OS SETE PASSOS-CHAVE DA ESTRUTURA DA HISTÓRIA
O poderoso chefão é um romance e um filme longo e complexo. Tootsie é um redemoinho altamente coreografado de amor não correspondido, identidade trocada e enganos cômicos. Chinatown traz um desdobramento complexo de surpresas e revelações. Essas histórias tão diferentes são todas bem-sucedidas graças à cadeia orgânica inquebrável dos sete passos-chave de estrutura que existe embaixo da superfície de cada uma delas.
Quando tratamos da estrutura de uma história, estamos falando sobre como ela se desenvolve ao longo do tempo. Por exemplo, todas as coisas vivas parecem crescer em um fluxo contínuo, mas, se olharmos de perto, conseguiremos enxergar certos passos, ou estágios, nesse crescimento. O mesmo vale para as histórias.
Do começo ao fim, uma história tem um crescimento de, no mínimo, sete passos.
- Fraqueza e necessidade.
- Desejo.
- Oponente.
- Plano.
- Batalha.
- Autorrevelação.
- Novo equilíbrio.
Os sete passos não são impostos arbitrariamente por questões externas, do jeito que ocorre em uma estrutura mecânica, como a dos três atos. Eles existem na história. Esses passos são o núcleo – o DNA – de sua história e os alicerces de seu sucesso como escritor, pois são baseados na ação humana. São os passos pelos quais toda pessoa deve passar para resolver um problema de vida. E como são orgânicos – e estão implícitos em sua premissa –, devem ser conectados de modo que a história tenha o maior impacto possível no público.
Vamos ver o que cada um desses passos significa, como estão conectados uns aos outros debaixo da superfície e como, de fato, funcionam nas histórias.
1. FRAQUEZA E NECESSIDADE
Desde o começo da história, seu herói tem uma ou mais fraquezas grandes que o limitam. Falta algo dentro dele, algo tão profundo que está arruinando sua vida.
A necessidade é o que o herói precisa satisfazer dentro de si para ter uma vida melhor. Geralmente envolve superar suas fraquezas e mudar, ou crescer, de alguma forma.
- Tootsie
fraquezas: Michael é arrogante, egoísta e mentiroso.
necessidade: Michael precisa superar sua arrogância em relação às mulheres e parar de mentir e usá-las para conseguir o que quer.
- O silêncio dos inocentes
fraquezas: Clarice é inexperiente e sofre com lembranças traumáticas de infância, uma mulher em um mundo dominado por homens.
necessidade: Clarice deve superar os fantasmas do passado e conquistar o respeito profissional em um mundo dominado por homens.
Não consigo nem enfatizar direito quanto a necessidade é importante para o seu sucesso. É a fonte da história e a base de todos os outros passos, então tenha em mente dois pontos fundamentais ao criar a necessidade do seu herói:
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PONTO-CHAVE: Seu herói não pode ter consciência da necessidade que tem no início da história.
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Se ele já estiver ciente do que precisa, a história acabou. O herói deve descobrir sua necessidade no momento da autorrevelação, perto do final, só depois de ter passado por uma boa dose de dor (em um drama) ou esforço (em uma comédia).
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PONTO-CHAVE: Dê ao seu herói uma necessidade moral e também uma psicológica.
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Em histórias medianas, o herói só tem uma necessidade psicológica. Isso exige que ele supere um defeito sério que não fere ninguém exceto ele próprio.
Em histórias melhores, o herói tem uma necessidade moral além de uma necessidade psicológica. Ele deve superar um defeito moral e aprender a agir corretamente em relação às outras pessoas. No começo da história, um personagem com uma necessidade moral está sempre ferindo os outros de alguma forma (devido à sua fraqueza moral).
- O veredicto
A necessidade psicológica de Frank é derrotar seu alcoolismo e recuperar o autorrespeito. Sua necessidade moral é parar de usar outras pessoas por dinheiro e aprender a agir com justiça. Sabemos que Frank tem uma necessidade moral quando o vemos mentir para entrar no funeral de desconhecidos e conseguir um caso. Ele não se importa em perturbar a família, só quer lucrar à custa dela.
