TRANÇADO DE CENAS
Por que Jane Austen e Charles Dickens são contadores de histórias tão bons, que ainda encantam leitores mesmo neste mundo de alta tecnologia e alta velocidade? Um motivo é o fato de serem dois dos melhores trançadores de cenas de todos os tempos.
Uma cena é geralmente uma ação que acontece em determinada hora e em determinado lugar. É a unidade básica do que de fato acontece na história e é vivida, em tempo real, pelo público. O trançado de cenas é a sequência dessas unidades. Para ser um grande contador de histórias, você deve criar um trançado como uma tapeçaria fina, apanhando cada fio por um momento antes de deixá-lo desaparecer sob a superfície e reaparecer de novo um pouco mais tarde.
O trançado de cenas (mais conhecido como lista de cenas, escaleta de cenas ou resumo de cenas) é o passo final antes de escrever uma história ou um roteiro completo. É uma lista de todas as cenas que você acredita que estarão na história final, junto com uma etiqueta para cada cena em que ocorre um passo da estrutura.
O trançado de cenas é um passo extremamente valioso no processo de escrita. Como os sete passos, a rede de personagens e a sequência de revelações, esse é um modo de ver como a história se encaixa sob a superfície.
O trançado de cenas é, na verdade, uma extensão da trama – é a trama nos mínimos detalhes. O objetivo dessa ferramenta é permitir ao autor uma última olhada na arquitetura geral da história antes de escrevê-la. Portanto, não entre em detalhes excessivos porque isso vai esconder a estrutura. Tente descrever cada cena em uma frase. Por exemplo, uma descrição de quatro cenas de O poderoso chefão poderia ser:
- Michael salva o Dom de ser assassinado no hospital.
- Michael acusa o chefe de polícia McCluskey de trabalhar com Sollozzo, e o chefe dá um soco nele.
- Michael sugere matar o chefe e Sollozzo.
- Clemenza mostra a Michael como executar Sollozzo e o chefe.
Note que apenas uma ação essencial de cada cena foi listada. Se você se ativer a descrições de duas ou três frases, conseguirá listar o trançado de cenas de sua história em poucas páginas. Depois de descrever a cena, liste o passo de estrutura (como desejo, plano ou derrota aparente) que é realizado durante ela. Algumas cenas terão essas etiquetas de estrutura, mas muitas, não.
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PONTO-CHAVE: Esteja preparado para mudar o trançado de cenas quando começar a escrever cada uma delas.
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Quando for escrever uma cena de fato, talvez você descubra que a ação básica ocorrendo nela não é o que você pensava – só vai ter certeza quando "entrar" na cena e a escrever. Então, seja flexível. O que importa neste momento do processo é ter uma visão geral do que você pensa ser a principal ação de cada cena.
Tenha em mente que a maioria dos filmes de Hollywood traz de quarenta a setenta cenas. Um romance pode ter o dobro disso e, dependendo da duração e do gênero, possivelmente bem mais.
Sua história pode ter subtramas – ou subseções – que, quando trançadas, criam a trama. Se houver mais de uma subtrama ou subseção, etiquete cada cena com um número de linha de trama ou subseção. Assim, você vai conseguir ver as cenas de cada subtrama como uma unidade separada e garantir que cada subtrama tenha um desenvolvimento apropriado.
Quando tiver o trançado de cenas completo, veja se precisa realizar as seguintes mudanças:
- Reordene as cenas. Primeiro, concentre-se em arrumar a sequência geral da história e depois examine as justaposições entre as cenas individuais.
- Combine cenas. Muitas vezes, os escritores criam uma cena por nenhum motivo além de inserir uma boa fala. Sempre que possível, combine cenas para que todas elas tenham conteúdo, mas certifique-se de que todas também realizem essencialmente uma ação.
- Corte ou acrescente cenas. Sempre elimine o excesso. Lembre-se: o ritmo da história está relacionado não só à duração de uma cena, mas também à necessidade de ela existir. Uma vez que tenha eliminado todo o excesso, você pode encontrar lacunas no trançado que vão exigir cenas novas. Nesse caso, acrescente-as à lista no ponto adequado.
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PONTO-CHAVE: Ordene as cenas por estrutura, não por cronologia.
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A maioria dos escritores escolhe a ordem das cenas de acordo com a cronologia das ações (cenas). O resultado é uma história cheia de enrolação, com muitas cenas inúteis. Em vez disso, escolha uma cena baseando-se em quanto ela faz o desenvolvimento do herói avançar. Se esse desenvolvimento não avançar, ou se ele não for estabelecido de um jeito crucial, elimine a cena.
Essa técnica garante que toda cena na história seja essencial e esteja na ordem correta. Em geral, você acaba com uma sequência de cenas em ordem cronológica, mas nem sempre.
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PONTO-CHAVE: Preste atenção especial à justaposição de cenas.
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Especialmente no cinema e na televisão, em que a mudança de cena ou linha de trama é instantânea, a justaposição entre duas cenas pode ser mais significativa do que os eventos das cenas individuais. Nessas justaposições, é importante olhar primeiro para o contraste de conteúdo. De qual forma, se é que isso ocorre, uma cena comenta a cena anterior?
Então, examine o contraste de proporção e ritmo. A cena ou seção seguinte tem a importância e duração corretas, comparada à cena ou seção anterior?
Uma boa regra básica é: encontre a linha e a mantenha.
Há algumas cenas – como as de subtrama – que só preparam o terreno para o impulso narrativo. Insira-as, mas nunca se afaste demais da linha narrativa, senão sua história vai literalmente desmoronar.
