nas revistas literárias, ele foi introduzido com o pretexto de proteger os honrados críticos, os vigias do público, contra o rancor dos autores e de seus protetores. Só que, a cada vez que se apresentar um caso desse tipo, haverá centenas de outros em que o anonimato serve apenas para tirar toda a responsabilidade daquele que não pode defender o que afirma, ou até mesmo para ocultar a vergonha de uma pessoa que é suficientemente corrupta e indigna a ponto de recomendar ao público, em troca de uma gorjeta do editor, um livro ruim. Muitas vezes, também, o anonimato serve apenas para camuflar a obscuridade, a insignificância e a incompetência do crítico. É incrível o descaramento de certos tipos, que não recuam diante de pilhérias literárias quando sabem que estão em segurança nas sombras do anonimato.
Assim como há remédios universais, o que vem em seguida é uma anticrítica universal contra todas as resenhas anônimas, tenham elas louvado o que é ruim ou criticado o que é bom: “Velhaco, diga seu nome! Pois atacar, encapuzado e disfarçado, as pessoas que passeiam mostrando seus rostos não é algo que um homem honrado faça: só os patifes e os canalhas agem assim. Portanto: velhaco, diga seu nome!”. Probatum est [Está provado].
Rousseau já disse, no prefácio para a Nova Heloísa: tout honnête homme doit avouer les livres qu’il publie.[48] Isso significa: “Todo homem honesto deve assinar os livros que publica”, e proposições afirmativas gerais podem ser invertidas por contraposição. A afirmação vale mais ainda para escritos polêmicos, como é o caso da maioria das resenhas! Assim, Riemer tem toda razão quando, em sua “Comunicação sobre Goethe”, p. XXIX do prefácio, diz: “Um adversário que mostra sua cara abertamente é uma pessoa honrada, moderada, com a qual é possível se entender, chegar a um acordo, a uma reconciliação; em compensação, um adversário escondido é um patife covarde e infame, que não tem a coragem de assumir seus julgamentos, portanto alguém que não defende sua opinião, mas se interessa apenas pelo prazer secreto que sente em descarregar sua ira sem ser reconhecido nem sofrer retaliações”. Essa também era a opinião de Goethe, pois normalmente ela se expressa no que diz Riemer[49]. Mas, em geral, a regra de Rousseau é válida para cada linha que é impressa. Afinal, seria tolerável se um homem mascarado provocasse o povo, ou quisesse discursar diante de uma multidão reunida? E se ele ainda por cima atacasse outros homens e os cobrisse de censuras! Será que seus passos em direção à porta não seriam apressados pelos pontapés dos demais?
A liberdade de imprensa que foi finalmente alcançada na Alemanha, para em seguida sofrer o abuso mais indigno, deveria pelo menos ser condicionada por uma proibição de todo e qualquer anonimato e do uso de pseudônimos. Desse modo, cada um que declara algo publicamente, por meio do porta-voz de longo alcance que é a imprensa, seria responsabilizado ao menos com sua honra, caso ainda possuísse alguma; se não possuísse, seu nome neutralizaria o seu discurso. Usar o anonimato para atacar pessoas que não escreveram anonimamente é evidentemente desonroso. Um crítico anônimo é um sujeito que não quer assumir o que diz ou o que deixa de dizer ao mundo acerca dos outros e de seus trabalhos, por isso não assina. E uma coisa dessas é tolerada? Não há mentira que seja tão insolente a ponto de impedir um crítico anônimo de usá-la: de fato, ele não é responsável. Todas as resenhas anônimas são suspeitas de mentira e falsidade. Por isso, assim como a polícia não permite que as pessoas andem pelas ruas mascaradas, não deveria ser admitido que elas escrevessem anonimamente. As revistas literárias que usam o anonimato são propriamente o lugar onde, sem punição alguma, a ignorância possui seu tribunal para julgar a erudição, e a burrice, para julgar a inteligência, o lugar onde o público, enganado impunemente, tem seu dinheiro e seu tempo roubados por meio do elogio aos maus escritores. Nesse caso, o anonimato não é a fortaleza segura de toda patifaria literária e publicista? Portanto, ele teria de ser destruído por completo, isto é, de tal maneira que todo artigo de jornal fosse acompanhado pelo nome de seu autor, sob a responsabilidade rigorosa do editor quanto à autenticidade da assinatura. Assim, já que mesmo uma pessoa insignificante é conhecida no lugar onde mora, dois terços das mentiras divulgadas seriam eliminados, e a insolência de muitas línguas venenosas seria refreada. Na França esse procedimento começa a ser empregado justamente agora.
Mas, na literatura, enquanto não existir essa proibição, todos os escritores dignos deveriam unir-se para proscrever o anonimato com o estigma de um desprezo público, incansável e diariamente expresso, demonstrando de todas as maneiras a noção de que escrever críticas anonimamente é uma indignidade e uma desonra. Quem escreve e quem cria polêmicas no anonimato dirige a si mesmo eo ipso [por isso mesmo] a suspeita de querer enganar o público, ou então macular a honra de outros e sair ileso. Por isso, a cada vez que se faz referência a um crítico anônimo, mesmo que seja de passagem e sem reprovações, deveriam ser empregados epítetos como: “O canalha covarde e anônimo diz” ou “O patife anônimo disfarçado diz naquele jornal”, entre outros. Esse é, de fato, o tom razoável e apropriado para falar de tais camaradas, a fim de que o ofício que exercem seja execrado. Pois é evidente que alguém só pode aspirar a qualquer consideração pessoal quando deixa que vejam quem ele é, de modo que todos saibam quem é a pessoa que se encontra à sua frente; mas não quem espreita por aí capeado e disfarçado, tornando-se com isso um inútil; uma pessoa assim é ipso facto [por esse próprio fato] um fora-da-lei. Ele é Odusseus Outis,[50] Nobody (Sr. Ninguém), e qualquer um tem a liberdade de explicar que o Mr. Nobody é um patife. Por isso, especialmente nas respostas às críticas, os críticos anônimos devem ser tratados com termos como “patife” e “canalha”, em vez de se recorrer, como fazem por covardia alguns autores contaminados pela corja, a tratamentos como “o prezado Senhor Crítico”. “Um canalha que não diz seu nome!”, esse tem de ser o veredicto de todos os escritores honrados. E quando alguém conseguir o mérito de arrancar o capuz de um desses camaradas, depois de ele ter sido posto na berlinda, e arrastá-lo pelas orelhas na frente de todos, tal criatura notívaga despertará grande júbilo à luz do dia. A cada calúnia que alguém ouve, a primeira reação indignada se manifesta, em geral, pela pergunta “Quem disse isso?”. – Mas o anonimato fica devendo a resposta.
Uma impertinência especialmente ridícula da parte de tais críticos anônimos é o fato de eles, como os reis, falarem usando “nós”, quando deveriam usar não só o singular, mas até o diminutivo, ou mesmo o humilhativo, por exemplo: “Minha lamentável pequenez, minha covarde embustice, minha incompetência disfarçada, minha limitada velhacaria” etc. É assim que convém aos trapaceiros disfarçados falar, esses cobrelos que sibilam do buraco escuro de um “periódico literário” e cujo ofício precisa ser suprimido. O anonimato é, na literatura, o que a trapaça é na sociedade burguesa. “Diga seu nome, canalha, ou cale-se!” deve ser a divisa. – Até que isso ocorra, devemos classificar imediatamente, ao encontrarmos críticas sem assinatura: trapaceiro.
Esse negócio escuso pode render dinheiro, mas não rende honra alguma. Pois, ao atacar os outros, o Senhor Anônimo se torna sem muito mais um Senhor Patife, e pode-se apostar cem contra um que uma pessoa que não quer dizer seu nome tem a intenção de enganar o público.[51] Só se tem o direito de criticar anonimamente quando se trata de livros anônimos. Em geral, com a supressão do anonimato, noventa e nove por cento de toda patifaria literária seriam suprimidos também. Até que esse negócio escuso seja proscrito, as pessoas deveriam, quando têm ocasião, dirigir-se ao dono do estabelecimento (representante ou empresário do Instituto de Críticas Anônimas), tornando-o diretamente responsável pelos pecados que seus empregados cometeram, aliás no tom que seu empreendimento nos dá o direito de usar.[52] – De minha parte, preferia estar à frente de uma casa de jogos ou de um bordel a representar uma dessas covas de críticos anônimos.
11.
O estilo é a fisionomia do espírito. E ela é menos enganosa do que a do corpo. Imitar o estilo alheio significa usar uma máscara. Por mais bela que esta seja, torna-se pouco depois insípida e insuportável porque não tem vida, de modo que mesmo o rosto vivo mais feio é melhor do que ela. Assim, quando os autores escrevem em latim e imitam o estilo dos antigos, é como se usassem máscaras, ou seja, ouve-se bem o que eles dizem, mas não se vê sua fisionomia, o estilo. No entanto, a fisionomia e o estilo são vistos nos escritos latinos de quem pensa por si mesmo, dos escritores que não se habituaram àquela imitação, como por exemplo Scotus Erigena, Petrarca, Baco, Cartesius, Spinoza, Hobbes, entre outros.[53]
A afetação no estilo é comparável às caretas que deformam o rosto.
A língua em que se escreve é a fisionomia nacional, que apresenta grandes diferenças, da língua grega até a caribenha.
Devemos descobrir os erros estilísticos nos escritos dos outros para evitá-los nos nossos.
12.
Para estabelecer uma avaliação provisória sobre o valor da produção intelectual de um escritor, não é necessário saber exatamente sobre o que ou o que ele pensou; pois para tanto seria necessária a leitura de todas as suas obras. A princípio basta saber como ele pensou. Desse modo do pensamento, desse caráter essencial e dessa qualidade geral, o que fornece a impressão exata é seu estilo. É ele que revela o aspecto formal de todos os pensamentos de um homem, algo que precisa permanecer sempre igual, não importando o que ou sobre o que ele pensa. Tem-se com isso como que a massa a partir da qual esse homem modela todas as suas figuras, por mais diferentes que sejam. Eulenspiegel deu, ao passante que lhe perguntava quanto tempo demoraria para chegar na próxima vila, uma resposta aparentemente absurda, dizendo “Ande!”, com a intenção de medir a partir de seu passo o tempo que ele levaria.[54] Da mesma maneira, leio algumas páginas de um autor e então já sei mais ou menos até onde ele pode me levar.
