• Ivan Milazzotti
    Como funciona a ficção
    19-07-2025 01:13:38
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Em 1950, Henry Green fez uma curta apresentação na rádio bbc sobre o diálogo na literatura.[1] A obsessão dele era eliminar aqueles rastros vulgares da presença do autor quando tentava se comunicar com os leitores: Green nunca interioriza o pensamento de seus personagens, quase nunca explica a motivação de um personagem e evita o advérbio de autor, que tantas vezes ajuda a sinalizar a emoção do personagem para os leitores (“Ela disse grandiloquentemente”). Green declarou que o diálogo é a melhor maneira de se comunicar com os leitores, e que a coisa que mais mata a “vida” é a “explicação”. Deu o exemplo de um casal que está junto há muito tempo, sentado em casa à noite. Às 21h30, o marido diz que vai ao bar no outro lado da rua. Green comenta que a primeira reação da esposa − “Você vai demorar?” − podia ser formulada de várias outras maneiras (“Volta logo?”, “Quando você vai voltar?”, “Vai ficar muito tempo?”, “Quanto tempo você vai ficar fora?”), cada uma ressoando com um significado diferente. O fundamental, diz Green, é não cercar o diálogo com explicações, como:

“Quando você imagina que vão te pôr pra fora?”

Olga, quando fez a pergunta ao marido, assumiu o ar de um animal ferido, os lábios se curvaram para baixo num esgar, e o tom de voz usado traía todos aqueles anos que uma mulher pode ceder à serragem, aos espelhos e ao cheiro viciado de cerveja dos bares públicos.

Green acredita que esse tipo de “assistência” autoral é arrogante, porque na vida não sabemos realmente como as pessoas são. “Certamente não sabemos o que as outras pessoas estão pensando e sentindo. Então como o romancista há de saber?”

O próprio Green, ao alertar contra tal arrogância, também está sendo bastante normativo, e não precisamos tomar sua doutrina como dogma. Notem que, quando faz sua paródia explicativa, ele também cai num estilo de segunda categoria, deliberadamente chamativo (“assumiu o ar de um animal ferido”), mas podemos imaginar algo mais leve, menos grosseiro: “Olga sabia a que horas ele voltaria, e em que estado, fedendo a cerveja e tabaco. Dez anos disso, dez anos”. Autores que gostam de explicações enormes, como George Eliot, Henry James, Proust, Virginia Woolf, Philip Roth e muitos outros, teriam de se aposentar no universo de Green.

Todavia, seu argumento mais geral, de que o diálogo deve portar múltiplos significados, e que deve significar várias coisas para vários leitores ao mesmo tempo, com certeza está certo. (Pode portar vários significados indeterminados para o leitor e, mesmo assim, ser “explicado” pelo autor, penso eu, mas isso demanda muito tato.) Green deu um exemplo do que faria:

Ele: Acho que vou ali tomar um trago.

Ela: Vai demorar?

Ele: Por que você não vem junto?

Ela: Acho que não. Hoje não, não sei, pode ser.

Ele: Bom, vem ou não vem?

Ela: Preciso saber já? Se me der vontade, vou depois.

Nessa passagem, Green tenta responder a uma pergunta com outra e, muito típico de sua prosa, a mulher hesita: “Hoje não, não sei, pode ser”. Talvez ela se sinta de várias maneiras ao mesmo tempo. Por isso também fica difícil de entender a resposta do homem: “Bom, vem ou não vem?”. Ele está irritado, ou só levemente resignado? Afinal ele quer mesmo que ela vá ao bar com ele, ou está dizendo isso na esperança de que ela não aceite? A tendência do leitor é escolher uma leitura só, mesmo sabendo que também são possíveis várias leituras; nos prendemos ao texto, investindo muito na nossa versão dos fatos.

Um ótimo exemplo da doutrina de Green em ação é o excelente romance de V. S. Naipaul, Uma casa para o sr. Biswas. O sr. Biswas decidiu construir uma casa, mas só tem cem dólares. Vai visitar um construtor negro, o sr. Maclean (um dos poucos retratos de um trinitário negro no romance), e, cheio de rodeios, apresenta a questão. O que é lindo é que os dois dançam um pequeno pas de deux de orgulho e vergonha, cada qual mantendo sua ficção. O sr. Biswas quer que Maclean pense que ele tem dinheiro para uma casa enorme; Maclean quer que Biswas pense que ele é muito ocupado, que tem um monte de clientes na fila. E ambos enxergam a mentira do outro, claro.

O sr. Biswas começa sugerindo que levem a coisa muito devagar (assim ele pode pagar um pouco por mês, no lugar de fazer um pagamento enorme de uma vez só). O ideal para Biswas seria que Maclean levasse um ano para construir a casa:

“Não é que a gente tenha que construir tudo logo de uma vez”, disse o sr. Biswas. “Roma não se fez em um dia, não é?”

“É o que dizem. Mas um dia teve que se fazer. Mas assim que eu tiver tempo eu vou lá ver o terreno. Já tem um terreno?”

“Já, já, cara. Já tenho um terreno.”

“Então daqui a uns dois, três dias.”

Ele foi naquele mesmo dia, no início da tarde, de chapéu, sapatos e uma camisa passada a ferro. Foram ver o terreno.

No terreno, o sr. Biswas avisa que quer pilares de concreto, com reboco e cimento fino. Maclean quer o dinheiro:

“O senhor já podia me dar uns cento e cinquenta dólares só para começar?”