Há várias formas de criar justaposições potentes. Uma das melhores, em especial no cinema e na televisão, é a justaposição entre visão e som. Nessa técnica, você divide essas duas faixas de comunicação para criar um terceiro significado.
- M: o vampiro de Dusseldorf
(Thea von Harbou e Fritz Lang, 1931) Um exemplo clássico dessa técnica ocorre no grande filme alemão M: o vampiro de Dusseldorf. Nele, um assassino de crianças compra uma bexiga para uma garotinha. Na cena seguinte, uma mulher prepara o jantar e chama sua filha: "Elsie". Enquanto ela continua chamando a garota, a faixa visual se separa da faixa de som e o público vê uma escada vazia, um bloco de apartamentos, a cadeira vazia de Elsie, seu prato e colher na mesa da cozinha, enquanto são ouvidos os gritos cada vez mais desesperados da mãe chamando "Elsie". A linha visual termina com a visão de uma bexiga que fica presa em cabos elétricos e então flutua para longe. Esse contraste entre a faixa de som e a visual produz um dos momentos mais dolorosos da história do cinema.
Talvez a técnica mais comum de justaposição no trançado seja a alternância de cenas. Nela, você pula entre duas ou mais linhas de ação. Essa técnica tem dois efeitos principais:
- Cria suspense, especialmente quando você alterna em um ritmo crescente, como quando alguém está correndo para salvar uma vítima em perigo.
- Compara duas linhas de ação, dois blocos de conteúdo, e as torna iguais. Isso expande o padrão temático. Toda vez que você pula entre duas linhas de ação, passa de um desenvolvimento linear simples (que costuma ser de um único personagem) para mostrar um padrão mais profundo, presente na sociedade como um todo.
Um exemplo da alternância de conteúdo é uma sequência em M: o vampiro de Dusseldorf na qual a história vai e volta entre um grupo de policiais e um grupo de criminosos. Cada um está tentando descobrir o assassino de crianças, então a alternância mostra ao público como dois tipos de pessoa, geralmente considerados opostos, são, de muitas formas, idênticos.
- O poderoso chefão
(romance de Mario Puzo, roteiro de Mario Puzo e Francis Ford Coppola, 1972)
Um exemplo ainda melhor de alternância de conteúdo ocorre na cena da batalha de O poderoso chefão. O desafio é criar uma cena que expresse o caráter de Michael, o que ele se tornou como o novo chefão. Ao mostrar os empregados de Michael assassinando os chefes das cinco famílias criminosas, os escritores não só fornecem uma série densa de golpes como também expressam a posição de Michael como um tipo de chefe corporativo do crime. Ele não mata esses homens pessoalmente em um ataque passional, e sim contrata em sua empresa homens que são especialistas em matar.
A isso, os escritores acrescentam outra alternância: entre os assassinatos em massa e a renúncia de Michael a Satã enquanto se torna padrinho de uma criança cujo pai está prestes a assassinar. Por meio dessa alternância, o público vê Michael se tornar Satã no mesmo momento em que ele atinge o auge de seu poder como chefão.
Eu gostaria de comparar o trançado de cenas de uma versão anterior do filme com a versão final. Podemos ver como a justaposição correta das cenas – e, nesse caso, de seções inteiras – pode fazer uma diferença enorme na qualidade da história. A diferença-chave entre esses trançados de cenas surge logo depois que Michael atirou em Sollozzo e no chefe de polícia McCluskey no restaurante. Note que, na versão anterior, os escritores listam todas as cenas relacionadas à morte de Sonny e ao fim da guerra entre as famílias (em sublinhado). Então listam as cenas de Michael na Sicília, acabando com o assassinato de sua esposa (em itálico).
- Versão inicial de O poderoso chefão
- No restaurante, eles conversam; Michael pega a arma e atira neles.
- Montagem de artigos de jornal.
- Sonny transa com uma garota e vai à casa da irmã, Connie.
- Sonny encontra Connie com um olho roxo.
- Sonny espanca o marido de Connie, Carlo, na rua.
- Tom não aceita a carta de Kay para Michael.
- Dom Corleone é levado do hospital para casa.
- Tom conta a Dom Corleone o que aconteceu; o Dom fica triste.
- Sonny e Tom discutem porque Sonny quer matar o velho Tattaglia.
- Há uma briga feia entre Connie e Carlo; Connie liga para casa; Sonny fica furioso.
- Sonny é morto no pedágio.
- Tom conta a Dom Corleone que Sonny está morto – Dom Corleone ordena que se faça a paz.
- Dom Corleone e Tom levam o corpo de Sonny para o agente funerário Bonasera.
- Dom Corleone faz as pazes com os chefes das famílias.
- Dom Corleone fica sabendo que Barzini é o líder deles.
- Na Sicília, Michael vê uma garota linda na estrada e diz ao pai dela que quer conhecê-la.
- Michael conhece Apollonia.
- Michael e Apollonia se casam.
- Noite de núpcias.
- Michael ensina Apollonia a dirigir; descobre que Sonny está morto.
- O carro de Michael explode com Apollonia dentro.
Essa sequência de cenas tem uma série de problemas. Ela mostra primeiro as cenas mais cheias de conteúdo e dramáticas (a morte de Sonny e a revelação de Barzini) e depois a trama decepciona quando se transfere para a Sicília. Além disso, Michael-na-Sicília é uma sequência longa e relativamente lenta, de modo que a história em geral sofre uma freada brusca, e os escritores têm uma dificuldade tremenda para fazer o "trem" partir de novo depois que essa seção se conclui. Colocar todas as cenas com Apollonia de uma vez também acentua o caráter súbito e um tanto implausível do casamento de Michael com uma camponesa siciliana. O diálogo tenta suavizar esse fato dizendo que Michael se apaixonou à primeira vista, mas, quando vemos essas cenas de uma vez, a explicação não é convincente.
