A Origem do Colar de Maré
Quando Yacy bordava os primeiros reflexos no manto noturno, as águas sentiam seu toque e respondiam com ondulações suaves. A lua, ao dançar sobre os rios, criava caminhos luminosos por onde os sonhos navegavam até os corações dos que dormiam. Yacy compreendia o fluxo das emoções, a delicadeza da memória e a força dos sentimentos profundos. Desejando oferecer um símbolo que ligasse a superfície à profundidade, ela criou o Colar de Maré.
Yacy escolheu as conchas que dormiam nos encontros das águas doces com o mar. Ela percorreu os vastos rios da terra, passando pelo curso do Amazonas (conhecido entre os povos originários como um rio sem fim), do São Francisco (Opará, o rio da travessia sagrada), do Madeira (Cuyari, caminho de águas profundas), do Tocantins, do Paraná e do Xingu, cada um com nomes antigos sussurrados pelas primeiras línguas que cantaram a floresta, recolhendo conchas moldadas pelas correntes e pela luz da lua refletida nas margens. Cada concha carregava o som do rio onde foi encontrada e o sussurro do oceano que a aguardava. Umas brilhavam como prata viva, outras resplandeciam com o azul noturno ou o dourado da alvorada.
Com fios de água encantada e pó de luar, Yacy uniu essas conchas em uma espiral que pulsa ao ritmo da respiração. Ela mergulhou até o ponto onde o rio beija o Atlântico, e ali, sob o céu mais limpo, soprou palavras suaves sobre o colar. Em cada concha depositou um sonho ancestral, uma lembrança luminosa, uma paz cheia de vida e memórias. O colar vibrou com calor sereno e passou a responder à presença de quem acolhe com verdade o que sente.
O Colar de Maré passou a ser usado por navegantes do espírito, por todos os que se movem entre emoções com coragem e atravessam sentimentos como quem navega de um porto a outro. Em rituais de travessia, o colar guia decisões, abre canais de escuta e acende memórias em forma de intuição. Sua presença reforça o vínculo entre o corpo e o mundo líquido, entre o sentir e o movimento.
Quando banhado por luar pleno, o colar emite um brilho sutil e ressoa com um som que só os corações ternos escutam. A cada reconciliação com os próprios sentimentos, uma nova concha nasce em sua estrutura. E assim ele cresce como os rios que não cessam, como o mar que acolhe tudo, como a vida que pulsa entre margens e profundezas.