A HISTÓRIA SEM FIM
Uma grande história vive para sempre. Isso não é um clichê ou tautologia. Uma grande história continua afetando o público muito depois de ser contada pela primeira vez. Ela literalmente continua se contando. Como é possível uma grande história ser uma coisa viva que nunca morre?
Não basta criar uma história e esperar que ela seja tão boa que se torne inesquecível. Uma história sem fim só surge se você usar técnicas especiais embutidas na estrutura. Antes de considerarmos algumas dessas técnicas, vamos examinar o contrário de uma história sem fim: uma história cuja vida e poder são abreviados porque ela tem um final falso. Há três finais falsos principais: prematuro, arbitrário e fechado.
O final prematuro pode ter muitas causas. Uma é uma autorrevelação antecipada. Uma vez que seu herói atinge sua grande conclusão sobre si, seu desenvolvimento cessa e tudo o mais é anticlimático. Uma segunda causa é um desejo que o herói realiza rápido demais. Se você criar um novo desejo, criou uma nova história. Uma terceira causa de um final prematuro é qualquer ação que o herói realize e que não seja crível, uma vez que não é orgânica àquela pessoa específica. Quando você força os personagens, em especial o herói, a agir de um jeito implausível, imediatamente expulsa o público da história, porque o "mecanismo" da trama sobe para a superfície. O público percebe que o personagem está agindo de certa forma porque você precisa que ele aja dessa forma (mecânica), não porque ele precisa (orgânica).
Um final arbitrário ocorre quando a história simplesmente acaba. Isso é quase sempre o resultado de uma trama inorgânica. A trama não está acompanhando o desenvolvimento de uma entidade, seja ela um protagonista único, seja uma unidade social. Se nada está se desenvolvendo, o público não tem a sensação de que deu certo ou se desenrolou. Um exemplo clássico é o fim de As aventuras de Huckleberry Finn. Twain acompanha o desenvolvimento de Huckleberry, mas a trama de jornada que ele usou literalmente deixa o personagem sem saída. Assim, o autor é obrigado a recorrer a coincidências e deus ex machina para terminar a história, decepcionando aqueles leitores que acham o resto dela tão genial.
O final falso mais comum é o final fechado. O herói realiza sua meta, ganha uma simples autorrevelação e existe em um novo equilíbrio em que tudo é calmo. Esses três elementos estruturais dão ao público a impressão de que a história está completa e o sistema se fechou. Mas isso não é verdade. O desejo nunca cessa. O equilíbrio é temporário. A autorrevelação nunca é simples e não pode garantir que o herói tenha uma vida satisfatória daquele dia em diante. Como uma grande história é sempre uma coisa viva, seu fim não é mais definitivo e certo do que qualquer outra parte dela.
Como criar essa sensação de uma história viva, pulsante, sempre em movimento, mesmo quando a última palavra foi lida ou a última imagem foi vista? É preciso voltar aonde começamos: a característica essencial de uma história como uma estrutura no tempo. Ela é uma unidade orgânica que se desenvolve e deve continuar se desenvolvendo mesmo depois que o público deixa de acompanhá-la. Como uma história é sempre um todo, e o fim orgânico é encontrado no começo, uma grande história sempre começa sinalizando ao público que ele deve voltar ao começo e experimentá-la de novo. A história é um ciclo infinito – uma Fita de Möbius – que é sempre diferente porque o público está sempre repensando nela à vista do que acabou de acontecer.
O jeito mais simples de criar uma história sem fim é por meio da trama, terminando a história com uma revelação. Com essa técnica, você cria um equilíbrio aparente e logo o estilhaça com mais uma surpresa. Essa reversão faz o público repensar todos os personagens e ações que o levaram até aquele ponto. Como um detetive que observa as mesmas evidências, mas vê uma realidade muito diferente, o público corre de volta mentalmente ao começo da história e redistribui as cartas em uma combinação nova.
Vemos essa técnica executada de forma brilhante em O sexto sentido quando o público descobre que o personagem de Bruce Willis esteve morto desde o começo do filme. A técnica é ainda mais deslumbrante em Os suspeitos, quando o narrador fracote sai da delegacia e, diante dos nossos olhos, se transforma no temível oponente que ele próprio inventou, Keyser Soze.