- Versão final de O poderoso chefão
No roteiro final, os escritores superam essa falha potencialmente fatal no trançado de cenas alternando a linha de Sonny e a linha de Michael.
- No restaurante, eles conversam; Michael pega a arma e atira neles.
- Montagem de artigos de jornal.
- Dom Corleone é levado do hospital para casa.
- Tom conta a Dom Corleone o que aconteceu; o Dom fica triste.
- Sonny e Tom discutem porque Sonny quer matar o velho Tattaglia.
- Na Sicília, Michael vê uma garota linda na estrada e diz ao pai dela que quer conhecê-la.
- Michael conhece Apollonia.
- Sonny transa com uma garota e vai à casa da irmã Connie.
- Sonny encontra Connie com um olho roxo.
- Sonny espanca o marido de Connie, Carlo, na rua.
- Casamento de Michael e Apollonia.
- Noite de núpcias.
- Tom não aceita a carta de Kay para Michael.
- Há uma briga feia entre Connie e Carlo; Connie liga para casa; Sonny fica furioso.
- Sonny é morto no pedágio.
- Tom conta a Dom Corleone que Sonny está morto – Dom Corleone ordena que se faça a paz.
- Dom Corleone e Tom levam o corpo de Sonny para o agente funerário Bonasera.
- Michael ensina Apollonia a dirigir; descobre que Sonny está morto.
- O carro de Michael explode com Apollonia dentro.
- Dom Corleone faz as pazes com os chefes das famílias.
- Dom Corleone fica sabendo que Barzini é o líder deles.
Ao alternar entre essas duas linhas, a siciliana, mais lenta, nunca é mostrada por tempo suficiente para matar o impulso narrativo da história. Além disso, ambas as linhas se afunilam para um único ponto, que é a derrota aparente do herói, o ponto mais baixo dele na história (veja o Capítulo 8), quando o assassinato de Sonny é quase imediatamente seguido pelo de Apollonia. Esse golpe duplo é então coroado pela grande revelação de que Barzini estava por trás de tudo. Essa revelação de que Barzini é o verdadeiro oponente impele o resto da trama para sua conclusão espetacular.
O trançado de cenas é uma técnica que se compreende melhor usando uma abordagem de estudo de caso. Vamos começar por um exemplo da série ER: Plantão médico porque o drama televisivo é muito focado em trançar uma tapeçaria rica na qual múltiplas tramas são justapostas.
TRANÇADO DE CENAS – TRAMA DE MÚLTIPLOS FIOS
A trama televisiva de múltiplos fios alterna cenas entre três e cinco tramas principais, cada uma com seu próprio herói. Contar tantas histórias em cerca de quarenta e cinco minutos (sessenta minutos menos o tempo dos comerciais) significa que nenhuma das linhas pode se aprofundar demais em um único episódio. Os escritores esperam compensar isso ao longo da temporada e nas muitas temporadas que a série permanece no ar.
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PONTO-CHAVE: Em um trançado de múltiplos fios, a qualidade da história em geral decorrerá primariamente da justaposição das tramas. É feita uma comparação entre o que várias pessoas em uma minissociedade estão enfrentando ao mesmo tempo, e o público pode ver em forma comprimida como os protagonistas usam diferentes soluções para tentar resolver, essencialmente, o mesmo problema.
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PONTO-CHAVE: Trabalhando com três a cinco tramas é impossível cobrir os 22 passos em cada linha, mas cada uma deve conter os sete passos de estrutura principais. Se tiver menos que os sete passos, a linha não é uma história completa e o público vai sentir que é desnecessária e irritante.
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PONTO-CHAVE: Com múltiplos protagonistas e tantas linhas, você dá forma à história em geral e mantém o impulso narrativo fazendo com que o herói de uma linha seja o oponente de outra. Isso evita que a história se torne cada vez mais expansiva com, por exemplo, cinco heróis, cinco oponentes, uma miríade de personagens secundários e por aí em diante.
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Um dos motivos para ER: Plantão médico e outros dramas televisivos usarem a alternância de múltiplos fios é que isso fornece ao episódio uma densidade dramática. Não há momentos de calma nessas histórias. O público vê apenas as cenas mais dramáticas de cada trama. No caso de ER: Plantão médico, o criador Michael Crichton – o maior escritor de premissas de Hollywood – descobriu como combinar, em uma série, as vantagens do drama médico e do gênero de ação. A essa mistura, Crichton acrescentou uma rede de personagens que cobre uma gama ampla de classe, raça, origem étnica, nacionalidade e gênero. É uma combinação muito potente e popular.
- ER: Plantão médico – "The dance we do" [A dança que fazemos]
(Jack Orman, 2000)
O episódio específico que vamos analisar tem cinco tramas, cada uma estendendo-se e crescendo com base em diversos episódios anteriores:
Trama 1: a mãe de Abby, Maggie, veio visitá-la. Ela é bipolar e tem um histórico de interromper o tratamento, ter crises e desaparecer por longos períodos.
Trama 2: a dra. Elizabeth Corday está sendo processada e deve dar um depoimento. O advogado da oposição alega que ela cometeu um erro em uma cirurgia, que deixou o cliente dele paralisado.
Trama 3: membros de uma gangue mataram o sobrinho do dr. Peter Benton em um episódio anterior. A namorada do garoto, Kynesha, aparece no hospital após ter sido espancada.
