O lide e o final
A frase mais importante de qualquer texto é a primeira. Se ela não levar o leitor a avançar para a segunda frase, o seu artigo estará morto. E, se a segunda frase não o levar a passar para a terceira, o texto também estará morto. É a partir da progressão dessas frases, com cada uma empurrando o leitor para a seguinte até que ele seja fisgado, que o escritor forma este elemento decisivo: o “lide”.
De que tamanho deveria ser o lide? Um ou dois parágrafos? Quatro ou cinco? Não existe uma resposta pronta. Certos lides fisgam o leitor com algumas poucas frases bem chamativas; outros se prolongam por várias páginas, exercendo um lento porém firme poder de atração. Cada texto coloca um problema diferente, e o único teste válido é: funciona? O seu lide pode não ser o melhor de todos os lides possíveis, mas, se ele cumpre a função que deveria cumprir, agradeça e siga em frente.
Às vezes, a extensão pode depender do público para quem você escreve. Leitores de uma revista literária esperam que os autores iniciem os textos com alguma digressão e criarão um vínculo pelo prazer de especular aonde irá levar aquela prazerosa travessia em círculos rumo ao ponto central. Mas aconselho-o a não imaginar que o leitor ficará ali por muito tempo. Os leitores querem saber, rapidamente, o que encontrarão que seja de seu interesse.
Por isso, o seu lide deve ser capaz de capturar o leitor imediatamente e levá-lo a prosseguir na leitura. Deve agradar-lhe com o frescor do texto, com alguma novidade, algum paradoxo, pelo humor, pela surpresa, por uma ideia incomum, um fato interessante ou uma pergunta. Tudo pode funcionar, desde que atice a curiosidade e atraia a atenção.
Além disso, o lide deve ter uma função concreta. Deve prover detalhes contundentes que mostrem ao leitor por que aquele texto foi escrito e por que alguém deveria lê-lo. Mas não se alongue muito nisso. Seduza o leitor um pouco mais; mantenha-o curioso.
Prossiga na construção do texto. Cada parágrafo deve amplificar o precedente. Procure ir acrescentando mais detalhes concretos e menos o que é mera distração para o leitor. Mas cuide especialmente da última frase de cada parágrafo — trata-se do trampolim para o seguinte. Procure incluir nessa frase alguma pitada extra de humor ou surpresa, como os “fechos” que os comediantes de stand up utilizam repetidamente em suas apresentações. Provoque um sorriso no seu leitor e com isso você já o terá conquistado para pelo menos mais um parágrafo.
Vamos dar uma olhada em alguns lides que variam em ritmo, mas que se assemelham porque mantêm uma pressão constante. Começarei com duas colunas minhas publicadas na Life e na Look — revistas que, a julgar pelos comentários dos leitores, chegam a eles principalmente em barbearias, salões de beleza, aviões e consultórios médicos (“Estava cortando o cabelo outro dia e vi seu artigo”). Esse comentário serve para lembrar que a leitura regular ocorre muito mais debaixo de um secador do que de um abajur e, por isso, o autor não tem muito tempo para ficar dando voltas.
O primeiro é o lide de um texto intitulado “Block That Chickenfurter”:12
Muitas vezes me perguntei o que há dentro de um cachorro-quente. Agora eu sei, e preferia não saber.
Duas frases bem curtas. Mas fica muito difícil não querer ler o segundo parágrafo:
Meus problemas começaram quando o Departamento de Agricultura divulgou os ingredientes do cachorro-quente — tudo o que pode ser legalmente permitido — porque a indústria de aves lhe pedira que afrouxasse as condições para que o frango também pudesse ser incluído entre esses ingredientes. Em outras palavras, pode o frangofurter ser feliz na terra da frankfurter?
Uma frase que relata o incidente no qual o colunista se baseou. E, em seguida, um fecho cômico de parágrafo para retomar o tom suave.
A julgar pelas 1.066 respostas, principalmente hostis, que o departamento recebeu depois de distribuir um questionário sobre essa questão, a simples ideia de atender ao pedido parece impensável. O sentimento do público foi expresso com muita felicidade por uma mulher, que respondeu: “Não como nenhum tipo de pena”.
