• Ivan Milazzotti
    Como escrever bem
    17-07-2025 19:15:01
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Palavras

Há um tipo de escrita que pode ser chamado de jornalês e representa o fim de todo frescor, qualquer que seja o estilo. É a moeda corrente de jornais ou revistas como People — uma mistura de palavras vulgares, palavras inventadas e chavões tão difundidos que dificilmente um escritor consegue evitar o seu uso.

Você precisa combater essas frases, caso contrário soará como um escrevinhador qualquer. Você nunca deixará a sua marca como escritor se não desenvolver o respeito pelas palavras e uma curiosidade quase obsessiva em relação aos vários matizes de seus significados. Toda língua é rica em palavras fortes e flexíveis. Invista tempo em revolver bastante o terreno e encontrar aquelas que você quer.

O que é jornalês? É uma colcha de palavras correntes remendada com outras de outros discursos. Adjetivos são usados como substantivos (“os famosos”). Substantivos dão origem a verbos inusitados (“impactar”, “pedagiar”) ou são mutilados para formar verbos (“impeachar”, “googlar”). É um mundo onde pessoas eminentes são “celebridades” e seus assistentes são “o staff”, onde o futuro está sempre “por vir” e alguém está sempre “despejando” anotações no papel.

A seguir, o texto de uma afamada revista noticiosa que é difícil de ser igualado em termos de cansaço:

Em fevereiro passado, vestido à paisana, o policial Frank Serpico bateu à porta de um suspeito de tráfico de heroína no Brooklyn. Quando uma fresta se abriu, Serpico abriu caminho apenas para acabar sendo atingido pela bala de uma pistola calibre 22 carregada que explodiu em seu rosto. De alguma forma, ele sobreviveu, embora ainda haja estilhaços zunindo em sua cabeça, causando tonturas e surdez permanente no ouvido esquerdo. Quase tão dolorosa quanto é a suspeita de que ele pode ter sido alvejado por outros policiais. Pois Serpico, 35 anos, vinha travando uma guerra solitária nos últimos quatro anos contra a endêmica e rotineira corrupção que ele e outros afirmam ser frequente no departamento de polícia da cidade de Nova York. Seus esforços estão agora deixando os famosos de Nova York com um frio na espinha [...]. Embora o impacto do relatório que está previsto sobre o caso ainda precise ser sentido, Serpico tem poucas esperanças de que [...].

O impacto do relatório que está previsto ainda precisará ser sentido porque o relatório ainda está por vir, e quanto à surdez permanente, ainda é um pouco cedo para dizer alguma coisa. E o que faz esses estilhaços zunidores zunirem? Até o momento, só a cabeça de Serpico é que poderia estar zunindo. Mas, deixando de lado essas negligências para com a lógica, o que torna esse texto tão cansativo é a incapacidade do autor de se livrar do mais absoluto clichê. “Abriu caminho”, “explodiu em seu rosto”, “travando uma guerra solitária”, “corrupção frequente”, “deixando com um frio na espinha”, “os famosos de Nova York” — essas expressões horríveis traduzem a escrita em seu nível mais banal. Sabemos exatamente o que esperar. Nenhuma surpresa nos aguarda sob a forma de alguma palavra incomum, algum olhar indireto. Estamos nas mãos de um escrevinhador e sabemos exatamente por onde ele seguirá. Interrompemos a leitura.

Não caia em uma situação dessas. O único caminho para evitá-la é uma atenção profunda às palavras. Se você se pegar escrevendo que uma pessoa vivenciou recentemente uma sequência de enfermidades ou que uma empresa vivenciou uma queda repentina, pergunte-se quanto eles vivenciaram mesmo isso. Observe as decisões que outros escritores tomam na escolha das palavras e seja exigente na seleção que você mesmo fará entre a infinidade de palavras disponíveis. A disputa, na escrita, não é pelo primeiro lugar, mas pela originalidade.

Adquira o hábito de ler o que se escreve atualmente e o que foi escrito pelos antigos mestres. Escrever é algo que se aprende por imitação. Se alguém me perguntasse como foi que eu aprendi a escrever, eu responderia que aprendi lendo autores que produziam o tipo de texto que eu queria escrever e tentando imaginar como eles faziam. Mas cultive os melhores modelos. Não parta do princípio de que um texto é bom apenas porque foi publicado em um jornal ou em uma revista. O desleixo na edição é algo comum nos jornais, muitas vezes por falta de tempo, e os autores que usam clichês frequentemente trabalham para editores que já viram tantos clichês que nem mesmo os identificam mais.

Adquira também o hábito de usar dicionários. Meu favorito para uso diário é o Webster’s New World Dictionary, segunda edição para universidade, embora, como todos os maníacos por palavras, eu também tenha dicionários maiores que me dão boas recompensas quando devo realizar alguma pesquisa mais especializada. Se você tem alguma dúvida sobre o significado de uma palavra, consulte o dicionário. Aprenda a sua etimologia e observe as curiosas ramificações originadas a partir da raiz dessa palavra. Veja se ela tem algum significado que você ignorava. Conheça a fundo as mais sutis diferenças entre palavras que parecem ser sinônimas. Qual é a diferença entre “lisonjear”, “adular”, “bajular” e “incensar”? Tenha um dicionário de sinônimos.