Trama 4: Mark Greene vem mantendo um segredo de sua namorada, Elizabeth (dra. Corday), e dos outros médicos. Hoje ele descobre se seu tumor cerebral é fatal.
Trama 5: por causa de um vício em drogas, o dr. Carter precisa passar por testes regulares se quiser continuar trabalhando no hospital.
A primeira coisa que se nota sobre esse episódio é que as tramas têm uma unidade subjacente: elas são todas variações do mesmo problema, de modo que as justaposições compensam. No nível superficial, muitas delas lidam com personagens com um vício em drogas. No entanto, o mais importante é que todas as cinco mostram os diferentes efeitos de mentir e de contar a verdade.
O poder do trançado em "The dance we do" vem de dois princípios narrativos: como cada trama é uma variação do tema "contar a verdade ou mentir" e como as cinco histórias se afunilam para a revelação ou autorrevelação mais potente da qual o personagem principal e aquela trama são capazes.
| Teaser | |
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Se examinar esse trançado de cenas com atenção, verá que cada trama contém os sete passos, então cada história é forte por si só. Com essa fundação, o escritor poderá, então, brincar com a justaposição de cenas individuais em diferentes tramas. |
| (Comercial) | |
| Ato 1 | |
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| (Comercial) | |
| Ato 2 | |
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Na cena 10 (trama 3), Kynesha chega ao hospital espancada e possivelmente estuprada. Ela namorava o sobrinho que morreu há algum tempo. Na cena seguinte (11, trama 2), o advogado pergunta à dra. Corday se ela estava chateada pela morte do garoto quando operou seu cliente. Então a cena 10 (trama 3) é um momento posterior da mesma trama mencionada na cena 11 (trama 2). |
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| (Comercial) | |
| Ato 3 | |
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Cena 16 (trama 4), 17 (trama 2) e 18 (trama 1): cada uma mostra um personagem – Greene, Elizabeth e Maggie – mentindo para outros e negando a extensão do problema até para si mesmos. |
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Na cena 20 (trama 5), Greene enfim conta a alguém a verdade sobre si. Essa cena é imediatamente seguida pela 21 (trama 2), na qual sua namorada Elizabeth escuta do advogado que deve esconder a verdade. |
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Na cena final e no funil dramático do ato 3, a cena 22 (trama 1) mostra o terrível resultado de mentir, de fazer "a nossa dança". Em seu local de trabalho, Abby experimenta uma intensa humilhação pública quando a mãe faz um escândalo. |
| (Comercial) | |
| Ato 4 | |
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Na cena 23 (trama 2), o começo do ato final, Elizabeth precisa confrontar os efeitos de seu trabalho negligente quando o paciente que a está processando aparece no depoimento em uma cadeira de rodas. |
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Nesse ponto mais tardio da história, as batalhas e autorrevelações surgem velozes e furiosas, que é uma das grandes vantagens da técnica de múltiplos fios. Na cena de batalha da trama 2 (cena 26), no depoimento, Elizabeth toma sua grande decisão moral e mente. Então Abby, da trama 1, explica a Carter, que vem mentindo sobre o próprio consumo de drogas na trama 5, como ela e a mãe fazem uma dança infindável de drogas e mentiras e de ferir uma à outra. |
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Na penúltima cena do episódio, Greene e Elizabeth ajudam um ao outro a confrontar uma verdade negativa. |
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A cena final é uma reviravolta dramática brilhante dada à primeira trama. Ao começar e terminar com uma cena da trama 1, o escritor enquadra o episódio inteiro e ajuda a unificar todas as tramas. Abby se levanta no meio da noite e liga a torneira da banheira para poder chorar sem acordar o namorado. Para essas pessoas, que fazem a dança, as coisas sempre serão as mesmas. É um antigo equilíbrio, não um novo. Para Abby, essa percepção sobre si e a mãe é trágica. O público entende de repente que a vida não é uma história em cujo final as pessoas sempre mudam e crescem – e isso dói. É um lindo trançado de cenas. |
TRANÇADO DE CENAS
Exercício de escrita 8
- lista de cenas: liste todas as cenas da história. Tente descrever cada uma em uma frase.
- etiquetas dos 22 passos: classifique qualquer cena que inclua um dos 22 passos de estrutura. Se a história tiver mais que uma trama ou subseção, classifique cada cena com a trama apropriada.
- ordenando cenas: estude a ordem das cenas. Certifique-se de que a sequência seja construída com base na estrutura, não na cronologia.
- Veja se pode cortar cenas.
- Procure oportunidades de combinar duas cenas em uma.
- Acrescente uma cena sempre que houver lacunas no desenvolvimento da história.
Como o trançado de cenas é mais bem entendido na prática, gostaria de mudar nosso padrão usual de terminar o capítulo com um único exemplo e, em vez disso, examinar o trançado de cenas de três histórias. É claro, cada trançado é único a sua história e suas exigências, mas, à medida que for analisar cada exemplo, note como os diferentes gêneros apresentam vários desafios de trançado de cena que os escritores devem resolver.
TRANÇADO DE CENAS – HISTÓRIA POLICIAL
- Los Angeles: cidade proibida
(romance de James Ellroy, roteiro de Brian Helgeland e Curtis Hanson, 1997)
Los Angeles: cidade proibida tem um dos melhores e mais sofisticados trançados de cena dos últimos anos. Tem a forma de um enorme funil, começando com três heróis policiais no mundo corrupto da polícia de Los Angeles. Ao longo da história, os escritores entrelaçam essas três linhas distintas para formar uma só e mantêm o impulso narrativo ao fazer com que os heróis sejam oponentes entre si à medida que, no final do funil, todos buscam o assassino.