Mais um fato e mais um sorriso. Se você tiver a sorte de dispor de uma citação tão engraçada como essa, encontre um meio de utilizá-la. O texto, então, enumera o que o Departamento de Agricultura afirmava que podia compor um cachorro-quente — uma lista que incluía “a parte comestível do músculo de gado, carneiro, suíno ou bode encontrada no diafragma, no coração ou no esôfago [...] [mas não] os músculos encontrados nos lábios, focinho ou orelhas”.
A partir daí, o texto avança — não sem certo reflexo involuntário no esôfago — relatando a controvérsia entre os interesses dos produtores de aves e os de salsichas, e o fato de que os americanos comeriam qualquer coisa que pudesse lembrar, mesmo que remotamente, um cachorro-quente. Ao final, fica implícita uma questão mais importante: os americanos não sabem do que é feita a comida que ingerem, ou não se preocupam com isso. O estilo do texto continuou sendo informal, com toques de humor. Mas o conteúdo se revelou mais sério do que os leitores esperavam ao serem tragados para dentro dele por um lide engraçado.
Um lide mais extenso, atrativo ao leitor mais pela curiosidade do que pelo humor, abria o texto intitulado “Thank God for Nuts” [Agradeço a Deus pelos Malucos]:
De um ponto de vista racional, ninguém gostaria de ver duas vezes — ou nem sequer uma vez — uma gosmenta casca de olmo de Clear Lake, Wisconsin, terra natal do arremessador Burleigh Grimes, exposta no Museu Nacional de Beisebol e no Hall da Fama de Cooperstown, em Nova York. Como explica a legenda, era uma casca desse tipo que Grimes mastigava durante os jogos “para estimular a saliva com que ele umedecia a bola antes de arremessá-la. Quando umedecida, a bola fazia uma trajetória enganosa até a base”. Isso pode parecer um dos fatos de menor interesse nos eua atualmente.
Entretanto, os fãs do beisebol não podem ser julgados de um ponto de vista racional. Somos obcecados pelas minúcias do jogo e marcados pelo resto de nossas vidas pela lembrança dos jogadores que vimos atuar alguma vez. Por isso, nenhum item que nos reaproxime deles é descartável. Tenho idade suficiente para me recordar de Burleigh Grimes e seus arremessos bem umedecidos avançando de modo tortuoso para a base e, quando vi aquele pedaço de casca, fiquei a estudá-lo intensamente, como se estivesse diante da pedra de roseta. “Então, era assim que ele fazia”, pensei, observando aquela estranha relíquia botânica. “Olmo! Macacos me mordam!”
Esse foi apenas um dentre as centenas de encontros que tive com a minha própria infância enquanto passeava pelo museu. É provável que nenhum outro proporcione uma peregrinação tão pessoal rumo ao nosso passado...
O leitor, aqui, já foi fisgado com segurança, e a parte mais difícil do trabalho do escritor está terminada.
Um dos motivos para citar esse lide é observar que a salvação muitas vezes reside não no estilo do escritor, mas em alguns fatos peculiares que ele conseguiu descobrir. Eu fui a Cooperstown e passei uma tarde inteira no museu, fazendo anotações. Tomado pela nostalgia em cada sala, contemplei reverencialmente um armário de vestiário de Lou Gehrig e um bastão de Bobby Thomson usado em um jogo em que ele saiu vitorioso. Sentei em uma poltrona da tribuna de honra do estádio de Polo Grounds, enfiei a sola sem cravos do meu sapato na base principal de Ebbets Field e copiei cuidadosamente todas as legendas e etiquetas que pudessem ser úteis.
“Esta é a chuteira que tocou a base principal quando Ted concluiu sua jornada pelas bases”, dizia a legenda identificando o calçado usado por Ted Williams quando ele conseguiu um home run na última vez em que atuou como rebatedor. Essas chuteiras estavam em condições bem melhores do que o par — todo gasto e rasgado nas laterais — que pertenceu a Walter Johnson. Mas a legenda fornecia exatamente o tipo de justificativa que um louco por beisebol poderia querer. “Meu pé precisa estar bem confortável quando estou arremessando”, disse o grande Walter.
O museu fechou às cinco e fui para o hotel satisfeito com minhas lembranças e minha pesquisa. Mas o instinto me aconselhou a voltar ali na manhã seguinte para dar mais uma olhada, e foi só então que deparei com a casca de árvore de Burleigh Grimes, que me pareceu o lide ideal. E ainda parece.
