A tirania do produto final
Durante o curso de escrita que dou há muitos anos na New School, em Manhattan, os alunos não raro me dizem ter tido uma boa ideia para um texto que se encaixaria perfeitamente na New York ou na Sports Illustrated. Isso é o que eu menos gosto de ouvir. Eles já conseguem até mesmo visualizar o seu trabalho impresso: o título, a diagramação, as fotografias e, acima de tudo, o crédito do autor do texto. Só o que falta é escrever o artigo.
Essa fixação pelo artigo concluído gera muitos problemas para os autores, desviando-os das decisões iniciais básicas que precisam tomar para definir o seu escopo, sua voz, seu conteúdo. É um problema bem americano. Nossa cultura valoriza sempre o resultado vitorioso: o campeonato da liga, a nota mais alta no exame. Os treinadores são pagos para vencer, os professores são valorizados de acordo com a colocação de seus alunos nas melhores faculdades. Conquistas menos glamorosas obtidas ao longo do caminho — o aprendizado, a sabedoria, o crescimento, a confiança, o saber lidar com o fracasso — não merecem o mesmo respeito porque não podem ser medidas.
Para os escritores, a vitória está no tamanho do cheque. Em palestras sobre o ofício da escrita, a pergunta feita com mais frequência a autores profissionais é: “Como se faz para vender um texto?”. É a única pergunta a que eu não respondo, em parte por não ser qualificado para isso — não faço ideia do que os editores procuram no mercado hoje em dia; até gostaria de saber. Mas não respondo principalmente porque não tenho interesse em ensinar os escritores a vender seus textos. O que quero é ensiná-los a escrever. Se esse processo caminha bem, o produto andará por si, e provavelmente a venda acontecerá.
Essa é a premissa do meu curso na New School. Fundada em 1919 por intelectuais liberais com o nome de New School for Social Research, desde então ela se tornou uma das instituições de ensino mais vibrantes da cidade. Gosto de dar aulas ali porque sinto muita empatia pelo seu papel histórico: prover informação que ajude pessoas adultas a seguirem em frente na vida. Gosto de ir de metrô para as minhas aulas noturnas e de integrar a multidão de homens e mulheres que entram no prédio ou saem das aulas recém-terminadas.
Dei ao meu curso o nome de “Pessoas e lugares” porque são dois aspectos que, juntos, compõem o coração do texto narrativo. Entendo que, concentrando-me nesses dois elementos, posso ensinar muitas das coisas que os autores de não ficção precisam saber: como situar em um determinado local aquilo que pretendem escrever e como fazer com que as pessoas que vivem nesse local falem sobre aquilo que faz — ou fez — dele algo especial.
Mas com isso eu também pretendia fazer uma experiência. Como editor e escritor, descobri que a técnica menos falada e mais subestimada da escrita não ficcional é como organizar um texto longo: como reunir todas as peças do quebra-cabeça. Escritores costumam falar sem parar sobre como escrever uma frase clara. Mas peça-lhes que façam alguma coisa mais longa — um artigo ou um livro —, e as suas frases se espalharão pelo chão como bolas de gude. Todo editor de um texto longo conhece aquele momento sinistro do caos irreversível. De olho apenas na linha de chegada, o escritor nunca dá a devida atenção a como cumprir o percurso propriamente dito.
Sempre me perguntei como fazer para afastar os escritores dessa fascinação pelo ato finalizado da escrita. E, subitamente, tive uma ideia radical: eu faria um curso de escrita no qual não haveria obrigação de escrever.
Na primeira aula, minha classe reunia — como sempre — 24 adultos, entre os vinte e os sessenta anos, em sua maioria mulheres. Alguns eram jornalistas que trabalhavam para jornais, redes de televisão locais ou revistas especializadas. Na maior parte, eram pessoas que exerciam profissões variadas, mas queriam aprender a escrever para conferir um sentido à vida delas: descobrir quem realmente eram naquele momento, quem haviam sido antes e com que patrimônio vieram ao mundo.