Isso permite que os escritores comparem, por meio da alternância de cenas, os três heróis e suas abordagens diferentes quanto à resolução de crimes e à justiça. Também permite criar um conjunto denso de revelações à medida que o funil se estreita até um único ponto.
No trançado de cenas a seguir, Bud White é o herói 1, Jack Vincennes é o herói 2, Ed Exley é o herói 3 e o chefe de polícia Smith é o oponente principal, embora pareça ser um aliado.
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Na cena de abertura, uma narração em voice-over estabelece o mundo da história – Los Angeles nos anos 1950 – e a oposição temática fundamental na qual o mundo é baseado: uma aparente utopia que é corrupta sob a superfície. |
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As cenas seguintes apresentam os três heróis e o chefe de polícia, que é um oponente/falso aliado:
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Essas primeiras cenas levam a um evento divisor de águas que define os três heróis e o mundo corrupto da polícia. Todos os policiais, exceto Ed, espancam alguns prisioneiros mexicanos (cena 11). Nessa e nas próximas cenas, Ed se torna um oponente tanto de Bud como de Jack (cenas 10 a 15). |
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Das cenas 16 a 23, a história se fragmenta em três linhas que se alternam: Bud ganha uma nova posição como "capanga" do chefe, o oponente oculto mata vários gângsteres e Jack encontra uma pista que por fim o levará a um dos dois oponentes principais. |
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Agora vem o evento incitante, o caso no qual várias pessoas são assassinadas no café Night Owl, incluindo o ex-parceiro de Bud (cenas 24 a 26). Esse é o começo do efeito funil que fará as três linhas serem por fim entrelaçadas. Cada herói vai atrás dos suspeitos que, mais uma vez, fazem parte de minorias. |
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As próximas cenas representam uma ofensiva falsa na qual os três heróis, guiados pelo oponente/falso aliado (o chefe) vão atrás dos caras errados (cenas 29, 30 e 34 a 38). De novo, os policiais são corruptos. Jack e Ed pegam os suspeitos e Ed brilha ao comandar o interrogatório. Mas seu oponente policial, Bud, entra correndo, assume o controle da lei e assassina o suspeito principal em nome da justiça (cenas 37 e 38). |
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Nessa seção do roteiro, os escritores evitam fragmentar a história, focando a oposição entre os heróis Bud e Ed (cena 39). Ed rastreia os suspeitos fugidos. No tiroteio, todos morrem exceto ele (cenas 40 e 41). Uma grande seção da história termina com a ofensiva aparentemente concluída (cenas 42 a 44). |
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Os escritores agora trazem o oponente Patchett do fundo para o primeiro plano em uma série de cenas mostrando o alcance dele na cidade (cenas 46 a 49). |
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A história volta para as linhas de ação simultâneas, alternando novamente entre os três heróis. O elemento unificador nas três é que cada personagem está ficando desiludo com seu desejo costumeiro:
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A partir desse ponto, a história ganha foco e impulso narrativo à medida que os heróis perseguem o verdadeiro assassino. Primeiro, cada um procura separadamente, usando as próprias técnicas e com o próprio motivo de redenção (cenas 58 a 62). |
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O efeito funil ganha velocidade quando Ed e Jack juntam forças (cena 63). Essa seção inclui o momento em que Ed transa com a namorada de Bud, Lynn (cena 72). A oposição entre os dois homens se intensifica. |
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Após estabelecer meticulosamente o mundo e criar três linhas que parecem distintas no começo, os escritores agora podem atingir o público com uma série de revelações. O trabalho de equipe entre Ed e Jack termina com a maior revelação de todas, uma estupenda revelação ao público: o chefe mata Jack (cena 73). |
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Bud e Ed continuam suas buscas separados por mais um tempo até terem uma minibatalha, depois da qual concordam em trabalhar juntos (cena 81). Esse time conduz o resto da história. |
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Mais revelações afunilam a trama de modo que os dois personagens principais entram em uma batalha com o chefe e seus homens, que termina com Ed atirando nas costas do chefe (cena 87). |
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Sempre político, Ed transforma o assassinato em outra medalha para si (cena 89). Ele se despede de seu oposto, Bud, o cara simples que vai morar em uma cidadezinha com Lynn (cena 90). |
TRANÇADO DE CENAS ALTERNADAS
- O Império contra-ataca
(história de George Lucas, roteiro de Leigh Brackett e Lawrence Kasdan, 1980)
O Império contra-ataca é um exemplo perfeito do trançado de cenas alternadas. Para entender por que escritores empregariam essa abordagem em uma parte tão grande da trama (cenas 25 a 58), precisamos examinar as exigências estruturais da história. Em primeiro lugar, O Império contra-ataca é o episódio do meio de uma trilogia que começa com Uma nova esperança e termina com O retorno de Jedi, então não possui o foco de abertura do primeiro episódio, no qual o protagonista é apresentado, nem o foco de fechamento do terceiro, no qual tudo converge para a batalha final. A estratégia de cenas alternadas permite aos escritores usarem a história do meio para expandir a trilogia para o maior escopo possível – nesse caso, o universo. Mas ainda precisam manter o impulso narrativo, o que é até mesmo mais difícil pelo fato de ser um episódio do meio de uma trilogia que deveria, de alguma forma, se sustentar sozinho.
