Sobre os ombros de gigantes.
Crepúsculo nos museus de robô: o renascimento da imaginação (1980)
Faz dez anos agora que tenho escrito um longo poema narrativo sobre um garotinho no futuro próximo que corre para um museu audioanimatrônico, desvia do pórtico direito assinalado Roma, passa por uma porta de nome Alexandria e cruza um limiar em que uma placa na qual se lê Grécia aponta para um prado.
O menino corre pela grama artificial e se depara com Platão, Sócrates e talvez com Eurípides sentados ao meio-dia sob uma oliveira, bebericando vinho, comendo pão e mel e falando verdades.
O menino hesita e se dirige a Platão:
– O que acontece na República?
– Sente-se, menino – diz Platão –, vou lhe contar.
O menino se senta. Platão conta. Sócrates interrompe de tempos em tempos. Eurípides encena um trecho de uma de suas peças.
No caminho, o menino pode muito bem fazer uma pergunta que paira na nossa mente há décadas:
– Como podem os Estados Unidos, o país das Ideias em marcha, ter negligenciado por tanto tempo a fantasia e a ficção científica? Por que é que apenas nos últimos trinta anos se começou a prestar atenção nisso?
Outras perguntas do garoto bem poderiam ser:
– Quem é o responsável por essa mudança?
– Quem ensinou os professores e bibliotecários a puxar as suas meias, sentar reto e tomar conhecimento?
– Simultaneamente, cada grupo em nosso país se afastou da abstração e se voltou para a arte, para a ilustração pura?
Como eu não estou morto nem sou um robô e como Platão no papel de palestrante audioanimatrônico não deve estar programado para responder, deixe-me fazer isso do melhor modo que posso.
A resposta é: os alunos. Os jovens. As crianças. Eles têm liderado a revolução na escrita e na pintura.
Pela primeira vez na história da arte e do ensino, as crianças se tornaram os professores. Antes do nosso tempo, o conhecimento vinha do topo da pirâmide para a base larga, onde os alunos sobreviviam o melhor que podiam. Os deuses falavam e as crianças ouviam.
Mas eis que a gravidade se inverteu. A pirâmide massuda virou como um iceberg que se derrete, até que meninos e meninas estivessem no topo. A base da pirâmide agora ensina.
Como isso aconteceu? Além de tudo, de volta aos anos 1920 e 1930, não havia livros de ficção científica nos currículos escolares em nenhum lugar. Eles eram raros nas bibliotecas. Apenas uma vez ou duas por ano, um editor responsável ousava publicar um ou dois livros que poderiam ser designados como ficção especulativa.
Se, viajando pela América, você entrasse numa biblioteca mediana em 1932, 1945 ou 1953, encontraria: nenhum Edgar Rice Burroughs, nenhum L. Frank Baum e nenhum Oz.
Em 1958 ou 1962, você não encontraria nenhum Asimov, nenhum Heinlein, nenhum Van Vogt e nenhum Bradbury.
Aqui e acolá, talvez um ou dois desses livros. De resto, deserto.
Quais são as razões disso?
Entre os bibliotecários e professores então havia, e ainda há, algo que vagamente persiste, uma ideia, uma noção, uma concepção de que apenas Fato deve ser comido com seu cereal matinal. Fantasia? Isso é para Pássaros de Fogo. Fantasia, mesmo quando toma a forma de ficção científica, o que frequentemente acontece, é perigosa. É escapista. É sonhar acordado. Ela não tem nada a ver com o mundo e com os problemas do mundo.
Assim diziam os esnobes que não se sabiam esnobes. E as prateleiras ficaram vazias, os livros intocados nos estoques das editoras, o assunto não ensinado.
Veio a Evolução. A sobrevivência dessa espécie chamada Criança. Crianças, morrendo de inanição, famintas das ideias que estão por toda parte nesta terra fabulosa, trancadas em máquinas e arquiteturas, libertaram-se por conta própria. O que elas fizeram?
Entraram nas salas de aula em Waukesha e Peoria e Neepawa e Cheyenne e Moose Jaw e Redwood City e colocaram uma meiga bomba na mesa do professor. Em vez de uma maçã, Asimov.
– O que é isso? – o professor perguntava, desconfiado.
– Experimente. Vai fazer bem para você – disseram os alunos.
– Não, obrigado.
– Experimente – disseram os alunos. – Leia a primeira página. Se você não gostar, pare. – E os sábios alunos se viraram e foram embora.
Os professores − e depois os bibliotecários − adiaram a leitura, guardaram o livro em casa por algumas semanas e então, bem tarde numa noite, experimentaram o primeiro parágrafo.
E a bomba explodiu.
Eles não apenas leram o primeiro parágrafo como também o segundo, a segunda e a terceira página, o quarto e o quinto capítulo.
– Meu Deus! – eles gritaram, quase em uníssono. – Esses livros detestáveis são sobre alguma coisa!