Conhecendo em segredo essa condição, todo escritor medíocre procura mascarar seu estilo próprio e natural. Isso o obriga, em primeiro lugar, a renunciar a toda ingenuidade, que com isso se converte em privilégio reservado aos espíritos superiores, conscientes de si mesmos e, assim, capazes de se apresentar com segurança. As cabeças banais simplesmente não podem se decidir a escrever do modo como pensam, porque pressentem que, nesse caso, o resultado teria um aspecto muito simplório. Mas já seria alguma coisa. Se eles apenas se dedicassem com honestidade à sua obra e simplesmente quisessem comunicar o pouco e usual que de fato pensaram, da maneira como pensaram, seriam legíveis e até mesmo instrutivos dentro de sua esfera própria. Só que, em vez disso, esforçam-se para dar a impressão de ter pensado mais e com mais profundidade do que o fizeram realmente.
Essas pessoas apresentam o que têm a dizer em fórmulas forçadas, difíceis, com neologismos e frases prolixas que giram em torno dos pensamentos e os escondem. Oscilam entre o esforço de comunicar e o de esconder o que pensaram. Gostariam de expor o pensamento de modo a lhe dar uma aparência erudita e profunda, para que as pessoas achem que há, por trás deles, mais do que percebem no momento. Assim, ora lançam os pensamentos de modo fragmentário, em sentenças curtas, ambíguas e paradoxais, que parecem significar muito mais do que dizem (ótimos exemplos desse procedimento são oferecidos pelos escritos de filosofia natural de Schelling[55]); ora os apresentam numa torrente de palavras, com a mais insuportável prolixidade, como se fossem necessários verdadeiros milagres para tornar compreensível o sentido profundo de suas idéias – quando elas na verdade se reduzem a algo muito simples ou mesmo a uma trivialidade (Fichte, em seus escritos populares, e centenas de cabeças-de-vento miseráveis e que não são dignos de nomear, em seus manuais filosóficos, oferecem uma profusão de exemplos). Ou então eles se esforçam para escrever de um modo próprio que quiseram adotar e consideram elegante, como por exemplo o estilo kat’ exochen [por antonomásia] científico e profundo, no qual o leitor é martirizado pelo efeito narcótico de períodos longos e enviesados, sem pensamento algum (encontram-se exemplos sobretudo entre os mais desavergonhados dos mortais, os hegelianos, em sua revista conhecida vulgarmente como “Anuário da literatura científica”). Ou então eles têm em vista um modo de escrever espirituoso, com o qual parecem querer ficar loucos.
Todos esses esforços, pelos quais esses escritores procuram afastar o nascetur ridiculus mus [nascerá um ridículo rato][56], com freqüência tornam difícil identificar, a partir do que fazem, o que realmente pretendem. Além disso, essas pessoas também escrevem palavras, ou mesmo frases inteiras, nas quais elas próprias não pensaram nada, contudo esperam que um outro possa pensar ao lê-las. O motivo de todos esses esforços não é nada além da aspiração incansável, buscada sempre por novos caminhos, de vender palavras por pensamentos, produzindo a aparência do talento por meio de expressões novas, ou usadas em novos sentidos, com fórmulas e combinações de todos os tipos, para suprir a falta de engenho que os faz sofrer. É divertido ver como, para esse objetivo, ora uma, ora outra maneira é experimentada como uma máscara que representa o talento, e ela é capaz de enganar os inexperientes por um curto período, até que seja reconhecida como uma máscara morta e ridicularizada, então é trocada por outra. Assim, vemos os escritores usarem um tom ditirâmbico, como se estivessem bêbados, para depois, já na página seguinte, recorrerem a um tom sério, pomposo, profundamente erudito, que alcança o mais alto grau de prolixidade pesada e minuciosa, à maneira do falecido Christian Wolf, mas com uma roupagem moderna[57].
Contudo, a máscara mantida por mais tempo é a da ininteligibilidade, embora isso aconteça apenas na Alemanha, onde ela foi introduzida por Fichte, aperfeiçoada por Schelling e finalmente alcançou seu clímax em Hegel, obtendo sempre o maior sucesso. Não há nada mais fácil do que escrever de tal maneira que ninguém entenda; em compensação, nada mais difícil do que expressar pensamentos significativos de modo que todos os compreendam. O ininteligível é parente do insensato, e sem dúvida é infinitamente mais provável que ele esconda uma mistificação do que uma intuição profunda.
Mas todos os artifícios mencionados são dispensáveis quando o talento está realmente presente, pois ele permite que o escritor se mostre como ele é, confirmando a sentença de Horácio:
scribendi recte sapere est principium et fons.[58] [o saber é o princípio e a fonte para se escrever bem.]
Mas aqueles escritores fazem como certos metalúrgicos que experimentam cem diferentes composições para pôr no lugar do ouro, o único metal que sempre será insubstituível. Um autor deveria, pelo contrário, evitar acima de tudo o esforço de demonstrar mais talento do que de fato tem, porque isso desperta no leitor a desconfiança de que ele possui muito pouco, uma vez que só se finge ter algo que realmente não se tem. Justamente por isso é um elogio quando se chama um autor de ingênuo, porque significa que ele pode se mostrar como realmente é. Em geral, a ingenuidade atrai, enquanto a artificialidade causa repulsa. Também vemos todo pensador autêntico se esforçar para dar a seus pensamentos a expressão mais pura, clara, segura e concisa possível. Conseqüentemente, a simplicidade sempre foi uma marca não só da verdade, mas também do gênio. É do pensamento que o estilo recebe a beleza, e não o contrário, como ocorre naqueles pseudopensadores que buscam tornar seus pensamentos belos com auxílio do estilo. Em todo caso, o estilo não passa da silhueta do pensamento: escrever mal, ou de modo obscuro, significa pensar de modo confuso e indistinto.
Assim, a primeira regra do bom estilo, uma regra que praticamente se basta sozinha, é que se tenha algo a dizer. Ah, sim, com isso se chega longe! Mas a negligência com relação a essa regra é um traço característico e fundamental dos filósofos e, em geral, de todos os escritores teóricos na Alemanha, especialmente desde Fichte. Em tudo o que eles escrevem, percebe-se que pretendem parecer que têm algo a dizer, quando não têm coisa alguma. Essa maneira de escrever, introduzida pelos pseudofilósofos das universidades, pode ser observada facilmente e mesmo entre as mais destacadas celebridades literárias desta época. Ela é a mãe tanto do estilo forçado, vago, ambíguo e mesmo plurívoco, quanto do estilo prolixo, pesado, o style empesé, e também da torrente inútil de palavras e, finalmente, do ocultamento da mais deplorável pobreza de pensamento sob uma tagarelice infatigável, ensurdecedora, atordoante. No caso de tais estilos, uma pessoa pode ler por horas a fio sem capturar nenhum pensamento preciso e claramente exposto. Desse tipo de escritos e dessa arte, encontram-se ótimos modelos em quase todas as páginas daqueles famigerados “Anuários de Halle”, chamados depois de “Anuários alemães”. Quem tem algo digno de menção a ser dito não precisa ocultá-lo em expressões cheias de preciosismos, em frases difíceis e alusões obscuras, mas pode se expressar de modo simples, claro e ingênuo, estando certo com isso de que suas palavras não perderão o efeito. Assim, quem precisa usar os artifícios mencionados antes revela sua pobreza de pensamentos, de espírito e de conhecimento.
Enquanto isso, a resignação alemã se acostumou a ler amontoados de palavras daquele tipo, página por página, sem saber direito o que o escritor realmente quer dizer. As pessoas acreditam que as coisas devem ser assim mesmo e não chegam a descobrir que ele escreve apenas por escrever. Em contrapartida, um bom escritor, rico em pensamentos, conquista de imediato entre seus leitores o crédito de ser alguém que, a sério, realmente tem algo a dizer quando se manifesta; é essa atitude que dá ao leitor esclarecido a paciência de segui-lo com atenção. Justamente porque tem algo a dizer, tal escritor se expressará sempre da maneira mais simples e precisa, uma vez que pretende despertar no leitor exatamente o pensamento que tem naquele momento, e nenhum outro. Assim, ele pode repetir as palavras de Boileau:
Ma pensée au grand jour partout s’offre et s’expose,
Et mon vers, bien ou mal, dit toujours quelque chose;[59]
[Meu pensamento se abre e se expõe em plena luz,
E meu verso, mal ou bem, diz sempre alguma coisa;]
Quanto aos escritores descritos antes, as palavras do mesmo poeta que se aplicam a eles são: “et qui parlant beaucoup ne disent jamais rien” [e que, falando muito, nunca diz nada]. Uma outra característica deles é a de evitarem, quando possível, todas as expressões precisas, de modo que possam sempre tirar a corda do pescoço, quando necessário. Assim, eles escolhem, em todos os casos, a expressão mais abstrata, enquanto as pessoas de talento escolhem a mais concreta porque ela expõe o assunto à claridade, que constitui a fonte de toda evidência. Aquela preferência pelo abstrato pode ser comprovada por muitos exemplos: entre eles, um especialmente ridículo é o uso que os escritores alemães da última década quase sempre fazem do verbo “bedingen” [condicionar], em lugar de “bewirken” [provocar] e “verursachen” [causar]. Esse uso se deve ao fato de que aquele verbo, por ser mais abstrato e indefinido, diz menos (algo como “não sem isso” em vez de “por meio disso”) e assim deixa sempre abertas as portas do fundo, tão apreciadas por aqueles em quem a consciência secreta de sua incapacidade infunde um medo constante de todas as expressões precisas. Em outros escritores, porém, atua apenas a tendência nacional de imitar prontamente, na literatura, toda burrice, assim como se imita na vida toda impertinência, o que pode ser comprovado pela rápida propagação de ambas. Enquanto um inglês se deixa conduzir por sua própria avaliação, tanto no que escreve quanto no que faz, o alemão é quem menos pode se vangloriar disso. Em conseqüência do processo já mencionado, as palavras bewirken [provocar] e verursachen [causar] desapareceram quase totalmente da linguagem usada nos livros da última década, e em toda parte se usa apenas “bedingen” [condicionar]. Esse fato é digno de menção por ser tão caracteristicamente ridículo.