A revelação de reversão, embora chocante, é o jeito mais limitado de criar a história sem fim. Ela lhe dá um ciclo a mais com o público. A trama não era o que eles pensaram a princípio, mas agora sabem. Não haverá mais surpresas. Usando essa técnica, você não ganha uma história sem fim, mas uma história contada duas vezes.
Alguns escritores argumentariam que é impossível criar uma história sem fim se a trama for poderosa demais, dominante demais sobre os outros elementos da história. Mesmo uma trama que termina com uma grande reversão passa a sensação de que todas as portas da casa foram fechadas. A chave se vira, o quebra-cabeça está resolvido, o caso está fechado.
Para contar uma história que pareça sempre diferente, você não tem que matar sua trama, mas precisa usar cada sistema do corpo da história. Se tecer uma tapeçaria complexa de personagens, trama, temas, símbolos, cenas e diálogos, não vai limitar quantas vezes o público conta a história. Eles terão que repensar tantos elementos que as permutações se tornarão infinitas e a história nunca morrerá. Aqui vão alguns elementos que você pode incluir para criar uma tapeçaria infinita.
- O herói não atinge seu desejo e os outros personagens arranjam um novo desejo no final da história. Isso evita que a história se feche e mostra ao público que o desejo, mesmo quando tolo ou impossível, nunca morre ("Quero, logo sou").
- Mude o caráter de um oponente ou personagem secundário de forma surpreendente. Essa técnica pode levar o público a repensar na história com aquela pessoa como o verdadeiro herói.
- Insira um número surpreendente de detalhes no mundo ficcional que, ao serem explorados futuramente, passem para o primeiro plano.
- Acrescente nuances – nos personagens, argumento moral, símbolos, trama e mundo ficcional – que fiquem muito mais interessantes depois que o público viu as surpresas da trama e a mudança de caráter do herói.
- Crie um relacionamento entre o narrador e os outros personagens que seja fundamentalmente diferente depois que a pessoa viu a trama pela primeira vez. Usar um narrador não confiável é um dos jeitos – mas não o único – de fazer isso.
- Torne o argumento moral ambíguo ou não mostre o que o herói decide fazer quando confrontado por sua escolha moral final. Assim que ultrapassar o simples argumento moral de bem versus mal, obrigará o público a reavaliar o herói, os oponentes e todos os personagens secundários para descobrir qual é a ação correta a ser executada. Ao segurar a escolha final, você forçará o público a questionar as ações do herói mais uma vez e a explorar essa escolha na própria vida.
O problema central que enfrentei neste livro foi como apresentar uma poética prática – o ofício da narrativa que existe em todas as formas ficcionais. Isso envolve mostrar como se cria uma história viva e complexa que cresce na mente do público e nunca morre. Também significa superar o que parece ser uma contradição impossível: contar uma história com um apelo universal que seja totalmente original.
Minha solução foi mostrar o funcionamento secreto do mundo ficcional. A intenção era que você conseguisse descobrir o código dramático – os jeitos como os seres humanos crescem e mudam ao longo da vida – em todo o seu esplendor e complexidade. Muitas das técnicas para expressar esse código de um jeito potente e original estão neste livro. Se for sábio, você nunca vai parar de estudá-las e praticá-las.
Mas dominar a técnica não basta. Vou concluir com uma última revelação: você é a história sem fim. Se quiser contar uma grande história, deve, como o herói, enfrentar os sete passos – e deve enfrentá-los toda vez que escrever uma nova história. Tentei fornecer o plano: as estratégias, táticas e técnicas que o ajudarão a atingir sua meta, cumprir suas necessidades e ganhar um suprimento infinito de autorrevelações. Tornar-se um mestre na contação de histórias é uma tarefa difícil, mas, se você aprender o ofício e tornar sua própria vida uma grande história, ficará maravilhado com os contos fabulosos que vai contar.
Se for um bom leitor – e não tenho dúvidas de que é –, você não é a mesma pessoa que era quando começou este livro. Agora que o leu uma vez, deixe-me sugerir... Bem, você sabe o que fazer.