A habilidade mais profunda da alternância de cenas é comparar conteúdos ao justapor personagens ou linhas de ação. Isso não acontece aqui, mas o filme se aproveita das capacidades de trama da alternância, que são: aumentar o suspense, criar ganchos e abarrotar com ação o tempo limitado de um filme.
Nesse filme, o motivo mais importante pelo qual os escritores usam o trançado com alternância de cenas tem a ver com o desenvolvimento do herói – como sempre deveria ser. Em O Império contra-ataca, Luke deve passar por um longo treinamento na Força para se tornar um Cavaleiro Jedi e derrotar o Império, mas isso representa um grande problema para os escritores. O treinamento é só um passo de estrutura, e nem é um dos 22 passos cruciais. Portanto, fazer uma longa sequência de treinamento ser parte de um trançado de cenas linear – que só acompanha Luke – faria com que a trama tivesse uma freada brusca. Ao alternar o treinamento de Luke (listado aqui em itálico) com grandes cenas de ação de Han Solo, da princesa Leia e de Chewbacca escapando da tropa de Darth Vader (listadas aqui em sublinhado), os escritores dão ao treinamento e ao desenvolvimento de Luke o tempo de que precisam sem que a trama pare completamente.
- Luke e Han patrulham o planeta gelado de Hoth. Uma fera do gelo derruba Luke de seu tauntaun e o arrasta para longe. problema
- Han volta à base rebelde. Chewbacca conserta a Falcon. aliados
- Han pede uma dispensa para pagar uma enorme dívida a Jabba, o Hutt. Han se despede de Leia. aliados
- Han e Leia discutem sobre os sentimentos imaginados e verdadeiros que um tem em relação ao outro.
- C-3PO e R2-D2 informam que Luke ainda está desaparecido. Han pede um relatório ao oficial da base. aliados
- Apesar dos avisos do oficial quanto aos níveis de congelamento fatais, Han promete procurar Luke.
- Luke escapa do covil da fera do gelo.
- Na base rebelde, C-3PO e R2-D2 se preocupam com Luke.
- Luke se esforça para permanecer vivo no frio congelante. Han procura por ele. visita à morte
- Leia concorda, relutante, em fechar as portas da base, que não seriam abertas até o dia seguinte. Chewbacca e os droides temem por Han e Luke.
- Obi-Wan Kenobi instrui Luke a procurar treinamento com Yoda. Han chega para salvar Luke. evento incitante
- Pequenos caças rebeldes procuram por Luke e Han e os encontram.
- Luke agradece a Han por salvar sua vida. Han e Leia continuam as briguinhas românticas.
- O general relata que um sinal estranho está sendo captado de uma nova sonda no planeta e Han decide investigar.
- Han e Chewbacca destroem o droide-sonda imperial. O general decide evacuar o planeta. revelação
- Darth Vader recebe o relatório sobre Hoth e ordena uma invasão. oponente
- Han e Chewbacca consertam a Falcon e Luke se despede deles.
- O general rebelde recebe a notícia de que forças imperiais se aproximam e emprega um escudo de energia para proteção.
- Vader mata um almirante hesitante e ordena um ataque terrestre contra Hoth. plano e ataque do oponente
- Forças imperiais atacam a base rebelde. Luke e seu time de pilotos resistem. batalha
- Han e Chewbacca discutem enquanto consertam a Falcon. C-3PO se despede de R2-D2, que vai acompanhar Luke.
- Luke bate seu caça e escapa do andador imperial logo antes que este destrua sua nave. batalha
- Han ordena que Leia embarque na última nave de transporte que está partindo. Forças imperiais entram na base.
- Luke explode um andador imperial enquanto outro destrói o gerador de energia principal.
- Han, Leia e C-3PO ficam isolados da nave de transporte e correm para a Falcon.
- Vader e as forças imperiais entram na base rebelde. A Falcon escapa.
- Luke e R2-D2 escapam de Hoth. Luke informa R2-D2 que eles irão para Dagobah. desejo
- Com os caças TIE em perseguição, Han tenta, em vão, ligar o hiperdrive e vira a Falcon para um campo de asteroides.
- Luke pousa em um pântano fétido e desolado em Dagobah. plano
- Vader ordena que a frota imperial siga a Falcon para dentro do campo de asteroides.
- C-3PO trabalha no hiperdrive. Han e Leia continuam suas discussões românticas.
- Yoda encontra Luke, mas oculta a própria identidade. Yoda promete levar Luke até Yoda. aliado
- C-3PO descobre o defeito no hiperdrive. Han e Leia finalmente se beijam.
- O imperador anuncia que Luke Skywalker é o novo inimigo deles. Vader promete trazer Luke para o lado sombrio. plano do oponente
- Yoda se revela a Luke como o mestre Jedi. Yoda se preocupa com a impaciência e o comprometimento de Luke. revelação
- Caças TIE procuram pela Falcon no campo de asteroides.
- Han, Leia e Chewbacca procuram por vida fora da Falcon. Han leva a Falcon para fora de uma serpente gigante. revelação, oponente
- Luke treina com Yoda no pântano e depois o deixa para enfrentar um desafio estranho da Força. necessidade, ofensiva
- Luke entra em uma caverna e luta contra o espectro de Darth Vader. Ele corta a cabeça do espectro e vê seu próprio rosto. necessidade, revelação
- Vader instrui caçadores de recompensa a procurar a Falcon. O almirante anuncia que a nave foi encontrada.
- Caças TIE perseguem a Falcon para fora de um campo de asteroides. Han leva a Falcon diretamente para o cruzador.
- O almirante observa a Falcon voar em direção ao cruzador. O homem no radar perde a Falcon de vista.
