Unidade
Você aprende a escrever escrevendo. É um truísmo, mas o que faz disso um truísmo é o fato de ser uma verdade. A única maneira de você aprender a escrever é se obrigar a produzir certa quantidade de frases regularmente.
Se você começou a trabalhar em um jornal que exige que escreva dois ou três textos por dia, dentro de seis meses será um escritor melhor. Não estará, necessariamente, escrevendo bem; o seu estilo poderá ainda estar cheio de excessos e clichês. Mas estará exercitando a sua capacidade de colocar o idioma no papel, ganhando confiança e identificando os problemas recorrentes.
Toda escrita é, em última instância, um modo de resolver um problema. Pode ser um problema relacionado a como obter os dados ou como organizar o material reunido na apuração. Pode ser um problema de enfoque ou atitude, tom ou estilo. Seja como for, esse problema precisa ser enfrentado e solucionado. Às vezes você perderá a esperança de encontrar a solução adequada — ou qualquer solução. Pensará: “Mesmo com noventa anos nunca conseguirei arrumar essa bagunça”. Eu mesmo já pensei assim muitas vezes. Mas finalmente solucionei o problema porque sou como um cirurgião que precisa remover o seu quingentésimo apêndice; já tinha passado por isso.
O elemento crucial da boa escrita é a unidade. Então, antes de mais nada, organize cada coisa rigorosamente. A unidade não só impede o leitor de se dispersar em diferentes direções, mas também atende a uma necessidade subconsciente que ele tem de ordem e lhe garante que o leme está em boas mãos. Assim, escolha alguma das várias possibilidades e mantenha-se firme nela.
Uma das escolhas se refere à unidade do pronome pessoal. Você irá escrever na primeira pessoa, como um participante do enredo, ou na terceira pessoa, como um observador?
Outra escolha diz respeito à unidade de tempo verbal. A maioria das pessoas escreve principalmente no passado (“Fui a Boston outro dia”), mas algumas o fazem agradavelmente no presente (“Estou sentado no vagão-restaurante da Yankee Limited rumo a Boston”). O que não é agradável é ficar mudando de um para outro. Não quero dizer que não se possa usar mais de um tempo verbal; todo propósito da existência dos tempos verbais é possibilitar ao escritor que aborde o tempo em suas diversas gradações, do passado ao futuro hipotético (“Quando telefonei para minha mãe da estação de Boston, percebi que, se tivesse escrito para lhe contar que eu viria, ela teria esperado por mim”). Mas você deve escolher o tempo principal por meio do qual o seu leitor será conduzido, apesar dos olhares de relance que possa dirigir para trás ou para diante ao longo do caminho.
Outra escolha é a da unidade de tom. Você pode querer se dirigir ao leitor com uma voz informal como a que The New Yorker soube arduamente refinar. Ou você pode querer abordar o leitor com certa formalidade para descrever um acontecimento sério ou apresentar um conjunto de dados importantes. Os dois modos são admissíveis. Na verdade, qualquer tom é admissível. Mas não misture um com outro.
Essas misturas mortais são comuns em escritores que não aprenderam a ter controle do texto. Textos sobre viagens são um exemplo claro. “Minha mulher, Ann, e eu sempre quisemos conhecer Hong Kong”, começa o autor, com sua veia carregada de reminiscências, “e um dia, na primavera passada, estávamos olhando para um cartaz de uma companhia aérea e eu disse ‘Vamos para lá!’. As crianças já estavam crescidas”, continua ele, e se põe a descrever em detalhes vívidos como ele e sua esposa, depois de uma parada no Havaí, passaram maus bocados para trocar o dinheiro no aeroporto de Hong Kong e achar o hotel. Muito bem. Trata-se de uma pessoa real que nos conduz em uma viagem real, e nós nos identificamos com ele e com Ann.
De repente, o autor transforma o texto em um folheto de agência de viagens. “Hong Kong proporciona muitas experiências fascinantes para o curioso turista”, escreve. “Pode-se pegar a pitoresca balsa em Kowloon para passear embevecido em meio à miríade de sampanas que trafegam apressadas pela baía apinhada de embarcações, ou passear um dia da viagem perambulando pelas ruelas da lendária Macau com sua rica história de refúgio de contrabandistas e intrigas. Você vai querer pegar o exótico funicular que sobe...” Voltamos a ele e Ann e aos esforços de ambos para conseguir comer em restaurantes chineses, e então o texto novamente vai bem. Todo mundo se interessa por comida, e eles nos contam uma aventura pessoal.
Mas logo depois, subitamente, o autor se transforma em guia de viagem. “Para entrar em Hong Kong, é preciso ter um passaporte válido, mas não há necessidade de visto. Você deve com certeza se vacinar contra hepatite e seria aconselhável consultar o seu médico com relação a uma possível prevenção contra a febre tifoide. O clima em Hong Kong é ameno, conforme as estações, com exceção dos meses de julho e agosto, quando...” O nosso autor foi embora, assim como Ann, e por isso nós mesmos logo cairemos fora também.