Um motivo pelo qual é tão importante dar ao herói uma necessidade moral, além de uma psicológica, é que isso aumenta o escopo do personagem; suas ações afetam outras pessoas. Isso toca o público de um jeito mais potente.
O outro motivo é que isso evita que o herói seja perfeito ou uma vítima – ambos são o beijo da morte em uma história. Um personagem perfeito não parece real ou crível. Quando um personagem não tem defeitos morais, o oponente, que os tem, geralmente domina o herói, e a história se torna reativa e previsível.
Também presente desde a primeira página de sua história, mas muito menos importante que a fraqueza e a necessidade, é o problema. Todas as boas histórias começam chutando a porta: o herói já está em apuros. O problema é a crise na qual o herói se encontra desde a primeira página. Ele está muito ciente da crise, mas não sabe como resolvê-la.
O problema não é um dos sete passos, mas um aspecto da fraqueza e da necessidade, e é valioso. Crises definem um personagem muito rapidamente e deveriam ser uma manifestação exterior da fraqueza do herói. Elas enfatizam essa fraqueza para o público e dão à história um começo veloz.
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PONTO-CHAVE: Faça com que o problema seja simples e específico.
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- Crepúsculo dos deuses
fraqueza: Joe Gillis tem uma predileção por dinheiro e pelas coisas boas da vida. Ele está disposto a sacrificar as próprias integridades artística e moral pelo conforto pessoal.
problema: Joe está falido. Os funcionários de uma financeira vão ao apartamento dele para tomar seu carro e ele foge.
- Tootsie
fraquezas: Michael é arrogante, egoísta e mentiroso.
problema: Michael é um excelente ator, mas é tão autoritário que ninguém o contrata, portanto está desesperado.
A técnica dos sete passos: criando a necessidade moral
Muitas vezes, os escritores pensam que deram ao herói uma necessidade moral quando, na verdade, ela é só psicológica. Lembre-se da regra básica: para ter uma necessidade moral, o personagem deve estar ferindo pelo menos mais uma pessoa no começo da história.
Dois modos bons de criar a necessidade moral certa para seu herói são conectá-la à necessidade psicológica e transformar uma força em fraqueza.
Em boas histórias, a necessidade moral costuma emergir da psicológica. O personagem tem uma fraqueza psicológica que o leva a descontar nos outros.
Para dar ao personagem uma necessidade moral e uma necessidade psicológica certeiras:
- Comece pela fraqueza psicológica.
- Pense em qual tipo de ação imoral pode resultar naturalmente dela.
- Identifique a fraqueza moral arraigada no personagem e a necessidade que são a fonte dessa ação.
Outra técnica para criar uma boa necessidade moral é levar uma qualidade tão longe que ela se torne uma fraqueza. A técnica funciona da seguinte forma:
- Identifique uma virtude em seu personagem e depois torne-o tão entusiasmado por ela que se tornará algo opressivo.
- Pense em um princípio em que o personagem acredita e encontre a versão negativa dele.
2. DESEJO
Quando tiver decidido a fraqueza e a necessidade, você deve atribuir ao herói seu desejo. O desejo é o que seu herói quer na história, sua meta particular. Uma história não gera interesse no público até que o desejo seja especificado. Pense nele como o trilho em que o público "viaja". Todos embarcam no "trem" com o herói, e todos seguem juntos atrás da meta. O desejo é a principal força que impele a história e a linha da qual todo o resto depende.
O desejo está intimamente conectado à necessidade. Na maioria das histórias, quando o herói cumpre sua meta, também satisfaz sua necessidade. Vamos examinar um exemplo simples da natureza: um leão está faminto e precisa de comida (uma necessidade física). Em uma manada de antílopes, avista um indivíduo mais jovem que ele quer caçar (desejo). Se conseguir capturar o pequeno antílope, não estará mais faminto. Fim da história.