- Luke continua seu treinamento. Ele não consegue erguer seu X-wing do pântano enquanto Yoda o levanta sem dificuldade. derrota aparente
- Vader mata mais um almirante por seu erro e promove outro oficial.
- A Falcon escapa junto com o lixo do cruzador. Han decide fazer reparos na colônia de mineração de Lando Calrissian.
- Luke prevê que Han e Leia sofrerão em uma cidade nas nuvens e quer salvá-los. revelação
- Han tem dificuldade em pousar na colônia de Lando. Leia se preocupa com o passado conturbado de Han e Lando.
- Lando cumprimenta Han e os outros e eles discutem sobre o seu passado conturbado. Um stormtrooper oculto explode C-3PO. oponente/falso aliado
- Yoda e Kenobi imploram a Luke que não interrompa seu treinamento. Luke promete voltar após salvar seus amigos. ataque do aliado
- A Falcon está quase consertada. Leia se preocupa com o desaparecimento de C-3PO.
- Chewbacca encontra C-3PO no lixo. Lando flerta com Leia.
- Lando explica suas operações a Han e Leia e depois leva a dupla desavisada até Darth Vader.
- Luke se aproxima da colônia de mineração. ofensiva
- Em uma cela, Chewbacca conserta C-3PO.
- Vader promete dar o corpo de Han ao caçador de recompensas. Lando reclama sobre as mudanças no acordo deles. plano e ataque do oponente
- Lando explica o arranjo a Han e Leia. Han o ataca e Lando diz que fez o melhor que pôde.
- Vader inspeciona uma câmara de congelamento em carbono destinada a Luke e promete testá-la primeiro em Han. plano do oponente
- Luke se aproxima da colônia.
- Vader se prepara para congelar Han. Leia diz a Han que o ama. Han sobrevive ao processo de congelamento. ataque do oponente
- Luke luta contra os stormtroopers. Leia avisa Luke sobre a armadilha. Luke explora uma passagem.
- Luke encontra Vader na câmara de congelamento em carbono e eles duelam com sabres de luz. batalha
- Os homens de Lando libertam Leia, Chewbacca e C-3PO. Lando tenta explicar o apuro em que estivera e eles correm para salvar Han.
- O caçador de recompensas leva o corpo de Han para sua nave e vai embora. Os rebeldes lutam contra os soldados imperiais.
- Luke e Vader continuam o duelo. Luke escapa da câmara de congelamento. O ar pressurizado puxa Luke para a tubulação de ar. batalha
- Lando e os outros se dirigem à Falcon. Ele ordena uma evacuação da cidade. Eles escapam na Falcon.
- Luke luta contra Vader na passarela da tubulação de ar. Vader revela sua identidade a Luke. Luke rejeita o lado sombrio e cai. batalha e autorrevelação
- Leia sente o grito de socorro de Luke. Chewbacca pilota a Falcon de volta à colônia para resgatar Luke. Caças TIE se aproximam.
- O almirante confirma que desativou o hiperdrive da Falcon. Vader se prepara para interceptá-la.
- Luke se pergunta por que Kenobi nunca lhe contou sobre seu pai. R2-D2 conserta o hiperdrive e a Falcon escapa.
- Vader observa a Falcon desaparecer.
- Lando e Chewbacca prometem salvar Han de Jabba, o Hutt. Luke, Leia e os droides os observam partir. novo equilíbrio
TRANÇADO DE CENAS – HISTÓRIA DE AMOR
- Orgulho e preconceito
(romance de Jane Austen, roteiro de Aldous Huxley e Jane Murfin, 1940)
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Na primeira cena após o título, os escritores apresentam imediatamente a linha de desejo: encontrar um marido. Isso dá à história uma linha na qual os escritores poderão, então, descrever o mundo (cenas 3 a 6). |
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Então, no baile (cenas 7 a 11), voltamos a estabelecer a espinha principal da história de amor entre a heroína Lizzy e Darcy. Mas, ao dar cinco filhas à família, os escritores também entrelaçam cinco subtramas (das quatro filhas e de Charlotte), para comparar mulheres e como elas encontram um marido. Uma técnica parecida é usada em Núpcias de escândalo, filme em que uma mulher deve escolher entre três pretendentes. As cinco subtramas dão à história uma imensa densidade e textura, sem prejuízo do divertimento. Na verdade, as subtramas são uma grande parte do que deleita o público no filme. Os espectadores gostam de ter pequenos momentos para cada um dos personagens secundários que refletem o mesmo problema enfrentado pelos protagonistas. |
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Há outra grande vantagem nesse trançado de cenas: estabelecer o mundo, a linha da heroína e as cinco subtramas propicia mais tarde uma sucessão densa de revelações. Essa quantidade de revelações é rara e bem-vinda em uma história de amor, que muitas vezes sofre pela falta de trama. O melhor de tudo (para o público) é que o uso das cinco filhas e a subtrama de cada uma permite aos escritores terminar essa história de amor cômica com não apenas um casamento, mas vários, incluindo um que não dá certo. |
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Assim que estabelecem o mundo, os escritores explicam a lógica na qual esse sistema se baseia: a propriedade passa para um herdeiro homem, então as mulheres precisam ter um bom casamento. Essa lógica determina todas as linhas, então os escritores criam uma série de personagens diferentes para compará-los. Com a srta. Bingley e Charlotte, a oponente e aliada da heroína, comparam-se as mulheres; com o sr. Wickham e o sr. Collins, os pretendentes. Note que as comparações começam na primeira festa (cenas 7 a 11). |
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A festa também é o momento em que os escritores apresentam uma forte oposição inicial entre os futuros amantes, Lizzy e Darcy (cenas 8, 10 e 11). Mas, em vez de desenvolvê-la, interrompem essa linha e desenvolvem a subtrama 1, entre a irmã Jane e o sr. Bingley (cenas 12 a 15). Ao focarem a subtrama, permitem que Lizzy tenha mais tempo para conhecer Darcy, mas ainda mantêm a oposição entre os dois (cena 17). |