Seria possível atribuir a falta de espírito e o caráter entediante dos escritos das mentes triviais ao fato de elas sempre falarem sabendo as coisas pela metade, isto é, elas não entendem propriamente o sentido de suas próprias palavras, pois se trata de algo que foi aprendido e recebido já pronto; por isso utilizam, mais que palavras, frases inteiras repetidas (phrases banales). É essa a razão da sensível falta de pensamentos claramente expressos que caracteriza tais escritos, justamente porque o selo de sua expressão, o ato de pensar com clareza, é algo que não está presente. Em seu lugar, encontramos uma rede de palavras obscura e indefinida, locuções correntes, fórmulas usadas e expressões da moda.[60] Por conseguinte, sua escrita nebulosa é como uma impressão com tipos já bastante usados. Pessoas de talento, por sua vez, dirigem-se realmente a nós em seus escritos, e por isso são capazes de nos animar e entreter: apenas elas combinam as palavras com plena consciência, com critério e intenção. Desse modo, sua exposição estabelece, com a que foi descrita antes, uma relação semelhante à de um quadro pintado com um que foi impresso com um molde. Num caso, há uma intenção especial em cada palavra, assim como em cada pincelada; no outro, em compensação, tudo foi feito mecanicamente.[61] A mesma diferença pode ser observada na música. Pois é sempre a onipresença do espírito em cada uma das partes que caracteriza a obra do gênio; ela é análoga à onipresença da alma de Garrick em todos os músculos de seu corpo, observada por Lichtenberg[62].
Com relação ao caráter entediante dos escritos, mencionado anteriormente, deve-se acrescentar a observação geral de que há dois tipos de tédio: um objetivo e um subjetivo. O tédio objetivo tem origem sempre na falta que está em questão aqui, portanto no fato de que o autor não possui nenhum pensamento ou conhecimento perfeitamente claros para comunicar. Pois quem os possui trabalha tendo em vista seu objetivo, ou seja, a comunicação do pensamento e do conhecimento, seguindo uma linha reta e fornecendo conceitos claramente expressos, por isso não é prolixo, nem vazio, nem confuso e, conseqüentemente, não é entediante. Mesmo que a base de seu pensamento fosse um equívoco, seria algo pensado claramente e bem ponderado, portanto correto ao menos do ponto de vista formal, de modo que o texto teria sempre algum valor. Em compensação, pelos mesmos motivos, um texto objetivamente entediante é sempre destituído de valor.
O tédio subjetivo, por sua vez, é algo apenas relativo: ele se baseia na falta de interesse pelo assunto, da parte do leitor, o que indica uma certa limitação. Nesse caso, até uma obra excelente pode ser subjetivamente entediante para este ou para aquele leitor; por outro lado, mesmo uma obra de péssima qualidade pode ser subjetivamente excitante para alguém, porque o assunto ou o escritor lhe interessam.
Seria proveitoso que os escritores alemães chegassem à conclusão de que, embora de fato se deva pensar como um grande espírito, sempre que possível deve-se falar a mesma linguagem das outras pessoas. Palavras ordinárias são usadas para dizer coisas extraordinárias; mas eles fazem o contrário. Nós os vemos esforçados em disfarçar conceitos triviais com palavras nobres, em vestir seus pensamentos muito ordinários com as mais extraordinárias expressões, as fórmulas mais rebuscadas, mais pretensiosas e mais raras. Suas frases são sempre como que carregadas em liteiras. Com referência a esse gosto pelo bombástico, em estilo exagerado, pomposo, preciosista, hiperbólico e acrobático, seu protótipo é o alferes Pistol, a quem seu amigo Falstaff certa vez bradou, perdendo a paciência: “Diga o que tem a dizer como uma pessoa deste mundo!”[63].
Aos apreciadores de exemplos dedico esta amostra: “A próxima publicação de nossa editora: fisiologia científica teórico-prática, patologia e terapia dos fenômenos pneumáticos denominados flatulências, que são apresentados de maneira sistemática em suas relações orgânicas e causais, de acordo com seu modo de ser, como também com todos os fatores genéticos condicionantes, externos e internos, em toda a plenitude de suas manifestações e atuações, tanto para a consciência humana em geral quanto para a consciência científica: uma versão livre da obra francesa l’art de péter [a arte de peidar], provida de notas corretivas e excursos esclarecedores.”
Não se encontra uma tradução que corresponda exatamente a style empesé; mas se encontra com muita freqüência o estilo a que essa expressão se refere. Quando se associa ao preciosismo, esse estilo é, nos livros, o que a solenidade fingida, a falsa fidalguia e o preciosismo são no trato social: algo insuportável. A pobreza de espírito gosta de usar tal roupagem, da mesma maneira que, na vida, a burrice se disfarça com a solenidade e a formalidade.
Quem escreve de modo afetado é como alguém que se enfeita para não ser confundido e misturado com o povo; um perigo que o gentleman não corre, mesmo usando o pior traje. Assim como se reconhece o plebeu por uma certa pompa no modo de se vestir e pelo jeito embonecado, a mente trivial é reconhecida pelo seu estilo afetado.
Em todo caso, é um esforço vão querer escrever exatamente como se fala. Em vez disso, todos os estilos de escrita devem conservar um certo vestígio do parentesco com o estilo lapidar que é seu precursor. Querer escrever como se fala é tão condenável quanto o contrário, ou seja, querer falar como se escreve, o que resulta num modo de falar pedante e ao mesmo tempo difícil de entender.
A obscuridade e a falta de clareza da expressão são sempre um péssimo sinal. Pois em noventa e nove por cento dos casos elas se baseiam na falta de clareza do pensamento, que por sua vez resulta quase sempre de um equívoco, uma inconsistência e incorreção mais originais. Quando um pensamento correto desponta numa cabeça, ele se esforça em direção à claridade e logo a alcança, para em seguida o que foi claramente pensado encontrar com facilidade uma expressão adequada. O que uma pessoa é capaz de pensar sempre se deixa expressar em palavras claras e compreensíveis, sem ambigüidade. Aqueles que elaboram discursos difíceis, obscuros, dubitativos e ambíguos com certeza não sabem direito o que querem dizer, mas têm uma consciência nebulosa do assunto e lutam para chegar a formular um pensamento. No entanto, com freqüência, essas pessoas querem esconder de si mesmas e dos outros o fato de que na verdade não têm nada a dizer. Querem dar a impressão, como Fichte, Schelling e Hegel, de saber o que não sabem, de pensar o que não pensam, de dizer o que não dizem. Pois alguém que tem algo certo a dizer iria fazer esforço para falar de modo obscuro ou claro? – Como diz Quintiliano [Instit. Lib. II, c. 3]:[64] “plerumque accidit ut facilitora sint ad intelligendum et lucidiora multo, quae a doctismo quoque dicuntur... Eri ergo etiam obscurior, quo quisque deterior”. [Ordinariamente ocorre que as coisas ditas por um homem instruído são mais fáceis de entender e muito mais claras... E alguém será tanto mais obscuro quanto menos valer.]
Da mesma maneira, não devemos nos expressar de modo enigmático, mas saber se queremos ou não dizer alguma coisa. A indecisão da expressão é o que torna os escritores alemães tão desagradáveis. Constituem uma exceção somente os casos em que se tem a comunicar algo que seja proibido de alguma maneira.
Assim como todo excesso numa atividade costuma levar ao contrário do que se pretendia, as palavras servem de fato para tornar os pensamentos compreensíveis, mas só até certo ponto. Quando esse ponto é ultrapassado, elas tornam os pensamentos a serem comunicados mais e mais obscuros. Encontrar tal ponto é uma tarefa do estilo e uma questão da capacidade de julgar, pois toda palavra supérflua age diretamente contra seu objetivo. É nesse sentido que Voltaire diz: “l’adjectif est l’ennemi du substantif” [o adjetivo é o inimigo do substantivo].[65] Mas, sem dúvida, muitos escritores procuram esconder sua pobreza de pensamento justamente sob uma profusão de palavras.
Por conseguinte, deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela. É sempre melhor deixar de lado algo bom do que incluir algo insignificante. Aplica-se acertadamente aqui a expressão de Hesíodo pleon emisu pantos [a metade é preferível ao todo] (opera et dies, v. 40)[66]. Sobretudo, não dizer tudo! Le secret pour être ennuyeux, c’est de tout dire [o segredo para ser entediante é dizer tudo][67]. Portanto, quando possível, apenas a quintessência, apenas os assuntos principais, nada do que o leitor pensaria sozinho. – Usar muitas palavras para comunicar poucos pensamentos é sempre o sinal inconfundível da mediocridade; em contrapartida, o sinal de uma cabeça eminente é resumir muitos pensamentos em poucas palavras.
A verdade fica mais bonita nua, e a impressão que ela causa é mais profunda quanto mais simples for sua expressão. Em parte, porque ocupa assim toda a alma do ouvinte, desimpedida e sem a distração de pensamentos secundários; em parte, porque ele sente que, nesse caso, não é corrompido ou enganado por artifícios retóricos, mas todo o efeito provém do próprio assunto. Por exemplo, que declamação acerca da vanidade da existência humana causará mais impressão do que a de Jó: “homo, natus de muliere, brevi vivit tempore, repletus multis miseriis, qui, tanquam flos, egreditur et conteritur, et fugit velut umbra” [o homem, nascido da mulher, vive um breve tempo repleto de inquietações, como uma flor desabrocha e logo murcha, e foge como uma sombra passageira].[68] – Exatamente por isso a poesia ingênua de Goethe é incomparavelmente superior à poesia retórica de Schiller.[69] Também é esse o motivo do forte efeito de muitos cantos populares. Nesse caso, assim como é preciso evitar uma sobrecarga de ornamentações na arquitetura, nas artes discursivas é preciso evitar sobretudo os floreios retóricos desnecessários, todas as amplificações inúteis e, acima de tudo, o que há de supérfluo na expressão, dedicando-se a um estilo casto. Tudo o que é dispensável tem um efeito desvantajoso. A lei da simplicidade e da ingenuidade, já que essas qualidades combinam com o que há de mais sublime, vale para todas as belas-artes.
A falta de espírito adota todas as formas apenas para se esconder por trás delas: ela se disfarça num modo empolado ou bombástico de se expressar, no tom da superioridade e da fidalguia e em centenas de outras formas. Só não dá importância à ingenuidade, porque com ela ficaria sem recursos e ofereceria apenas produtos simplórios. Mesmo a boa mente não deve ser ingênua, já que pareceria seca e magra. Por isso, a ingenuidade se mantém como a indumentária de honra do gênio, assim como a nudez é a da beleza.