Uma das lições dessa história é que você deve sempre reunir mais material do que vai utilizar. A força de um texto é proporcional à quantidade de detalhes dentre os quais pode escolher os poucos que servirão aos seus propósitos — isso, se você não ficar procurando dados para sempre. A certa altura, precisa parar de pesquisar e começar a escrever.
Outra lição é que deve procurar pelo seu material em todos os lugares, não apenas lendo as fontes óbvias e entrevistando as pessoas óbvias. Atente para as sinalizações, para os outdoors e toda aquela porcaria escrita ao longo das rodovias americanas. Leia os rótulos das embalagens e as instruções que acompanham os brinquedos, as bulas dos remédios e as pichações nos muros. Leia os pequenos anúncios, sempre tão cheios de autoestima, que transbordam nas suas mãos junto com os extratos da sua conta de luz, de telefone e do banco. Leia os cardápios, os catálogos e o que chegar pelo correio. Mergulhe nos espaços mais obscuros dos jornais, como os classificados de imóveis dos domingos — você pode deduzir a índole de uma sociedade pelo tipo de coisa que ela gosta de colocar no seu quintal ou jardim. A paisagem do nosso dia a dia é abundante em mensagens absurdas e presságios. Observe-os. Eles não só têm uma importância social como também, frequentemente, são estranhos o suficiente para compor um lide diferente de qualquer outro.
Por falar em lides alheios, há vários tipos que eu preferiria não encontrar mais, como aquele do futuro arqueólogo: “Quando algum arqueólogo topar no futuro com os vestígios de nossa civilização, como ele verá a jukebox?”. Ele nem está aqui, mas eu já me cansei dele. Também estou cansado do visitante de Marte: “Se um marciano aterrissasse em nosso planeta, ele ficaria espantado ao ver as multidões de terráqueos quase nus deitados na areia queimando a pele”. Estou cansado do gracioso evento que aconteceu do nada, “um dia, não muito tempo atrás”, ou em um conveniente sábado à tarde recente: “Um dia, não muito tempo atrás, um pequeno menino com nariz de batatinha estava passeando com seu cachorro, Terry, em um campo nos arredores de Paramus, Nova Jersey, quando viu alguma coisa que se parecia estranhamente com um balão subindo do solo”. E estou muito cansado do lide “têm em comum”: “O que tinham em comum Joseph Stálin, Douglas McArthur, Ludwig Wittgenstein, Sherwood Anderson, Jorge Luis Borges e Akira Kurosawa? Todos eles gostavam de filmes de faroeste”. Vamos deixar em paz o futuro arqueólogo, o marciano e o menino com nariz de batatinha. Tente colocar no seu lide uma percepção ou um detalhe mais vívidos.
Observe este lide de Joan Didion, em texto intitulado “Romaine 7.000, Los Angeles 38”:
O número 7.000 da rua Romaine fica em uma região de Los Angeles que é familiar para os admiradores de Raymond Chandler e Dashiell Hammett: a parte baixa de Hollywood, ao sul do Sunset Boulevard, um bairro pobre de classe média com “estúdios”, armazéns e casas geminadas para duas famílias. Como os estúdios da Paramount, Columbia, Desilu e de Samuel Goldwyn são próximos uns dos outros, muitas pessoas que moram naquela área têm alguma ligação com a indústria do cinema. Já revelaram fotos de fãs ou conheceram a manicure de Jean Harlow. O no 7.000 da Romaine parece a fachada desbotada de um cinema, é um edifício em tom pastel com detalhes de art moderne entalhados, as janelas agora seladas com madeira ou cobertas de vidros aramados e em cuja entrada, entre alguns canteiros mirrados de espirradeiras, se avista um tapete de borracha com os dizeres: bem-vindo.
Na verdade, ninguém é bem-vindo, pois o número 7.000 da Romaine agora pertence a Howard Hughes, e a porta está trancada. Que o “centro de comunicações” de Hughes esteja sob a lânguida luz do sol da região de Hammett e Chandler é uma dessas circunstâncias que confirmam a suspeita de muita gente de que a vida é realmente um roteiro de filme, pois o império de Hughes foi, naqueles tempos, o único complexo industrial do mundo — reunindo, ao longo dos anos, uma fábrica de máquinas, subsidiárias estrangeiras de autopeças, uma cervejaria, duas companhias aéreas, imobiliárias enormes, um importante estúdio de cinema e um negócio de eletrônicos e de projéteis — tocado por um homem cujo modus operandi mais se parece com o de um personagem de À beira do abismo.