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Então, entra a linha do segundo pretendente competidor, o sr. Collins, que é também um oponente de toda a família, já que vai herdar a propriedade deles (cena 18). Ele é um tolo enfadonho, o que acentua o conflito central de Lizzy e das outras mulheres nesse mundo, que é a necessidade de se casar bem (mesmo se o homem for entediante) versus o desejo de se casar por amor. |
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A segunda festa (cenas 20 a 23) permite que os escritores fechem em um nó apertado uma série de linhas: Darcy com os pretendentes rivais, Wickham e sr. Collins, uma discussão moral entre Lizzy e Darcy, a subtrama 1 com Jane e Bingley, a oponente feminina (srta. Bingley) e as subtramas com as irmãs de Lizzy, que se tornam uma oposição à medida que elas a envergonham diante de Darcy. Essa é uma cena importantíssima, na qual a comunidade e todos os personagens estão juntos |
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O rompimento na subtrama 1 entre Bingley e Jane (cenas 26 e 28) é seguido por outra derrota aparente para Lizzy (cena 29): o casamento entre sua melhor amiga e aliada, Charlotte, e seu segundo pretendente, o tolo sr. Collins (subtrama 5). |
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Em seguida vem a revelação surpreendente: Darcy expressa seu amor por Lizzy e a pede em casamento (cena 36). Isso é seguido por um rompimento (embora o relacionamento jamais tivesse começado) porque ambos ainda sofrem de suas fraquezas psicológicas e morais de orgulho e preconceito. O trançado conclui uma densa série de revelações começando pela revelação ao público de que Wickham é, na verdade, um oponente (cena 37), que Darcy é bom (cena 38), a revelação da heroína de que ama Darcy (cena 38), o casamento da subtrama entre Wickham e a irmã Lydia (cena 41), o "casamento" da subtrama 1 entre Jane e Bingley (cena 45), o "casamento" da heroína com Darcy (cena 45) e a promessa de casamento para as filhas das subtramas 3 e 4 (cena 47). Essa é a série ciclônica de revelações que mencionei quando falei da trama em Tootsie. Esse tipo de densidade de trama é rara em histórias de amor, e é um grande diferencial. |
TRANÇADO DE CENAS – FANTASIA SOCIAL
- A felicidade não se compra
(conto "The Greatest Gift", de Philip Van Doren Stern, roteiro de Frances Goodrich, Albert Hackett e Frank Capra, 1946)
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Os escritores começam com um narrador (um anjo) no céu falando sobre um momento de crise para o herói (cena 1). Isso lhes permite apresentar toda a arena da história – a cidade – e começar com intensidade dramática. Também lhes dá permissão para voltar e explicar o passado do herói, porque prometeram aos espectadores que serão recompensados com um grande drama mais tarde (o suicídio). Mais importante do que tudo, isso prepara o terreno para a recompensa fantasiosa no final da história, quando George pode ver como seria a cidade se nunca tivesse vivido. |
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A abertura guarda-chuva – que abarca uma cidade inteira – é seguida por uma série de cenas do herói quando criança (cenas 2 a 5). Elas não apenas definem o caráter essencial do herói, mas também dos habitantes principais da cidade. As cenas de infância também estabelecem uma rede complexa de conexões, tanto de personagens como de ação, que serão importantes na parte final da história. |
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O trançado de cenas então pula para o herói adulto, claramente afirmando seu desejo de deixar a cidade e conhecer o mundo (cena 6). Muitos personagens secundários aparecem como adultos agora (cenas 7 a 9), e o público vê como essas pessoas são essencialmente as mesmas que eram quando crianças. |
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Em seguida, vem uma sequência na qual cada cena possui o mesmo padrão: 1) O herói expressa seu desejo de partir. 2) A frustração o mantém na cidade. 3) Um segundo desejo conflitante o prende ainda mais à cidade. Por exemplo:
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Agora o trançado faz algo único: após uma sequência de cenas cobrindo quase três décadas, os escritores passam por cenas que cobrem um dia (cenas 26 a 34). Esses são os eventos que conduzem à crise mencionada na cena de abertura, o suicídio de George. Eles se concluem no momento em que o voice-over do anjo começou, quando os escritores entregam a emoção prometida na abertura (cena 34). |
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Em seguida vem a sequência de cenas-chave da história: Clarence vai mostrar a George um presente alternativo e uma cidade alternativa que existiria se George nunca tivesse vivido (cenas 35 a 42). É aqui que compensa ter investido tempo para estabelecer o mundo ficcional – a conexão de George com os habitantes da cidade. |
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Os escritores apresentam uma série de revelações rapidamente quando George vê todos os personagens secundários em sua forma mais negativa (cenas 37, 39, 40 e 42). Ele e o público também veem a importante rede de conexões que George formou. |
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A história termina com George de volta ao presente, mas feliz, apesar do fato de que ainda perdeu todo aquele dinheiro. A rede de conexões de George o recompensa novamente quando a cidade oferece ajuda (cenas 43 a 45). |
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Esse trançado de cenas aproveita ao máximo os grandes contrastes sociais nos quais a fantasia social se baseia. A sequência geral é densa e a justaposição de cenas é excelente. |