A autêntica concisão da expressão consiste em dizer apenas, em todos os casos, o que é digno de ser dito, com a justa distinção entre o que é necessário e o que é supérfluo, evitando todas as explicações prolixas sobre coisas que qualquer um pode pensar por si mesmo. Em contrapartida, nunca se deve sacrificar à concisão a clareza, muito menos a gramática. Enfraquecer a expressão de um pensamento, obscurecer o sentido de uma frase para usar algumas palavras a menos é uma lamentável insensatez. Mas é justamente isso o que move a falsa concisão em voga hoje em dia, que consiste na atividade de deixar de lado o que serve ao objetivo, ou mesmo o que é necessário do ponto de vista gramatical e lógico. Na Alemanha, os maus escrevinhadores atuais foram tomados por essa voga, como por uma obsessão, e a exercem com incrível insensatez. A fim de economizar uma palavra e matar dois coelhos com uma cajadada, utilizam um verbo ou um adjetivo para várias e distintas orações, mesmo em sentidos diferentes, de modo que é preciso ler as frases sem entendê-las, tateando como um cego, até que a última palavra forneça algum esclarecimento. Além disso, recorrendo a outros tipos de economias de palavras, inteiramente inapropriados, procuram produzir o que seu caráter simplório considera uma concisão da expressão e uma escrita sintética. Assim, ao deixar de lado por economia uma palavra que, de um só golpe, lançaria luz sobre uma frase, fazem desta um enigma que tentamos desvendar por meio de repetidas leituras. Especialmente as partículas wenn [se] e so [então] são proscritas em tais escritos e precisam ser substituídas por meio da antecipação do verbo, sem a necessária discriminação, com certeza sutil demais para a cabeça desse tipo, das passagens em que esse procedimento é ou não apropriado. O resultado, com freqüência, é não só uma dureza e uma afetação de mau gosto, mas também a incompreensibilidade.
Semelhante a este é um disparate lingüístico muito apreciado, que pode ser demonstrado melhor por meio de um exemplo: para dizer “käme er zu mir, so würde ich ihm sagen” [viesse ele até mim, então eu lhe diria] etc., nove décimos dos desperdiçadores de tinta atuais escrevem: “würde er zu mir kommen, ich sagte ihm” [viria ele até mim, eu lhe diria][70], o que não é só um uso canhestro, como também errado. Na verdade, apenas um período interrogativo pode começar por würde, e numa frase condicional isso poderia acontecer quando muito no presente, mas nunca no futuro. Mas, no caso de tais escritores, o engenho na concisão da maneira de se expressar não vai além da capacidade de contar as palavras e da invenção de truques para eliminar, a qualquer custo, algumas sílabas, ou mesmo uma única. É só desse modo que eles buscam a brevidade do estilo e o primor da exposição. Assim, toda sílaba cujo valor lógico, ou gramatical, ou eufônico escapa à sua estupidez é rapidamente cortada, e logo que um burro tenha realizado tal ato heróico centenas de outros o seguem, imitando com júbilo sua realização. Mas não se encontra em parte alguma uma oposição! Nenhuma oposição contra a burrice, pelo contrário: se um faz uma verdadeira burrice, os outros o seguem e se apressam em imitá-lo.
[...]
Com essa maneira torpe de cortar sílabas sempre que possível, todos os maus escrevinhadores mutilam hoje em dia a língua alemã, que depois não poderá ser restabelecida. Por isso, esses melhoradores da língua têm de ser castigados, sem exceção alguma, como as crianças bagunceiras na escola. Toda pessoa bem-intencionada e inteligente tomará meu partido em favor da língua alemã e contra a estupidez alemã. Como esse tratamento arbitrário e mesmo insolente da língua, que os desperdiçadores de tinta se permitem hoje em dia na Alemanha, seria acolhido na Inglaterra, na França, ou na Itália, país digno de inveja por sua Academia della Crusca? Basta considerar, por exemplo, na biblioteca de Classici Italiani (Milão 1804, ss., tomo 142 ) a vida de Benvenuto Cellini, na qual o editor critica e examina em nota qualquer desvio do toscano puro, por menor que seja, ainda que se trate de uma única letra![71] O mesmo vale para os editores dos Moralistes français (1838). Por exemplo, Vauvenargues escreve:[72] “ni le dégout est une marque de santé, ni l’ appétit est une maladie” [nem o fastio é uma marca de saúde, nem o apetite é uma doença], e o editor observa imediatamente que deveria estar escrito “n’est”. Entre nós, cada um escreve como quer! Se Vauvernargues escreveu: “la difficulté est à les connaître” [a dificuldade está em conhecê-los], o editor observa: “il faut, je crois [deveria ser, creio] de les connaître”.
Num periódico inglês, vi um orador ser duramente criticado porque tinha dito: my talented friend [meu talentoso amigo], o que não seria uma expressão inglesa; quando se tem spirited, de spirit. As outras nações são rígidas com relação a suas línguas.[73] Em contrapartida, algum rabiscador alemão que inventa, sem escrúpulos, qualquer palavra inaudita, em vez de levar uma sova nos jornais, é aplaudido e encontra imitadores. Nenhum escritor, nem mesmo o mais mesquinho desperdiçador de tinta, hesita em usar qualquer verbo num sentido nunca antes atribuído a ele; caso o leitor consiga de algum modo adivinhar o que ele pretende dizer, isso passa por uma idéia original e encontra quem a imite.[74] Sem nenhuma consideração pela gramática, pelo uso da língua, pelo sentido e pela compreensão humana, qualquer idiota escreve o que lhe passa pela cabeça, e quanto mais absurdo melhor! – Recentemente li Centro-Amerika, em vez de Central-Amerika. De novo, uma letra economizada às custas dos elementos mencionados!
Em todas as coisas, o alemão odeia a ordem, a regra e a lei: ele adora a arbitrariedade e o capricho próprios, dotados de uma dose de insípida imparcialidade, segundo sua capacidade apurada de julgar. Por isso, não sei se os alemães um dia aprenderão a se manter à direita nas ruas, caminhos e estradas – por maior e mais evidente que seja a vantagem de agir assim –, como todos os britânicos fazem inexoravelmente tanto nos três Reinos Unidos quanto nas várias colônias. Também em corporações sociais, clubes e locais do gênero, pode-se ver com que satisfação, embora sem a menor vantagem para sua comodidade, muitos desobedecem de propósito as normas sociais mais razoáveis. Como diz Goethe:
Viver segundo seus caprichos é vulgar;
O nobre se esforça pela ordem e pela lei.[75]
(Escritos póstumos. volume 17, p. 297)
Trata-se de uma mania universal. Todos se esforçam para demolir a língua, sem dó e sem piedade; como numa caçada, cada um procura abater um pássaro onde e como puder. Portanto, numa época em que não há um único escritor vivo na Alemanha cujas obras prometam durar, os fabricantes de livros, os literatos e os escritores de jornal sentem-se no direito de querer reformar a língua, e assim vemos essa geração atual impotente, apesar de suas longas barbas, isto é, incapaz de qualquer produção intelectual de tipo elevado, dedicando seus esforços a mutilar de modo impertinente e desavergonhado a língua na qual grandes autores escreveram, com a intenção de obter um reconhecimento como o de Heróstrato.[76] Em outros tempos, os corifeus da literatura se permitiam, em pontos específicos, propor uma melhora da língua após muita reflexão. Agora, cada desperdiçador de tinta, cada escritor de jornal, cada editor de uma publicação de estética sente-se autorizado a pôr suas garras na língua para arrancar dela o que não lhe agrada segundo seus caprichos, ou então para introduzir novas palavras.
A ira desses cortadores de palavras se dirige, principalmente, aos prefixos e sufixos de todas as palavras. O que eles pretendem alcançar por meio dessa amputação deve ser a concisão e, com ela, a pregnância e a energia da expressão, pois a economia de papel é muito pequena no final das contas. Assim, eles gostariam de reduzir ao máximo o que têm a dizer. Mas, para tanto, o que se requer é um procedimento muito diferente da redução de palavras, a saber, é necessário que se pense de modo conciso e sintético, no entanto essa atividade não está ao alcance de qualquer um. Além do mais, a concisão eficaz, a energia e até a pregnância da expressão só são possíveis pelo fato de que a língua possui, para cada conceito, uma palavra e, para cada modificação ou mesmo para cada nuance desse conceito, uma modificação perfeitamente correspondente da palavra. Apenas assim, quando as palavras e as modificações são empregadas corretamente, torna-se possível que cada frase, ao ser dita, desperte no ouvinte direta e exatamente o pensamento visado pelo falante, sem deixá-lo em dúvida nem mesmo por um instante a respeito do que este pretende dizer. Assim, cada radical da língua tem de ser um modificabile multimodis modificationibus [um modificável com múltiplas modificações possíveis], para poder se prender como um pano molhado a todas as nuances do conceito e, com isso, às sutilezas do pensamento. Ora, essa adaptação é possibilitada principalmente por meio dos prefixos e sufixos: eles são as modulações de cada conceito fundamental no teclado da língua. É por isso que os gregos e os romanos modulavam e diversificavam o significado de quase todos verbos, e de muitos substantivos, por meio de prefixos. Pode servir de exemplo qualquer um dos principais verbos latinos, como ponere, modificado para a imponere, deponere, disponere, exponere, componere, adponere, subponere, superponere, seponere, praeponere, proponere, interponere, transponere e assim por diante. O mesmo procedimento pode ser demonstrado em palavras alemãs: por exemplo, o substantivo Sicht [vista] é modificado para Aussicht [vista externa], Einsicht [discernimento], Durchsicht [revisão], Nachsicht [indulgência], Vorsicht [cuidado], Hinsicht [respeito], Absicht [intenção] etc.; ou o verbo suchen [buscar], modificado para aufsuchen [procurar], aussuchen [escolher], untersuchen [pesquisar], besuchen [visitar], ersuchen [solicitar], versuchen [tentar], heimsuchen [acometer], durchsuchen [vasculhar], nachsuchen [requerer].[77]
É esse o papel dos prefixos. Quando, em virtude do esforço pela concisão, eles são deixados de lado e se diz, nesse caso, apenas ponere ou Sicht ou suchen, em lugar das formas modificadas que seriam adequadas, todas as determinações precisas de um conceito fundamental muito amplo ficam sem indicação, e cabe a Deus e ao leitor a compreensão do que é dito. Com isso torna-se a língua, ao mesmo tempo, pobre, mal-acabada e rude. Entretanto, é exatamente esse o procedimento dos engenhosos melhoradores da língua na “atualidade”. Grosseiros e ignorantes, eles realmente imaginam que nossos antepassados tão criteriosos devem ter acrescentado os prefixos por não terem o que fazer, ou por pura burrice, e assim acreditam que é um golpe de gênio retirá-los com afinco e com pressa, a cada vez que se deparam com um. Contudo, na língua, nenhum prefixo deixa de ter significado, não há um único que não sirva para encaminhar o conceito fundamental no rumo de todas as suas modulações, tornando possível a precisão, a clareza e a sutileza da expressão, fatores que lhe dão energia e pregnância.