Ocorre que moro não muito longe do no 7.000 da Romaine e vira e mexe passo por ali, creio que com o mesmo espírito com que estudiosos do rei Arthur visitam o litoral de Cornwall. Sou interessada nas histórias em torno de Howard Hughes...
O que nos puxa para dentro desse texto — a fim de, esperamos, dar uma espiada na maneira como Howard Hughes opera e ter alguma aproximação com o enigma da Esfinge — é a ininterrupta acumulação de fatos com páthos e um glamour desbotado. Conhecer a manicure de Jean Harlow é como ter uma relação minúscula com a glória, as boas-vindas não tão boas assim do tapete da entrada soam como uma relíquia excêntrica de uma era de ouro em que as janelas de Hollywood não eram cobertas com vidro aramado e o negócio era tocado por gigantes como Mayer, DeMille e Zanuck, que podiam realmente ser vistos no exercício de seu enorme poder. Queremos saber mais e lemos o texto.
Outra forma de abordagem é simplesmente contar uma história. É uma solução básica, tão óbvia e pouco sofisticada, que acabamos por esquecer que ela está à nossa disposição. Mas a narração é o método mais antigo e mais incisivo para reter a atenção de uma pessoa; todo mundo gosta de ouvir uma história. Procure sempre uma maneira de fornecer a sua informação de forma narrativa. Reproduzo a seguir o lide de um relato feito por Edmund Wilson sobre a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, uma das mais extraordinárias relíquias da Antiguidade encontradas nos tempos modernos. Não se trata do formato “do café da manhã à hora de dormir” usado por escritores inexperientes, em que uma viagem de pescaria começa com o som da campainha de um despertador antes de o dia nascer. Wilson vai direto ao ponto — e, opa, já estamos dentro:
Em um dia qualquer, bem no início da primavera de 1947, um garoto beduíno chamado Muhammed, o lobo, estava conduzindo algumas cabras perto de um rochedo na margem oeste do Mar Morto. Ao escalar um local para recuperar um dos animais que tinha se extraviado, ele percebeu no penhasco uma fenda que nunca tinha visto e, negligentemente, atirou uma pedra lá dentro. Ouviu, então, o som estranho de algo que se quebrava. Assustado, o menino saiu correndo. Mais tarde, porém, voltou ali com outro garoto e os dois entraram na caverna. Dentro, havia grandes jarros de barro, além de fragmentos de outros jarros. Quando tiraram as tampas daqueles objetos parecidos com enormes cumbucas, um cheiro horrível se espalhou pelo ar, proveniente dos embrulhos escuros em formato oblongo que encontraram dentro dos vasos. Quando levaram esses embrulhos para fora da caverna, viram que estavam envelopados com longos tecidos de linho e revestidos com uma camada preta de algo que parecia ser uma resina ou uma cera. Desenrolaram tudo aquilo e encontraram manuscritos, com inscrições feitas em colunas paralelas, em folhas finas costuradas umas às outras. Embora estivessem fragmentados e esmaecidos, esses manuscritos eram, no geral, extraordinariamente nítidos. O alfabeto, eles logo viram, não era arábico. Espantados com aqueles rolos, pegaram todos eles e levaram consigo.
Esses garotos beduínos faziam parte de um bando de contrabandistas que conduziam suas cabras e outras mercadorias às escondidas pela Transjordânia rumo à Palestina. Eles tinham se desviado bastante em direção ao sul a fim de evitar a ponte do Jordão, vigiada por oficiais da alfândega armados, e atravessado suas mercadorias pelas águas do rio. Agora, estavam a caminho de Belém para vender as suas tranqueiras no mercado negro...
Portanto, não há regras rígidas sobre como escrever um lide. Desde que respeite a regra mais geral de não deixar o leitor escapar, todo autor deve abordar o seu tema da maneira que combine mais naturalmente com o que ele vai escrever e consigo próprio. Às vezes, você pode contar toda a sua história em apenas uma frase. Veja a seguir as frases que abrem sete grandes livros de não ficção:
“No início, Deus criou o céu e a terra.”
(Bíblia)
“No verão do ano romano de 699, hoje descrito como o ano 55 antes do nascimento de Cristo, o procônsul de Gaul, Gaius Julius Caesar, voltou os olhos para os britânicos.”