– Bom Deus! – eles gritaram, lendo um segundo livro. – Há ideias aqui!
– Santa Fumaça! – eles balbuciaram em sua jornada por Clark, em direção a Heinlein, emergidos de Sturgeon. – Esses livros são relevantes!
– Sim! – gritaram em coro as crianças famintas no jardim. – Como são!
E os professores começaram a ensinar e descobriram uma coisa incrível: alunos que nunca antes tinham querido ler de repente estavam galvanizados, puxavam as suas meias e começavam a ler e citar Ursula Le Guin. Meninos que quase nada tinham lido na vida de repente estavam virando páginas com a sua língua, implorando por mais.
Os bibliotecários ficaram surpresos ao descobrir que os livros de ficção científica não apenas estavam sendo emprestados às centenas como também eram roubados e nunca mais devolvidos!
– Onde estávamos nós? – os bibliotecários e professores se perguntavam, como a Princesa que acorda depois do beijo. – O que nesses livros os faz tão irresistíveis como Cracker Jack?5
A História das Ideias.
As crianças não diriam isso em tantas palavras. Elas apenas percebiam isso e liam e amavam. As crianças sentiam, mesmo que não pudessem falar, que os primeiros escritores de ficção científica eram como homens das cavernas que tentavam imaginar as primeiras ciências – o que era isso? Como fazer fogo? O que fazer com o bobalhão do mamute perambulando perto da entrada da caverna? Como bancar o dentista de um tigre de dente de sabre e transformá-lo num gatinho de estimação? Ponderando sobre esses problemas e ciências possíveis, os primeiros homens e mulheres desenharam sonhos de ficção científica nas paredes das cavernas.
Rabiscos em fuligem construindo estratégias possíveis. Ilustrações de mamutes, tigres, fogo: como resolver? Como transformar ficção científica (solução de problemas) em fato científico (problema resolvido)?
Alguns corajosos correram para fora da caverna para ser esmagados pelo mamute, mordidos pelo tigre, queimados pelo fogo selvagem que vivia nas árvores e devorava madeira. Alguns poucos finalmente retornaram para desenhar nas paredes o triunfo de ter reduzido o mamute a uma catedral peluda no chão, de ter deixado o tigre sem dente e de ter dominado e trazido o fogo para dentro da caverna, para iluminar os seus pesadelos e aquecer a sua alma.
As crianças perceberam, ainda que não pudessem falar, que toda a história da humanidade é solução de problemas ou ficção científica engolindo ideias, digerindo-as e excretando fórmulas para a sobrevivência. Não se pode ter um sem o outro. Sem fantasia não há realidade. Sem estudo sobre a perda não há ganho. Sem imaginação não há vontade. Sem sonhos impossíveis não há soluções possíveis.
As crianças perceberam, ainda que não pudessem falar, que a fantasia e a sua ficção científica de robô de criança nada têm de escapismo. É um giro da realidade para encantá-la e fazê-la funcionar. O que é um avião, no final das contas, senão um giro da realidade, uma abordagem da gravidade que diz: “Olhe, com essa máquina mágica, desafio você”? A gravidade foi embora. A distância ficou para trás. O tempo para, ou ao contrário, enquanto eu finalmente traço o sol ao redor do mundo, meu Deus! Olhe! Avião/jato/foguete – oitenta minutos!
As crianças adivinharam, mesmo se não sussurram isso, que toda ficção científica é uma tentativa de resolver problemas fingindo que se olha para outro lado.
Em outro lugar, descrevi esse processo literário como Perseu confrontando Medusa. Olhando para a imagem de Medusa em seu escudo de bronze, fingindo olhar para outro lado, Perseu se virou por sobre o ombro e decepou-lhe a cabeça. Do mesmo modo, a ficção científica imagina um futuro para curar cães doentes na estrada de hoje. A obliquidade é tudo. A metáfora é a cura. Crianças adoram catafratos, embora não os nomeiem assim. Um catafrato é apenas um persa especial sobre um cavalo de raça especial, a combinação que fez legiões romanas recuarem há muito tempo. Resolução de problemas. Problema: ataque massivo de exércitos romanos desmontados. Sonhos de ficção científica: catafrato/homem-montado-em-cavalo. Romanos dispersados. Problema resolvido. Ficção científica vira fato científico.
Problema: botulismo. Sonhos de ficção científica: algum dia produzir um recipiente que preserve o alimento e previna a morte. Sonhadores de ficção científica: Napoleão e seus técnicos. Sonho antes do fato: a invenção da lata de estanho. Resultado: milhares de pessoas vivas hoje que, de outro modo, estariam intoxicadas e mortas.