Um dos maiores erros que um escritor pode cometer é confundir necessidade e desejo ou pensar que são um único passo. Na verdade, são dois passos diferentes que formam o começo de sua história, então é necessário entender com clareza a função de cada um.
A necessidade está relacionada a superar uma fraqueza interior do personagem. Um herói com uma necessidade está sempre paralisado, de alguma forma, no começo da história, devido a essa fraqueza. O desejo é uma meta externa ao personagem. Uma vez que o personagem determina seu desejo, move-se em uma direção específica e age para alcançá-lo.
A necessidade e o desejo também têm funções diferentes em relação ao público. A necessidade permite que o público veja como o herói deve mudar para ter uma vida melhor. É a chave para toda a história, mas fica escondida debaixo da superfície. O desejo dá ao público algo para se desejar com o herói, uma direção na qual todos podem se mover por várias reviravoltas – e até digressões – da história. O desejo está na superfície e o público pensa que a história trata dele. Podemos ilustrar isso com o seguinte esquema:

Vamos examinar alguns exemplos para entender a diferença crucial entre necessidade e desejo.
- O resgate do soldado Ryan
necessidade: o herói John Miller deve cumprir seu dever apesar do medo (psicológica e moral).
desejo: ele quer encontrar o soldado Ryan e trazê-lo de volta vivo (note que a linha do desejo é encontrada logo no título).
- Ou tudo ou nada
necessidade: cada homem no grupo precisa recuperar o autorrespeito (psicológica).
desejo: eles querem ganhar muito dinheiro apresentando-se nus diante de uma sala cheia de mulheres.
- O veredicto
necessidade: o herói deve recuperar o autorrespeito (psicológica) e aprender a agir com justiça em relação aos outros (moral).
desejo: como em todos os dramas de tribunal, ele quer vencer o caso.
- Chinatown
necessidade: Jack deve superar sua arrogância e aprender a confiar nos outros (psicológica). Também tem que parar de usar pessoas por dinheiro e entregar um assassino à justiça porque é a coisa certa a se fazer (moral).
desejo: como em todas as histórias policiais, o desejo de Jake é solucionar um mistério – nesse caso, descobrir quem matou Hollis e por quê.
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PONTO-CHAVE: O verdadeiro desejo de seu herói é o que ele quer nessa história, não o que quer na vida.
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Por exemplo, o herói em O resgate do soldado Ryan quer parar de lutar, voltar para casa e ficar com a família. Mas não é isso que impele essa história em particular. A meta dele nessa história, que exige que ele realize uma série de ações muito específicas, é resgatar o soldado Ryan.
Técnica de sete passos: começando com a linha do desejo
Às vezes, escritores que sabem que a história não arrebata o público até que o desejo do herói apareça ficam espertinhos demais. Pensam: "Vou pular a fraqueza e a necessidade e começar com o desejo" – e assim acabam fazendo um pacto com o diabo.
Abrir com o desejo de fato dá à história um começo veloz – mas também mata a recompensa, o final da história. A fraqueza e a necessidade são a base de qualquer história. São elas que tornam possível que seu herói mude no final. São elas que tornam a história pessoal e significativa. E são elas que fazem o público se importar com ela.
Não pule essa etapa inicial. Nunca.
3. OPONENTE
Com frequência, escritores cometem o erro de pensar no oponente, também conhecido como antagonista, como o personagem que parece mau, soa mau ou faz coisas más. Esse modo de encarar o oponente os impede de escrever uma boa história.
Em vez disso, você deve ver o oponente do ponto de vista estrutural, em termos de sua função na história. Um verdadeiro oponente não quer só impedir o herói de realizar seu desejo, mas também compete com o herói pela mesma meta.
Note como esse modo de definir o oponente cria uma conexão orgânica entre esse passo e o desejo de seu herói. É só competindo pela mesma meta que o herói e o oponente são forçados a entrar em conflito direto, o que fazem repetidas vezes ao longo da história. Se você der a seu herói e ao oponente duas metas separadas, cada um pode conseguir o que quer sem entrar em conflito direto – e então você não tem uma história.