(Uma história dos povos de língua inglesa, de Winston S. Churchill)
“Monte esse quebra-cabeça e você encontrará leite, queijo, ovos, carne, peixe, feijão e cereais, verduras, frutas e tubérculos — alimentos que contêm nossas necessidades diárias essenciais.”
(Joy of Cooking [A alegria de cozinhar], de Irma S. Rombauer)
“Para o Manus nativo, o mundo é uma grande bandeja, com bordas elevadas em todos os lados, que ele vê da laguna de seu vilarejo, onde as palafitas se distribuem como pássaros de longas pernas, placidamente, sem se abalar com o movimento das marés.”
(Crescendo na Nova Guiné , de Margaret Mead)
“O problema permanece enterrado, nunca mencionado, há muitos anos na mente das mulheres americanas.”
(A mística feminina, de Betty Friedan)
“Em cinco ou dez minutos, não mais do que isso, três pessoas haviam lhe telefonado para perguntar se ela tinha ouvido falar de alguma coisa ocorrida ali.”
(Os eleitos, de Tom Wolfe)
“Você sabe mais do que pensa que sabe.”
(Meu filho, meu tesouro, de Benjamin Spock)
Essas são algumas sugestões de como começar. Mas agora quero lhe falar sobre como concluir um texto. Você deve dedicar à escolha da frase final o mesmo empenho que dedicou à inicial. Bem, quase o mesmo.
Pode parecer difícil de acreditar. A tendência é achar que, se seus leitores se apegaram a você desde o início, acompanhando-o por todos os pontos cegos e terrenos acidentados, certamente não vão abandoná-lo quando o final já estiver à vista. Certamente vão, porque esse final que estiver à vista poderá transformar-se em uma miragem. Como o sermão de um sacerdote construído à base de uma série de conclusões perfeitas, mas que nunca se conclui, um texto que não para onde deveria parar se torna um peso e, por isso, fracassa.
A maioria de nós ainda é prisioneira das lições incutidas pelos professores de redação da nossa juventude: toda história deve ter um começo, um meio e um fim. Ainda podemos visualizar o esquema, com os seus algarismos romanos (i, ii, iii), que balizava a trilha que tínhamos de percorrer fielmente, junto com suas subdivisões (ii.a, ii.b), que indicavam caminhos laterais que exploraríamos apenas de passagem. Mas sempre nos comprometíamos a retornar para o iii e resumir a jornada. Isso funciona para alunos vacilantes do ensino fundamental e médio. Acaba por forçá-los a ver que cada texto precisa ter uma estrutura lógica em sua concepção. É uma lição válida, aliás, para qualquer idade — até mesmo escritores profissionais se perdem com mais frequência do que gostariam de admitir. Mas, se você pretende escrever não ficção de qualidade, precisa dar um jeito de escapar das garras terríveis do iii.
Você saberá que chegou a hora do iii quando vir surgindo na sua tela uma frase que começa com “Em suma, pode-se observar que...”. Ou uma pergunta do gênero “Quais reflexões podemos extrair então de...?”. São sinais de que você está prestes a repetir de forma condensada aquilo que já disse antes detalhadamente. O interesse do leitor começa a declinar; a tensão que você construiu começa a ceder. No entanto, você quer se manter fiel à senhorita Potter, sua professora, que o fez jurar fidelidade absoluta ao esquema sagrado. Então, você lembra para o leitor aquilo que deve ficar registrado. Vai reunindo, mais uma vez, pensamentos que já havia mencionado.
Mas, então, os seus leitores começam a ouvir aquele tortuoso som da manivela. Percebem o que você está fazendo e como você mesmo se aborrece com isso. Sentem crescer uma espécie de descontentamento. Por que não pensar melhor em como concluir a coisa? Ou você está fazendo um resumo de tudo por considerar que eles são burros demais para terem captado o ponto central e por isso continua a girar a manivela? Os leitores, porém, têm outra opção: simplesmente caem fora.
Essa é a razão negativa para recordar a importância da última frase. Não saber onde essa frase deve entrar pode destruir um texto que até antes de seu último momento vinha sendo construído com firmeza. A razão positiva para fechar bem um texto é que uma boa frase final — ou parágrafo final — é uma alegria por si só. Ela eleva o leitor, e isso se prolonga uma vez terminada a leitura do texto.