Em contrapartida, quando se retiram os prefixos, faz-se uma única palavra a partir de várias, o que empobrece a língua. Mais do que isso: não são somente as palavras que se perdem, mas também os conceitos, porque faltam então os meios para fixá-los, e as pessoas têm de se contentar, ao falar, ou mesmo ao pensar, com um à peu près [aproximadamente], de modo que a energia do discurso e a clareza do pensamento se perdem. Não se pode, como ocorre com tais amputações, diminuir o número das palavras sem ampliar, ao mesmo tempo, o significado das palavras restantes. E, por outro lado, não se pode fazer tal ampliação sem tirar desses significados sua determinação mais imediata, favorecendo assim a ambigüidade e a obscuridade, o que acaba por impossibilitar a precisão e a clareza da expressão, sem falar em sua energia e pregnância. Uma ilustração desse processo nos é oferecida pela ampliação do significado da palavra nur [só], acarretando de imediato a ambigüidade e, às vezes, a falsidade da expressão.[78] – Não importa que uma palavra tenha duas sílabas a mais, quando são elas que determinam com maior precisão o conceito! É incrível, mas há cabeças-tontas que escrevem Indifferenz [indiferença] quando pretendem dizer Indifferenzismus [indiferentismo], para lucrar essas sílabas!
Justamente aqueles prefixos que conduzem o radical no rumo de todas as modificações e nuances de seu emprego são um meio indispensável para toda clareza e precisão da expressão e, assim, para a autêntica concisão, a energia e a pregnância do discurso. O mesmo pode ser dito em relação aos sufixos, os diversos tipos de sílabas finais de substantivos derivados de verbos, como por exemplo de Versuch [tentativa] e Versuchung [tentação]. Assim, as duas maneiras de modulação das palavras e conceitos foram distribuídas na língua e aplicadas às palavras por nossos antecessores engenhosamente, com sabedoria e tato. Mas depois veio, em nossos dias, uma geração de rabiscadores brutos, ignorantes e incapazes, que uniram suas forças para destruir aquela antiga obra de arte com a dilapidação das palavras, como se fosse essa a sua profissão, justamente porque esses paquidermes não têm nenhuma sensibilidade para meios artísticos destinados à expressão de pensamentos matizados de modo sutil. Em todo caso, eles entendem de contar letras. Por isso, se um paquiderme tem a opção entre duas palavras, uma que corresponde exatamente ao conceito a ser expresso, em função de seu prefixo ou sufixo, e outra que se refere a esse conceito de modo impreciso e genérico, contudo possui três letras a menos, então nosso paquiderme se aferra sem pensar a essa última, contentando-se, quanto ao sentido, com um à peu près, pois seu pensamento não precisa de tais sutilezas e ocorre apenas em linhas gerais. Contanto que haja menos letras! Disso depende a concisão e a força da expressão, a beleza da língua. Se ele tem a dizer por exemplo “so etwas ist nicht vorhanden” [algo assim não está disponível], ele dirá “so etwas ist nicht da” [algo assim não há], em função da grande economia de letras.
O lema principal dessas pessoas é sacrificar sempre a adequação e a justeza de uma expressão à concisão de outra, que tem de servir como substituta. Com isso se desenvolve pouco a pouco um jargão muito debilitado, que acaba se tornando incompreensível. Desse modo, a única verdadeira vantagem que a nação alemã tem em relação às restantes, a língua, é anulada levianamente. Pois a língua alemã é a única em que se pode escrever quase tão bem quanto em grego e latim, característica que seria ridículo querer atribuir às outras principais línguas européias, que não passam de dialetos. Comparado com elas, o alemão tem algo de extraordinariamente nobre e sublime.
Mas como um tal paquiderme poderia ter sensibilidade para a delicadeza de uma língua, esse material precioso, legado aos espíritos pensantes para poder receber e conservar pensamentos sutis? Contar letras, em contrapartida, é coisa para paquidermes! Vejam só como eles se regalam com a mutilação da língua, esses nobres filhos da “atualidade”. Olhem só para eles! Cabeças carecas, longas barbas, óculos em lugar de olhos, um charuto no focinho como substituto dos pensamentos, um saio nas costas em lugar do casaco, a vadiação em lugar da diligência, a arrogância em lugar do conhecimento, desfaçatez e intrigas em lugar de mérito.[79] Nobre “atualidade”, magníficos epígonos, uma geração amamentada pelo leite materno da filosofia de Hegel! Para obter o renome eterno, vocês querem imprimir suas garras em nossa velha língua, a fim de que a impressão, como um iconólito, guarde para sempre o vestígio de sua existência vazia e obtusa. Mas Di meliora[80]! Fora, paquidermes, fora. Esta é a língua alemã! Na qual homens se expressaram, na qual grandes poetas cantaram e grandes pensadores escreveram. Retirem as garras! Ou passarão fome. (É a única coisa que os assusta.)
O pretenso melhoramento “atual” da língua, empreendido por garotos que saíram cedo demais da escola e cresceram na ignorância, também tornou a pontuação sua presa, manipulando-a hoje em dia, em geral, com uma negligência proposital e presunçosa. O que os escrevinhadores realmente pensam fazer é algo difícil de dizer, mas provavelmente essa tolice deve representar uma amável légèreté [leveza] à francesa, ou então deve pressupor e registrar uma leviandade da sua concepção da língua. Eles lidam com os símbolos tipográficos de pontuação como se fossem de ouro; desse modo, deixam de lado por exemplo três quartos das vírgulas necessárias (oriente-se quem puder!). Mas, onde devia se encontrar um ponto, há uma vírgula, ou no máximo um ponto-e-vírgula, e coisas assim. A primeira conseqüência disso é que se torna necessário ler cada frase duas vezes. Mas é na pontuação que se esconde uma parte da lógica das orações, uma vez que elas são demarcadas por tais sinais; por isso, a negligência intencional em seu uso chega a ser um crime, sobretudo quando ela é praticada, si Deo placet [Deus o consente], como ocorre com freqüência atualmente, pelos próprios filólogos, inclusive nas edições das obras de escritores antigos, o que dificulta de modo drástico a compreensão delas. Nem mesmo o Novo Testamento ficou imune, em suas edições mais recentes. Se a concisão que os senhores buscam, ao tirar letras e contar palavras, visa economizar o tempo do leitor, esse objetivo seria alcançado de modo muito mais eficiente se fosse possível reconhecer imediatamente, por meio da pontuação adequada, que palavras pertencem a uma ou outra oração de um período.[81] É evidente que uma pontuação pouco rigorosa, como a permitida na língua francesa, em função de sua seqüência estritamente lógica e por isso lacônica das palavras, ou na inglesa, em função da grande pobreza de sua gramática, não é aplicável a línguas relativamente primordiais, cuja gramática complexa e erudita torna possível frases mais elaboradas, como é o caso da língua grega, da latina e da alemã.[82]
Para voltar ao assunto que realmente está em questão aqui, à concisão do discurso, à brevidade e pregnância na exposição, trata-se de coisas que só podem vir da riqueza dos pensamentos e da importância de seus conteúdos. Por isso, não precisam nem um pouco daquele corte deplorável de palavras e frases, que já critiquei aqui como meio para encurtar a expressão. Pois pensamentos decisivos, substanciais, dignos de serem escritos, têm de oferecer matéria e conteúdo suficientes para preencher satisfatoriamente as frases que os expressam, inclusive quanto à perfeição gramatical e lexical de suas partes, de tal maneira que elas não se encontrem em nenhum ponto ocas, vazias ou levianas. Assim, a exposição se mantém concisa e pregnante, enquanto o pensamento encontra nela sua expressão confortável e compreensível, desdobrando-se e movendo-se com graça. Portanto, não devemos reduzir as palavras e as formas lingüísticas, mas aumentar os pensamentos; da mesma maneira que um convalescente deverá voltar a vestir suas roupas normais ao recuperar a saúde e o peso, em vez de mandar apertá-las.
13.
Hoje em dia, neste estágio de decadência da literatura e de desprezo pelas línguas antigas, um erro de estilo que se torna cada vez mais comum, embora só na Alemanha seja algo endêmico, é a sua subjetividade. Ela consiste no fato de que basta ao escritor saber o que ele quer e pretende dizer; o leitor que se arranje para acompanhá-lo. Sem se preocupar com isso, ele escreve como se recitasse um monólogo, quando deveria estabelecer um diálogo, e na verdade um diálogo no qual é preciso se expressar de modo ainda mais claro, já que não se ouvem as perguntas do interlocutor. Exatamente por esse motivo, o estilo não deve ser subjetivo, mas objetivo; e para tanto é necessário dispor as palavras de maneira que elas forcem o leitor, de imediato, a pensar exatamente o mesmo que o autor pensou. No entanto, só é possível que isso ocorra quando o autor tem sempre em mente que os pensamentos obedecem à lei da gravidade, de modo que o caminho da cabeça para o papel é muito mais fácil do que o caminho do papel para a cabeça, então é preciso ajudá-los no segundo percurso com todos os meios à nossa disposição. Quando o autor age assim, as palavras têm um efeito puramente objetivo, como o de uma pintura a óleo. O estilo subjetivo, por sua vez, não tem um efeito muito mais seguro do que o de manchas na parede, nas quais apenas uma pessoa cuja fantasia por acaso é despertada vê figuras, enquanto os outros só vêem manchas. A diferença em questão se estende sobre todo o modo de apresentação, mas com freqüência é possível apontá-la também em determinados detalhes. Por exemplo, acabo de ler num livro recente: “Para aumentar a massa dos livros não escrevi”. Isso diz o contrário do que o escritor pretendia, além de ser um disparate.
14.
Quem escreve de maneira displicente confessa com isso, antes de tudo, que ele mesmo não atribui grande valor a seus pensamentos. Pois apenas a partir da convicção da verdade e importância de nossos pensamentos surge o entusiasmo que é exigido para buscar sempre, com incansável perseverança, a expressão mais clara, mais bela e mais vigorosa – da mesma maneira que recipientes de prata e ouro são usados apenas para coisas sagradas ou obras de arte inestimáveis. É por isso que os antigos, cujos pensamentos formulados em suas próprias palavras já sobreviveram por milênios, e que merecem portanto o título honorífico de clássicos, escreveram com todo esmero. Dizem que Platão redigiu a introdução de sua República sete vezes, com diversas modificações.