E não subestime aquele volume bojudo e amassado do velho Roget’s Thesaurus.5 É fácil pensar nesse livro como algo hilariante. Pegue a palavra villain [vilão], por exemplo, e você acompanhará todo tipo de malandragem que só um lexicógrafo poderia resgatar de séculos de iniquidade, perversidade, depravação, safadeza, devassidão, fraqueza, atrocidade, infâmia, imoralidade, corrupção, malvadeza, maldade, contumácia e pecado. Você encontrará rufiões e gente da ralé, canalhas e malfeitores, patifes e malandros, arruaceiros e desordeiros, biltres e tratantes, salafrários e imprestáveis, perversos e degenerados. Você encontrará adjetivos para classificar todos eles (torpe e diabólico, execrável e demoníaco), advérbios e verbos para descrever como os maldosos praticam o mal, além de referências cruzadas que remetem a outros tipos de venalidade e vício. Por isso, para ativar a memória, não existe amigo melhor para ter por perto do que o Roget’s. No mínimo, ele poupa o tempo que você gastaria para vasculhar seu cérebro — essa rede de ranhuras sobrecarregadas — à cata da palavra exata que está na ponta da sua língua, mas que você não consegue dizer. O Thesaurus é para o escritor aquilo que um dicionário de rimas é para um letrista de canções — algo que aponta todas as possibilidades de escolha —, e você deveria usá-lo sem hesitações. Se, depois de localizar o salafrário e o patife, você quiser saber a diferença entre eles, então procure o dicionário.

Ao escolher e ordenar as palavras, leve em conta também a sua sonoridade. Isso pode parecer um absurdo, pois, afinal, os leitores leem com os olhos. Mas a verdade é que eles ouvem o que estão lendo bem mais do que você imagina. Assim, aspectos como ritmo e aliteração são essenciais para cada frase. Um exemplo típico — talvez não o melhor, mas certamente o mais próximo — é o parágrafo precedente. Obviamente eu me deleitei ao definir a ordem de colocação dos meus rufiões e gente da ralé, meus desordeiros e arruaceiros, e meus leitores também se deleitaram com isso — bem mais do que se eu tivesse fornecido uma mera lista. Eles se deleitaram não apenas com o arranjo que fiz, mas também com o esforço feito para entretê-los. Mas não fizeram isso com os olhos. Estavam escutando as palavras em seu ouvido interno.

E. B. White trata do caso de forma convincente em The Elements of Style, um livro que todo autor deveria ler uma vez por ano, ao sugerir que se tente reordenar alguma frase que tenha sobrevivido a um ou dois séculos, como esta de Thomas Paine, que diz “Estes são tempos que desafiam a alma dos homens”:

Tempos como estes desafiam a alma dos homens.

Como é desafiador viver nestes tempos!

São tempos desafiadores para a alma dos homens.

Para a alma, estes são tempos desafiadores.

A frase original de Paine soa poeticamente, enquanto as outras quatro são como mingau de aveia — eis o mistério divino do processo criativo. Bons prosadores precisam ser um pouco poetas, sempre ouvindo aquilo que escrevem. E. B. White é um dos meus estilistas preferidos porque percebo estar diante de um homem que se preocupa com a cadência e as sonoridades da língua. Eu saboreio (com o ouvido) a conformação que as palavras adquirem ao formarem uma sentença. Procuro imaginar como, ao reescrever uma sentença, ele rearranja tudo para finalizá-la com uma expressão que vai ressoar por algum tempo, ou como ele escolhe palavra por palavra em busca de uma determinada ênfase emocional. É a diferença, digamos, entre “sereno” e “impávido” — uma tão suave e a outra tão altissonante.

Essas considerações sobre ritmo e sonoridade deveriam estar presentes em tudo o que você escrevesse. Se todas as suas frases se estendem na mesma cadência dura, que você mesmo sente como desagradável, mas não sabe como melhorar, leia-as em voz alta. (Eu escrevo meus textos totalmente de ouvido e leio tudo em voz alta antes de expô-los ao mundo.) Você começará a ouvir onde está o problema. Veja se consegue criar variações, invertendo a ordem de uma frase, substituindo uma palavra que tenha alguma fragilidade ou estranheza, alterando o comprimento das sentenças de modo a não permitir que todas elas pareçam ter saído da mesma máquina. Uma frase curta pode ter um efeito tremendo. Ela permanece ecoando no ouvido do leitor.

Lembre-se de que as palavras são a sua única ferramenta. Aprenda a usá-las com originalidade e carinho. E lembre-se também: alguém do outro lado está ouvindo.


5. Dicionário de ideias afins feito pelo britânico Peter Mark Roget e lançado em 1852. É publicado até hoje, com adaptações. (n.t.)