O melhor final deveria pegar os leitores de surpresa e ao mesmo tempo parecer perfeito. Eles não esperavam que o texto acabasse tão cedo ou tão abruptamente ou que o final dissesse o que disse. Mas o reconhecem quando o veem. Como um bom lide, funciona. É como a fala final em uma apresentação teatral. Estamos no meio de uma cena (assim pensamos), quando, subitamente, um dos atores diz alguma coisa engraçada, ultrajante ou mordaz, e as luzes se apagam. Levamos um susto ao ver que a cena acabou e, logo em seguida, nos encantamos com a adequação daquele final. O que nos encanta é o controle perfeito que o dramaturgo possui.
Para o autor de não ficção, a única forma de transformar isso em uma regra é a seguinte: quando você está pronto para parar, pare. Se você já expôs todos os fatos e enfatizou aquilo que queria enfatizar, procure a saída mais próxima.
Muitas vezes são necessárias poucas frases para amarrar tudo. Em termos ideais, estas deveriam encapsular a ideia central do texto e concluir com uma frase que nos sacoleje com a sua justeza ou com a sua capacidade de surpreender. Veja, a seguir, como H. L. Mencken conclui sua avaliação sobre o presidente Calvin Coolidge [1923-9], cujo encanto junto aos “consumidores” decorria de que “seu governo mal governava; de forma que o ideal de Jefferson finalmente se realizava, e os jeffersonianos estavam encantados”:
Sofremos mais não quando a Casa Branca está tranquila como um quarto de dormir, mas quando ela tem um insignificante zé-ninguém berrando em cima do telhado. Considerando que [Warren] Harding [presidente de 1921 a 1923] foi um zero à esquerda, o dr. Coolidge foi precedido por um Salvador do Mundo e seguido por outros dois. Qual americano esclarecido, tendo de escolher entre um deles e outro Coolidge, hesitaria? Não havia nenhuma emoção forte enquanto ele reinava, mas também nenhuma dor de cabeça. Ele não tinha ideia nenhuma e não incomodava ninguém.
Com cinco frases, o autor se despede do leitor rapidamente e o deixa com uma ideia de impacto. A noção de que Coolidge não tinha nenhuma ideia e ao mesmo tempo não representava incômodo para ninguém não tem como não deixar um resíduo de contentamento. Funciona.
Uma coisa que costumo fazer quando escrevo é fechar a história de forma circular — vibrando no final o eco de uma nota que soou no início do texto. Isso satisfaz o meu senso de simetria e também agrada ao leitor, completando com sua ressonância a jornada que empreendemos juntos.
O que normalmente funciona melhor, porém, é uma citação. Retorne às suas anotações para encontrar ali alguma observação que tenha um sentido de conclusão, que seja engraçada ou que acrescente algum detalhe conclusivo inesperado. Algumas vezes ela pode saltar diante dos seus olhos durante a própria entrevista — muitas vezes eu penso: “Vou fechar com isso!” — ou durante o processo de escrita. Em meados dos anos 1960, quando Woody Allen mal começava a se firmar como o neurótico-oficial dos Estados Unidos, fazendo monólogos em clubes noturnos, escrevi a primeira reportagem longa de uma revista a registrar seu aparecimento. O texto se encerrava assim:
“Se as pessoas saem se identificando comigo como pessoa”, diz Allen, “mais do que apenas curtindo minhas piadas; se elas vão embora com vontade de voltar e me ouvir de novo, sem se importar com o que eu vou dizer, então estou dando certo”. A julgar pelos retornos, isso é o que acontece. Woody Allen é o sr. Me-Identifico, e essa boa aposta parece que manterá seu privilégio por muitos anos.
Porém, ele tem um problema só dele, impossível de ser compartilhado e com o qual ninguém se identifica. “Sou obcecado”, diz, “com o fato de que minha mãe se parece realmente com Groucho Marx”.
É um comentário que vem de tão longe que ninguém esperaria por ele. A surpresa que carrega em si é enorme. Como não seria esse um final perfeito? A surpresa é o elemento mais revigorante em textos de não ficção. Se alguma coisa surpreende você, ela também surpreenderá — e encantará — as pessoas para quem escreve, especialmente quando conclui o texto com isso e se despede delas assim.
12. “Proíbam esse frangofurter” — neologismo a partir de “Frankfurter”, tipo de salsicha usada em hot-dogs e, por vezes, sinônimo do próprio sanduíche. (n.t.)