O sr. Biswas hesitou.

“O senhor, por favor, não fique achando que eu quero me meter na sua vida. Eu só queria saber quanto o senhor quer gastar logo de saída.”

O sr. Biswas afastou-se do sr. Maclean, embrenhando-se no mato úmido, no capim e nas urtigas. “Uns cem”, disse ele. “Mas no final do mês eu posso lhe dar um pouco mais.”

“Cem.”

“Está bem?”

“Está bem, sim. Para começar.”

Atravessaram o capim e a vala entupida de folhas e chegaram à estrada estreita, de cascalho.

“Cada mês a gente faz um pouquinho”, disse o sr. Biswas. “Pouco a pouco.”

“É, pouco a pouco.”

A dança do orgulho é tão delicada! Primeiro Biswas envolve sua vergonha numa alusão clássica, esperando lhe dar alguma grandeza (“Roma não se fez em um dia, não é?”), ao que Maclean replica com um grunhido prático: “É o que dizem. Mas um dia teve que se fazer”, e Naipaul usa sutilmente o patoá de Trinidad − “Mas um dia teve que se fazer” [But Rome get build] − para separar os dois homens e suas respectivas posições sociais. O sr. Biswas também tem consciência dessa diferença social, porque, quando Maclean pergunta se ele tem um terreno, ele tenta diminuir a distância usando também o patoá “negro”: “Já, já, cara. Já tenho um terreno”. (Sempre que Biswas quer se fingir um pouco valente, ele usa o cordial “cara” [man].) Maclean dissimula estar tão ocupado que terá de demorar alguns dias para aparecer, e então chega “naquele mesmo dia, no início da tarde”.

E aí tudo recomeça, agora sobre a questão do dinheiro. Maclean sabe muito bem que o sr. Biswas está tentando manter as aparências, e tenta agradar com um absurdo “Não fique achando que eu quero me meter na sua vida”. E Naipaul não cansa de lembrar ao leitor que o próprio terreno está cheio de folhas mortas e infestado de mato, que a coisa toda está condenada desde o princípio. (Nisso, ele é muito melhor para explicar e apontar do que o reticentíssimo Henry Green.)

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E o mesmo romance nos lembra que Green não está necessariamente certo ao afirmar que “o diálogo é a melhor maneira para o romancista se comunicar com os leitores”. Pode-se comunicar o mesmo tanto sem fala nenhuma. É Natal, e deu na veneta do sr. Biswas comprar uma casinha de bonecas terrivelmente cara para a filha. Ele não tem a menor condição de fazer isso. Joga fora um mês de salário no presente. É um episódio de insânia e fanfarronice, de aspirações, anseios e humilhações.

Saltou da bicicleta e encostou-a no meio-fio. Antes mesmo de tirar os grampos das calças, foi abordado por um comerciante de pálpebras pesadas, que mordia os lábios o tempo todo. O comerciante ofereceu ao sr. Biswas um cigarro e acendeu-o para ele. Trocaram-se algumas palavras. Então, com o braço do comerciante em seus ombros, o sr. Biswas desapareceu dentro da loja. Alguns minutos depois, o sr. Biswas e o comerciante reapareceram na rua. Ambos estavam fumando e pareciam animados. Saiu da loja um garoto parcialmente ocultado pela enorme casa de boneca que ele carregava. A casa foi colocada sobre o guidom da bicicleta do sr. Biswas e, com o sr. Biswas de um lado e o garoto do outro, foi transportada rua abaixo.

Nem uma palavra de diálogo − aliás, muito pelo contrário, há o informe de um diálogo que não presenciamos: “Trocaram-se algumas palavras”. Essa passagem também é engraçada e muito dolorosa, por causa do jeito que Naipaul escreve. Ele se nega categoricamente a descrever a compra em si. Em vez disso, a cena é descrita como se o autor tivesse montado uma câmera do lado de fora da loja. Vemos os homens fumarem, entrarem, e poucos minutos depois os vemos sair, “fumando” e “animados”. A cena tem algo de filme mudo e quase implora para rodar em câmera rápida, como farsa. Usa-se a voz passiva justamente porque Biswas é um homem fraco, comicamente gentil, que pensa estar se afirmando, enquanto na verdade está sendo ludibriado: “Foi abordado por [...] a casa foi colocada [...] foi conduzida rua abaixo”. Naipaul descreve deliberadamente o episódio como se o sr. Biswas não tivesse muito a ver com ele, o que é provável que o próprio Biswas pense a respeito, como desculpa pessoal. O mais sutil é a decisão de não apresentar a cena da compra, o momento em que o dinheiro troca de mãos. É o epicentro da vergonha para o sr. Biswas, e é como se a narrativa, sabendo disso, estivesse embaraçada demais para apresentar essa vergonha. Naipaul tem consciência soberba, um controle soberbo disso. Ele sabe que a frase “Trocaram-se algumas palavras” é o pivô do parágrafo − porque, claro, a troca importante não foi de palavras, e sim de dinheiro. E é isso que não pode, não deve, ser descrito.

Vários dias depois, a casa de boneca será feita em pedacinhos pela esposa do sr. Biswas, porque ela acha injusto que a filha ganhe tamanho presente, enquanto os outros filhos da família pavorosamente grande do sr. Biswas não ganharam nada.


[1] Matthew Yorke [org.], Surviving: The Uncollected Writings of Henry Green [1992].

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