Se olhar para uma série de boas histórias, à primeira vista pode parecer que o herói e o oponente não estão competindo pela mesma meta. Mas olhe de novo e veja se consegue identificar pelo que eles estão realmente brigando. Por exemplo, em uma história policial parece que o herói quer capturar o assassino e o oponente quer escapar impune – mas, na verdade, eles estão brigando pela versão da realidade na qual todos vão acreditar.
O truque para criar um oponente que deseja a mesma meta que o herói é encontrar o nível mais profundo de conflito entre eles. Questione-se: qual é a coisa mais importante pela qual eles estão brigando? Esse deve ser o foco da sua história.
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PONTO-CHAVE: Para encontrar o oponente certo, comece pela meta específica do seu herói; quem quer que o impeça de atingi-la é um oponente.
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Note que os escritores, muitas vezes, falam sobre ter um herói que também é o próprio oponente. Esse é um erro que vai causar todo tipo de problemas estruturais. Quando falamos sobre um herói em conflito contra si mesmo, estamos na verdade nos referindo a uma fraqueza interior do herói.
Vejamos alguns oponentes:
- O poderoso chefão
O primeiro oponente de Michael é Sollozzo. No entanto, o principal é o mais poderoso Barzini, que é o poder oculto por trás de Sollozzo e deseja derrubar toda a família Corleone. Michael e Barzini competem pela sobrevivência da família Corleone e pelo controle do crime em Nova York.
- Star Wars
O oponente de Luke é o implacável Darth Vader, e eles competem pelo controle do universo. Vader representa as forças do mal do Império tirânico. Luke representa as forças do bem, compostas pelos Cavaleiros Jedi e pela República democrática.
- Chinatown
Como toda boa história policial, Chinatown nos apresenta um oponente único e complicado que permanece oculto até os últimos momentos da história. O oponente de Jake é o rico e poderoso Noah Cross, que quer controlar o futuro de Los Angeles com seu esquema de água, mas não está competindo com Jake por isso. Como Chinatown é uma história policial, ele e Jake estão, na verdade, competindo por qual verdade será aceita. Cross quer que todos acreditem que Hollis se afogou acidentalmente e que a filha de Evelyn é sua neta. Jake quer que todos acreditem que Cross matou Hollis e estuprou a própria filha.
4. PLANO
A ação não é possível sem um plano, tanto na vida como nas histórias. O plano é o conjunto de diretrizes ou estratégias que o herói usará para superar o oponente e atingir sua meta.
Mais uma vez, note como o plano tem uma conexão orgânica tanto com desejo como com o oponente. O plano deve sempre ser especificamente focado em derrotar o oponente e atingir a meta. Um herói pode ter um plano vago ou, em certas histórias de gênero como filmes de assalto e filmes de guerra, ter um plano tão complexo que os personagens o escrevem para que o público consiga ver.
- Chinatown
O plano de Jake é questionar aqueles que conheciam Hollis e investigar as evidências físicas conectadas ao assassinato dela.
- Hamlet
O plano de Hamlet é encenar uma peça que imita o assassinato do pai pelo atual rei a fim de comprovar a culpa do rei com base na reação dele à apresentação.
- O poderoso chefão
O primeiro plano de Michael é matar Sollozzo e seu protetor, o chefe de polícia. O segundo plano, perto do fim da história, é matar os chefes das outras famílias em um único golpe.
5. BATALHA
No meio da história, o herói e o oponente vão se engajar em ataques e contra-ataques à medida que cada um tenta atingir a meta. O conflito se intensifica. A batalha é o conflito final entre herói e oponente e determina qual dos dois vencerá. A batalha final pode ser um conflito de violência ou de palavras.
- Odisseia
Odisseu mata os pretendentes que atormentaram sua esposa e destruíram sua propriedade.
- Chinatown
Um policial mata Evelyn, e Noah escapa com a filha dela enquanto Jake se afasta em desespero.