Dediquei a primeira parte a nos apresentar uns aos outros e a expor alguns princípios da escrita sobre pessoas e lugares. Ao final, afirmei: “Na próxima semana, quero que venham aqui preparados para falar sobre algum lugar importante para vocês e sobre o qual gostariam de escrever. Cada um de vocês nos dirá por que quer escrever sobre esse lugar e como pretende escrever sobre ele”. Nunca gostei, como professor, de ler os textos dos alunos em voz alta, a não ser que fossem excepcionalmente bons; as pessoas são muito suscetíveis em relação ao que escrevem. Mas calculava que elas não se sentiriam tão constrangidas se apenas dissessem o que estavam pensando. Os pensamentos não têm o comprometimento da palavra impressa; sempre podem ser alterados, reformulados ou abandonados. No entanto, eu não fazia ideia do que poderia acontecer.
Na semana seguinte, a primeira voluntária a falar foi uma jovem que disse que gostaria de escrever sobre a sua igreja, no lado norte da Quinta Avenida, onde recentemente acontecera um incêndio de proporções significativas. Embora já tivesse voltado a ser frequentada, suas paredes estavam enegrecidas, as madeiras carbonizadas, e tudo cheirava a fumaça. A moça achava tudo aquilo muito perturbador e gostaria de expor o que o incêndio havia significado para ela como membro da igreja e para a própria igreja. Perguntei-lhe o que ela se propunha a escrever. Ela disse que poderia entrevistar o pastor ou o organista, ou os bombeiros, talvez o sacristão ou o mestre de coro.
“Você está dando cinco boas ideias para textos a serem feitos por Francis X. Clines”, eu disse, referindo-me a um repórter do New York Times que escreve bem e de forma vívida sobre assuntos locais. “Mas elas não são boas o bastante para você, nem para mim, nem para este curso. Quero que você vá mais fundo. Quero que você estabeleça alguma ligação entre você mesma e o lugar sobre o qual está escrevendo.”
A jovem perguntou que tipo de texto eu tinha em mente. Respondi que relutava em lhe dar uma sugestão porque a ideia do curso era pensarmos coletivamente a respeito de possíveis soluções. Mas, como ela era a nossa primeira cobaia, eu faria uma tentativa. “Quando você for à igreja nas próximas semanas“, eu disse, “simplesmente fique sentada ali e pense no incêndio. Depois de três ou quatro domingos, a própria igreja acabará mostrando a você o que esse incêndio significou.” E acrescentei: “Deus fará com que a igreja diga a você o que o incêndio significou”.
Houve uma pequena agitação na classe; os americanos são muito sensíveis a qualquer menção à religião. Mas os alunos logo entenderam que eu não estava brincando e, a partir desse momento, levaram a minha ideia a sério. A cada semana um dos presentes convidava os demais a conhecerem algo da sua vida, contando-nos alguma coisa sobre algum lugar relacionado aos seus interesses ou que despertou suas emoções e tentando definir como ia escrever sobre ele. Na primeira metade da aula, eu ensinava aspectos do ofício e lia trechos de autores de não ficção que haviam solucionado questões com as quais os alunos estavam se defrontando. A outra metade da aula era o nosso laboratório: uma mesa de dissecação de problemas de organização de texto encontrados por escritores.
O maior problema, de longe, era como compactar o texto: como extrair uma narrativa coerente de uma massa enorme e confusa de experiências, sentimentos e memórias. “Quero escrever um artigo sobre o desaparecimento das pequenas cidades do Iowa”, disse uma das mulheres, descrevendo como o tecido social no Meio-Oeste havia se esgarçado desde o tempo em que ela era criança na fazenda de seus avós. Era um bom tema, bastante válido para a história social. Mas ninguém consegue escrever um artigo decente sobre o desaparecimento das pequenas cidades do Iowa; seria algo muito genérico, sem toque humano. A autora deveria escrever sobre uma pequena cidade do Iowa e abordar a sua história mais ampla por essa via; ainda assim, talvez se visse levada a fechar o foco ainda mais: uma loja, uma família ou um fazendeiro. Conversamos sobre diversas abordagens possíveis, e, gradualmente, a autora foi pensando na sua história dentro de uma escala mais humana.
