O outro eu
Não escreva –
O outro eu;
Demanda urgência constantemente.
Mas se eu me virar para encará-lo diretamente,
Então
Ele se recolhe para onde e quando
Antes era.
Sem saber, bati a porta
E o deixei de fora.
Às vezes, um grito de fogo acena para ele.
Ele sabe que preciso dele,
Eu também sei. Sua tarefa,
Dizer-me quem eu sou por trás da máscara.
Ele é fantasma, eu sou fachada
Que esconde a ópera que ele escreve com Deus,
Enquanto eu, todo cego,
Espero sem parar até que sua mente
Roube meu braço, pulso, mão e
Pontas dos dedos,
E, roubando, encontre
Essas verdades que caem das línguas
E cavam com som.
E tudo isso vem do sangue secreto e da secreta alma no
Solo secreto.
Com alegria
Ele se esgueira para escrever, então corre e se esconde
Na semana inteira até a próxima tentativa de esconde-esconde
Em que finjo
Que provocá-lo não é a minha intenção.
Provoco e finjo olhar para outro lado,
Senão o eu secreto se esconde o dia inteiro.
Corro e jogo um simples jogo,
Um salto sem pensar
Que do sono surge
O animal brilhante, espreitando, que tudo preserva.
E o tabuleiro do jogo? A minha respiração,
O meu sangue, os meus nervos.
Mas onde, nisso tudo, ele habita?
Em todas as minhas buscas rampantes, onde ele se esconde?
Atrás dessa orelha, como remela,
Nessa orelha, como sebo?
Onde esse menino travesso
Pendura o seu chapéu?
Sem uso. Como um eremita, ele nasceu
E vive recluso.
Não há nada, mas eu compartilho o seu ardil, o seu jogo,
E o deixo correr à vontade e construir a minha fama,
Sobre a qual coloco o meu nome e roubo as coisas dele,
E tudo porque soprei nele
O doce sopro da criação.
Foi R. B. que escreveu aquele poema, aquela linha, aquela fala?
Não, o imitador interno, invisível, lhe ensinou.
Seu alcance, vestido em minha carne, permanece mistério;
Não diga o meu nome.
Louve o outro eu.