- O veredicto
Frank derrota o outro advogado no tribunal, usando suas incríveis habilidades legais e palavras persuasivas.
6. AUTORREVELAÇÃO
A batalha é uma experiência intensa e dolorosa para o herói. O calvário da batalha leva o herói a ter uma enorme revelação sobre quem realmente é. Grande parte da qualidade da sua história depende da qualidade dessa autorrevelação. Para uma boa autorrevelação, primeiro você deve estar ciente de que esse passo, como a necessidade, existe em duas formas: psicológica e moral.
Em uma autorrevelação psicológica, o herói se despoja da fachada atrás da qual viveu e se enxerga de forma honesta pela primeira vez. Esse despojamento não é passivo nem fácil. Na verdade, é o ato mais ativo, mais difícil e mais corajoso que o herói executa em toda a história.
Não faça seu herói dizer abertamente o que aprendeu. Isso é óbvio e moralizante e desestimula o público. Em vez disso, sugira a revelação do herói por meio das ações que ele realiza logo antes da autorrevelação.
- Quero ser grande
Josh percebe que precisa deixar a namorada e a vida na loja de brinquedos e voltar a ser criança para ter uma vida boa e amorosa como adulto.
- Casablanca
Rick abandona o cinismo, recupera seu idealismo e sacrifica o amor que sente por Ilsa para se tornar um membro da resistência.
- Chinatown
A autorrevelação de Jake é negativa. Depois da morte de Evelyn, ele murmura: "O menos possível". Ele parece acreditar que sua vida não é só inútil como também destrutiva. Mais uma vez, feriu alguém que ama.
- Dança com lobos
Dunbar encontra um novo motivo para viver e um novo modo de ser homem graças à nova esposa e sua família estendida do povo sioux lakota. Ironicamente, o modo de vida lakota está chegando ao fim, então a autorrevelação de Dunbar é tanto positiva como negativa.
Se você deu ao seu herói uma necessidade moral, a autorrevelação também deve ser moral. O herói não só se vê de um novo jeito, mas chega a uma conclusão sobre o jeito correto de agir em relação aos outros. Na verdade, percebe como esteve errado, ferindo os outros, e que deve mudar. Depois ele prova que mudou ao realizar uma nova ação moral.
- Tootsie
Michael percebe o que significa ser homem – "Eu fui um homem melhor com você como mulher do que já fui com uma mulher como homem. Só preciso aprender a fazer isso sem o vestido." – e se desculpa por ferir a mulher que ama. Note que, embora o herói diga abertamente o que aprendeu, faz isso de um jeito tão perspicaz e engraçado que evita soar moralizante.
- As aventuras de Huckleberry Finn
Huckleberry percebe que estava errado em pensar em Jim como menos do que humano e declara que preferiria ir ao inferno a revelar o paradeiro de Jim ao senhor de escravos.
Em termos de estrutura, o passo mais intimamente relacionado à autorrevelação é a necessidade. Esses dois passos ilustram a mudança de caráter do seu herói (vamos explorar isso em mais detalhes no Capítulo 4). A necessidade é o início da mudança de caráter do herói. A autorrevelação é o ponto sem volta dessa mudança. A necessidade é a marca da imaturidade do herói no começo da história. É o que está faltando, o que o limita. A autorrevelação é o momento em que o herói cresce como ser humano (a não ser que o conhecimento seja tão doloroso que o destrua). É o que ele aprende, o que ganha, o que lhe permitirá viver uma vida melhor no futuro.
7. NOVO EQUILÍBRIO
No novo equilíbrio, tudo retorna ao normal e não há mais desejo. Exceto por uma grande diferença: o herói passou para um nível mais alto ou mais baixo como resultado de enfrentar seu calvário. O herói passou por uma mudança fundamental e permanente. Se a autorrevelação for positiva – o herói percebe quem realmente é e aprende a viver no mundo do modo correto –, ele passa para um nível mais alto. Se o herói tiver uma revelação negativa – descobrir que cometeu um crime terrível expressando um defeito pessoal imoral – ou for incapaz de ter uma autorrevelação, cai ou é destruído. Vejamos alguns exemplos nos quais o herói ascende.