Os alemães, por sua vez, destacam-se diante de outras nações pela displicência tanto no estilo quanto em sua maneira de vestir, e os dois tipos de descuido são provenientes da mesma fonte, que se encontra no caráter nacional. Contudo, assim como o desleixo na maneira de vestir revela o menosprezo pela sociedade na qual uma pessoa se apresenta, um estilo descuidado, negligente e ruim demonstra um menosprezo ofensivo pelo leitor, ao qual este retribui, com todo direito, deixando de ler o que foi escrito. Contudo, o mais engraçado é observar os críticos que escrevem resenhas sobre os livros dos outros no estilo displicente dos escritores assalariados. É como se alguém sentasse no tribunal de pijamas e pantufas. Com que cuidado, em compensação, são redigidos o Edinbourgh review e o Journal des Savants! Em todo caso, da mesma maneira que tenho restrições a conversar com uma pessoa suja e malvestida, deixarei de lado um livro quando o descuido do estilo me saltar aos olhos.
Até aproximadamente cem anos atrás, sobretudo na Alemanha, os eruditos escreviam em latim. Nessa língua, um descuido seria uma vergonha, e além do mais a maioria das pessoas estava empenhada seriamente em escrever com elegância, o que aliás muitos conseguiam. Agora, depois que eles se livraram desses grilhões e obtiveram a grande comodidade de poder escrever em sua língua materna, tão familiar, era de se esperar que se dedicassem a fazê-lo com a maior correção e da maneira mais elegante possível. Foi o que aconteceu na França, na Inglaterra e na Itália. Mas na Alemanha aconteceu o contrário! Eles passaram a rabiscar com pressa o que têm a dizer, como lacaios mal pagos, usando as expressões que surgem em suas bocas sujas, sem ter estilo algum, até mesmo sem respeitar a gramática e a lógica, pois empregam em toda parte o pretérito imperfeito no lugar do perfeito e do mais-que-perfeito, o ablativo no lugar do genitivo; em vez de todas as outras preposições, usam sempre für [para], que com isso está errada em cinco de cada seis casos; em suma, cometem todas as burrices estilísticas que mencionei nos parágrafos anteriores.
15.
Conto também, entre as deteriorações da língua, o emprego equivocado e cada vez mais generalizado da palavra Frauen [senhoras] em lugar de Weiber [mulheres], por meio do qual a língua é, mais uma vez, empobrecida. Pois Frau significa uxor [esposa], e Weib, mulier [mulher] (garotas não são, mas querem se tornar Frauen), mesmo que essa troca de termos já tenha ocorrido alguma vez no século 13 ou que apenas mais tarde tenha se estabelecido a distinção das duas designações. As mulheres não querem mais ser chamadas de mulheres pelo mesmo motivo que os judeus querem ser chamados de israelitas, os alfaiates, de “fabricantes de roupas”, os comerciantes dão a seus locais de trabalho o título de bureau, e todo gracejo ou brincadeira quer ser chamado de humor, a saber, porque se atribui à palavra algo que não depende dela, mas da coisa designada. Não foi a palavra que levou à desvalorização da coisa, mas o contrário. Com isso, em duzentos anos, os interessados voltarão a exigir a troca das palavras. Todavia, de modo algum a língua alemã deve ser empobrecida por um capricho feminino, perdendo uma palavra. Por conseguinte, a questão não deve ficar a cargo das mulheres e dos literatos insípidos que freqüentam suas mesas de chá. Aliás, é preciso considerar que a desordem feminina e o damaísmo na Europa podem nos lançar aos braços do mormonismo.
Além disso, a palavra Frau traz consigo algo de antiquado e gasto, chegando a soar já como grau [grisalho]; portanto videant mulieres ne quid detrimenti res publica capiat [cuidem as mulheres para que o Estado não sofra danos].
16.
Poucos escrevem como um arquiteto constrói: primeiro esboçando o projeto e considerando-o detalhadamente. A maioria escreve da mesma maneira com que jogamos dominó. Nesse jogo, às vezes segundo uma intenção, às vezes por mero acaso, uma peça se encaixa na outra, e o mesmo se dá com o encadeamento e a conexão de suas frases. Alguns sabem apenas de modo aproximado que figura terá o conjunto e aonde chegará o que escrevem. Muitos não sabem nem isso, mas escrevem como os pólipos de corais constroem: uma frase se encaixa em outra frase, encaminhando-se para onde Deus quiser. A vida da “atualidade” é uma grande galopada: na literatura ela se manifesta por sua extrema frivolidade e desleixo.
17.
O princípio condutor da estilística deveria ser o fato de que uma pessoa só pode pensar com clareza um pensamento de cada vez; assim, não se pode exigir que pense dois, ou mesmo mais, de uma vez só.
Mas é isso que exige quem introduz orações intermediárias nas lacunas de um período principal, que fica então despedaçado; de uma maneira desnecessária e proposital, confunde-se o leitor. São principalmente os escritores alemães que adotam essa construção de frases. O fato de a sua língua ser mais apropriada para isso do que as outras línguas vivas fundamenta a possibilidade, mas não a louvabilidade de tal procedimento. Nenhuma prosa é lida de modo tão leve e agradável quanto a francesa, porque ela em geral está livre desse erro. O francês encadeia seus pensamentos na seqüência mais lógica e natural possível, apresentando-os a seu leitor sucessivamente, para uma consideração confortável, de modo que este possa dedicar toda a sua atenção a cada um deles. Em contrapartida, o alemão os interpola uns nos outros em orações entrecruzadas, e cada vez mais entrecruzadas, e mais entrecruzadas ainda, porque quer dizer seis coisas de uma vez só, em vez de expor uma após a outra. Assim, quando deveria se esforçar para obter e manter a atenção de seu leitor, acaba por exigir dele que, contrariando a lei de unidade da apreensão mencionada antes, pense três ou quatro pensamentos diferentes ao mesmo tempo, ou, como isso não é possível, que pense de maneira oscilante, em rápidas vibrações. É assim que o escritor estabelece o fundamento de seu style empesé, que aperfeiçoa então por meio de expressões preciosistas e pretensiosas para comunicar as coisas mais simples, entre outros artifícios do gênero.
O verdadeiro caráter nacional dos alemães é a inclinação para o pesado: ela se revela em seu modo de andar e de agir, em sua língua, em seu modo de falar, contar histórias, entender e pensar, mas especialmente em seu estilo ao escrever. Revela-se no prazer que os alemães sentem com as frases longas, pesadas, entrecruzadas, nas quais a memória aprende sua lição pacientemente, sozinha, durante cinco minutos, até que, na conclusão do período, o entendimento dispare e o enigma seja resolvido. Eles se comprazem com isso, e quando é possível acrescentar uma dose de preciosismo, algo de bombástico e uma “semnoth” [gravidade] afetada, o autor fica realmente deliciado; mas que o céu dê paciência ao leitor.
Em todo caso, essas pessoas se esforçam sobretudo para que a expressão seja o mais indecisa e indefinida possível, de modo que tudo apareça como que sob neblina. O objetivo parece ser, por um lado, deixar aberta uma porta dos fundos para cada frase e, por outro, alimentar a vaidade, dando a impressão de dizer mais do que foi pensado. Mas, em parte, também se encontra na base dessa característica uma verdadeira apatia e sonolência, que são justamente os fatores que tornam odiosa aos estrangeiros toda a escrevinhação dos alemães, porque eles não gostam de tatear no escuro; para nossos compatriotas, contudo, essa atividade parece ser algo inato.[83]
É à memória que se recorre com tais períodos, enriquecidos por orações subordinadas emaranhadas umas nas outras e recheados, como gansos assados com maçãs, com essas frases que uma pessoa não pode enfrentar sem antes consultar o relógio. Mas a memória desempenha assim um papel que deveria caber ao entendimento e à capacidade de julgar, cuja tarefa acaba sendo dificultada e enfraquecida. Pois períodos desse tipo oferecem ao leitor frases cortadas ao meio, que sua memória deve acumular e conservar, como os pedacinhos de uma carta rasgada, até que aquelas metades sejam completadas pelas que chegarem depois, para só então passarem a fazer sentido. Por conseguinte, ele precisa ler até um certo ponto sem pensar coisa alguma, apenas memorizando as informações todas, com a esperança voltada para o final, que lhe dará alguma luz sobre o que foi lido e possibilitará que tenha algo para pensar. Assim, quem lê recebe muita coisa para decorar, antes de obter algo para entender. É evidente que se trata de um péssimo procedimento e de um abuso da paciência do leitor. Entretanto, a inconfundível preferência das cabeças triviais por essa maneira de escrever se baseia no fato de ela, só após algum tempo e esforço, permitir ao leitor que compreenda algo que, de outro modo, teria compreendido imediatamente. Com isso, produz-se a aparência de que o escritor possui mais profundidade e inteligência do que o leitor. Esse também é, como outros já mencionados, um artifício por meio do qual os escritores medíocres se empenham, de maneira inconsciente e instintiva, para esconder sua pobreza de espírito e aparentar o contrário dela. Sua inventividade na criação de tais recursos chega a ser assombrosa.
Evidentemente, vai contra todo bom senso atravessar um pensamento com outro, como quando se faz uma cruz de madeira. Todavia, isso acontece à medida que alguém interrompe o que tem a dizer para incluir algo totalmente diferente, entregando aos cuidados do leitor uma frase começada, por hora ainda sem sentido, até que venha seu complemento. É mais ou menos como se um anfitrião desse a seus convidados pratos vazios, com a promessa de que algo virá a ser servido neles. Na verdade, as orações subordinadas entre vírgulas são da mesma família das notas de rodapé e dos parênteses no meio do texto; as três coisas só se diferenciam, no fundo, pelo grau. Se, algumas vezes, Demóstenes e Cícero escreveram períodos interpolados do mesmo tipo, teria sido melhor que não tivessem feito isso.[84]
O grau mais elevado de despropósito é alcançado por essa construção de frases quando as orações interpoladas não são introduzidas de modo orgânico, mas inseridas com uma interrupção direta de um período. Se é uma impertinência, por exemplo, interromper outras pessoas ao falar, não é menos impertinente interromper a si mesmo, como ocorre numa construção de frase que, já faz alguns anos, todos os péssimos escribas, displicentes, apressados, gananciosos, empregam seis vezes a cada página, com grande prazer. Esse despropósito consiste em – quando possível, deve-se dar a regra e o exemplo ao mesmo tempo – interromper a frase, para emendar outra no meio. Em todo caso, eles não fazem isso por mera preguiça, mas também por burrice, uma vez que consideram essa construção uma amável légèreté [leveza] que anima a exposição. – Apenas em casos raros e particulares esse procedimento pode ser perdoável.
18.