Então, parece, todos nós somos crianças de ficção científica sonhando com novos meios de sobrevivência. Somos os relicários de todos os tempos. Em vez de colocar ossos de santos em jarros de cristal e ouro, para que sejam tocados pelos devotos nos séculos seguintes, colocamos, por meio de vozes e rostos, sonhos e sonhos impossíveis em gravadores, fitas, livros, tevês, filmes. O homem, o solucionador de problemas, é isso porque é o Guardião da Ideia. Apenas por encontrar meios tecnológicos de poupar tempo, preservar o tempo, aprender com o tempo e chegar a soluções sobrevivemos para esta era e nesta era em direção a eras ainda melhores. Estamos poluídos? Podemos nos despoluir. Estamos lotados? Podemos nos esvaziar. Estamos sós? Estamos doentes? Os hospitais do mundo são lugares melhores desde que a televisão chegou para visitar, apertar a mão, livrar de metade da praga da doença e do isolamento.
Queremos as estrelas? Podemos tê-las. Podemos tomar emprestados copos de fogo do sol? Podemos e devemos e iluminamos o mundo. Para onde quer que olhemos, há problemas. Para onde quer que olhemos mais profundamente, há soluções. Os filhos dos homens, os filhos do tempo, como poderiam eles não ficar fascinados por esses desafios? Daí a ficção científica e a sua história recente.
Acima disso, como mencionei antes, os jovens atiraram bombas na galeria de arte da esquina, no museu de arte do centro da cidade.
Eles andaram pelas salas, cochilaram diante da cena moderna tal como foi representada pelos sessenta e tantos anos de abstração e de superabstração até ela desaparecer. Telas vazias. Mentes vazias. Nenhum conceito. Às vezes, nenhuma cor. Nenhuma ideia que interessasse uma pulga performática em um circo canino.
– Chega! – gritaram as crianças. – Faça-se fantasia. Faça-se a luz da ficção científica.
Deixem a ilustração renascer. Deixem os pré-rafaelitas se reclonarem e proliferarem!
E assim foi.
E por causa das crianças da Era Espacial, e porque os filhos e filhas de Tolkien quiseram seus sonhos de ficção encenados e pintados em termos ilustrativos, a antiga arte da narração de histórias, tal como feita por nossos homens das cavernas, ou por nosso Fra Angelico ou nosso Dante ou Gabriel Rossetti, foi reinventada enquanto a segunda pirâmide virou de ponta-cabeça e a educação correu da base para o ápice e a velha ordem se viu subvertida.
Daí a nossa dupla revolução na leitura, no ensino da literatura e na arte pictórica.
Daí, por osmose, a Revolução Industrial e as eras Eletrônica e Espacial se infiltraram no sangue, nos ossos, medula, coração, carne e mente dos jovens, que, como professores, nos ensinam o que sempre soubemos.
Aquela Verdade de novo: a História das Ideias, que é tudo o que a ficção científica sempre foi. Ideias se transformando em fato, morrendo, apenas para reinventar novos sonhos e ideias para que renasçam em configurações e formas ainda mais fascinantes, algumas delas permanentes, todas elas prometendo a Sobrevivência.
Espero que não sejamos sérios demais aqui, porque a seriedade é a Morte Vermelha se a deixarmos se mover muito livremente entre nós. A liberdade dela é a nossa prisão e o nosso fracasso e a nossa morte. Uma boa ideia deve nos preocupar como a um cão. Não devemos perturbá-la até a morte, sufocá-la com o intelecto, pontificá-la até ela cair no sono, matá-la com a morte de uma centena de camadas analíticas.
Deixem-nos continuar crianças, mas não acriançados em nossa visão 20-20, tomando emprestados esses telescópios, foguetes ou tapetes mágicos à medida que forem sendo precisos para nos empurrar em direção aos milagres da Física, bem como aos milagres dos sonhos.
A dupla revolução continua. E há mais revoluções invisíveis chegando. Sempre haverá problemas. Deus seja louvado por isso. E soluções. Deus seja louvado por isso. E manhãs de amanhã para procurá-las. Salve Alá e encham-se as bibliotecas e galerias de arte do mundo com marcianos, elfos, goblins, astronautas e bibliotecários e professores de Alpha Centauri ocupados em dizer para as crianças que não leiam ficção científica nem fantasia:
– Isso vai bagunçar seu cérebro!
E então, das salas do meu Museu de Robôs, no longo crepúsculo, deixem Platão dizer a última palavra na bruma de sua República eletrônico-computadorizada.
– Partam, crianças. Corram e leiam. Leiam e corram. Mostrem e contem. Virem outra pirâmide de ponta-cabeça. Virem outro mundo de pernas para o ar. Tirem a fuligem do meu cérebro. Repintem a Capela Sistina dentro do meu crânio. Riam e pensem. Sonhem e aprendam e construam.
– Corram, meninos! Corram, meninas! Corram!
E, com tão bom conselho, as crianças correrão. E a República será salva.
5. Tipo de salgadinho. (N. da T.)