- Duro de matar
John derrota os criminosos, salva a esposa e confirma o amor deles.
- Uma linda mulher
Vivian deixa o mundo da prostituição e fica com o homem que ama (que, para a sorte dela, é um bilionário).
- O silêncio dos inocentes
Clarice leva Buffalo Bill à justiça, torna-se uma excelente agente do FBI e aparentemente domina seus pesadelos terríveis.
Já os exemplos a seguir ilustram a queda do herói.
- Édipo rei
Édipo fura os olhos ao descobrir que matou o pai e dormiu com a mãe.
- A conversação
O herói descobre que colaborou com o assassinato de uma pessoa e fica traumatizado, destruindo desesperadamente seu apartamento para procurar por um grampo.
- Um corpo que cai
O herói arrasta a mulher que ama até o topo de uma torre para obrigá-la a confessar um assassinato e depois observa horrorizado quando a mulher, tomada pela culpa, acidentalmente cai e morre.
COMO USAR OS SETE PASSOS
Exercício de escrita 2
Agora que vimos o que os sete principais passos da estrutura significam, vamos ver como usá-los em sua história.
- eventos da história: escreva alguns eventos da história, descrevendo cada um em uma única frase. Os sete passos não são impostos de fora; estão embutidos na própria ideia central. É por isso que a primeira coisa que você precisa fazer para determiná-los é listar alguns dos eventos que podem ocorrer em sua história. Geralmente, quando você tem uma ideia para uma história, alguns eventos lhe ocorrem de imediato: "Pode acontecer isso e isso e mais isso". Eventos da história costumam ser ações tomadas por seu herói ou pelo oponente. Essas ideias iniciais sobre os eventos são extremamente valiosas, mesmo se nenhuma delas aparecer na história final. Escreva cada uma em uma frase. O importante aqui não é ser detalhista, mas resumir a ideia básica do que acontece em cada evento. Escreva um mínimo de cinco eventos, mas preferencialmente entre dez e quinze. Quanto mais listar, mais fácil será "ver" a história e encontrar os sete passos.
- ordem dos eventos: coloque os eventos mais ou menos em ordem, do primeiro ao último. No entanto, saiba que essa provavelmente não será a ordem final. O importante é ter uma noção de como a história pode se desenvolver do início ao fim.
- sete passos: estude os eventos da história e identifique os sete passos da estrutura.
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PONTO-CHAVE: Comece determinando a autorrevelação, no final da história, e depois volte ao começo e encontre a necessidade e o desejo do herói.
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Essa técnica de começar pelo fim e voltar ao começo será algo que usaremos muitas vezes conforme desvendarmos personagem, trama e tema. É uma das melhores técnicas na escrita de ficção, pois garante que seu herói e sua história sempre sigam na direção do verdadeiro ponto sem volta da jornada estrutural, que é a autorrevelação.
- autorrevelação psicológica e moral: ao pensar na autorrevelação, tente dar ao herói tanto uma revelação psicológica como uma moral. Seja específico sobre o que o herói aprende – e seja, também, flexível e disposto a mudar o que escreveu conforme desenvolver os outros seis passos e continuar o processo de escrita. Entender os sete passos, assim como muitas outras partes da sua história, é como completar uma cruzadinha. Algumas partes virão facilmente, outras com grande dificuldade. Use as partes mais fáceis para encontrar as mais difíceis e esteja disposto a voltar e a mudar o que escreveu quando o material posterior lhe fornecer uma nova visão de sua história.
- fraqueza/necessidade psicológica e moral: depois de decidir a autorrevelação, volte ao começo de sua história e tente dar ao herói uma fraqueza e uma necessidade tanto psicológica como moral. Lembre-se da diferença-chave: uma fraqueza ou necessidade psicológica afeta só o herói; uma fraqueza ou necessidade moral afeta outras pessoas. Liste não só uma, mas muitas fraquezas do herói. Esses defeitos devem ser sérios, tão profundos e perigosos que arruínam a vida dele ou têm o potencial de arruinar.