Na Lógica, com a doutrina dos juízos analíticos, já seria possível notar de passagem que, na verdade, esses juízos não devem aparecer numa boa exposição, porque têm um efeito simplório. Esse efeito se destaca, na maioria das vezes, quando se predica o indivíduo com uma qualidade que já pertence ao seu gênero: como, por exemplo, um boi que tinha chifres; ou um médico cuja ocupação era curar doentes, e assim por diante. Portanto, esses juízos só devem ser usados quando é o caso de dar um esclarecimento ou uma definição.
19.
Comparações são de grande valor, uma vez que remetem uma relação desconhecida a uma conhecida. Também as comparações mais detalhadas, que evoluem para parábolas ou alegorias, são apenas a referência de alguma relação à sua apresentação mais simples, explícita e palpável.
No fundo, toda formação de conceitos se baseia em comparações, já que seu ponto de partida é a compreensão da semelhança e o abandono da dessemelhança nas coisas. Além disso, em última instância, todo entendimento propriamente dito consiste numa compreensão de relações (un saisir de rapports): mas cada relação será compreendida de maneira mais clara e mais pura quando é reconhecida em casos muito diversificados e entre coisas inteiramente heterogêneas. Assim, enquanto só conheço uma relação num único caso particular, tenho dela apenas um conhecimento individual, portanto apenas intuitivo. Mas, logo que identifico a mesma relação em pelo menos dois casos distintos, tenho um conceito de toda a sua espécie, portanto um conhecimento mais profundo e mais perfeito.
Justamente porque as comparações são uma alavanca tão poderosa para o conhecimento, a formulação de comparações surpreendentes e ao mesmo tempo apropriadas dá mostras de um entendimento profundo. Em conformidade com isso, Aristóteles diz:
(at longe maximum est, metaphoricum esse: solum enim hoc neque ab alio licet assumere, et boni ingenii signum est. Bene enim transferre est simile interi).
[O mais importante é encontrar metáforas, pois é a única coisa que não se pode aprender de outros e é um sinal de uma natureza engenhosa. Para fazer metáforas é necessário reconhecer a igualdade.]
Poética, XXII.
E também:
(etiam in philosophia simile, vel in longe distantibus, cernere perspicacis est.)
[Na filosofia encontrar semelhança mesmo entre coisas distintas é sinal de perspicácia.]
Retórica, III, 11.
20.
Como eram grandes e dignos de admiração aqueles espíritos primordiais do gênero humano que, onde quer que tenha sido, inventaram a mais digna de admiração das obras de arte, a gramática das línguas, as partes orationis [partes da oração], distinguindo e fixando o substantivo, o adjetivo e os pronomes, os gêneros e os casos, os verbos, os tempos e modos, separando com cuidado e sutileza o pretérito imperfeito, o perfeito e o mais-que-perfeito, entre os quais havia ainda, em grego, o aoristo[85]. E fizeram todas essas distinções com a nobre intenção de obter um órgão material apropriado e suficiente para a expressão plena e digna do pensamento humano, que pudesse captar e reproduzir corretamente toda nuance e toda modulação desse pensamento. Em compensação, observemos nossos atuais melhoradores daquela obra de arte, esses toscos, desajeitados, obtusos aprendizes alemães da corporação de escrevinhadores. Para economizar espaço, eles querem deixar de lado aquelas distinções cuidadosas, como se fossem algo supérfluo, por isso fundem todo o pretérito no imperfeito e falam usando apenas esse tempo verbal. A seus olhos, os inventores das formas gramaticais elogiados há pouco devem ter sido verdadeiros palermas, incapazes de perceber não só que é possível ter para tudo a mesma medida, como também que o imperfeito podia ser usado como pretérito único e universal. E os gregos, para os quais três pretéritos não eram suficientes, já que acrescentaram ainda dois aoristos, como devem ser considerados tolos por tais homens![86] Além do mais, eles têm pressa em cortar fora todos os prefixos, como se fossem excrescências inúteis, e quem puder que entenda o resultado! Partículas lógicas e essenciais como nur [só], wenn [se], zwar [de fato], und [e], que teriam esclarecido toda uma frase, são suprimidas por eles para economizar espaço, e o leitor permanece no escuro. No entanto, esse procedimento é bem recebido por um ou outro escritor, por algum velhaco que tem a intenção de escrever de maneira obscura e difícil de entender, julgando com isso infundir respeito no leitor. Em suma, eles se permitem atrevidamente todo tipo de mutilação gramatical e lexical da língua, para lucrar sílabas. São infinitos os truques mesquinhos de que se servem para, aqui e ali, eliminar uma sílaba, na tola ilusão de conseguir assim concisão e brevidade da expressão. Concisão e brevidade da expressão, meus caros cabeças-tontas, dependem de coisas totalmente diferentes da supressão de sílabas, e exigem qualidades que vocês não compreendem e não possuem. Mas, em geral, além de não sofrerem censuras, tais pessoas são imitadas por um batalhão de asnos ainda maiores do que elas.
O fato de essa suposta melhora da língua ter uma aceitação tão grande, tão geral e quase sem exceções pode ser explicado, uma vez que suprimir sílabas cujo significado não se entende exige um grau de inteligência que mesmo a pessoa mais estúpida possui.
A língua é uma obra de arte e deve ser considerada como tal, portanto objetivamente; assim, tudo o que é expresso nela deve seguir regras e corresponder à sua intenção; em cada frase, é preciso que se comprove o que deve ser dito como algo que objetivamente se encontra ali. Desse modo, não se deve considerar a língua apenas subjetivamente e, assim, expressar-se de modo precário, na esperança de que o outro venha a adivinhar o que se quer dizer, como fazem aqueles que não designam o caso, expressam todos os pretéritos por meio do imperfeito, deixam de lado os prefixos etc. Que abismo separa os homens que um dia inventaram e distinguiram os tempos e modos verbais e os casos de substantivos e adjetivos daqueles miseráveis que gostariam de jogar tudo isso janela afora, de modo que lhes restasse, ao se expressar com tanta imprecisão, um jargão de hotentotes feito sob medida para eles. Trata-se dos sórdidos desperdiçadores de tinta do período atual de bancarrota da literatura.
A deterioração da língua, a partir dos escritores de jornal, encontra seguidores obedientes e admiradores entre os eruditos, em revistas literárias e livros, quando estes deveriam, no mínimo, tentar indicar outro caminho por meio de seu exemplo contrário, portanto, por meio da manutenção do alemão correto e autêntico. Mas ninguém toma essa atitude, não vejo nenhum deles se opor, não há nenhum que venha em auxílio da língua maltratada pela mais baixa plebe literária. Não, eles vão atrás dos outros como ovelhas, e vão atrás dos asnos. A razão disso é que nenhuma nação possui tão pouca inclinação quanto a alemã para julgar por si mesma (to judge for themselves) e, com isso, para condenar, mesmo que a vida e a literatura dêem pretexto para isso a todo momento. (Em vez disso, os autores alemães pretendem mostrar, com a imitação apressada daquela deterioração descerebrada da língua, que estão “à altura de seu tempo”, que não ficaram para trás, mas são escritores que seguem a última moda.) São pessoas sem fel, como os pombos[87], mas quem não tem fel não tem entendimento, pois ele gera uma certa acrimônia que, tanto na vida quanto na arte e na literatura, suscita necessariamente e a cada dia a censura e o escárnio íntimos a respeito de milhares de coisas, impedindo-nos justamente de imitá-las.
[37]Trata-se do poeta e romancista alemão Jean Paul, pseudônimo de Johann Paul Richter (1763-1825), e da Dramaturgia de Hamburgo, obra do crítico e dramaturgo alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781). (N.T.)
[38]O que caracteriza os grandes escritores (no nível mais elevado), assim como os artistas, e que é comum a todos eles é o fato de que levam a sério seu assunto, enquanto os restantes não levam nada mais a sério além de suas vantagens e ganhos. Quando alguém fica famoso em virtude de um livro escrito por vocação e por um impulso íntimo, mas em seguida se torna prolixo, então vendeu sua glória pelo vil dinheiro. Assim que se escreve para ganhar algo, o resultado é ruim. Só neste século passou a haver escritores por profissão. Até então havia apenas escritores por vocação. (N.A.)
[39]Refere-se à estátua romana que representa o jovem Antínoo, favorito do imperador Adriano. (N.T.)
[40]Marie François Xavier Bichat (1771-1802), anatomista francês que foi pioneiro no estudo dos órgãos. (N.T.)
[41]Para assegurar a atenção e o interesse permanentes do público, é preciso escrever algo que tenha valor permanente, ou então escrever sempre algo novo, que justamente por isso acabará sendo cada vez pior. Se eu quiser apenas me manter à tona, / Preciso escrever um livro a cada feira. [Will ich nur halbweg oben bleiben,/ So muss ich jede Messe schreiben.] Tieck [Tieck (1773-1853), poeta alemão ligado ao movimento romântico]. (N.A.)
[42]Trata-se de Hans Christian Oersted (1777-1851), físico e filósofo dinamarquês. (N.T.)
[43]Refere-se a Ésquilo, Sófocles e Eurípides. (N.T.)
[44]Lenore é a personagem-título de um poema de Gottfried August Bürger (1747-1794), escritor alemão. (N.T.)
[45]No original: Ihr müsst mich nicht durch Widerspruch verwirren! / Sobald man spricht, beginnt man schon zu irren. Trata-se de uma citação do poema de Goethe Spruch, Widerspruch [Dito, contradição]. (N.T.)
[46]A citação é do Orlando Furioso, X, 84, do poeta italiano Ludovico Ariosto (1474-1533). (N.T.)
[47]Citação de Horácio, ou Quintus Horatius Flaccus (65-8 a. C.), poeta e filósofo latino. Sátiras, II, 5, 72. (N.T.)
[48]A nova Heloísa é um romance do filósofo e escritor francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). (N. do T)
[49]Trata-se de Friedrich Wilhelm Riemer (1774-1845), filólogo e bibliotecário alemão que foi secretário de Goethe e preceptor de seu filho. (N.T.)
[50]Schopenhauer se refere à passagem da Odisséia de Homero (Canto IX, 366) em que Odisseu, para enganar o Ciclope e evitar ser devorado, diz chamar-se “Ninguém”. (N.T.)
[51]Um crítico anônimo deve ser visto, de antemão, como um canalha que tem a intenção de nos enganar. Sentindo isso, os críticos assinam seus nomes em todas as revistas literárias honestas. – Ele quer enganar o público e difamar os escritores: a primeira coisa, normalmente, em benefício de um comerciante de livros, a segunda para aplacar sua inveja. – Em suma, é preciso acabar com a vigarice literária das críticas anônimas. (N.A.)