Fiquei impressionado com a frequência com que os tateios de meus alunos acabavam levando a uma súbita revelação do caminho apropriado, então evidente para todos na sala de aula. Um homem disse que gostaria de tentar escrever um texto sobre a cidade onde viveu um período e que pensava em arriscar uma possível abordagem: “Eu poderia escrever sobre X”. X, no entanto, não era interessante, nem mesmo para ele, pois não tinha nada que o distinguisse, da mesma forma que Y e Z, e P, Q e R, e o escritor continuava trazendo à tona fragmentos de sua vida, quando, quase acidentalmente, resvalou em M, uma lembrança soterrada, que não parecia ser muito importante, mas que era incontestavelmente verdadeira, reunindo em um único acontecimento tudo aquilo que o havia levado a querer escrever sobre a cidade. “É a sua história”, disseram várias pessoas na sala; e era isso mesmo. O estudante se dera o tempo necessário para descobri-lo.
Essa libertação do imediato era o que eu queria introduzir no metabolismo dos meus alunos. Eu lhes disse que, se quisessem realmente escrever os seus textos, eu me sentiria feliz em lê-los, mesmo que me enviassem depois do final do curso, mas que o meu maior interesse era outro. O meu maior interesse residia no processo, não no produto final. Inicialmente, isso gerou certo desconforto. Assim são os eua. Não era só uma questão de querer algum tipo de validação; tratava-se de um direito nacional. Alguns poucos me procuraram reservadamente, de forma quase furtiva, como se quisessem compartilhar comigo um segredo vergonhoso, e disseram: “Sabe, esse é o único curso de texto que eu já fiz que não é voltado para o mercado”. É uma afirmação deprimente. Mas, depois de algum tempo, eles descobriram como é libertador se livrar de um prazo prefixado de entrega do texto, que sempre fora o seu maior monstro nos anos de escola, faculdade e pós-graduação (“é preciso entregar o texto até sexta-feira”), sempre insaciável. Eles se soltaram e passaram a se divertir procurando diferentes caminhos para chegar aonde queriam chegar. Alguns desses caminhos funcionavam, outros não. O direito de fracassar era libertador.
Relatei de passagem a experiência desse curso em uma oficina com professores do ensino fundamental e médio. Não esperava, necessariamente, que eles a considerassem pertinente para alunos daquela faixa etária — adolescentes com bem menos lembranças e vínculos do que os adultos. Mas eles me pediram mais detalhes. Quando perguntei por que eles tinham se interessado tanto, explicaram: “Você nos inspirou um novo esquema de tempo de trabalho”. Com isso, queriam dizer que o sistema tradicional de deveres relacionados à produção de textos em curto prazo talvez fosse uma tradição que os professores seguiam há muito tempo sem submetê-la a um necessário questionamento. Começaram, então, a refletir sobre os deveres relacionados à escrita que poderiam propiciar mais espaço aos seus alunos e que poderiam ser avaliados a partir de diferentes expectativas.
A metodologia do meu curso — pensar em um lugar específico — é apenas um recurso de ordem pedagógica. O meu verdadeiro propósito era imprimir uma nova mentalidade nos escritores, que eles pudessem aplicar em qualquer projeto a partir dali, permitindo-se o tempo que fosse necessário para a sua execução. Para um dos meus alunos, um advogado com trinta e tantos anos, essa jornada levou três anos. Um dia, em 1996, ele me ligou para dizer que finalmente tinha conseguido domar o tema cujos problemas de organização ele havia exposto em sala de aula em 1993. Queria saber se eu não queria dar uma olhada no resultado.
O que chegou a mim foi um manuscrito com 350 páginas. Devo confessar que uma parte de mim não tinha a menor vontade de receber um manuscrito com 350 páginas. Mas uma parte maior de mim se sentia encantada com o fato de que o processo que eu tinha desencadeado avançara até a sua conclusão. Estava também curioso para saber como o advogado havia resolvido os seus problemas, pois eu me lembrava muito bem deles.
O lugar sobre o qual ele queria escrever, como nos disse em sala de aula, era a cidade no interior do estado de Connecticut onde ele havia nascido, e o seu tema era o futebol. Quando garoto, ele jogava no time da escola e fez uma amizade muito forte com outros cinco meninos que gostavam desse esporte tanto quanto ele, e agora queria escrever sobre essa experiência de união e a gratidão que tinha pelo futebol por ter lhe permitido vivê-la. Eu disse que era um bom tema para um escritor: memórias.