- problema: qual é o problema, ou crise, que o herói enfrenta no começo da história? Tente torná-lo uma consequência da fraqueza dele.
- desejo: seja muito específico ao dar um desejo ao herói. Certifique-se de que a meta irá conduzi-lo ao final da história e obrigá-lo a realizar uma série de ações.
- oponente: crie um oponente que almeje a mesma meta que o herói e que seja excepcionalmente bom em atacar a maior fraqueza dele. Você pode criar centenas de oponentes. A questão é: qual é o melhor? Comece voltando àquela pergunta crucial: qual é o conflito mais profundo entre o herói e seu oponente? Você deve querer que o principal oponente seja tão obcecado por essa meta quanto o herói. Deve querer dar a ele a habilidade especial de atacar a maior fraqueza do herói incessantemente enquanto tenta atingir essa meta.
- plano: crie um plano que exija que o herói realize uma série de ações, mas ajuste-o, também, quando a ideia inicial não funcionar. O plano costuma moldar o resto da história, então precisa envolver muitos passos. Caso contrário, você terá uma história curta demais. O plano deve ser único e complexo o suficiente para que o herói tenha que ajustá-lo quando fracassar.
- batalha: pense na batalha e no novo equilíbrio. A batalha deve envolver o herói e seu principal oponente, determinando de uma vez por todas quem atingirá a meta. Decida se será uma batalha de ação e violência ou de palavras. Qualquer que seja sua escolha, certifique-se de que seja uma experiência intensa, que teste seu herói ao máximo.
Vamos analisar os sete passos da história de O poderoso chefão para que você entenda como eles podem funcionar na sua história.
- O poderoso chefão
(romance de Mario Puzo, roteiro de Mario Puzo e Francis Ford Coppola, 1972)
herói: Michael Corleone.
fraquezas: Michael é jovem, inexperiente e superconfiante.
necessidade psicológica: Michael deve superar seu senso de superioridade moral.
necessidade moral: ele precisa evitar tornar-se implacável como os outros chefes da máfia e, ao mesmo tempo, proteger sua família.
problema: membros de uma gangue rival atiram no pai de Michael, o chefe da família.
desejo: ele quer se vingar dos homens que atiraram no pai, protegendo sua família no processo.
oponente: o primeiro oponente de Michael é Sollozzo. No entanto, o principal é o mais poderoso Barzini, que é o poder oculto por trás de Sollozzo e deseja derrubar toda a família Corleone. Michael e Barzini competem pela sobrevivência da família Corleone e pelo controle do crime em Nova York.
plano: o primeiro plano de Michael é matar Sollozzo e seu protetor, o chefe da polícia. O segundo plano é matar os chefes das outras famílias em um único golpe.
batalha: a batalha final alterna entre a atuação de Michael no batismo do sobrinho e o assassinato dos chefes de cinco famílias mafiosas. No batismo, Michael diz que acredita em Deus. Clemenza atira em alguns homens que saem de um elevador. Moe Green leva um tiro no olho. Michael, seguindo a liturgia do batismo, renuncia a Satanás. Outro atirador mata um dos chefes de família em uma porta giratória. Barzini é morto. Tom envia Tessio para ser assassinado. Michael faz Carlo ser estrangulado.
autorrevelação psicológica: não há. Michael ainda acredita que seu senso de superioridade moral é justificado.
autorrevelação moral: não há. Michael se tornou um assassino implacável. Os escritores usam uma técnica de estrutura avançada ao atribuir a autorrevelação moral à esposa do herói, Kay, que vê o que ele se tornou quando a porta bate em sua cara.
novo equilíbrio: Michael matou seus inimigos e "ascendeu" à posição de chefão. Entretanto, moralmente, caiu e se tornou o "diabo". O homem que não queria ter nada a ver com a violência e o crime da família é agora seu líder e vai matar qualquer um que o traia ou que entre em seu caminho.