[52]Quanto aos pecados cometidos por um crítico anônimo, a pessoa que publica e redige uma coisa assim deve ser diretamente responsabilizada como se ela mesma tivesse escrito a resenha; da mesma maneira que tornamos o mestre artesão responsável pelo trabalho malfeito de seus aprendizes. Além disso, deve-se lidar com aquele sujeito da maneira que seu ofício merece, sem a menor cerimônia. – O anonimato é a canalhice literária contra a qual se deve proclamar: “Se você não quer, patife, assumir o que diz contra outras pessoas, cale sua boca difamadora!”. – Uma resenha anônima não tem mais autoridade do que uma carta anônima, e por isso deveria ser recebida com a mesma desconfiança. Ou será que o nome da pessoa que se presta a liderar uma autêntica societé anonyme [sociedade anônima] deve ser tomado como garantia da veracidade de seus associados? (N.A.)
[53]Trata-se dos filósofos René Descartes (1596-1650), Baruch Spinoza (1632-1677) e Thomas Hobbes (1598-1679). (N.T.)
[54]Till Eulenspiegel é um personagem burlesco da literatura popular alemã. (N.T.)
[55]Ver nota na pág. 32.
[56]Citação de Horácio, Arte poética, 139. (N.T.)
[57]Refere-se a Friedrich August Christian Wilhelm Wolf (1759-1824), filólogo alemão, considerado um dos fundadores da filologia clássica. (N.T.)
[58]Horácio, Arte poética, 309. (N.T.)
[59]Epître IX à M. le Marquis de Segnelay, de Nicolas Boileau (1636-1711), escritor francês, considerado um dos principais teóricos do Classicismo do século 17. (N.T.)
[60]Com as expressões acertadas, os modos de dizer originais e os usos felizes da linguagem acontece a mesma coisa que com as roupas: quando são novas, brilham e fazem bom efeito, mas logo todos passam a usá-las e, por isso, em pouco tempo parecem usadas e sem brilho, de modo que não fazem mais efeito algum. (N.A.)
[61]A escrita das mentes triviais é aplicada como um padrão, ou seja, consiste em locuções e frases feitas que estão na moda naquele momento e são usadas sem que os escritores parem para pensar. As mentes superiores criam cada frase especialmente para o caso específico e presente. (N.A.)
[62]Trata-se de um comentário de Lichtenberg referente ao ator inglês David Garrick (1716-1779). Cartas da Inglaterra (primeira carta a Heinrich Christian Boie). (N.T.)
[63]Citação da peça Henrique IV (parte 2, ato 5, cena 3), de William Shakespeare (1564-1616). (N.T.)
[64]Marco Fabio Quintiliano, (c.35-c.95), retórico latino. (N.T.)
[65]Citação de Discours sur l’homme, VI, de Voltaire, pseudônimo de François Marie Arouet (1694-1778), escritor e filósofo francês. (N.T.)
[66]Hesíodo, Os trabalhos e os dias, v. 40. (N.T.)
[67]Nova citação do Discours sur l’homme, VI, de Voltaire. (N.T.)
[68]Livro de Jó, 14, 1. (N.T.)
[69]Referência ao ensaio Poesia ingênua e sentimental, no qual o poeta e dramaturgo Friedrich Schiller (1759-1805) considera a poesia de Goethe um exemplo do tipo ingênuo. Schopenhauer define sua posição quanto à tradicional comparação entre os dois grandes nomes da literatura alemã, Goethe e Schiller. (N.T.)
[70]O que Schopenhauer exemplifica é o uso do verbo auxiliar (“würde”) no Konjuntiv II do alemão, tempo verbal que é traduzido em português pelo passado do subjuntivo e pelo futuro do pretérito. Não é possível reproduzir seu exemplo com precisão, porque a construção gramatical é diferente nas duas línguas. Pelo mesmo motivo, a explicação dada na frase seguinte só faz sentido para a gramática alemã. (N.T.)
[71]Benvenuto Cellini (1500-1571), artista italiano. (N.T.)
[72]Luc de Clapiers, Marquis de Vauvenargues (1715-1747), escritor francês. (N.T.)
[73]Esse rigor dos ingleses, franceses, italianos não é de modo algum pedantismo, mas prudência, para que não seja possível a qualquer garoto que goste de desperdiçar tinta com rabiscos profanar o santuário nacional da língua, como ocorre na Alemanha. (N.A.)
[74]O pior é que, contra tais mutilações da língua, que na maioria das vezes se originam do círculo mais baixo da literatura, não há nenhuma oposição na Alemanha. Normalmente nascidas nos jornais políticos, as palavras estropiadas ou mal-usadas são transferidas, sem obstáculos e com honras, para os jornais eruditos provenientes das universidades e academias, e mesmo para todos os livros. Ninguém reage, ninguém sente a necessidade de proteger a língua; em vez disso, todos competem para participar da tolice. O autêntico erudito, no sentido estrito, deveria reconhecer como sua tarefa, dedicando a isso sua honra, opor resistência a todos os erros e enganos, em cada gênero, tornando-se o dique onde (cont...)(...) vai bater a enxurrada da burrice de todo tipo. Ele não deveria nunca participar do ofuscamento do vulgo, nunca acompanhar suas bobagens, mas sempre andar à luz do conhecimento científico e iluminar os outros com a verdade e a profundidade. É nisso que consiste a virtude do erudito. Nossos professores, pelo contrário, consideram que ela consiste em títulos de conselheiro da corte e distinções honoríficas, cuja aceitação os rebaixa ao mesmo nível de funcionários dos correios e de outros servidores incultos do estado. Todo erudito deveria se envergonhar de títulos assim e, por outro lado, conservar um certo orgulho de seu nível teórico, isto é, puramente intelectual, em relação a todos os assuntos práticos que correspondem a determinadas necessidades. (N.A.)
[75]No original: “Nach seinem Sinne leben ist gemein:/Der Edle strebt nach Ordnung und Gesetz.” (N.T.)
[76]Em torno de 350 a. C., Heróstrato incendiou o templo de Ártemis em Éfeso, considerado uma das sete maravilhas do mundo, para imortalizar seu nome. (N.T.)
[77]Führen [conduzir]: mitführen [levar consigo], ausführen [terminar], verführen [seduzir], einführen [introduzir], aufführen [apresentar], abführen [levar embora], durchführen [realizar]. (N.A.)
[78]O autor dera exemplos do uso equivocado da palavra nur [só], cujo significado a princípio era restritivo (“não mais que”), mas que passou a ser usada para designar uma exclusividade: “nada além de”. (N.T.)
[79]Há quarenta anos, a varíola levava embora dois quintos das crianças, ou seja, todas as que eram fracas, e deixava apenas as mais fortes, que tinham passado por essa prova de fogo. A vacina protegeu também aquelas. Vejam agora os anões de longas barbas que passam por aí entre as nossas pernas e cujos pais permaneceram em vida unicamente graças à vacina. (N.A.)
[80]A expressão latina é Di meliora dent: que os deuses concedam melhor sorte. (N.T.)
[81]Professores ginasiais deixam de lado, nos programas de ensino do latim, três quartos das vírgulas, o que torna ainda mais difícil de entender seu latim acidentado. Percebe-se que tais pessoas faceiras se comprazem com isso. Um verdadeiro modelo de pontuação desleixada é o de Plutarco de Sintesis: os sinais de pontuação são quase todos eliminados, como se ele tivesse a intenção de dificultar o entendimento do leitor. (N.A.)
[82]Uma vez que pus lado a lado essas três línguas, com todo direito chamo a atenção para o cume daquela pretensiosa vaidade nacional francesa que, há séculos, fornece matéria de riso para toda a Europa: aqui está seu non plus ultra [não mais além]. Em 1857 foi publicado, em sua quinta edição, um livro destinado ao uso na universidade: Notions élementaires de grammaire comparé, pour servir à l’étude des 3 langues classiques, rédigé sur l’invitation du ministre de l’instrution publique, p. Egger, membre de l’institut etc. etc. [Noções elementares de gramática comparada para servir ao estudo das 3 línguas clássicas, redigido a convite do ministro de instrução pública por Egger, membro do instituto...] E, de fato (credite posteri! [Acreditai, ó pósteros!), a terceira língua clássica mencionada é o francês. Trata-se, portanto, do mais miserável jargão românico, da pior mutilação das palavras latinas, essa língua que deveria encarar com respeito temeroso sua irmã mais velha e muito mais nobre, a língua italiana, essa língua que tem como características exclusivas tanto os repulsivos sons nasais en, on, un, quanto o soluçante e indizivelmente repulsivo acento na última sílaba, enquanto todas as outras línguas acentuam a penúltima, obtendo um efeito suave e tranqüilizador, essa língua em que não há métrica, e apenas a rima, na maioria das vezes em é ou on, constitui a forma da poesia. Essa língua miserável é apresentada aqui como langue classique ao lado do grego e do latim! Convido a Europa inteira a uma vaia geral, para humilhar esses fanfarrões desavergonhados. (N.A.)
[83]Seitens [da parte de] em lugar de Seiten não é alemão. – Em vez de zeither [desde então], eles escrevem absurdamente seither e usam essa forma cada vez mais em lugar de seitdem [desde que]. Será que eu não deveria chamá-los de asnos? – Quanto à eufonia e à cacofonia, nossos melhoradores da língua não têm a menor noção dessas coisas. O que eles procuram fazer é, pela eliminação de vogais, amontoar as consoantes de modo cada vez mais denso, produzindo assim palavras cuja pronúncia constitui um exercício repugnante de ver em suas bocas animalescas. Sundzoll [Sundzoll: nome de um tributo alfandegário que os navios deviam pagar ao governo quando passavam pelo mar Báltico. (N.T.)] Também não conhecem, por não saberem latim, a diferença entre liquids [Liquids: consoantes líquidas são as que podem ser combinadas com outras, como o “r” e o “l”. (N.T.)] e outras consoantes. (N.A.)
[84]Demóstenes (384-322 a.C.), orador e político ateniense. Marco Túlio Cícero (106- 43 a. C.), orador e pensador político romano. (N.T.)
[85]Tempo verbal específico da língua grega, usado para ações do passado que não têm uma duração determinada. (N.T.)
[86]Pena que nossos geniais melhoradores da língua não viveram entre os gregos antigos: eles teriam destroçado também a gramática grega, fazendo dela uma gramática de hotentotes. (N.A.)
[87]Dupla referência, ao Evangelho de Mateus, 10, 16 (“Eu vos envio como ovelhas no meio dos lobos; sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas”); e à fala de Hamlet no final da cena 2 do segundo ato da peça de Shakespeare (“tenho sangue de pombo, falta-me o fel/ que a opressão torna amargo...”). (N.T.)