Não que as sampanas apressadas e as doses de vacina contra a hepatite não devessem constar do texto. O que nos incomoda é que o autor nunca se decide sobre qual tipo de texto quer escrever ou como quer se dirigir a nós. Ele se mostra com diferentes caras, dependendo do tipo de conteúdo que tenta tratar. Em vez de controlar o seu conteúdo, o conteúdo é que o controla. Isso não aconteceria se ele investisse um pouco de tempo em estabelecer uma unidade.
Assim, antes de começar, faça a si mesmo algumas perguntas básicas. Por exemplo: “No papel de quem eu vou me dirigir ao leitor?” (Repórter? Provedor de informações? Um homem ou uma mulher comum?), “Qual voz e qual tempo verbal eu vou utilizar?”, “Qual estilo?” (Um relatório impessoal? Pessoal, mas formal? Pessoal e informal?), “Qual a minha postura em relação ao material disponível?” (Envolvimento? Distância? Opinativa? Irônica? Divertida?), “Quanto eu quero abranger com meu texto?”, “Qual ponto central eu quero enfatizar?”.
As duas últimas perguntas são particularmente importantes. A maior parte dos autores de não ficção sofre de um complexo do definitivo. Eles se sentem na obrigação — para com o assunto abordado, para com a sua honra, para com os deuses da escrita — de que o seu texto seja a palavra final sobre o tema. É um impulso louvável, mas acontece que não existe palavra final. O que você considera definitivo hoje deixará de ser definitivo nesta mesma noite, e escritores que perseguem obstinadamente todo e qualquer último dado acabarão por se ver, eles próprios, correndo atrás do arco-íris e nunca se sentando para escrever. Ninguém consegue escrever um livro ou um artigo “sobre” alguma coisa. Tolstói não podia escrever um livro sobre a guerra e a paz, nem Melville um livro sobre a caça às baleias. Eles tomaram algumas decisões redutivas sobre o tempo e o espaço e sobre os personagens que estariam naquele tempo e naquele espaço — um homem perseguindo uma baleia. Todo projeto de texto deve ser reduzido antes de você começar a escrever.
Por isso, pense pequeno. Escolha qual aspecto do seu tema você vai separar e contente-se com abordá-lo bem, e só. Isso é também uma questão de energia e moral. Um trabalho de redação difícil de manejar acabará por sugar o seu entusiasmo. Entusiasmo é a força que mantém você avançando e que segura o leitor em suas mãos. Quando o seu ânimo começa a arrefecer, o leitor é a primeira pessoa a perceber isso.
Com relação ao ponto central que você quer enfatizar, todo texto de não ficção bem-sucedido deveria provocar no leitor um pensamento que ele nunca teve. Não dois pensamentos, nem cinco — apenas um. Portanto, escolha qual questão você quer deixar na cabeça do leitor. Isso não só lhe dará uma ideia melhor do caminho a seguir e aonde quer chegar como também afetará a sua decisão sobre o tom e a postura. Algumas questões são mais bem colocadas por meio da seriedade; outras por uma tácita alusão; outras, ainda, por meio do humor.
Uma vez escolhidos os pilares que darão unidade ao seu texto, não existe conteúdo que não possa ser encaixado na moldura que você definiu. Se o turista de Hong Kong tivesse escolhido escrever apenas em tom pessoal sobre o que ele e Ann fizeram, ele teria encontrado uma maneira natural de introduzir na sua narrativa tudo o que quisesse nos dizer sobre a balsa de Kowloon e o clima local. Sua personalidade e sua intenção permaneceriam intactas, e o seu artigo se sustentaria muito bem.
Também acontecerá de você tomar essas decisões prévias e depois descobrir que elas estavam equivocadas. O material de que dispõe começa a levá-lo para uma direção inesperada, em que você se sente melhor escrevendo com outro tom. Isso é normal — o ato de escrever desperta um conjunto de reflexões e lembranças que você não havia antecipado. Não reme contra a corrente se sentir que mudar é melhor. Confie no seu material se ele o leva para um terreno em que você não pretendia entrar, mas onde as vibrações parecem positivas. Ajuste o seu estilo de acordo com isso e siga em frente, qualquer que seja o destino final. Não fique prisioneiro de um plano preestabelecido. Escrever não é construir com base em uma planta de engenharia.
Se isso ocorrer, a segunda parte do texto não conseguirá se encaixar bem com a primeira. Mas pelo menos você saberá qual parte corresponde mais verdadeiramente ao seu instinto. A partir daí, é só uma questão de fazer ajustes. Volte ao começo e o reescreva de maneira a fazer com que o tom e o estilo sejam os mesmos do começo ao fim.
Não há de que se envergonhar no uso desse método. Tesoura e cola — ou seus equivalentes em um computador — são ferramentas usadas pelos mais consagrados escritores. Apenas se lembre de que todas as unidades devem se ajustar ao edifício que você finalmente construiu, mesmo que tenham sido reunidas em um trabalho retroativo, caso contrário o conjunto logo desmoronará.