Os laços entre os meninos eram tão fortes, contou-nos o advogado, que os seis, já profissionais adultos, ainda eram ligados — continuavam a se encontrar regularmente — e ele também queria escrever sobre essa experiência e sobre o seu reconhecimento a essas amizades duradouras. Eu disse que isto também era um bom tema: um ensaio pessoal.
Mas havia mais. O advogado também queria escrever sobre a situação atual do futebol. As bases do esporte que ele conheceu tinham sofrido erosões por causa das mudanças sociais. Entre outras perdas, disse ele, está o fato de que os jogadores já não se trocam mais no vestiário; eles vestem seus uniformes em casa, vão de carro até o campo e depois voltam para casa. A ideia do advogado era atuar voluntariamente como técnico de futebol na sua antiga escola e escrever sobre o contraste entre o passado e o presente. Este era mais um bom tema: reportagem investigativa.
Gostei de ouvir as histórias do advogado. Elas me conduziam para dentro de um mundo que eu não conhecia, e a sua afeição por esse mundo exercia um forte poder de atração. Mas eu também sabia que ele tinha tudo para ficar louco, e disse isso a ele. Ele não tinha como abrigar todas essas histórias sob um mesmo teto; precisaria escolher uma delas, com uma unidade própria. No fim das contas, ele acabou colocando todas elas sob um mesmo teto, mas a casa teve de ser ampliada enormemente e o trabalho levou três anos.
Depois de eu ler o seu manuscrito, que se intitulava The Autumn of Our Lives [O outono de nossas vidas], ele me perguntou se eu achava que o texto era bom o suficiente para ser publicado. Ainda não, eu disse; precisava ser reescrito mais uma vez. Talvez ele simplesmente não quisesse fazer mais esse esforço. O advogado pensou um pouco e disse que, já que fora tão longe naquela viagem, faria, sim, uma tentativa.
“Mas, mesmo que ele nunca seja publicado”, disse ele, “fiquei feliz por ter feito isso. Não consigo nem exprimir quanto isso foi importante para mim — quanto foi gratificante ter escrito sobre o que o futebol representou na minha vida”.
Duas palavras finais me ocorrem agora. A primeira é busca. A segunda, intenção.
A busca é um dos componentes mais antigos da arte de narrar, um ato de fé sobre o qual nunca nos cansamos de ouvir. Olhando para trás, percebo que muitos alunos da minha turma, instados a pensar sobre um lugar que tivesse sido importante para eles, usaram esse esforço para empreender a busca por algo mais profundo do que o lugar em si: um sentido, uma ideia, um pedaço de seu passado. O resultado foi que as aulas sempre possuíam uma dinâmica bastante acolhedora para um grupo de estranhos. (Algumas turmas até promoviam pequenas reuniões.) Cada busca pessoal em que um aluno embarcava encontrava eco em alguma busca ou aspiração de outros. Moral da história: sempre que puder contar uma história sob a forma de uma busca ou de uma peregrinação, você se dará bem. Adicionando ao texto as suas próprias associações, os leitores farão uma boa parte do trabalho por você.
A intenção é aquilo que queremos com o nosso texto. Você pode chamar isso de a alma do escritor. Podemos escrever para afirmar algo ou para celebrar algo, ou podemos escrever para desmascarar ou destruir; a escolha é de cada um. A destruição é um tipo de jornalismo que vem sendo adotado há muito tempo, gratificando o bisbilhoteiro, o criador (ou criadora) de casos e o invasor de privacidades. Mas, seja como for, ninguém pode nos obrigar a escrever algo que não queremos escrever. É preciso preservar a intenção. Escritores de não ficção frequentemente esquecem que não são obrigados a aceitar tarefas duvidosas, fazer o trabalho sujo para editores que têm uma agenda própria — vender um produto meramente comercial.
Escrever tem a ver com caráter. Se os seus valores são sólidos, o seu texto será sólido. Isso começa com a intenção. Procure enxergar o que quer fazer e como pretende fazê-lo, e trabalhe do seu jeito, com sensibilidade e integridade, até a conclusão do texto. Aí sim você terá alguma coisa para vender.